Abstrato

7 Cicatrizes (revisado até aqui)


Notas iniciais
Primeira atualização rápida! Como diria o nyah!: "Yey!" Bom, esse foi até... Bem chatinho? Mas acho que finalmente veremos um Matt menos depressivo, para variar~ E, estreando: L e Watari! Boa leitura Revisado -> 10/10/17

Quando recobrei minha consciência, a primeira coisa que senti foi uma corrente de ar puro e fresco. Percebi apenas pelo cheiro horrível de anticéptico que eu não estava em minha própria cama, mas que também não estava em um hospital porque conseguia escutar as crianças brincando de longe. Ainda estava no orfanato, então. O que provavelmente era um bom sinal, já que se eu tivesse sido gravemente ferido estaria internado em outro lugar.

Ainda de olhos fechados comecei a recobrar a memória do que tinha acontecido antes de eu perder a consciência. Senti como meu coração se acelerava e certamente se tivesse algum aparelho medindo meus batimentos cardíacos, estaria apitando como louco no momento. Não conseguia tirar da minha cabeça a imagem daqueles olhos vermelhos me observando.

Tão diferentes dos olhos azuis que eu estava tão acostumado a olhar que chegava a ser perturbador. Se os dois poços de sinceridade de Mello eram como o céu, então as duas rubis de sangue daquele perigoso desconhecido eram como o inferno. Abri meus próprios olhos, precisando focar minha visão em qualquer coisa que me distraísse daquela imagem mental.

“O menino acordou.” falou uma voz feminina num tom quase maternal, eu tossi um pouco e foquei minha visão na mulher que reconheci como sendo a enfermeira, tinha os traços orientais e o cabelos negros presos num coque frouxo “Vou buscar água para você, querido.”dito isso, saiu do meu campo de visão.

Encarei o teto com a mente em branco por alguns segundos, apenas identificando de onde vinham as dores que eu sentia, a parte de trás da minha cabeça, minhas costas e... Minha boca? Talvez eu tivesse mordido em meio ao nervosismo? Realmente não lembrava. Fechei os olhos e massageei minha pálpebras, e quando tornei a abri-los quase tive uma parada cardíaca, um jovem idêntico ao assassino estava me observando, mas seus olhos eram tão negros que eu não sabia onde ficava a retina. Demorei uns bons segundo até perceber de quem se tratava.

“Éle?” minha voz saiu rouca demais e tentei limpar a garganta, mas logo em seguida ele me estendeu um copo d’água, me ajeitei melhor na cama para não me engasgar com o líquido “Obrigado.”

“Como se sente, Matt?” se sentou daquele jeito tão dele na cadeira ao lado da cama.

“Um pouco dolorido, mas bem, obrigado.” respondi educadamente, sem ter certeza do que mais dizer ou como me comportar na frente da pessoa que deveria ser o nosso modelo de vida.

Ficamos em silêncio por alguns momentos, e os silêncios com L nunca eram constrangedores, talvez porque desde pequeno sempre que o via fosse assim, uma confortável falta de palavras. O detetive à minha frente era cheio de peculiaridades, talvez como todo e qualquer gênio por aí, e era difícil de acreditar que ele era o melhor detetive do mundo às vezes, isso é, até que abrisse a boca.

Sempre foi muito cauteloso sobre sua identidade perante o mundo, porém sempre que visitava o orfanato, andava livremente pelos corredores sem se importar que todos saibam quem ele é, mesmo que não soubéssemos seu verdadeiro nome, talvez para nossa própria segurança. Muitos aqui o consideravam inclusive como um irmão mais velho ou objeto supremo de admiração, esse era o caso de Mello, com ambas as coisas, e de Near também por mais que ele não demonstrasse muito – ou talvez seu jeito fosse a maior prova.

No meu caso, eu também o admirava, talvez não tanto quanto os outros, mas gostava de sua presença. Trazia uma estranha segurança e familiaridade, talvez pela forma casual com que eu sempre fui tratado por ele, às vezes eu recebia algum presente dele sem aviso, e não era o único. Eu achava incrível como ele conseguia lembrar de cada uma das ‘crianças Wammy’s’ e de seus interesses.

“Você se lembra do que aconteceu?”

“Eu...“ gostaria que não “Lembro. Lembro, sim.”

“Você pode me contar?”

“L…” falou uma voz em tom de aviso atrás dele “Deixe o garoto descansar, ele passou por muito noite passada.”

