Abstrato

10 Memórias -> editado até aqui


Notas iniciais
Eu estou ficando louca com a quantidade de ideias que têm vindo à minha cabeça! Acho que por isso os capítulos estão saindo tão rápido... Tenho que dizer, estou tomando uma dura decisão sobre o futuro de Matt. Garanto que vai ser o melhor o possível para ele, mas será que vai ser um final aceito se eu escolher isso ou aquilo? Ah, duvidas ~ Enfim, boa leitura! editado -> 30/10/17

Abri a porta com cuidado, com medo de quebrar ainda mais a maçaneta. Olhei ao redor, e tudo parecia exatamente igual a antes, inclusive a caneca que eu usava como cinzeiro. É, usava, parei de fumar no momento em que meus lábios tocaram os de Mello. Encontrei um novo vício, muito, muito melhor, que consistia num jogo em que um tentava tirar a respiração do outro. Pela primeira vez em muito tempo, eu só sabia perder.

Sorri ao pensar nisso e, acredite, é estranho sorrir sozinho feito um bobo apaixonado que sempre fui, mas dessa vez com um toque de romance colegial. Suspirei e fui até a janela para tomar um pouco de ar, me sentei nela como tantas vezes antes havia feito, mas sem o cigarro na boca. Era estranho como o quarto onde nasceu uma mente perturbada podia ser tão reconfortante para mim. Ainda mais depois de ter sentido na pele o nível de sua psicose.

Ultimamente, tudo em mim era estranho.

Como mudei muito em tão pouco tempo ou como já não me sinto tão submisso às vontades de Mello. Se ele soubesse que eu estou aqui, por exemplo, certamente não ficaria muito feliz e no entanto... Aqui estou. Redundante.

E Mihael Keehl, quem eu tanto almejei todos esses anos, que jamais ficaria com Mail Jeevas, era meu. E isso era a coisa mais estranha que havia acontecido nesse meio tempo em que as coisas começaram tomar rumos desconhecidos.

Ou talvez... Talvez o mais estranho mesmo, seja o quanto... Não sei como terminar essa sentença, apenas como explicar o que sinto. Sabe quando você deseja algo praticamente impossível com todas as suas forças? Você deseja e deseja mais, reza, chora e pede aos céus por isso. E então, um dia acontece, e é o momento mais feliz da sua vida. Mas você passou tanto crendo que aquilo não era possível, que quando acontece você simplesmente não sabe como agir. Não é que você não queira mais, é apenas que... Você está assustado de ter.

É como cuidar de uma taça de cristal... Bela, mas frágil.

Outro suspiro escapou por entre meus lábios. Eu tenho feito muito isso, quero dizer, suspirar. Olhei ao redor do quarto, tentando mudar o foco de meus pensamentos.

Comecei a pensar como teriam sido os anos do pequeno Evans – eu havia começado a chamá-lo assim – se ele teria brincado e se divertido como qualquer outra criança, se teria sido mais extrovertido ou se era dos que preferem ficar sozinhos num canto, talvez lendo, talvez montando um quebra-cabeça, como Near. Em que momento sua obsessão com L havia começado? Eles sempre foram parecidos ou Evans havia se certificado de que houvesse essa grande semelhança?

Será que alguma vez ele se escondeu em seu antigo armário num dia de chuva? Ou debaixo das cobertas de sua cama nova e... Sem nenhuma imperfeição? Não, a cama certamente poderia estar em bom estado depois de tanto tempo, tendo a qualidade que tudo na Wammy’s tinha isso certamente era possível, a minha própria cama era a mesma de quando cheguei aqui, porém ainda assim, essa cama... Se esse quarto tinha sido intocável desde que o jovem Evans deixou o orfanato e se tornou o famoso serial killer Beyond Birthday, então isso queria dizer que as coisas não haviam sido trocadas, afinal o armário é embutido e parece bem antigo, e esse era o único quarto em que ainda tinha papel de parede ao invés de ser pintado de fato. Mas ainda assim, a cama não parecia ter a mesma idade do resto. Nem a porta.

Talvez por poder ser vista de fora fizesse sentido trocá-la, mas se não se deram ao trabalho de reformar o resto, então por quê? Eu posso estar pensando demais... Quem sabe desistiram na metade do caminho? Ou quem sabe...

Fui até o guarda-roupas, a porta era de correr e estava um pouco emperrada, mas consegui abrir com um pouco de esforço.

