Notas iniciais
Tadaima! Para variar, demorei, e por mais que eu tenha me esforçada, não gostei muito desse capítulo... Apesar dele ser bem importante~ Boa leitura ♥ 09/10/17 -> Revisado

Sobrancelhas franzidas, boca contraída em desgosto, punhos fechados, essa expressão que demonstrava uma força interna tão grande que assustava qualquer oponente de Mello, sem importar o tamanho do adversário.

Desde que tenho memória, sempre fui o mais fraco de nós dois, o que se deixava atormentar por valentões de QI alto — não tão alto assim -sem me importar de apanhar até perder a consciência.

Porém mais tarde, dolorido, me sentindo horrível, eu tinha que ver você me olhando desse jeito... Forte. E com o tempo, aprendi que você é o único que pode me fazer sentir dor. Aprendi a me defender, mas do mesmo modo, ainda assim você havia deixado bem claro que ninguém deveria encostar um dedo sequer em mim.

Mas mesmo com o peso do anos sobre os meus medos e dores antigas, eu não consegui deixar de sentir uma dor que sempre ficava à espreita, esperando para sair muitas vezes na escuridão da noite, mas eu não permitia que isso saísse de mim, porque minhas lágrimas só traziam uma dor desnecessária para pessoa mais importante para mim nesse mundo. Talvez a única.

Bom, no momento, a única dor que eu sentia era no estômago.

Quando Mello disse iria cuidar pessoalmente da minha alimentação, ele estava falando mais que sério.

“Matt, se você não comer, eu vou começar a me alimentar mal que nem você.” falou para que eu terminasse o enorme prato que ele tinha feito para mim.

Ah, o bom e velho pretexto.

“Mas, Mello... Eu realmente não consigo mais…”

”Vamos lá, Matty, só mais duas garfadas…”

Suspirei e me forcei a engolir, sentindo como a comida subia e descia pela minha garganta. Fiquei uns bons minutos imóvel, apenas sentindo as mãos de Mello acariciando minhas costas, até o enjôo passar.

“Viu? Não foi tão ruim…” pronunciou com voz cantarina e não respondi, com medo de abrir a boca e colocar tudo para fora.

Saímos do refeitório e fomos para o intervalo que tínhamos depois do almoço, geralmente Mello gostava de ficar lá fora, mas percebendo que era melhor eu ficar quieto num canto – e perto de algum banheiro – nós fomos para a sala de jogos.

Eu realmente odiava ir lá, por mais que tivesse os consoles de última geração e os jogos mais novos. Por que alguém ama games evitaria um lugar cheio deles? A resposta era simples: Near.

O albino sempre ficava lá, sempre um canto mais afastado brincando com bonecos ou montando *quebra-cabeças de leite. Como se tivesse uma mentalidade infantil demais para ser o número um. Eu não odiava ele, eu raramente odiava qualquer pessoa em geral.

O que eu odiava, era como eu nunca poderia ter aquela pureza, como ele chamava atenção da única pessoa que me importava nessa vida, e principalmente, eu odiava saber que era melhor do que eu em qualquer aspecto. Fosse na amizade ou no amor, Mello merecia alguém como ele.

Isso doía de uma maneira descomunal.

Entramos e as belas safiras se pousaram em Near... Sobrancelhas franzidas, boca contraída em desgosto, punhos fechados ao vê-lo no canto, o mesmo tipo de expressão que já tinha sido dirigido a mim, mas a diferença era que os belos olhos azuis jamais haviam brilhado desafiadores daquela forma ao encontrar minha deplorável figura.

Uma pontada.

Engoli em seco quando Mello foi até o outro, terminando de montar duas vezes mais rápido o quebra-cabeças todo branco. Sorriu debochado, e o menor correspondeu o gesto.

Dor.

O albino se virou e pegou uma caixa, um quebra-cabeça de 1.000 peças. Mello me olhou questionando com o olhar se eu queria me juntar a eles. Dei o melhor sorriso que consegui e balancei o game portátil que segurava, num gesto que dizia que preferia jogar, deu de ombros e voltou ao que estava fazendo.

