Abstrato
14 Monotonia
Notas iniciais
O burburinho das vozes, os corpos se chocando entre si rudemente, o cheiro do cigarro e até algumas coisas mais fortes, a música alta, a fumaça as luzes psicodélicas. Pessoas se jogando na loucura de uma única noite sem arrependimentos, longe de suas vidas chatas. E no meio disso tudo, estava eu, escorado numa parede um pouco mais afastada e mal iluminada. Um casal gemendo à minha esquerda. Fechei meus olhos e passei as mãos no rosto, irritado. Considerei a ideia de acender um cigarro, mas eu já estava aspirando tanto da fumaça dos outros que descartei a possibilidade.
– Matt? – uma sombra se aproximou de mim, se encostando à parede à minha direita, apenas assenti de leve e me foi passado um envelope.
Sem olhar para trás fui até a porta de saída, deixando daquela desprezível boate. Lá fora, com a rajada de ar puro que invadiu os meus pulmões, parte da minha irritação foi embora.
Já haviam se passado quase dois anos desde que eu havia deixado a Wammy’s. Desde que ele havia feito o mesmo. Vez ou outra eu havia mexido alguns pauzinhos para saber sobre seu paradeiro, e por mais que eu tentasse evitar fazer isso, porque era doloroso e sufocante não o ter ao meu lado, era ainda pior não ter noticias suas, mesmo que por outra pessoa.
Desde o fatídico dia em que a pessoa que eu estava no caminho de me tornar foi pisoteada e arruinada sem qualquer humanidade, tudo o que sobrou foi a carcaça vazia e indiferente. Era melhor que eu chorasse todas as noites, como nos primeiros dias, ou tentasse me suicidar, como na primeira semana, mas meses depois em que passei na cama, eu simplesmente me levantei, tomei um banho com suma calma, muito quente, como eu gostava, usei uma quantidade absurda de shampoo e molhei o banheiro inteiro, e então, me vesti, fiz minha mala e antes de partir, me despedi da pessoa que havia, inesperadamente, cuidado de mim esse tempo todo em que eu havia me esquecido como se fazia isso.
Gravei na memória aquele rosto infantil, com a pequena boca entreaberta e um tanto seca, os cílios espessos e trêmulos, ameaçando deixar à mostra os olhos límpidos e claros que eu havia aprendido a gostar. O pequeno corpo estava encolhido fetalmente na cama, por cima das cobertas. Um livro de bolso fechado em seu polegar. Havia adormecido lendo, algo que eu havia descoberto ser muito comum para ele. Tirei o livro de sua mão e dobrei a página para que ele não a perdesse mais tarde, e então busquei uma coberta em seu armário.
Naquela noite, depois de beijar o topo de sua cabeça e murmurar uma despedida entre o seus esbranquiçados fios, estou certo que escutei uma resposta bem simples, mas com um ‘quê’ de preocupação.
Foi assim que terminei num pequeno apartamento-estúdio qualquer nos Estados Unidos, ganhando dinheiro como hacker, seja em grandes corporações ou no mercado negro. Eu ganhava mais dinheiro do que usava, mas eu tinha que estar sempre ocupado. Hackeando, jogando, lendo, vendo televisão. Qualquer coisa que me impedisse de pensar demais em coisas desnecessárias. Mas sempre havia aquele momento, antes de dormir, em que era impossível ter controle do que sinto.
Talvez seja exatamente por isso que eu tenha um par de bolsas escuras debaixo dos olhos e tome mais café do que deveria.
Em meio aos meus devaneios de tempo que não voltam mais, eu havia chegado na estação de metrô que eu precisava pegar para chegar em casa. Entrei no primeiro vagão que vi e mesmo tendo lugar, escolhi ficar de pé. Quando a porta estava para se fechar, uma figura um tanto mais alta do que eu entrou com pressa e ficou praticamente do meu lado, e me perguntei se assim como eu ele preferia não se sentar ou se a parada dele era a próxima. O vagão entrou em movimento e eu apenas fechei os olhos para evitar toda aquela claridade das luzes fluorescentes que já estava me causando dor de cabeça.
O tempo foi passando e eu tentava pensar em todo tipo de coisas sem importância para me distrair do meu tédio e claro, de pensar em coisas inúteis. E então, uma parada antes da minha, a porta se abriu e o estranho ao meu lado saiu, o vento que entrou junto trouxe um cheiro familiar, quase nostálgico.
Não pude reconhecer muito bem, era algo doce, mas não parecia perfume.
Dei de ombros quando finalmente havia chegado e logo sai da estação, caminhando pelas ruas molhadas. Peguei meu isqueiro e o maço de cigarros, e estalei a língua quando percebi que não havia mais nenhum. E eu também estava sem dinheiro físico para comprar uma caixa na máquina próxima de casa. Suspirei e segui meu caminho até finalmente chegar no meu apartamento. Subi no elevador quando meu telefone tocou.
Eu ia desligar quando vi quem era no visor e resolvi atender.
– Matt. – ouvi do outro lado da linha – Como vão as coisas?
– Vão bem, mas acabou meu cigarro. E aí? Algum avanço nas investigações?
