Notas iniciais
E voltamos à narração de Matt! Agora, oficialmente na adolescência deles~ Demorei, como sempre, e peço perdão, mas é que eu decidi que queria um novo rumo para a história e tive que mudar o final. Boa leitura ~ Revisado~> 09/10/17

Tirei um cigarro do pacote e o levei aos meus lábios rachados pelo frio. Inspirei a nicotina, a sentindo passar por meus pulmões – quase podia ver como apodreciam e enegreciam – e soltei a fumaça cinzenta, pensando no cheiro horrível que se impregnava em minhas roupas.

Dizem que fumar é pagar um boquete pro diabo, eu não estaria menos preocupado nem se acreditasse que o mesmo existe. Já era tarde, de qualquer forma. A única droga em que eu realmente era viciado eu jamais poderia ter, então eu tive que achar algo mais acessível.

No começo eram os jogos, mas era inofensivo demais, nunca o bastante para me distrair totalmente. Quando eu jogava, era como ler um livro, mas um livro do qual eu era o protagonista e se eu fosse bom o bastante, sempre faria as escolhas certas para ter um final feliz, o que ironicamente diferia muito da vida real. Nunca joguei para competir, para ser o melhor, então nunca fica entediante nem quando eu cheguei num ponto em que nunca perco. Mas com o tempo, eu aprendi a dividir minha atenção, então já não bastava para me fechar em meu mundo. Já não me prejudicava.

Apenas mais tarde, quando completei quatorze anos, tive contato com meu novo vício. Houve um incidente no orfanato. Dois garotos mais velhos discutiram feio, houve até agressão, e por mais que ninguém tenha se machucado seriamente e que isso fosse normal de vez em quando, um deles decidiu deixar a Wammy’s. Ninguém nunca soube o por quê. Cruzei por acaso com um deles fumando apoiado numa árvore do lado de fora, observando aquele que havia sido seu lar por anos.

Não disse nada, apenas me ofereceu um cigarro que incerto aceitei.

Engasguei nos primeiros tragos e percebi um pequeno sorriso de deboche por parte do não mais tão estranho para mim. Bagunçou meus cabelos de uma forma amigável e até calorosa demais para alguém que mal me conhecia antes de voltar para dentro. Nunca mais o vi depois disso.

Hoje, um ano e meio depois, eu já fumo a marca mais prejudicial do mercado e por vezes pensei em algo até mais forte, porém odeio qualquer coisa que me faça perder meus sentidos ou meu raciocínio, então esqueci a ideia.

Eu estava sentado no parapeito de uma janela que ficava num quarto vago – que eu havia arrombado – no último andar. Vinha fumar aqui porque não queria incomodar Mello ou impregnar nada com esse cheiro desagradável. O loiro não aprovava meu vício, e não chegava perto de mim se eu estivesse ‘cheirando a câncer’, e como já é um fato bem conhecido que eu não suporte que ele se distancie, então fumar é algo que eu só fazia quando ele não estava por perto ou ocupado.

Quanto terminei, apaguei o tubo na caneca que usava como cinzeiro improvisado, e voltei para nosso quarto. Joguei toda minha roupa no cesto e entrei debaixo da água quente, começando pelo shampoo. Isso já havia se tornado um ritual, acabar com o cheiro, não para que Mello não descobrisse, ele certamente sabia, mas para não afastá-lo de mim.

Enquanto enxaguava em meus fios ruivos, de olhos fechados por causa do sabão, senti de súbito como a temperatura da água abaixava drasticamente e imediatamente sai debaixo do chuveiro, escorregando e puxando a cortina no processo.

Gemi de dor e tremendo me levantei, estava tudo escuro, provavelmente uma falta de luz.

“Droga!” praguejei ao perceber que minha toalha não estava no lugar onde achei que a tivesse deixado.

Pensei em me enrolar na cortina, mas não queria molhar o quarto com ela e bom, estava tudo escuro de qualquer forma. No entanto, quando passei pela batente da porta, senti o tão familiar cheiro adocicado do cacau bater contra mim de forma quase literal já que trombei contra alguém. Mello.

Senti minha cintura ser abraçada em primeiro momento por braços firmes que me impediram de cair para trás e colou nossos corpos. Depois mãos frias em minha cintura que fizeram arrepios descer por minha espinha antes de nos distanciar um pouco. Sua respiração quente batia contra a minha, entrecortada, trêmula. Meu coração batia quase dolorosamente contra meu peito, meu rosto queimava em vergonha, e eu agradecia o fato dele não poder enxergar mesmo com a pouca luz vindo da janela. Ou eu esperava que não.

“Você…” subiu uma das mãos por meu tronco até chegar em minha nuca, enroscando os longos dedos ali e eu esqueci como respirar, foram segundos apenas, mas passaram por minha noção de tempo com uma lentidão quase sufocante “Você está encharcado!”

Me soltou por segundos inteiros em que me senti perdido e agucei meus ouvidos para entender o que ele estava fazendo antes de me deixar envolver em algo grande demais para ser uma toalha.

“Mello, esse é o seu...?” eu sabia que não era meu cobertor apenas pelo seu perfume.

