Abril, 1912 - Brittana
9 Conciliação
Notas iniciais
POV Brittany
Após Santana me dispensar, eu encaminhei-me quase que automaticamente da primeira classe até a proa do navio. Gostava daquele lugar, não existiam pessoas de classe alguma por perto. De fato, era incomum alguém ter concreta coragem de chegar até onde eu estava. Esplêndido.
Era um porto seguro para a minha pessoa.
Não havia golfinhos saltando no mar no momento, mas continuava sendo um ótimo lugar. O tempo passava rápido ali... Mas, não dessa vez. Meus pensamentos não me deixavam em paz.
Contar carneiros, nuvens -ou qualquer outra coisa- era inútil.
Santana ficará bem, eu repetia a mim.
Ela tinha que ficar.
Eu não ousava tirar os olhos um segundo sequer do oceano, sabia que o tempo estava passando. O Titanic andando. A Europa para trás, a América cada vez mais próxima. E eu, já não sabia mais como me sentir em relação a isso, ou a nada. Santana era a única coisa que me passava pela cabeça. O que estava acontecendo comigo? Eu mal a conhecia.
Ela é forte, Brittany.
Daria tudo certo. Ela não precisava de mim. Suspirei, segurando vigorosamente o corrimão da amurada. Eu poderia gritar, a qualquer instante. Quiça ajudasse.
Quanto tempo eu já estava ali?
Repentinamente, ouvi passos chegarem perto.
— Brittany... — A voz de Santana ecoou ao fundo, eu mal acreditava. Corri e virei-me para vê-la. Ela sorriu de volta para mim, com as mãos unidas em frente ao corpo e prosseguiu: — Eu pensei melhor e mudei de ideia.
Ela estava sem graça. E eu, sem saber como proceder. Só conseguia sorrir que nem boba em sua direção, à proporção em que ela se colocava avante a mim.
— Santana...
— Sam disse que você poderia estar aqui em cima, então...
— Shh... — Eu estiquei o braço. — Apenas, me dê a sua mão.
Ela o fez, sem pestanejar.
— Quero lhe mostrar uma coisa... Feche os olhos.
Santana pareceu relutar e mesmo assim, fez o que pedi. Segurei a cintura dela, e a conduzi para frente.
— Dê mais um passo. Agora, segure na amurada. — Me posicionei atrás de seu corpo. — Não vale espiar, hein?
— Não estou espiando!
— Suba no parapeito. Segure-se firme. — A ajudei, indo logo atrás. — Olhos fechadinhos.
Ela riu.
— Vai demorar muito?
— Tenha calma.
— Ok...
Eu alcancei suas mãos e comecei a erguê-las para os lados, junto as minhas.
— Muito bem, não se assuste... — Eu deixei seus braços no ar e envolvi sua cintura em meus braços. — Abra os olhos.
— E-Estou voando. Brittany, eu estou voando! Nossa...
Ela tinha gostado. Que bom. Era o lugar mais bonito do Titanic. E ela... A pessoa.
Voltei a pegar suas mãos e entrelacei-as as minhas.
Meu rosto estava perto de sua orelha, eu conseguia sentir o cheiro doce de seus cabelos negros expelindo aos ares.
Comecei a cantarolar e Santana riu.
Depois de alguns segundos, trouxe seus braços para baixo junto aos meus e ela, sem sair daquela posição, virou o rosto para trás, sem pressa. Ela estava tão próxima. Sua respiração tão perceptível invadindo meus pulmões. A gravidade insistindo em me empurrar em um único sentido, o dela. O brilho de seus olhos castanhos refletindo luz, e uma pontada demasiada no meu coração.
Eu poderia ser a pessoa a beijá-la primeiro, dessa vez.
E eu estava quase o fazendo.
Os meus olhos foram parar em seus lábios e eu não pude mais ficar parada ali, me aproximei. Temia que ela me rejeitasse. Mas, eu já não tinha mais controle do que meu corpo estava fazendo. Meu receio não me barrou. Francamente, nada poderia me barrar.
Num surto de sentimentos, me senti extremamente destemida.
E nos beijamos, outra vez. Santana levou uma mão para trás e segurou em meus cabelos. Eu continuei com as mãos no mesmo lugar, puxando seu físico para mais perto.
Esse desejo era novo, era ardente. Era a melhor coisa do mundo.
A melhor.
Logo, ela se virou para mim completamente.
POV Santana
Eu poderia ficar conversando com Brittany por horas, que pareceriam ser apenas alguns minutos. O sol já quase não estava presente entre nós. Eu achava-me sentada no assoalho, de frente para ela, ao lado da amurada da proa do Titanic, onde tínhamos nos beijado pela segunda vez. E terceira. E quarta... Por mim, eu não voltaria aos meus aposentos nunca.
Nem ela.
— Diga-me, como foi que você e Quinn se conheceram mesmo?