Watari. Ah, como senti falta desse velhinho. Ele quem havia me levado à Wammy’s, então, de certa forma, eu meio que sentia algo especial em relação ao idoso.

”Watari.” sorri, cumprimentando “Pode deixar, eu estou bem.”

“Matt.” afagou meus cabelos ao se aproximar “Tem certeza? L pode ser bem... Inconveniente quanto às perguntas.”

Watari era o único que podia tratar o grande L como criança, e não vou mentir, era bem cômico.

“Sim, tenho.” quanto antes, melhor.

Primeiro relatei com a maior quantidade de detalhes, do momento em que Roger havia passado avisando para nos trancarmos em nosso quarto – corando um pouco ao lembrar do que havia acontecido entre eu e Mello antes daquilo – até o momento em que tropecei... Engoli um caroço ao dizer essa parte, em que tropecei na Sra.Smith, um pouco envergonhado, não deixei de fora como ele tocou meu rosto e... Acariciou seria a palavra certa? Acho que não... Bom, em que ele ‘brincou’ com o meu cabelo.

“Então ele tocou em você, mas não o machucou?” perguntou pensativo, com um dedo na boca, apenas assenti “Ele disse alguma coisa?”

“Ele…” pensei um pouco “Ele disse algo sobre nos vermos de novo e... Ah, meu deus.” arregalei os olhos “Eu... Eu acho que disse meu nome para ele!” uma pontada de pânico me atingiu, e tive que respirar fundo, mas só me acalmei quando ele colocou a mão em meu peito.

“Calma, tudo bem.” me confortou de forma meio desajeitada “Tudo bem.”

“L... Quem era ele? O que ele queria?”

“Você deve conhecer o famoso serial killer, Beyond Birthday, não?” finalmente respondeu depois de alguns minutos de silêncio.

“Sim... Ele... Era ele?” perguntei surpreso.

“Sim. Ele morou aqui muitos anos atrás, antes de... Ficar obcecado com algumas coisas e se tornar o que é hoje. Ele quem causou a queda de energia de ontem, e, aparentemente ele só queria buscar alguma coisa em seu antigo quarto, que ele arrombou com um chute, mesmo que estivesse estranhamente destrancado…” olhou para mim com um pequeno sorriso, e eu sabia bem de que quarto ele estava falando.

“Me desculpe…” murmurei e ele apenas negou a cabeça tirando a importância do assunto.

“Não sabemos o que ele queria, quando ele deixou o orfanato limpamos o quarto e aparentemente não havia nada de especial ou…” foi interrompido pelo som da porta sendo aberta com fúria.

Um Mello – e não há melhor palavra a se usar – muito puto, passou pela entrada parecendo que iria quebrar tudo e todos no seu caminho se o impedissem de passar, pareceu nem perceber que a pessoa que mais respeitava no mundo – L – estava no quarto.

“Por que ninguém me avisou que ele está acordado?!” gritou para o nada e apontou para mim, que me encolhi entre os lençóis “Você! Mai... Matt!”tenho certeza que ele quase gritou meu nome inteiro “Seu filho da puta! Você estava querendo morrer ontem?! Ãh?!”

“É melhor deixarmos os dois conversarem, L. “Watari falou em meio às calúnias que o chocólatra gritava, e quando percebi, até a enfermeira havia saído.

“Mello, eu…” Olhei a forma como suas sobrancelhas ficavam franzidas, o rosto um pouco corado, os lábios contraído em desgosto. Lindo. Tão belo e perfeito que não aguentei. Toda a tensão e nervosismo que eu havia passado, todo o medo... Foi tudo tão ruim que vê-lo na minha frente, mesmo furioso, me fez... Rir.

É, comecei a rir feito um retardado mental enquanto ele xingava e xingava mais. Ele gritava e eu ria até minhas entranhas doerem, até que ele parou, suspirou, negou com a cabeça e sorriu. E eu não conseguia parar de dar risadas, eu estava com dificuldade de respirar inclusive, mas não conseguia parar.

Era como se minha alma tivesse sido lavada. É irônico, mas eu tinha passado tanto tempo pensando em sumir desse mundo que quando isso quase aconteceu, eu percebi que queria tentar um pouco mais, testar se havia algo bom me esperando no futuro.

Alguns bons minutos depois quando consegui me acalmar, Mello ainda sorria, com uma sobrancelha erguida como se eu finalmente tivesse perdido a cabeça. Apenas sorri de volta, um pouco corado e me sentindo meio ridículo pela cena. Mas, hey, eu havia passado por uma tentativa de assassinato... Ou não, mas eu realmente não queria pensar sobre coisas complicadas naquele momento.

