Abril, 1912 - Brittana
8 Ponderação
POV Santana
Talvez, eu tivesse sido cruel demais com Brittany. À mesa do café da manhã, não conseguia parar de pensar na noite anterior. Pensava na festa. Na dança. Nas conversas. No abraço. No beijo.
Eu nunca havia me sentido tão bem em anos.
De repente, minhas correntes soltaram-se com ela.
Isso era bom.
Isso era terrível.
Era tudo em um. Bom, porque eu me sentia livre e autêntica. Terrível, pois eu estava me comportando inadequadamente, além da conta. Tendo devaneios acordada não com o Sr. Pierce, como Quinn achava, mas sim com a Srta. Pierce. Não podia evitar. Sem redenção alguma para mim.
Eu queria falar com ela de novo.
Eu precisava.
Mesmo com todos os obstáculos.
Sebastian estava sério, na cadeira à frente. Eu levei minha xícara de chá aos lábios. Não tinha certeza se ele já havia aberto a boca para falar ou não, e honestamente, não fazia a mínima diferença.
— Eu tinha esperanças que fosse me ver ontem, antes de ir dormir. — Ele insinuou. — Pensei que tivesse pensado com carinho naquilo que conversamos, sobre abrir seu coração...
— Estava cansada.
Ele levantou as sobrancelhas.
— Oh, claro, o esforço que fez no salão de vermes, sem dúvidas, deve ter sido cansativo.
Típico, ele tinha um espião. Eu poderia imaginar facilmente qual de seus capatazes era. Na verdade, tinha plena certeza.
— Vejo que mandou o Kenneth me seguir...
— Você nunca mais vai se comportar desta maneira, Santana. — Sebastian ordenou, batendo na mesa. — Entendeu?!
Quem era ele para achar que mandava em mim? Aquele boçal, estúpido, herdeiro superficial, vazio de alma. Eu estava cansada de ter que ver a sua face, sentir sua presença, e ouvir sua maldita voz.
— Não sou um de seus criados para obedecer você, Sebastian. — Rebati devolvendo a xícara a mesa, o encarando furiosa. — Sou sua noiva!
— Minha noiva... — Ele pronunciou num sussurro, e aí levantou brutamente de seu assento, me assustando. — Sim, minha noiva! Você é minha! E vai ser minha esposa, logo! — O Smythe revirou a mesa, jogando todo o café da manhã no chão, correu pisando forte no assoalho e se apoiou nas laterais de minha cadeira aos gritos. — Por isso deve me respeitar! Ouviu?! Deve me respeitar como uma esposa respeita o marido!
Ele pôs as mãos no meu braço, chacoalhando-me.
— Eu poderia ser igual ao Biff, mas não sou! Tem muita sorte, Santana! Muita! Porém, as coisas podem mudar aqui... Você está me tirando do sério... Eu sou um homem que não admite desaforo por muito tempo... Eu posso ser pior que ele. Bem pior... Você não faz ideia... — Sebastian aproximou o rosto do meu, ao passo que afundava seus dedos em minha pele. — Alguma dúvida disso?
Eu sentia que ele iria me bater a qualquer momento. Não conseguia me mexer, nem piscar os olhos. Engoli a seco e neguei.
— Boa menina. — Ele me beijou a força e deu-me as costas depois. — Agora, com licença.
Meus braços e pernas tremiam. Olhei para o espaço, e vi todas aquelas coisas quebradas no chão. Toda a louça. Sebastian poderia ter feito o mesmo comigo. Porque para ele, eu não me distanciava tanto daquela mesa jogada para o alto e toda a prataria estilhaçada.
Eu tinha nojo dele.
E medo.
Mas, nada superava meu asco.
Limpei a boca e comecei a sentir tontura, a visão turva. Levantei da cadeira, apenas quando me certifiquei de estar sozinha no cômodo. Precisava ocupar a cabeça. Qualquer coisa para não chorar.
Passei a recolher os cacos da louça no chão, foi quando Rachel apareceu.
— Srta. Lopez... O que houve?
— Nós só... Tivemos um pequeno acidente, Rachel.
— Tudo bem, pode deixar... — Ela tirou os cacos da minha mão. — Eu limpo.
— Desculpa...
— Tá tudo bem.
— Deixe-me ajudá-la... — Eu continuei pegando a louça partida. — Sim?
A Berry segurou meu braço, mas eu insisti.
— Santana... Santana... Tá tudo bem.
— Ok...
Eu sentei-me no chão, me entregando as estúpidas lágrimas que queriam sair dos meus olhos e ela me abraçou, sem se importar.
— Tá tudo bem... — Repetiu. — Fica calma.
(...)
Minha mãe apertava aquele espartilho do vestido o máximo que conseguia no meu corpo, e eu olhava meu reflexo apático no espelho enquanto ela o fazia, deixando-me sem ar.
Iríamos para a missa matinal em um espaço do navio, em breve.
O aperto no corset estava um pouco fora do normal. Maribel queria me punir. Dava para notar.