Outra pontada.

Ambos se divertiam na minha frente, por mais que Mello agisse de forma entediada, o sorriso de canto que mostrava às vezes era deslumbrante. Era como se estivessem em um mundo só deles.

Eram Mello e Near, e não existia lugar para o Matt.

Mordi meus lábios e saí dali cabisbaixo, respirava com dificuldade e o enjôo havia voltado instantaneamente. Corri para o banheiro de uso comum que estava próximo, e botei para fora tudo o que havia comido. Lágrimas escorriam pelo meu rosto.

Tentei me acalmar por um tempo, encostado na porta da cabine, antes de abandonar o local com os goggles em meus olhos. Voltei para nosso quarto e depois de escovar os dentes e tomar um banho muito quente, me deitei.

Olhei a outra cama vazia, sentindo falta da poderosa presença de Mello ali.

O que eu vou fazer se essa cama nunca mais for preenchida pela perfeição de Mihael? Se ele deixar de dormir aqui e os lençóis alheios perdesse seu perfume? O que vou fazer sem ele?

Sem o cheiro de chocolate, sem os fios dourados fazendo cócegas em meu rosto, sem a voz suave e um pouco grave... Sem os dedos longos em meus cabelos...

Eu sabia a resposta.

Sem Mihael Keehl, não existia Mail Jeevas.

.

.

.

Quando abri meus olhos, eu não estava mais em meu quarto, e sim num lugar apertado e mal iluminado onde a única luz que entrava vinha de uma fresta da porta entreaberta, percebi então que eu estava em um guarda-roupa.

Estava prestes a abrir as portas e sair dali, percebendo que minhas mãos eram bem menores, quando escutei uma voz.

“Mail... Não fuja…” a voz grossa e desconhecida me chamou “Vai ser melhor assim! Venha... Se você vier poderemos ficar juntos para sempre... Ninguém vai saber que não é o mesmo sangue…” os passos se aproximavam, e meu coração batia descompassado.

Eu tinha que fugir, mas eu estava preso. Me encolhi mais para o fundo do armário, quando de repente as portas foram abertas bruscamente e pude ver reluzir de uma faca.

Gritei.

Ergui meu corpo de uma forma tão abrupta que tudo ao meu redor girou, minha respiração era pesada, eu não conseguia puxar ar suficiente para os meus pulmões.

Não havia sido um sonho comum, aquilo era uma lembrança, eu sabia.

Uma dor alucinante se apoderou da minha cabeça, eram pontadas muito fortes que pioravam minha tontura. As lembranças vinham aos borbotões.

Eu tinha meus quatro anos, e brincava no quintal com o meu pai, jogávamos bola, tudo era meio embaçado por eu ser pequeno, mas me era bem nítido que o homem correndo na grama junto a mim não tinha nada parecido comigo, era esbelto e muito alto, os olhos amendoados e os cabelos castanhos, com minhas pernas curtas eu chutei a bola em direção ao “gol”, que eram duas macieiras ainda pequenas e que nunca tinham dado frutos. Eu ia checa-las todos os dias para ver se haviam crescido maçãs.

“Olha, mama! Eu fiz um gol!” gritei animado para mulher ruiva e de olhos azuis pendurando as roupas no varal. Ela ignorou. “Olha, mama! Olha! Puxei a barra de sua saia, e ela me empurrou com força.”

“Não vê que eu estou ocupada?!” comecei a chorar acariciando meu cotovelo ralado.

“Você precisa ser sempre tão grossa com ele?!” o homem veio ao meu encontro, me ajudando a levantar e chegando as consequências do empurrão .

“Ele fica estorvando! A culpa é dele!”

Choro de criança, e discussão de adultos.

“Não... Pare! PARE!” gritei.

Era forte demais. Eu não queria mais lembrar de nada, mas era impossível parar.