Então, diante de meus olhos, obtive mais respostas, mas respostas que certamente trariam mais perguntas. Porque entalhado no meio do fundo do armário, em perfeita letra cursiva, estava “J.E.”.

Isso quer dizer que eu estava certo, não? Isso é um nome.

Mas ainda assim, eu poderia estar errado. Redundante de novo.

Comecei a pensar o que teriam feito com as coisas de Beyond Birthday, e se não haviam sido jogadas fora, só havia um lugar em que poderiam estar.

O sótão.

O problema era... Como eu chegaria lá? Só tem acesso para o sótão por uma porta, que fica no terraço escondido entre as partes do telhado que podiam ser vistas por fora, bem no centro. A única passagem era por uma escada de ferro que ficava na lateral da mansão e dava para um corredor estreito que chegava na parte do terraço que lembrava um pequeno pátio, com cerca de 3x4 m² onde ficava um porta de ferro enferrujada. O problema era que a escada havia sido retirada porque bem... Eu e Mello descobrimos onde dava, e meio que fizemos de lá uma “base secreta” que cresceu quando chamamos outras crianças e bem, Roger descobriu e mandou... Tirar.

Eu lembro de ter ficado secretamente feliz com isso na época porque eu estava meio chateado que Mihael tivesse convidado outras crianças para o lugar que supostamente era especialmente nosso.

O Karma pode ser uma vadia às vezes.

Em minha cabeça bolei as possibilidades, mas nenhuma parecia muito favorável, desde que mesmo que eu conseguisse sair no meio da noite sem que ninguém percebesse, não tinha nenhuma escada grande o bastante para suprir os andares da Wammy’s.

Voltei até a janela aberta e olhei para cima. Eu poderia subir no telhado por ali. Provavelmente. Acho que não seria uma boa ideia, levando em conta que estaria escorregadio por causa da tempestade do dia anterior. No entanto, era uma oportunidade única, já que por esse mesmo motivo não tinha ninguém lá fora, algo bem raro nos momentos livres.

O que fazer?

Um longo suspiro deixou meus lábios, talvez o terceiro desde que eu havia chegado naquele quarto.

Isso definitivamente não tem como dar certo, mas... Vamos lá.

Subi na janela e acabei chutando minha caneca sem querer, ela caiu e quebrou ao meio, enquanto o vento começava a levar as cinzas e filtros de cigarro. Mais tarde eu limparia. Se não caísse e morresse agora, é claro. Eu estava me segurando nas bordas da parede, e com medo segurei na canaleta, com um pouco de nojo ao sentir a umidade e sujeira ali, também tentei não olhar para baixo. Puxei um pouco para ver se era firme, e se eu fosse rápido o bastante, não quebraria nada.

Usando toda força em meus braços, comecei a tentar subir, usando as laterais da janelas para me impulsionar agora e, com muito esforço consegui que metade do meu corpo estivesse em cima das telhas. Comecei então a me arrastar, sem querer arriscar me levantar até que fosse seguro, lá no todo, onde era mais reto. Estava feliz do meu DS estar no bolso traseiro, porque poderia ter quebrada quando me arrastei.

Eu teria que bolar uma boa desculpa para o estado das minhas roupas, isso relembrando o fato que eu poderia escorregar e morrer a qualquer momento. E então, com passos realmente inseguros, fui andando até chegar nas laterais ao centro do telhado, onde tinha o pequeno terraço com a porta de entrada pro sótão antes mencionado. Eram uns três metros de altura, não parecia tão alto... Só não queria pensar em como sairia dali depois.

Me sentei com as pernas pendentes e olhei pra baixo. Engolindo em seco, pulei. Me desequilibrei um pouco ao chegar no chão, mas estava inteiro. Aliviado, finalmente cheguei até meu objetivo, a porta de ferro.

Com tanto de incerteza e minha mão um pouco trêmula, eu girei a maçaneta, só para perceber... Que estava trancada.

Pensei que poderia aproveitar a oportunidade para me matar pela minha burrice.

Como pude esquecer um detalhe tão importante?!

Eu queria bater minha cabeça contra a parede! Era mais que óbvio que estaria trancado!

“Droga!” gritei e em minha frustração, comecei a chutar a maldita porta.

Chutei e chutei enquanto balançava a cabeça e xingava minha sorte em mais de um idioma. Estava usando botas de combate, então mesmo com as forte bicudas contra a porta, eu não estava me machucando junto, mas tinha o pressentimento que mesmo que estivesse, eu continuaria.