“Eu não me arrisco a tentar pegar uma toalha num banheiro todo molhado no escuro. Agora se seca.” disse e se distanciou novamente.

Eu fazia o que ele havia mandado me sentindo uma criança, ainda mais no momento em que percebi que ele estava separando roupa para mim ao escutar o ranger das portas de madeira do guarda-roupa ao serem abertas. Tornou a se aproximar, os passos leves podiam ser escutados apenas por causa dos pesados coturnos que ele gostava de usar quando saia.

Mal pude ver como estendia as roupas para mim, as mantendo estendidas à minha disposição. Mordi meu lábio inferior incerto do que fazer, tinha o medo bobo e quase paranóico que talvez ele conseguisse ver minha feia figura, mesmo nessa escuridão. E como sempre, parecia que ele sabia ler minha mente.

“Estou de olhos fechados.”

Com isso, me senti seguro para prosseguir, e deixei que a coberta escorregasse por meu corpo até o chão. Comecei a me vestir o mais rápido o possível. Uma calça de algodão, provavelmente de pijama, e uma blusa um tanto grande do mesmo tecido. Percebi que não eram minhas roupas, pois não eram do meu tamanho, mas também não eram grandes o bastante para serem as roupas que eu gostava de usar.

“Pronto.” informei enquanto passava as mãos pelos braços na tentativa de pegar algum calor.

“Vem, vamos deitar.”

Me guiou pelos ombros até minha cama, eu sentia meu corpo convulsionar pelo frio e suas mãos gélidas não ajudavam, mas eu gostava delas. Era apaixonado por qualquer toque vindo de Mihael Keehl. Mesmo se deixasse hematomas. Mesmo se fosse causar dor.

Vícios nos tornam masoquistas, não?

Meu corpo girou e fui deitado no colchão com uma delicadeza até injusta, às vezes, tudo o que eu queria era que ele me jogasse na cama como se eu fosse a mesma boneca de trapos que fui há tantos anos atrás. Seus fios sedosos e cheirosos acariciavam meu rosto e mais uma vez pude sentir sua respiração quente, mas muito mais próxima da minha boca que antes, chegava a roçar sem realmente encostar por causa do esforço de nossos pulmões para que o ar continuasse entrando e saindo normalmente.

Senti a gema de seus dedos adentrando em minha blusa com tortuosa lentidão, e me perguntei se asfixiaria quando percebi o que ele queria... O que e imaginava ser seu indicador delineava minha cicatriz milímetro por milímetro, como se quisesse guardar à perfeição a extensão e profundidade dessa marca horrível.

Poderiam ter sido anos os minutos que isso durou.

Ele murmurou um ‘me desculpe’ e penso que nossos lábios se tocaram, mas foi rápido demais para sequer ser chamado de ósculo. Depois me puxou para seu peito como gostava de fazer desde que tenho memória, e com o coração em polvorosa e na garganta eu tentava recuperar a calma. Ficamos assim por mais minutos intermináveis – minha noção de tempo parecia bem prejudicada – que, com redundância, terminaram rápido demais quando ele beijou o topo de minha cabeça e se ergueu para sair da cama.

“Eu esqueci de pegar água, já volto.” bagunçou meus cabelos e saiu do quarto, enquanto eu fiquei pensando se ele realmente ainda precisava tomar aqueles remédios. Talvez aquele fosse o vício de Mello.

Pouco depois de sua deixa, uma batida leve na porta me fez levantar com pesar pelo frio. Me escorei pelas paredes para chegar até a superfície de madeira sem tropeçar ou morrer na tentativa, quando a abri tive a estranha surpresa de ver Roger na minha frente, segurando um lampião à gás um tanto antiquado. Ele só checava as crianças pequenas, toda noite, e já tinham alguns anos desde que ele não fazia isso conosco.

“Boa noite, Matt.”

“Boa... Noite?” respondi meio incerto pela estranheza da situação.

“O gerador queimor.” eu percebi.

“Ah, sim...

“É melhor vocês não saírem dos seus quartos, e trancarem a porta. Nunca se sabe.”

“Ah... Ok...?

“Bom descanso.”

“Obrigado, para o senhor também…”

Sorriu e saiu, e eu tive a percepção que por sermos o último quarto do corredor ele agora subiria se estivesse passando de porta em porta.

‘Okay, isso foi estranho…’ pensei e fiz o que ele havia mandado e fechei a porta, mas não tranquei já que Mello ainda não estava aqui dentro. Já estava indo me enfiar debaixo das cobertas quentes quando me caiu uma compressão que nosso estranho diálogo tinha algo a mais por trás do que uma simples preocupação sem cabimento.

Na Wammy’s House não aconteciam coisas sem motivo. É estranho que ele pedisse para que trancássemos nossas portas sendo aqui um dos lugares mais seguros do país, tínhamos sistemas sofisticados de segurança, e boa parte das pessoas que trabalhavam aqui como cozinheiros, jardineiros ou qualquer profissão comum e corrente eram na verdade seguranças de alto nível, que estavam aqui para nos proteger.

