Notas iniciais
Tive uma epifania em que Mello era travesti e comeu o Matt. Mas foi só uma epifania, mesmo. Boa leitura.

Às vezes, não importa o quanto você tente ou quanto você se esforce.

Às vezes, você pode dar o máximo de si, e ainda assim não alcançar o resultado desejado.

E às vezes... É apenas uma questão de sorte.

Eu havia tido sorte ao subir no telhado, porque levando em conta os vários fatores que envolveram desde as condições ao ato em si, era muito mais fácil que eu acabasse caindo. Havia tido sorte quando a porta de ferro se abriu com meus pontapés quando eu havia esquecido de trazer algo para arrombar ela. E havia tido sorte quando ao tentar descer do telhado, ao escorregar, tivesse um quarto com a janela aberta, apesar do tempo.

Então eu cai com tudo pra frente, na tentativa desesperada de não ter uma queda maior, fiquei meio pendente, com as pernas pra fora e o tronco pra dentro, me arrastei para frente e bati o queixo no chão, além de ficar momentaneamente sem ar. Com um gemido, rolei no piso de madeira, buscando oxigênio, e massageando meu abdômen.

– Matt? – fechei os meus olhos com força, e por um momento eu quis ficar ali, deitado e fingindo de morto, terminei por suspirar e da melhor maneira possível me levantei, sentindo mais de uma parte do meu corpo doer.

Me virei lentamente para dar de cara com ninguém mais, ninguém menos que Near. Com seus olhos gélidos me encarando e sua perfeita sobrancelha esquerda erguida. Estava sentado e enrolava e desenrolava com o indicador um de seus cachos, algo que sempre fazia, e incomodava profundamente Mello.

– Ah... Hey, Near...- tentei ser natural, sem saber o que dizer.

– O que você está fazendo aqui? – seu tom era tão frio quanto seu olhar.

– Eu... Não sei o que te dizer, mas eu estar especificamente no seu quarto não era minha intenção, foi acidental. – não havia ponto em mentir, pois não havia explicação plausível, de qualquer forma.

Ficamos alguns segundos nos encarando, eu me sentia tenso, e as dores não ajudavam nada na minha falha tentativa de relaxar.

– Eu... Vou voltar para o meu quarto... Pela porta! Não pela janela, pela porta. É. – falei meio corado pelo momento vergonhoso.

Quando eu passei pela porta, escutei algo que me surprendeu.

– Matt... – sua voz era mais suave que o normal, era quase sussurrada.

– Sim? – girei meu corpo com certa curiosidade.

– Cuide-se. – fiquei um tempo processando algo tão simples como aquilo, antes dar um meio sorriso e responder.

– Você também.

Finalmente, eu passei pela porta e comecei a andar pelos corredores em direção a meu quarto, pensando sobre o estranho encontro que tive com Near, querendo acreditar ao máximo que havia sido uma grande sorte que tivesse sido justamente o quarto dele.

Tentei não pensar muito sobre o assunto, minha cabeça já estava doendo com toda a “emoção” da última hora, então o mais rápido que pude, cheguei ao nosso quarto, abri a porta com cuidado, temendo encontrar Mello, porque aí sim seria complicado explicar algo.

Agora que a adrenalina da minha quase queda havia passado, eu começava a sentir o frio. Fui direto para baixo do chuveiro, limpando não só o lodo, mas também minhas feridas e espírito. Eu não havia descoberto nada realmente significativo ou realmente útil, mas eu havia tentado, e por mais que eu soubesse que não desistiria tão cedo, as coisas seguiriam seu curso e me levariam à respostas de verdade.

Quando terminei, me vesti e me obriguei a secar o cabelo antes de me enfiar debaixo das cobertas, cansado e dolorido demais para qualquer outra coisa.

O calor do Sol aquecia meu corpo como um abraço quente. Ao meu redor tudo era branco, e mesmo que o céu estive completamente azul e sem nuvens ainda assim estava nevando. Comecei a caminhar para frente, e parei por um momento, estendendo umas das mãos esperando que um dos flocos caísse nela, e então percebi que aquilo não era neve, eram cinzas, que quando se desfaziam em meu dedos, ficavam negras.

Sem saber o que fazer, continuei andando e andando, no meio daquela imensidão sem cor. Meus passos deixavam pegadas pretas atrás de mim e eventualmente, cheguei na frente de um lago. Eu tinha consciência de que era água, mas parecia um espelho gigante, e tive que colocar minha mão para confirmar que aquilo era líquido.

Fiquei ajoelhado olhando para meu reflexo, quando senti algo quente escorre pela minha testa, assustado vi que era sangue, e à medida que escorria a raiz do meu cabelo ia ficando esbranquiçada, como se os fios que estivesse banhados no fluído que agora escorria. Arregalei os olhos sem entender ou saber o que fazer, vendo como cada vez mais meu cabelo era tão branco como tudo ao redor. E então senti duas mãos frias tampando meus olhos.

Lembrei daquela frase “Mão fria, coração quente” que eu sempre havia atribuído à Mello, no entanto eu sabia que aquelas mãos na eram dele, e no meio da escuridão causada por alguém até então desconhecido, tudo o que eu podia sentir era sentir. Sentir o sangue escorrendo por meu rosto, a sensação gelada em minhas pálpebras e um hálito frio contra a minha orelha.

– Você sabia, Matt? – eu conhecia a voz, mas não reconhecia, e seu tom tinha certo cinismo – Você vai acabar morrendo assim... Você definitivamente vai morrer.

As mãos que cobriam meus olhos desceram para meus ombros, me permetindo ver quem era.

– Near?

Ele olhava para meu reflexo na água, meu rosto todo vermelho, e meu cabelo quase totalmente branco, assim como meus olhos, em que o verde também escorria como se tratasse de lágrimas.

– É muito mais fácil ser indiferente, não se importar... Eu pareço solitário, mas comparado à você, eu estou bem, não é? – virou meu queixo – Você vai morrer assim, Matty...

Sorriu e acariciou meu rosto quase com doçura, enquanto repetia e repetia que eu iria morrer se continuasse “assim”.

Por fim, virou novamente minha cabeça para o lago, que agora de fato era como um espelho, já que agora estava na vertical.

Meu rosto estava limpo, e agora eu era tão albino quanto Near.

– É muito mais fácil ser eu, não é?

Abri os olhos quando escutei a porta bater. Meu coração a mil, as cenas do sonho frescas em minha mente.

– Matt? – escutei a voz tão familiar e reconfortante – Oh, desculpe, não sabia que você estava dormindo... Não são nem sete horas... Você está se sentindo bem?

– Sim... – minha voz saiu muito rouca, limpei a garganta a sentindo estranha – Sim, só estou com um pouco de dor de cabeça... – e dolorido.

Ele se aproximou e colocou uma mão em minha testa, depois na lateral do meu pescoço, e eu me arrepiei mais pelas suas mãos geladas do que qualquer coisa.

– Você está com um pouco de febre... Vai ficar resfriado se não cuidarmos logo disso. Vou buscar algo para você tomar, sim? – beijou minha testa e bagunçou de leve os meus cabelos, com tanto cuidado em carinho em cada gesto e em cada olhar que fez meu coração bater mais rápido e que o sangue subisse para meu rosto. Ele apenas sorriu. – Já volto.

Eu me senti o ser humano mais sortudo do mundo. Senti meu peito se aquecer daquela forma que apaga qualquer sensação ruim que um pesadelo possa causar. Ou um sonho muito, muito, estranho.

E o mundo parecia estar em seu lugar.

Notas finais
Estou dando o máximo de calmaria antes da chuva para Mail... Obrigada por ler ~