— Sebastian e eu conversamos... E ele foi muito claro. Não pode mais se encontrar com aquele rapaz da terceira classe. Nunca mais. — Ela se manifestou incomodada, e eu ignorei. — Santana, está proibida de encontrá-lo. Proibida. Ouviu?!
— Dane-se.
Ela me virou violentamente para trás, fincando as unhas nos meus braços.
— Isso não é uma brincadeira. Nossa situação é precária. Sabe que todo o dinheiro se foi.
— Claro que eu sei! — Puxei meu braço para longe. — Você faz questão de me lembrar disso todo santo dia.
— Seu pai não nos deixou nada, além do bom nome e dívidas. Esse bom nome é a única carta que temos para jogar e você quer jogá-lo fora. Não vê? — Ela me encarava, irada. — Será um bom casamento com o Sebastian, garantirá nossa sobrevivência. Ele é um bom homem, gosta de você. O que há errado? Diga de uma vez por todas!
— O que há de errado? — Minhas sobrancelhas franziram-se. — Eu o odeio, mamãe! Como pôde me vender dessa forma?! Como?
— Ora, por que é tão egoísta assim?!
Choquei-me com sua hipocrisia.
— Eu sou a egoísta?! Sério? Eu?
Maribel olhou profundamente para mim, fazendo-se de vítima.
— Quer ver sua mãe trabalhando como costureira? Ou pior? É o que quer? Ver-nos pedindo esmola nas ruas? Ver nossas coisas sendo vendidas em um leilão? Nossas lembranças espalhadas e perdidas ao vento? Nosso nome sendo jogado no ralo?
Ela começou a chorar, virando-se para outro lado.
— Droga... — Eu disse, apertando as mãos. — Isso é tão injusto.
— Claro que é injusto! — Maribel retornou o contato visual. — Somos mulheres. Nossas escolhas nunca são fáceis. Por isso precisamos dançar conforme a música.
Ela me deu um beijo na bochecha e continuou a amarrar o espartilho em meu corpo.
— Apenas, fique na linha minha filha. E lembre-se, eu te amo. Não se esqueça.
Isso tudo, fez-me pensar em Brittany e sua farsa. Não sabia o motivo exato para seu disfarce, mas o discurso de Maribel fora esclarecedor. Nenhuma mulher estava livre de opressão.
Em todas as classes, éramos sujeitas.
Não havia muitas opções.
O melhor então era seguir as regras, ou se fantasiar de homem para sobreviver. E, eu não tinha tanta coragem como Brittany para a segunda opção. Teria que me conformar com a primeira, como Quinn.
Dessa forma... Era melhor que eu e a Pierce não nos víssemos mais.
Santana Di’Abla Lopez estava morta.
Santana Smythe acabara de nascer.
POV Brittany
Por mais que Santana não quisesse mais me ver, eu precisava falar com ela outra vez. Uma última vez, ao menos. Queria ter certeza de que ela não perdesse as esperanças no mundo. Apesar de tudo, a vida tinha valor.
Não me importava ela me odiar.
Importava-me ela fazer a vida dela valer a pena. Seguir firme.
Sempre firme.
Independente de qualquer empecilho.
Após vestir o terno que Mercedes dera a Sam, passei para o setor da primeira classe, e estranhei a despovoação do lugar. Talvez, os grã-finos estivessem no salão de jantar, ou em alguma sala ao redor do grande saguão.
Eu não queria chamar atenção de ninguém, por isso me certifiquei de ir com vestes “adequadas” ao lugar e, porventura, expor muito meu rosto trouxesse problemas, então, peguei emprestado um chapéu qualquer de um sujeito da primeira classe que o deixara sozinho num assento e cobri a cabeça. Só queria falar com Santana, exclusivamente ela.
Desci as escadas do relógio e vi o Sr. Howell, mas preferi não cumprimentá-lo. Quando terminei o lance de degraus, avistei o mesmo porteiro do jantar, unido a outros homens em frente a uma porta de vidro. Consegui enxergar Santana lá dentro, cantando em coro com o resto do pessoal. Aproximei-me, eu não atrapalharia se tirasse ela de lá, não era uma missa dominical.
Abaixei o rosto e passei pelos homens, me entrosando em meio aos fiéis, de olhos em Santana. Sua companhia não era das melhores, quando Sebastian e sua mãe estivessem longe, eu a levaria para algum lugar. Mas, por enquanto, só me restava esperar.
POV Santana
Depois da missa matutina daquele sábado, Maribel e Sebastian propuseram passear pelo navio, para avaliar os pontos, com guias e tudo, e eu só pensava onde Quinn se encontrava, pois não havia nem sinal dela ou Biff por lá.
E eles nunca faltavam a missas.
Normalmente, Quinn era a pessoa que se mostrava viva.
Dessa vez, não.
Eu estava um pouco preocupada em relação a isso, o maldito marido de Lucy não apreciava que ninguém batesse em sua porta, mas eu deveria ter o feito.
À medida que a sala se esvaziava, e meu noivo e mamãe já não eram mais visíveis, senti alguém me cutucar. Inesperadamente, me virei e dei de encontro com Brittany. Espantei-me de imediato, não achava que a veria de novo. Nem era para eu ver. Ela me puxou para dentro de uma porta ao fundo da sala, pedindo silêncio.