– Você realmente deveria parar de fumar. – escutei um suspiro – E estão como sempre, o Yagami não é nada mal.
– Ainda acha que ele é o Kira?
– Se você concordasse em se juntar à investigação, tenho certeza que opinaria o mesmo...
– Vou pensar no seu caso... – dei um pequeno sorriso enquanto saia daquela caixa metálica para finalmente chegar em casa.
– Eu tenho que ir. – o escutei estalar a língua — A incompetência por aqui me assusta, às vezes.
– Certo... – ri – Até a próxima ligação, Near.
– Até. – ouve um breve silêncio em que me perguntei se ele já havia desligado e quase fiz o mesmo – E... Matt?
– Sim?
– Se cuida.
E desligou.
– Você também... – murmurei para o nada e tranquei a porta.
A primeira coisa que fiz, foi ligar a TV. Eu odiava aquele silêncio que tomava conta daquele apartamento vazio, quase literalmente, já que eu só mantinha o necessário em questão de móveis – nem mesa de jantar eu tinha, já que a cozinha era americana. E não havia nenhuma decoração. Mas tinham muitas coisas para entreter espalhadas, desde a estante de livros, quadrinhos, mangás e jogos perfeitamente arrumados cada qual em seu lugar e por ordem alfabética à cadernos e material pra pintura em outro canto.
Liguei a cafeteira e me sentei em meu confortável sofá – uma das poucas coisas que eu havia feito questão de comprar – e liguei meu notebook enquanto abria o envelope dando uma olhada no conteúdo. Era o de sempre, algum mafioso querendo saber com o quê – ou quem – a mulher estava gastando tanto dinheiro.
Há algum tempo em que a minha vida perdeu as cores, como num filme em branco e preto que repete o mesmo jargão dia após dia. Mas no fim, não me interessava, não realmente. Não havia motivo para que eu quisesse mudar a forma como eu vivia. Porque mesmo se eu mudasse, quando eu acordasse na manhã seguinte ainda assim não veria o emaranhado de fios dourados cobrindo aqueles olhos tão profundos quando o próprio oceano.
Então não importava, e as coisas perdiam o sentido ao meu redor, como sempre.
As letras à minha frente se embaralhavam e eu já não conseguia entender uma palavra. Esfreguei meus olhos, mas ainda quando consegui ver direito, ler, não consegui compreender. Havia um zumbido em meus ouvidos. E de forma alguma eu conseguia pensar em algo de forma racional. Como quando você tem muito sono e tenta se concentrar, mas eu estava bem desperto.
Resolvi então que uma boa ducha ajudaria, e me dirigi até o banheiro, me despindo pelo caminho, sem fazer questão de qualquer organização. A água, quente demais, algo normal para mim.
E em algum momento, eu me perdi nas lembranças. A mão que antes ensaboava meu ventre foi descendo. Nós nunca chegamos a ter uma intimidade mais física do que alguns beijos mais quentes e desesperados que outros. Mas eu queria. Queria que ele tivesse me tocados das maneiras mais passionais, que tivesse me marcado com unhas e dentes como de sua posse, que tivesse me quebrado e reconstruído apenas com alguns toques.
E em meio ao calor não só da água quente, mas das lembranças que se misturavam com minha torpe imaginação, eu me toquei, exatamente como gostaria que ele o tivesse feito. Com uma mão em meu sexo e outra na boca, contendo os gemidos que mesmo sabendo que não seriam escutados eu não me atreveria em soltar.
Imaginei suas mãos frias em minha cintura, em meu sexo, sua boca quente na minha, e então no meu pescoço, e descendo, descendo...
Tudo era turvo e parecia que eu estava em algum tipo de sonho tomado por desejos obscuros em que o tempo passava lento e rápido demais.
Então, eu cheguei no ápice, e a satisfação durou apenas os segundos antes de eu me sentir o ser mais sujo e deplorável do mundo, mal senti o sal de minhas lágrimas, mas senti muito bem a gélida parede contra minhas costas que ia escorregando até estar sentado no chão, onde abracei os meus joelhos.
Eu me sentia tão sujo.
Era como se eu tivesse voltado no tempo, e ainda fosse aquele mesmo garotinho assustado que perdera os pais e as memórias. No entanto, quem eu havia perdido parecia absurdamente mais importante. E as memórias estavam ali, quase frescas, me impedindo de amortecer a dor.
Porque eu não queria esquecer, por mais doloroso que seja, a possibilidade de apagar tudo o que aconteceu, tudo o que me tornei e deixei de me tornar, parecia ainda pior.
Não tenho ideia de quanto tempo fiquei debaixo da água, encolhido, apenas que meus dedos estavam muito enrugados quando finalmente me enrolei numa toalha e saí. E eu não havia percebido nada de errado, até que vi uma sombra perto do balcão da cozinha. Eu estava nu e desarmado, e antes que pudesse bolar um plano ou sequer entrar em pânico, pude ver dois olhos carmesim muito familiares brilharem na pouca luz.
E assim, sem mais nem menos, vi também a monotonia que minha vida havia se tornado ganhar uma nova cor. Eu só não estava certo se o vermelho que eu tanto odiava traria algo de bom.
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