Mello se sentou na beirada da cama, com o corpo virado para mim me puxou para um abraço um pouco desengonçado pela posição de nossos corpo. Aspirei seu cheiro, e incrivelmente não detectei nada doce. Nada de cacau ao leite. Apenas... O suave perfume masculino que eu provavelmente sentiria mais se ele não tivesse essa paixão que ele tem por chocolates.

Era novo e diferente do familiar cheiro açucarado, mas eu gostava.

“Eu estava tão preocupado que não consegui nem comer chocolate... Se sinta importante, Mail Jeevas.” sorri.

“Ah, sim? Então o que você vai fazer quando eu morrer?”

“Nem brinque com isso, Matty. Você sabe como eu me senti quando vi você desacord-”

Não terminou, eu não deixei. Acho que simplesmente estava cansado das coisas sérias e tristes da vida. Cansado de ser eu. Eu queria mudanças, mas nunca antes tinha realmente me empenhado em mudar, e só percebi isso quando poderia ter sido tarde demais para consertar qualquer coisa.

‘É, talvez eu possa mudar’ foi o que eu pensei, quando colei meus lábios aos da pessoa que por tantos anos considerei a perfeição esculpida na carne – e sei que sempre seria assim – com meu lábio inferior dolorido por motivos ainda desconhecidos, e ironicamente isso só deixou o beijo – sim, beijo porque eu estava sendo correspondido – ainda mais prazeroso por minha boca estar sensível.

Ou talvez seja meu masoquismo eminente e sempre iminente.

E eu poderia passar a eternidade me deleitando com a perfeitamente desenhada boca de Mello, mas não conseguiria nem metade disso se deixasse de respirar, então nossas bocas se separaram apenas para se encontrarem novamente num selar meio estalado e inexperiente. Encostou sua testa à minha e deixou um sorriso tímido à mostra, provavelmente muito mais bonito que o meu largo e cheio de dentes.

Então, pela primeira vez na minha vida, eu senti que tudo estava certo.

Que todas as minhas feridas poderiam cicatrizar.

.

.

.

A água quente do chuveiro havia ajudado muito na questão das minhas dores e hematomas, eu me sentia imensamente melhor depois de um bom banho, agora só faltava tirar o gosto de sangue que eu ainda podia sentir, e me sentiria realmente renovado, se é que isso era possível depois de eu não ter evitado olhar para minhas cicatrizes e apenas ter aceitado elas como algo do passado que me fizeram mais forte.

Por falar nisso, eu ainda não sabia o que estava causando esta incomoda dor, eu havia deduzido que tinha me mordido ao desmaiar na noite anterior, mas não tinha visto o estrago ainda.

Passei uma mão pelo vidro embaçado do espelho, e olhei o meu reflexo nele. Não senti nojo ou repulsa como sempre o fazia. Era apenas... Eu. Sem mais, e sem menos que isso. Eu.

Sorri e então com o polegar e o indicador abaixei meu lábio inferior na tentativa ver o lado de dentro. Demorei um pouco para entender o que eram aqueles símbolos, até que identifiquei que, na verdade, eram letras, e por estarem invertidas dificultava a compreensão.

“J.E.”

Um “J” e um “E” em uma perfeita letra cursiva. Caligrafia impecável.

Provavelmente a abreviação de um nome. Do verdadeiro nome de Beyond Birthday.

Isso era tão estranho e... Chocante? Eu simplesmente não sabia o que sentir à respeito, e tinha alguma noção longínqua de que deveria contar sobre isso a alguém. Mas sentia o peculiar impulso de ir contra esta noção.

No entanto, tudo o que consegui fazer foi passar minha língua, sentindo a diferença de relevo junto a um pouco mais do gosto metálico do líquido carmim. E apenas uma coisa parecia importante.

Será que deixaria cicatriz?

Não apenas na pele. As cicatrizes marcadas no físico, geralmente são as menos importantes. Mas as emocionais, psicológicas... Essas sim podem mudar uma pessoa. Às vezes, criamos uma síndrome de Estocolmo pelos causadores dessas feridas que só se fecham o bastante para que o sangue deixe de escorrer.

Então, novamente, será que deixará cicatriz?

Notas finais
Eu estava tão ansiosa em postar, que nem ao menos dei uma revisão decente >w< Me perdoem, como sempre, pelos erros e me deixem saber sobre eles, assim posso consertar