Abstrato
13 Cruel
Notas iniciais
Eu havia me esquecido.
Como eu pude me esquecer?
Como?
Mas acho que sei... Porque tudo parecia tão perfeito naquela manhã... Mesmo eu estando febril e com dificuldade de entender as coisas ao meu redor, ainda assim eu entendia bem que havia acordado no abraço de alguém, quente, confortável, firme. Rodeado pelo cheiro familiar que agora era meu próprio perfume. Fios dourados fazendo cócegas em meu nariz e bochechas, a respiração quente nos meus próprios vermelhos e bagunçados fios.
E como nos últimos tempos, o mundo estava em seu lugar e os cantos de minha boca se erguiam mais e mais à medida que sua boca se encontrava com a minha em um ato tão tenro que eu poderia morrer ali mesmo com a ternura do momento. Meu coração esquecia como bater corretamente, e eu esquecia como era ter ar nos pulmões.
O mundo girava em minha mente pouco sã pela febre, e tudo parecia estar embaçado, menos as duas safiras que me olhavam, como dois pedacinhos perfeitos do céu. E o fim do inverno parecia chegar, com o sol da manhã que entrava pela janela parecendo completar o quadro.
O quadro do qual agora eu também fazia parte... O Romantismo e o Abstrato juntos... Quem diria?
Então a voz que eu tanto amava sussurrou as sandices dos enamorados e prometeu que voltaria, selando um isso com outro beijo tão delicado e inocente quanto o primeiro.
Me vi envolto pela pouca luz do quarto, entre sonhos sobre nossa infância, sobre nossos livros e sobre a primavera que logo chegaria. Sobre raposas e pequenos príncipes, sobre meninos que faziam flores crescerem onde seu polegar tocasse, sobre piratas que conquistaram os sete mares, assim como fomos donos do aconchego de nosso quarto.
O tempo foi passando e continuava em mim a estranha noção que eu era tão feliz que poderia distribuir essa alegria com meus sorrisos tão freqüentes agora.
Mas a porta foi aberta e fechada com tanta violência que me vi arrancado de meu calmo sono. Isso foi só um lembrete com que eu já sabia, mas havia ignorado em minha insistência por esquecer algo tão importante.
Em momento algum entendi o que estava acontecendo, só escutei barulhos deixados pela pressa, como passos de um lado para o outro, zipers e cabides, a porta do armário. Eram malas sendo feitas às pressas, de maneira impetuosa.
Porém, somente quando o silêncio se apoderou do cômodo eu tive realmente medo, mesmo quando as frias mãos que seguraram ambos os lados do meu rosto quase com dureza eram tão conhecidas, porque a respiração cálida contra meus lábios se movimentou numa palavra muda, que só mais tarde eu entenderia qual era.
O ósculo que ele me deu foi longo de menos, mas salgado de mais.
Eu quis me levantar, mas estava muito fraco e zonzo, não demorei para perder a consciência.
Quando acordei, tive a impressão de escutar cigarras do lado de fora, que junto ao sol do meio-dia que ultrapassava as cortinas me deram a impressão de que já era verão. Tentei me erguer, mas uma voz um tanto rouca me impediu.
– Continue deitado, sua febre ainda não passou. – virei meu rosto, e com certa surpresa vi Near sentado na cama ao lado, montando um quebra-cabeças de leite encima do edredom.
– Near? E... E o Mello? – perguntei muito baixo, quase não tive certeza se ele tinha escutado, me olhou nos olhos, e vi o quão vermelhos estavam os seus. Ele havia chorado.
– Foi embora. L está morto.
“Adeus.”
– Entendo. – respondi depois de um longo momento, ainda incerto do que estava sentindo.
Eu realmente havia me esquecido.
Eu havia me esquecido, o quanto a vida podia ser cruel.
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