E eu fui.
Como se não tivesse controle.
Repentinamente, me dei conta do que estava deixando acontecer e a tensão tomou conta do meu corpo.
— Brittany, isso é impossível... — Evitei olhá-la nos olhos, esquivando-me. — Não podemos nos ver, já disse.
Ela fechou a porta e veio até mim.
— Quero conversar com você direito, ok?
— Não dá... — Comecei a ir em direção a porta e ela segurou minha mão. — Eu preciso ir, me solta.
— Por favor, Santana...
Afastei-me.
— Brittany, eu estou noiva. Vou casar com o Sebastian. Eu amo o Sebastian.
— Não ama...
— Amo sim!
Olhos azuis cerraram-se.
— Santana, você é uma garota bem complicada, né? — Ela pôs uma mão em minha bochecha, acariciando minha pele. — Eu estive com você de verdade ontem e...
Desviei o olhar e me esquivei, outra vez.
— Brittany, para, eu...
— Não, espera... — Ela me segurou. — Deixe-me tentar dizer isso.
Eu gelei, encarando-a.
— Isso o que?
Ela respirou fundo, tentando encontrar palavras.
— Veja, eu não sou idiota. Sei como o mundo funciona. Sei que ninguém iria aceitar. Sei que é loucura. Sou uma garota disfarçada de homem, pobre e não tenho nada a lhe oferecer. Sei disso. Eu entendo. Mesmo. Mas... — Ela deu alguns passos até mim, e eu estremeci. — Você é uma das melhores pessoas por qual já passou pela minha vida. Se não, a melhor. É linda, impressionante, incrível e tão vivaz. Eu estou muito envolvida agora. Entende? Se você pular, eu pulo. Não posso virar as costas sem saber se ficará bem. É tudo o que eu quero. Por favor, diga algo.
Eu não estava bem. Mas, como Quinn poderia fingir isso. Eu poderia.
— Estou bem... — Menti, evitando olhos azuis. — Eu ficarei bem. Mesmo.
— Mesmo, Santana? — Calei-me, trocando olhares com ela. — Então, me responde, por que eu acho que não?
Continuei quieta.
— Eles te prenderam em uma gaiola. E vai morrer se não se libertar de verdade. Talvez, não agora. Porque você é forte. Mas, cedo ou tarde, essa luz que adoro em você se apagará.
Ela passou um polegar na minha face. Eu odiava chorar, mas era o que eu mais queria e fazia ultimamente. Porém, era impossível.
Nós éramos o impossível.
— Minha salvação não depende de você, Brittany.
— Está certa. Não depende. Só você pode se salvar.
Eu alcancei sua mão no meu rosto e a afastei, mal por fazê-lo.
— Eu preciso voltar... Deixe-me em paz.
Saí de lá e não olhei para trás, senão correria o risco de ficar. Apressei-me, e encontrei um grupo de pessoas sendo guiadas e informadas de coisas sobre o Titanic. Maribel me enviou um sorriso, feliz por eu ter aparecido, e Sebastian estava ocupado demais para perceber que eu havia sumido uns minutos, graças a Deus. Aproveitei disso para tirar algumas duvidas (que me incomodavam) sobre o navio com o cara por trás do projeto, Carl Howell. Nada melhor para ocupar a mente e esquecer meu encontro com a Pierce.
— Sr. Howell, me desculpe... Mas, fiz a conta de cabeça e com o número de botes salva-vidas que mencionou, e a capacidade que disse que eles têm, parece que não há espaço para todos a bordo.
Ele sorriu e parou de caminhar.
— Apenas para a metade, na verdade. — Carl assemelhava-se contente. — Santana, você não deixa passar nada, não é? A princípio, desenhei o corredor largo desse jeito para levar uma fileira a mais de botes dentro do Titanic. Mas, alguns acharam que o deque ficaria lotado demais. Então, minha ideia de equipar o navio devidamente foi rejeitada.
Sebastian bateu em um dos botes com sua bengala de madeira.
— De fato seria um desperdício de espaço... — Riu. — Esse navio é inafundável.
— Pois é. Bom, não há com o que se preocupar, Santana. — Howell afirmou, com um sorriso sem graça. — Construí um bom navio, firme e forte. Os botes são só um enfeite obrigatório.
Eu esperava que fossem mesmo.
— Continuem indo para a popa. A próxima parada é a casa das máquinas. Vão adorar!
(...)
No meio do almoço, Maribel começou a contar as outras senhoras sobre os preparativos do meu casamento. Sobre tudo que ela detestava, em específico. Era sua parte favorita de falar.
Detesto isso.
Detesto aquilo.
Santana escolheu tal coisa, pois sabe que eu detesto. Claro, exatamente por isso mamãe. Será que era isso que ela queria ouvir?
Olhei para uma mesa próxima, ignorando a voz das pessoas ao meu entorno. Vi uma menina sendo ensinada, pela mãe, a se portar como uma dama sentada à cadeira. Enxerguei muito de mim naquela figura.
Triste.
Talvez, eu não precisasse deixar de ser eu.
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