Abstrato
11 Carmesim
Notas iniciais
Obviamente foi o cabelo.
Os fios eram tingidos com um carmesim tão vivo e profundo que pareciam estar banhados em sangue.
Então não é algo notável que seu sedoso cabelo vermelho fosse a primeira característica a me chamar atenção, levando em conta meu fascínio por essa sedutora cor. Sedutora, porém perigosa, porque uma vez que se cai por seu encanto é quase impossível escapar.
Estava escuro demais, no entanto, então só percebi a esse detalhe quando cheguei mais perto. Desde o começo eu não pretendia matá-lo, os números diziam que ele tinha mais alguns anos, poucos, mas tinha. Ele não sabia disso, estava assustado e eu conseguia ler em sua expressão que estava tendo dificuldade para raciocinar e a duras penas concluiu que deveria escapar. No entanto, tropeçou no que recém havia se tornado um cadáver, e o ângulo fez que com a pouca luz da geladeira me deixasse vê-lo com mais clareza.
Então, eu vi seus grandes olhos verdes.
Se os meus eram os de um demônio, então certamente os dele eram de algum ser celestial, havia algo sobre seu brilho, sobre sua pureza quase infantil que raramente se vê em alguém de sua idade, eu não sabia se queria arrancar suas orbes com a ponta dos meus dedos ou...
Por um momento, senti que havia perdido a capacidade de pensar, e busquei minha meu raciocínio quase frio em suas madeixas ruivas, sentindo os fios entre meus dedos. Murmurei algo que nem sequer me lembro, e então senti a necessidade de saber seu nome, não, eu já sabia seu nome.
‘Mail Jeevas’ flutuando acima sua cabeça. O que eu realmente queria era escutar a sua voz.
“M-Mail...” ele gaguejou, a voz suave e aveludada, um timbre inconfundível e quase andrógino, talvez ele não tivesse completado a transição para a puberdade porque sua voz era menos.. Profunda do que eu esperava para um adolescente.
Senti algo explodir dentro de mim, porque eu sabia que ele havia dito seu real nome. Sabia que o relógio estava correndo, e que eu não poderia ficar nenhum segundo a mais. Ainda sinto o cheiro doce de seu shampoo do momento que me aproximei de seu ouvido para selar nosso destino num encontro futuro. Seu corpo estremeceu quando eu disse seu nome, e então desmaiou após eu aplicar pressão em sua nuca.
Eu gostaria de ter ficado olhando seus olhos por mais tempo, mas eu realmente não poderia fazer aquilo, no entanto...
Sem dó alguma eu arranquei a faca da garganta da senhora que eu havia matado pouco antes, era um facão de cozinha um tanto grande, mas a ponta bem afiada e minha mão bem firme. A limpei como pude na minha própria blusa, e então segurei seu lábio inferior, deixando à mostra o interior, e então comecei a escrever minhas iniciais com o máximo de perfeição possível nessa situação. Com a força que eu estava usando terminei por cortar meu indicador, e a gota escorreu pela lâmina até terminar por entre seus lábios.
De alguma forma, era fascinante.
Era como se a minha pequena gota de sangue fosse estar nele para sempre, fosse fazer parte de seu sistema.
Por fim, me inclinei e lambi a marca que eu mesmo havia feito, sentindo o gosto metálico que me pareceu tão doce.
Fui embora depois disso, mas com uma promessa selada à sangue.
Certamente nos veríamos de novo.
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