Abstrato
3 Pretextos
Notas iniciais
Para mim, todos os humanos vivem de pretextos. Um pretexto, basicamente é uma desculpa, uma justificativa usada para omitir os reais motivos. E nem mesmo eu, quem costumo criticar com hipocrisia pretextos usados em demasia, e nem Mello, quem é a sinceridade quase em pessoa, fugimos disso.
A diferença, é que Mello em toda sua perfeição, apenas usa pretextos quando quer o bem de alguém. Ele pode dizer a você que está parecendo um esqueleto de tão magro, te criticar, apenas com o pretexto de que você mude seus hábitos alimentares para jogar na cara dele mais tarde, ao que ele simplesmente vai sorrir de lado quando ninguém estiver vendo.
Ele é esse tipo de pessoa bondosa. Mihael é gentil, e tem sua forma única de demonstrar isso, por mais que ninguém pareça perceber – algo que meu egoísmo adora, pois só eu sei como ele de fato é – por isso, eu acho que ele é um único ser neste mundo que deveria poder usar pretextos.
Eu também uso pretextos, mas de forma totalmente egoísta. Apenas para estar com ele. Eu seria capaz de fingir estar morrendo para receber um olhar dele. Mas era realmente necessário fingir? Porque se Mihael Keehl olhasse para outra pessoa, prestasse mais atenção em outra pessoa, eu realmente posso morrer. Esse é o nível do meu egoísmo.
Porém não posso evitar, porque doeu. Quando aqueles poços azuis se focaram naquele garoto albino, quando sem motivo algum ele foi incomodar o outro menino, quando um brilho que facilmente poderia substituir o Sol se instalou em seu olhar... Eu soube. Uma certeza que me assustava sussurrou em minha mente que provavelmente, no futuro, pretexto algum serviria.
Dolorosamente, meu coração que há muito repousava nas belas mãos de Mello, deu uma última batida antes de parar de funcionar. A escuridão me abraçou com paixão e fui recebido pela frieza do chão.
Eu disse que poderia morrer, não disse? E ainda assim, estar morrendo é só um pretexto.
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Quando despertei, com o cheiro familiar de remédio e desinfetante, foi com o pretexto de não ver Mello que continuei mantendo os olhos fechados, fingindo ainda dormir.
Mesmo sem ter visto ele, eu ainda sabia que ele estava ali, pois podia sentir a suave fragrância de chocolate e conseguia escutar o som das páginas de um livro sendo viradas com cuidado. Simplesmente sabia que era ele.
“Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três já eu começo a ser feliz.” quando escutei essas palavras, não tive como não abrir os olhos “É a sua frase favorita, não?”
O Keehl segurava um exemplar de O Pequeno Príncipe, ou *Chiisana no Ouji-sama no caso – ele estava aperfeiçoando seu japonês no momento – seus fios loiros presos num rabo de cavalo baixo, eu amava quando ele prendia assim, e um sorriso de lado no rosto. Ele sabia que eu estava acordado, leu minha frase favorita do livro pretendendo que eu abrisse os olhos.
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” agora eu quem citei a frase preferida dele, com a voz rouca e fraca, e seu sorriso se ampliou.
“Acho que se a gente tentar, conseguimos citar o livro inteiro…” comentou, fechando o mesmo.
“Certa vez, quando tinha seis anos...” comecei de brincadeira, e ele riu.
“Bobo...“ bagunçou os meus cabelos e então seu olhar se tornou sério.
Percebi que não haveria pretextos a partir daí.
“Matt, a causa do seu desmaio foi desnutrição e stress, e tiraram seu sangue para um exame. Vou cuidar pessoalmente da sua alimentação a partir de agora. Você precisa cuidar melhor de si mesmo, Matty. Precisa e vai. E quero que sempre que algo te incomodar, me conte. Não deixe mais que chegue no ponto que afete a sua saúde.
Aqueles pedaços de mar que refletiam o céu me encararam, e pensei que seria maravilhoso morrer afogado, se fosse nos olhos dele.
No entanto, neste instante, vi meu reflexo em seu olhar. E não gostei. Era como se eu estivesse manchado algo puro. Meus cabelos vermelhos pareciam sangue. Era tão sujo. Se ao menos eu fosse como o puro branco... Se eu fosse como Near.
Mas eu não era. Nunca seria.
Algo uma vez quebrado, pode até ser consertado, mas se o defeito é de fabricação, então... Não tem jeito.
Senti vontade de chorar, mas um cansaço enorme me atacou, suspirei, parecia que não tinha mais forças para nada.
“Desculpa, Mello.” disse num fio de voz.
Queria que a escuridão me tragasse, mas eu sabia que infelizmente não seria assim.
“Matty.” encostou sua testa na minha “Se você tiver que se desculpar, será consigo mesmo.”
Era algo comum que eu me desculpasse por algo que na verdade unicamente me atingia. E geralmente eu pedia desculpas à Mello, com o pretexto de que o fizera se preocupar, mesmo que seja isso mesmo em parte, o real motivo era que eu precisava de seu perdão, uma vez que eu mesmo não podia me perdoar.
Suas bela voz dizendo palavras de conforto ou simplesmente me dando uma bronca, mas no fim, me perdoando, era como uma limpeza para minha podre alma.
No entanto, seu perdão não era tão fácil, pois ele nem sempre achava que era dele que eu necessitava isso, mas sim de mim mesmo.
E isso me frustrava, porque eu não podia me perdoar.
Não conseguia deixar de odiar meu próprio reflexo quando me via no espelho, de odiar minha forma de ser, me odiar por ser um ser vazio, sem lembranças, eu... Dia após dia, sinto que me afundo mais e mais em mim mesmo, que vou me fechar completamente.
Mas então uma mão delicada, de dedos longos como o de um pianista – e de fato a Arte em forma humana sabia, e muito bem, tocar piano – seu toque macio e quente, sempre me tirava dessa escuridão que eu inconscientemente insistia em me jogar.
Por isso todos esses anos eu segui em frente. Se ao invés de Mihael a solidão quem tivesse me acompanhado, então... Eu simplesmente não estaria mais aqui.
“Eu…” não sabia o que dizer, não sabia a palavra que devia ser usada nesse caso... Se eu não podia me desculpar, então... “Obrigado, Mello.”
Então eu podia agradecer. Eu sempre me desculpava antes de dizer alguma palavra de agradecimento... Mas acabei de perceber que agradecer trazia a seu rosto o sorriso mais belo do mundo.
Eu faria isso mais vezes, se assim eu podia vê-lo sorrir.
Senti seus fios loiros roçarem meu rosto, e sua testa contra a minha, sem poder evitar eu corei.
“Parece que sua temperatura está normal.”
Esse era o jeito singular dele medir a febre, e como sempre, cada uma de sua particularidades faziam eu me apaixonar mais.
Se eu pudesse ter apenas um desejo concedido nessa vida, seria o amor de Mihael, mas a verdade é que se isso fosse possível eu jamais pediria isso. Porque eu sei que ele merece algo melhor.
‘Me desculpe… Mas não posso evitar amar você.” foi tudo que pensei antes de fingir estar saindo no sono, como um pretexto de sentir sua carícias em meu cabelo.
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