Então, mais uma vez, algo não se encaixava. O gerador havia sido instalado dois anos atrás para evitar as quedas de energia, e até o momento não havia falhado nesse meio termo. A não ser que alguém quisesse que falhasse.

Senti um medo inexplicável pela ausência de Mello, quase pânico por ele não estar junto e seguro comigo. Sem pensar muito sai do quarto enquanto minha mente trabalhava em onde ele estava agora. A cozinha. Comecei a correr pelos corredores, sem temer cair já que as luzes de emergência das escadas estavam acesas e iluminavam o bastante para eu ter uma direção segura.

Sabia que estava me precipitando e pensando demais, que provavelmente não seria nada e que Mihael riria e me chamaria de bobo.

Mas eu tinha que encontrá-lo.

Quase sem fôlego cheguei ao refeitório, e comecei a caminhar em direção à cozinha, percebendo que tinha uma luz vindo de lá, pela cor alaranjada e pela forma que se mexia eu deduzi que era uma vela.

Quando tentei abrir a porta dupla, havia algo que emperrava a metade direita então entrei pela outra. Abracei a mim mesmo e olhei ao procurando por algum sinal de vida na imensa cozinha. Escutei um barulho vindo do canto mal iluminado onde ficavam as geladeiras, dei um ou dois passos nessa direção.

“Mello...?” chamei baixinho e o barulho parou, consegui distinguir melhor uma sombra de cócoras lá.

Por um momento, pensei que era o próprio L ali, mas quando ele se virou e vi seus olhos... Questionei se aquilo era humano, assim como minha sanidade. Eram de um vermelho tão carmim quanto o sangue, pareciam brilhar na escuridão, mas eles em si eram opacos, frios e sem vida. Pareciam os olhos de algum demônio ou anjo da morte. Senti meu corpo ficar paralisado e minha respiração tão entrecortada que mal supriu minha necessidade por ar.

“Ele não está aqui…” sua voz era suave, incrivelmente bonita, saiu num sussurro rouco que me fez engolir em seco, e todos os pelos do meu corpo se arrepiaram.

Se levantou e com lentidão se aproximou de mim, à medida que chegava perto, seu rosto indiferente ia ficando mais claro pela luz da vela e sua pele era tão branca, mais até que a minha, que chegava a ser pálida, como se ele nunca tivesse tomado sol uma única vez na vida.

Eu tinha que fugir.

Comecei a ir para trás, tentando chegar até a porta, a adrenalina era tanta que eu não sentia mais frio. No entanto, antes que eu pudesse realmente escapar, tropecei em algo morno e viscoso. Cai para trás em cima de algo macio. A “coisa” que estava emperrando a porta antes. Um corpo estendido no chão.

Se eu tivesse algo em meio estômago, eu teria certamente colocado para fora neste instante.

Sra. Smith, trabalhava na cozinha desde que eu e havia chegado aqui. Foi ela quem me ofereceu uma xícara de leite adoçado com mel em minha primeira noite aqui, foi ela quem sempre deixava Mello ter um pudim de chocolate extra e quem contrabandeou chocolate para ele até que fosse um fato que aquele era um vício que ele não deixaria e que não o prejudicava. Foi por ela que eu soube da identidade secreta da maioria das pessoas que trabalhavam lá.

Mas ela era só uma senhora bondosa que gostava de cozinhar para crianças e jovens mesmo depois de se aposentar.

E agora estava morta, com um facão de cozinha enfiado na garganta.

Não tive tempo de ficar de luto ou divagar mais sobre aquilo, pois me vi preso pelo peso do estranho que sentou em minha cintura de forma tão abrupta que me fez bater a cabeça no chão. Gemi de dor enquanto ele apenas me observava sem piscar, parecia uma estátua, não movia um músculo, até que finalmente ergueu a mão e tocou o meu rosto.

Em contradição com toda sua aparência mórbida, suas mãos eram quentes e cheiravam a algo doce que não consegui identificar, apenas sabia que devia ser alguma fruta, provavelmente cozida e resfriada... Como geléia.

Acariciou a extensão de minha bochecha, tocou minha boca trêmula, minha pálpebras quando meus olhos se fecharam enquanto eu tentava me controlar para não gritar. Então, finalmente, puxou os meus cabelos com sumo cuidado, como se quisesse apenas analisar sua textura e cor.

“Vermelho…” murmurou e meu corpo convulsionou, não consegui mais parar de tremer por causa da adrenalina não usada “Qual o seu nome?”

Demorei para entender o que ele me perguntava, e mais ainda para responder, porém ele não pareceu se importar, apenas aguardou pacientemente enquanto brincava com meus fios vermelhos, enrolado-os no indicador e soltando.

“M-Mail…” gaguejei e me soquei mentalmente por ter dito meu verdadeiro nome.

Ele então se inclinou, sua boca em minha orelha.

“Nos veremos de novo, Mail.

Depois disso, tudo ficou negro.



Notas finais
Bom, então é isso. Resolvi adicionar um novo personagem~ Não sei ainda que repercussão ele terá, como sempre, depende do Mello e de suas futuras decisões... Obrigada por terem lido, e por favor, qualquer erro me avisem >w