Abstrato
2 Adjetivo
Notas iniciais
Mihael Keehl podia ser descrito por vários adjetivos, desde ‘mal-humorado’ a ‘perfeição’ e tudo entre um e o outro. E eu amava cada uma dessas facetas nomeadas por esses adjetivos, mesmo seu lado facilmente irritável’ era uma das coisas mais mágicas para mim, ver como seu olhar se tornava sarcástico, e seu tom de voz imponente, o deixando com um ar de maturidade e superioridade, fazendo com que o motivo de sua irritação se tornasse mais insignificante do que já era. Era algo simplesmente incrível.
E no momento, eu via seu lado chocólatra, e o quanto vê-lo assim — alimentando seu vício com tanto prazer que até mesmo eu sentia vontade de roubar uma mordida — me deixa fascinado, talvez seja essa a explicação para eu ser só pele e ossos, porque eu não conseguia me concentrar na maioria das minhas próprias refeições vendo Mello levando um pedaço de bolo de chocolate aos seus lábios brilhantes e rosados, quase sorrindo a cada mordida. Ou talvez seja porque eu raramente tenho fome, então me falta apetite para apreciar comida da maneira que a maioria das pessoas o faz.
“Matt, pare de ficar divagando e coma logo, e... Coma, um café com leite não vai te sustentar para as aulas.” e aí estava seu tom de irritação, que quando era usado comigo, geralmente vinha mesclado com uma preocupação quase imperceptível. Eu raramente fazia algo que apenas irritasse ele sem ser algo preocupante, e se o fazia, era puramente porque eu adorava vê-lo irritado, por mais que às vezes as conseqüências fossem alguns hematomas. E ele era o único que podia me tocar com tanta confiança, também.
“Sim…” sorri bobamente e peguei um pedaço de bolo de frutas — separando os pedaços das mesmas — o levando a minha boca e mastigando vagarosamente.
“E coma as frutas! Elas fazem parte do bolo também.” suspirou, ainda com irritação, e mordendo uma risada — mais porque eu não queria engasgar do que para não fazer as coisas piores.
“Sim, senhor!” respondi com humor, mas não deixei de comer as frutas, no final, ele apenas murmurou algo como ‘idiota’ ou talvez ‘estúpido’ bem baixinho antes de decidir que não valia a pena me levar a sério e terminar seu chocolate quente num só gole, a satisfação rosto quando descansou a caneca na mesa mais uma vez, fez meu peito se aquecer. E o único motivo pelo qual ele não percebia meus olhares fixos em sua bela figura era meu cabelo e meus goggles que cobriam constantemente meus olhos. A verdade é que provavelmente as novas crianças superdotadas que chegaram na Wammy’s nesses últimos dois anos nem sequer sabiam a cor dos meus olhos. E também, é bem possível que Mello tenha sido o único a chegar perto o bastante para ver com clareza os mesmos.
Terminamos o desjejum e fomos para o nosso quarto pegar o material, Mello, como sempre, levou um copo d’água para tomar seu remédio... Um antidepressivo. Desde que nos conhecemos ele tem os tomado, a única diferença era que a dose tinha diminuído, e isso era um bom sinal. E eu nunca soube com exatidão o porquê, ele nunca me contou. Acho que apesar dessa confiança que tenho por ele é normal que ele não tenha por mim, não sou lá uma pessoa muito... Forte ou inspiradora, não como ele. Eu também não confiaria em mim mesmo. E bom, eu também nunca falei nada a ele, mas no meu caso é diferente; eu não me lembro do meu passado… E no fundo? Eu sei que eu não deveria pensar nisso como uma linha para a confiança que temos entre nós, não é justo e, afinal, nós sabemos os nomes um do outro, também. Uma regra que quebramos há muito, muito tempo.
“Mello…” mordi meu lábio inferior para evitar uma pergunta que quase me escapou.
“Sim?” respondeu enquanto fechava a porta de nosso quarto para irmos à primeira aula.
