Abstrato
5 Defeitos
Notas iniciais
Se Matt tinha um defeito, era se achar imperfeito.
Não que exista alguém perfeito nesse mundo. Nem mesmo L, quem eu tanto admiro ou Near que é o número um. Nem eu. Mas Mail Jeevas não parece concordar comigo e sei disso pela forma como ele me olha.
É como se eu fosse Deus ou algo assim diante de seus grandes olhos cristalinamente verdes. Tão profundos e sinceros que é impossível para ele esconder o amor que sente por mim. Um amor de amigo, companheiro, irmão... Apaixonado.
Eu sei perfeitamente que ele gosta de mim. Antes mesmo de ele próprio perceber, eu já sabia disso. E sei também que ele nunca irá se declarar. Em sua cabeça, não cabia a possibilidade de ser correspondido. Aliás, possibilidades boas em geral não faziam parte de sua forma de pensar.
Inclusive, na matemática, era Probabilidade a matéria que mais odiava.
Mas se fosse o contrário, se fosse uma situação ruim em um milhão de acontecer com alguém, seria ele. Pessimismo consigo mesmo parecia algo que simplesmente estava implantado nele.
No momento, ele está dormindo em meu peito, os cabelos sedosos e ruivos em contraste com minha blusa preta, e mais ainda, a pela nívea parecia brilhar no escuro em que nos encontrávamos. Era branca demais, pálida. Certamente eu o faria tomar algum Sol no dia seguinte. Isso é, se ele estiver em condições para deixar a cama. Eu sabia que devia aproveitar agora para falar com algum adulto sobre o ocorrido, mas ao invés disso apenas me desvencilhei de seus braços da melhor forma o possível sem o acordar, e na enfermaria pedi algo para dor de cabeça, dizendo que era para mim.
Quando voltei, não me surpreendi tanto de vê-lo acordado, havia esquecido de cobrir seu frágil corpo, e provavelmente a falta da minha temperatura corporal o fez sentir frio. Quando entreguei o remédio e o copo d’água, antes de tomar ele olhou no fundo dos meus olhos, com uma calma que eu nunca havia visto nele. Me assustei um pouco, ao mesmo tempo que me surpreendi. Sempre achei que no momento em que ele recuperasse as memórias, iria quebrar. Mas parece que eu estava enganado, e estou aliviado por isso.
Antes de eu dizer algo, ele começou a falar. E eu apenas escutei em silêncio.
“Quando eu era pequeno... Uns quatro, cinco anos? Eu morava com meu pai e minha mãe numa casa média em Winchester. Acho que ela era bege. Meu pai era um homem alto e musculoso, era moreno e tinhas os olhos castanhos bem claros, sua personalidade era calma... Ele era gentil... Sempre contava histórias antes de eu ir dormir, sempre brincava comigo e me ajudava nos estudos. Mas a minha mãe, ela... Não gostava de mim.”
“Eu me lembro que uma vez, enquanto eu brincava de bola com meu pai no quintal, eu acabei chutando a bola direto para os lençóis brancos que minha mãe estava pendurando... Tinha chovido nos últimos dias, então você pode imaginar a lama apesar do Sol que fazia... Ela me segurou pelo pulso... Gritou comigo e deu um tapa na minha cara. Meu pai ficou enfurecido com ela, mas não encostou um dedo num fio de cabelo dela. Ela… Parecia muito comigo… Ou eu parecia muito com ela, sabe?
“Mas nem ela nem meu pai tinha olhos verdes... Eu não lembro o nome as minha mãe ou do meu pai. Mas sim o dele. Duncam. Ele aparecia em casa quando meu pai estava no trabalho, e ele e minha mãe discutiam sempre. Nunca a ponto dos vizinhos escutarem, mas eu era esperto o bastante para entender que ele era meu pai... Meu pai biológico.”
“Numa noite... Ele apareceu enquanto meu pai estava em casa, nós estávamos jantando e els me mandara para o meu quarto. Mas ao invés disso, eu fiquei atrás da porta escutando. Meu pai enlouqueceu quando Duncam disse que queria minha guarda. Escutei coisas quebrando e gritos. Subi o mais rápido que consegui e me escondi no fundo do armário. Ele gritava que me amava e por isso fazia isso, disse que eu morreria como filho legítimo dele... Mas ele me achou, e eu não pude me mexer. Ele me- Ele me me machucou... Acho que pensou que eu não ia... E então ele... Passou a faca na própria garganta.” apesar de toda a informação que ele me jogava sem parar, esse foi único momento em que ele sussurrou, como se de tudo, esse fora o único segredo saindo de sua boca.
“Eu ouvi sirenes... A porta sendo arrombada... E então o corpo do meu pai estava em cima de mim, Mello… O sangue dele… Era tanto sangue...”
Quando Matt terminou seu relato, as palavras aos poucos desaparecendo, eu sabia que ele conseguia lembrar de mais um mundo de sensações e detalhes, assim como sabia que ele não queria se demorar tendo que dizer fatos horríveis de seu passado em voz alta, por isso praticamente vomitou o que disse. Não havia indícios de tristeza em seu olhar, apenas algo... Profundo, algo que eu não soube identificar na hora, apenas sabia que nunca tinha visto isso nos olhos sempre tão brilhantes de Matt. Mais tarde eu iria descobrir que aquilo era vazio. E mesmo agora, eu já havia começado a perceber que talvez fosse melhor que ele tivesse ficado triste com as lembranças.
Entendi muitas coisas sobre meu amigo, também. O motivo por ele achar que não merece ser feliz é provavelmente porque lá no fundo, ele sempre soube o que aconteceu, e se culpa por isso… Muitas crianças fazem isso, quando os pais se separam, acham que a culpa é delas, por exemplo. Em geral, qualquer ambiente cheio de deturpações na infância deve causar esse efeito… Mesmo que essa ‘criança’ tenha um QI acima da média. Matty sempre foi diferente de mim e de Near, ele sempre sentiu muito mais do que nós dois.
Eu não disse nada e o abracei, decidindo que não me moveria até que ele dormisse, estava exausto o bastante para tal, pelo menos. Na minha cabeça, ele ainda estava em shock, e logo ele se expressaria melhor. Foi o que eu pensei na época. No entanto, isso nunca aconteceu.
Pouco depois foi o Natal, e foi a última vez o vi tão brilhante. A culpa provavelmente é minha, eu tenho plena noção do quanto posso influenciar o humor de Mail.
E de repente, três anos se passaram, e hoje, posso afirmar mais um defeito em Matt: indiferença.
Eu havia me sentido aliviado por uma fração de momento quando ele não desmoronou após se lembrar de tudo... Eu pensei que nada havia quebrado... Eu estava errado.
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