Foi quando eu finalmente estava me acalmando e dei um último pontapé , que... A desgraçada abriu.

Com o passar dos minutos, eu só me sentia mais e mais idiota.

Só que eu deixaria para me xingar mais tarde, agora eu precisava fazer isso rápido porque já estava começando a escurecer.

Entrei, e a primeira coisa que fiz foi espirrar por culpa do pó. Estava tudo escuro, então peguei meu DS e o liguei, para usar como lanterna. Comecei a olhar ao redor, encontrando uma quantidade imensa de móveis e quadros bem antigos. Lembrei então que a Wammy’s House já havia sido uma simples mansão residencial no século XVIII. Tudo podia estar muito empoeirado, mas todas as coisas eram protegidas por plásticos transparentes. Num canto tinha um quadro enorme com uma pintura em tamanho real de um casal com um menino e um cachorro, todos no sofá, inclusive o animal, sentados por ordem de altura. O pai, a mãe, o cachorro, e então o pequeno garoto que devia ter uns sete ou oito anos. Era bem interessante, e a maioria das pinturas tinham eles.

O homem tinha um sorriso gentil, mas que parecia esconder segredos por trás de seus lábios curvados, cabelos num negro meio azulado e lisos, uma pinta debaixo de um de seus olhos castanhos. Já a mulher inspirava amabilidade, e era muito bela. Me lembrava o Mello com seus cabelos louros e olhos azuis escuros. O garoto parecia uma cópia quase exata do homem, não fosse por seus grandes olhos azuis, não tão escuros como os da mulher, não tão claros como os de Mello. Poderiam ser o mais claro céuou seu reflexo no mar. Eram realmente belos. Seu sorriso era cheio de dentes, algo incomum nesse tipo de quadro.

Eu estava achando tão fascinante ver tudo aquilo e imaginar como eles eram e como haviam sido suas vidas que quase tinha me esquecido de meu objetivo, se não tivesse tropeçado numa caixa de papelão que se abriu quando caí de bunda no chão.

“Merda...“gemi me levantando e nem me dei ao trabalho de tentar limpar minhas roupas.

Foi então que eu vi o que tinha dentro da caixa, uma das muitas empilhadas, eram roupas, pareciam mais ou menos do meu tamanho e estavam dobradas e plastificadas, como todo o resto. Desvirei a caixa e me ajoelhei a se seu lado, tirando a primeira peça, era uma blusa de linha listrada em cinza e verde escuro – ou parecia, não dava para identificar direito com a pouca luz – e na altura do peito, bordado com uma caligrafia já conhecida, estavam as famosas iniciais.

Aos poucos fui tirando as roupas da caixa, e à medida em que elas iam ficando mais monocromáticas mais difícil era achar “J.E.” nelas. Às vezes eram inclusive bordadas por dentro, e reparei que todas tinham suas etiquetas cortadas. Nas últimas caixas, de roupa ao menos, todas as peças eram idênticas ao que L vestia. A famosa blusa branca e jeans surrado. Encontrei sapatos, e o mesmo esquema das iniciais também fazia parte do padrão.

Eu tinha a esperança de achar um diário ou algo assim, mas eu sabia que qualquer coisa que poderia explicar o que motivou seus primeiros crimes deveria estar em algum outro lugar como importante evidências. Encontrei também muitos livros, dos mais diversos assuntos, desde Direito à contos infantis, e uma quantidade impressionante que falava sobre a morte, em mais de uma religião.

Achei um despertador vermelho de cabeceira, cadernos com matéria, desenhos de criaturas disformes e assustadoras, material de pintura, laboratório e escolar em geral, uma coleção extensa de diversos tipos de besouros que pareciam ter sido colocados na retina por ele mesmo, ou sua assinatura assim sugeria.

Não parecia ter nada importante de verdade, até que eu percebi que o importante de tudo isso não estava exatamente alguma coisa em especial.

Beyond Birthday, ou J. Evans — assim eu esperava – tinha uma particularidade que indicava uma grande possessividade.

Ele marcava com suas iniciais, tudo o que era dele.

Eu podia apostar que em sua cama e porta tinham essas duas letrinhas.

Sendo assim, não era estranho que ele me marcasse?

Notas finais
Esse foi difícil, e tenho medo de estar confuso... Então, como sempre, qualquer erro ou confusão, me avisem ~