“Sua vagabunda! Todos esses anos... Todos esses anos! Eu te sustentei, e te dei tudo o que você queria... Sempre te aguentei por causa do nosso filho, que eu achava que era a única coisa boa que você tinha me dado! Tudo isso para descobrir que ele nem ao menos tem meu sangue!” escutei no meio da noite, os gritos vinham da sala.

Assustado, desci até a cozinha e abri uma fresta da porta, vendo meu pai levantado com as mãos espalmadas na mesa, a cadeira que ele devia estar sentado um pouco antes estava caída no chão, seu rosto estava deformado pelo ódio, eu nunca tinha visto ele assim, minha mãe estava sentada de costas para mim e não podia ver o rosto dela, ao seu lado, um homem bem jovem de cabelos negros que me era desconhecido.

“Então, você não precisa se preocupar mais com ele! Eu e Duncam vamos embora e vamos levar ele junto!”

“Cala a boca, sua vadia! Você nunca sequer gostou dele! Não tem como eu entregar ele a vocês!”

“Mas eu sou o pai biológico, eu tenho direito sobre ele.” o desconhecido se pronunciou pela primeira vez, falando calmamente, quase cínico.

Meu pai não respondeu a isso, não com palavras. Estava cego pelo ódio. Por cima da mesa mesmo, se jogou em cima do estranho, começou a enforcar ele com as próprias mãos, algo se quebrou. Minha mãe gritava muito, estava histérica, ainda mais quando meu pai pegou a peixeira da gaveta, mas eu não escutava nada, era como se tivesse ficado surdo. Só conseguia olhar para as duas grandes esmeraldas abertas do desconhecido que pareciam me encarar.

Uma onda de adrenalina se apoderou de mim quando vi minha mãe sendo esfaqueada diversas vezes. Corri o mais rápido que consegui e me escondi no armário do meu quarto.

“Mail... Não fuja…” a voz grossa e desconhecida me chamou “Vai ser melhor assim! Venha... Se você vier poderemos ficar juntos para sempre... Ninguém vai saber que não é o mesmo sangue…” os passos se aproximavam, e meu coração batia descompassado.

Eu tinha que fugir, mas eu estava preso. Me encolhi mais para o fundo do armário, quando de repente as portas foram abertas bruscamente e pude ver reluzir de uma faca.

Gritei.

Meu corpo pequeno conseguiu passar por debaixo de seus braços, e corri até a escada, mas suas pernas compridas logo me alcançaram, senti como a carne da minha coxa direita era cortada horizontalmente do lado de dentro para fora. Meu pulso foi puxado e meu tronco bruscamente virado para a direção de meu pai.

“Me desculpe, Mail…” e mais dor, dessa vez em meu abdômen.

Rolei as escadas feito um boneco de trapos, e enquanto a vida se esvaía do meu corpo, pude ver de formo embaçada como meu agora agressor que passou a faca pela própria garganta antes de tudo ficar preto.

Dias depois eu acordaria no hospital no dia em que completava meus cinco anos, sem memórias e nenhum familiar ter vindo me buscar. Mais tarde eu passarias três anos rodando a Inglaterra de orfanato em orfanato até conhecer Mello, na Wammy’s House.

Engasguei com minha própria saliva quando a porta do quarto se abriu, deixando entrar luz e me fazendo perceber que havia passado muito tempo.

“Matt, você dormiu muito, já são sete hor-Matt?!” correu até mim, imediatamente dando tapinhas pequeno em minhas costas, me ajudando a parar de tossir “O que houve?” perguntou quando minha respiração havia se normalizado o bastante para eu conseguir falar.

“Eu…” olhei naqueles poços azuis “Me lembro…”

“O quê?” perguntou chocado.

E como sempre, deixei que a dor escorresse em forma de lágrimas na blusa de Mello.

Notas finais
*Quebra cabeça de Leite: é um quebra-cabeças todo branco~ Bom, mais um~ O que acharam? Tem muitos erros? Não consegui revisar apropriadamente... Acho que daqui dois capítulos mais ou menos, começa a srgunda parte da história, que seria os quinze anos dos dois~ Muito obrigada por lerem, até a próxima! ^-^ Chu♥