“Não, nada...” apertei o passo dando uma risada nervosa. Mas eu era um péssimo mentiroso, sempre fui quando eu precisava mentir.
“Matt!” pegou meu pulso, me impedindo de continuar “Se tem algo a dizer, apenas fale logo!”disse com impaciência, odiava enrolação.
“Você... Confia em mim?” sua sobrancelha esquerda perfeitamente desenhada se ergueu em um sinal claro de incredulidade. Abriu a boca, tornou a fechar, até que fechou os olhos e suspirou.
“Mail, de onde veio isso? É óbvio que eu confio em você, não achei que eu precisava dizer com todas as letras nesse ponto.” o meu nome ele disse um tom abaixo do resto das palavras, sussurrado, apenas para nossos ouvidos.
“Por que, Mello?” ele me olhou sem entender “Por que você confia em mim? Eu nem ao menos... Eu nem ao menos...“ senti meu corpo ser tomado por um forte tremor, e tive que fechar meus olhos, uma imagem em fogo marcou as minhas pupilas, me fazendo gemer por um momento, enquanto de súbito senti uma tontura e me senti rodeado por braços quentes, à medida que a vergonha também me abraçava pela minha falta de controle, mesmo que eu saiba que não posso fazer nada quando esse tipo de sentimento de impotência me toma.
“Shh…” colou nossos corpos, e me prensou na parede para que eu tivesse apoio ele pudesse levar uma de suas mãos ao meu cabelo, enroscando seus dedos nos fios embaraçados “Você não precisa se lembrar…” murmurou, já conhecendo o procedimento.
Eu não queria lembrar, mas eu queria lembrar. Apoiei minha cabeça na curva de seu pescoço, e o abracei de volta.
“Eu preciso... Se eu não saber quem eu sou... Eu sinto que nunca vou ser o bastante…” para você. Não me atrevi a completar em voz alta. Seria como me confessar um crime no corredor da morte.
“Você é o bastante. É mais que o bastante para mim. Eu confio em você. Quem você era no passado, não importa. Você é o Matt, o meu Matty. E isso basta.”
Eu realmente queria beijá-lo neste momento.
“Eu preciso de você... Preciso muito... Não me deixe…”
“Eu não vou te deixar. Nunca vou te deixar, sim? Não faço idéia de como funciona essa cabecinha sua, mas pare de maquinar coisas assim, não há nem mesmo motivo para você achar que vou te deixar.”
Às vezes, sinto que minhas inseguranças vão me enlouquecer e me engolir.
“Sim…” eu me sentia tão cansado das noites mal dormidas, da má alimentação, e principalmente dessa imagem que me vinha em mente com frequência apenas ao fechar meus olhos. Sangue espirrando em meu rosto nesse projeto de lembrança que me atormenta tanto.
“Já falei para não pensar nisso.” sorri fracamente.
“Não vou pensar.”
“Bom.” ele ficou satisfeito “Acho que não vamos à aula hoje, você não está muito bem para isso.”
“Mas…” ele apenas ignorou o que quer que fosse sair da minha boca e colocou meus braços em volta de seu pescoço.
“Segure firme.” suspendeu minhas pernas no ar, e entendendo entrelacei-as em seu tronco, me deixando carregar de volta a nosso quarto, onde ele me pousou sobre a cama. Me falou para dormir, e continuou falando apenas para eu não me afogar no silêncio, suas palavras cada vez mais desconexas. Adormeci.
Tudo ao meu redor desapareceu. Era apenas eu e a escuridão. Escutei o som de passos, e algo pingava insistentemente, eu iria enlouquecer se isso não parasse.
Passos. Gotas. Passos. Gotas. Gotas. Gotas. Passos.
Eu queria gritar, mas não encontrava voz. Então senti algo quente pingar em minha testa, algo quente e viscoso. Sangue.
Passos, e... Sangue. Não sei quanto tempo fiquei naquela dimensão sombria, apenas que quando despertei já havia anoitecido, e na cama ao lado, Mello lia um livro com a luz de uma pequena lanterna de bolso, e percebeu o meu despertar, por mais que eu não tenha ao menos me movido. Ele fechou o livro e em silêncio saiu do quarto sem dizer nada. Fiquei confuso com seu silêncio, mas logo ele voltou com uma bandeja com chá e biscoitos.
“Eu disse a Roger que você não estava muito bem.” me informou acendendo a luz enquanto eu me ajeitava melhor na cama para receber o alimento “Se sente melhor?”
“Sim.” sorri levemente, começando a comer.
“Não precisa entupir a sua cabeça com coisas sem sentido, Matty.” afagou meus cabelos “Quando eu sentir que devo lhe contar meu passado apenas o farei.” abri minha boca para responder “Não. Não diga nada, eu sei que você não queria me pressionar, bobo.” deu pequeno golpe em minha testa e um sorriso de lado.
Ele era perfeito. Uma pintura pintada por anjos que foi deixado ao sol de um dia claro e maravilhoso, na primavera. Era tão diferente de mim... Eu que fui deixado na chuva, pintado por um demônio. Era uma ironia eu estar apaixonado justamente pela pessoa mais... Não sei. Perco meus pensamentos e não encontro palavras quando Mihael Keehl me deslumbra desta forma. Apenas esqueço-me de respirar e perco a noção das coisas a minha volta.
“Matt…” me chamou erguendo uma sobrancelha e passando a mão na minha frente. Pisquei desorientado, e ele nem me perguntou o porquê de encará-lo tanto, já havia se acostumado ao meu olhar que sempre o seguia.
“Sim?”
“Eu peguei a matéria para você.” falou apontando a escrivaninha “Vou tomar um banho, então trate de alcançar o que perdeu hoje.” ordenou.
Sorri e assenti o vendo tomar uma muda de roupa e levar para o banheiro. Meu sorriso se abriu ainda mais quando ele fechou a porta. Aquela era outra faceta dele, eram outros adjetivos dados a essa parte de sua personalidade; responsável, preocupado, mandão. Justo como um irmão mais velho. E dói saber que provavelmente, é isso mesmo. Sou apenas uma espécie de irmãozinho para ele. Não é bem uma dor ruim, no entanto, porque ter ele ao meu lado é bem mais do que sonhei, não só por ser Mello, mas porque eu nunca achei que alguém pudesse se importar tanto comigo.
Me levantei e fui até a cozinha deixar a bandeja, no caminho encontrei uma das tias que ajudavam na Wammy’s, ela me perguntou se eu tinha melhorado, afirmei, e ela com um sorriso comentou que era a primeira vez que me via sem os “óculos de natação”, e percebi que estava sem meus preciosos goggles. Esse era exatamente o efeito que Mello tinha em mim... Às vezes sinto que vou esquecer até mesmo minha própria vida ao pensar nele, e não duvido disso. Nada falei, apenas fiz o que tinha que fazer, e voltei para o quarto recuperar o que havia perdido de matéria.
“Sua vez.” Mell saiu do banho com os cabelos já secos, e eu que já tinha acabado os meus deveres fiz o mesmo que ele momentos antes, peguei uma troca de roupa e entrei no banheiro.
Me despi rapidamente evitando olhar minha coxa direita e minha barriga. A água estava quente demais, porém não fiz nada para mudar, apenas deixei que escorresse pelo meu corpo fazendo minha pele arder.
Me lembrei do meu pesadelo, e por um momento tive a certeza de sentir aquele líquido mais viscoso do que era.
Eu estava enlouquecendo.
Quanto tempo mais até que eu finalmente perdesse a cabeça?
Parecia cada vez mais e mais próximo esse dia.
E o meu medo me consumia.
Sai do banheiro sem secar os cabelos, Mello já dormia e eu me enrolei em minhas cobertas sentado e fiquei encarando ele com a pouca luz eu vinha da janela.
Era a única coisa que me acalmava.
“Mello... Eu te…” não terminei.
Eu não tinha esse direito.
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