— Ah, foi na infância. Estudamos juntas. Ela é minha amiga mais próxima. Nunca imaginei que aquela Lucy Quinn Fabray pudesse se casar com um homem feito o Biff e aconteceu... Sebastian é muito próximo dele. E muito parecido também. Mas, talvez um pouco melhor de caráter. Se é que isso é possível... A propósito, foi assim que minha mãe armou o casamento. Ela sempre está estudando terreno. Sempre.
— Caramba... O mundo de vocês é complicado demais.
— Huh, conte-me uma novidade. — Rimos. — Mas, então, estou curiosa, qual é a verdadeira história por trás do seu disfarce?
— A verdadeira história?
Eu balancei a cabeça.
— Sou procurada pela polícia inglesa.
Pasmei-me. Polícia? Brittany, uma criminosa? Não era possível.
— Quê? Procurada pela polícia? Está brincando, certo?
— Eu queria estar, mas é verdade. Eu e Sam somos. Por agressão e roubo.
— Como... Como isso aconteceu?
— Bom... — Ela cruzou as pernas. — A família que nos adotou era muito abusiva. Então, eu quis fugir. Não aguentava mais aquilo, como você na quinta-feira em relação a seu mundo. Porém, nunca me passou pela cabeça suicídio. Eu queria liberdade, não um fim para mim. Ver as notícias do RMS Titanic nos jornais me deu forças para decidir ir embora de vez, sem olhar para trás. O Reino Unido nunca foi meu lar, não havia motivos para eu permanecer sofrendo lá. Aí, eu conversei com Sam e nós marcamos um dia para fugir, e esse dia foi no nosso aniversário de dezessete anos. Eu e ele juntamos a quantia de dinheiro de todo o nosso trabalho. Só que, no dia da fuga, Paul nos pegou no flagra e começou a agredir o Sam. Minha única saída foi acertar um vaso na cabeça do homem. Dois dias depois, vimos cartazes nossos pendurados pelos cantos da cidade.
— Nossa, eu nem imaginava...
— Está tudo bem, já passou. Nova York é a única coisa que vejo agora.
Eu sorri.
— Isso é bom, Brittany. Muito bom.
— Ahn, aliás, tem mais outra coisa que vejo... Você.
— De novo?
Ela riu e se aproximou, dando-me um beijo.
— Sabe a diferença desta vez?
Neguei.
— Eu não vejo tristeza. Vejo a Santana de verdade. A que eu tinha fé que voltaria a brilhar. A mesma que dançou comigo. A mesma que me beijou...
— Santana Di’Abla Lopez, não “Santana Smythe”, você quer dizer.
— Exato... — Ela riu e acariciou minha bochecha. — É ela que eu vejo.
Eu sorri e fiquei séria logo depois, convicta sobre tudo o que eu pensara nas últimas horas.
— Brittany... Quando esse navio ancorar, eu vou ir embora com você. — Confessei.
— Isso é loucura...
— É mesmo... É por isso que confio nisso.
De súbito, ouvimos barulhos de trompetes indicando o horário do jantar. Meu tempo com Brittany havia acabado... Por enquanto. Se fossemos discretas dentro do navio, poderíamos continuar a nos encontrar.
Uma distância se estabeleceu entre nós, e esperamos o sinal silenciar-se.
— Parece que eu preciso ir... — Manifestei-me. — Ainda preciso ser a noiva de Sebastian aqui dentro, para nós ficarmos longe de problemas.
Chateada, ela baixou a visão e assentiu.
— Boa noite, Santana.
— Nos vemos amanhã? — Indaguei-a, esperançosa.
— Com certeza.
Ponderei sobre mamãe, Sebastian e Quinn, novamente.
— Não poderei furar o chá da tarde como hoje.
— Entendo...
— Aqui, ao pôr do sol, então? — Sugeri.
— Tá marcado.
Ela sorriu e eu imitei-a me inclinando para beijá-la. No mesmo instante, Brittany segurou meu rosto e entendeu. E assim, nos despedimos.
Ao passo que entrei na área da primeira classe, Quinn apareceu das sombras e me puxou junto a ela, às pressas.
— Ah, finalmente Sant! — Ela pronunciou. — Sua mãe está te procurando, não é nada fácil despistá-la...
— Imagino. Desculpe-me por isso, Quinnie. Demorei um pouco mais do que havia planejado.
— Tudo bem, só finja que estava fazendo qualquer coisa, menos se encontrando com Brittan. Rachel está nos dando cobertura, todavia temo que ela não consiga manter Maribel estagnada por muito tempo em seu quarto, por isso precisamos correr até os aposentos de Mercedes. É lá que eu disse que você se encontrava, então é para lá que estamos indo. Não se preocupe. A Jones já está a par de tudo, avisei-a com antecedência. Alguma pergunta?
— Não... — Lucy pensava em tudo nos mínimos detalhes e eu nem sabia como agradecê-la. Em algum lugar, seu espírito guerreiro ainda gritava por libertação, justiça. De repente, pensei no que havíamos conversado mais cedo e tentei fazê-la andar mais devagar, talvez toda a ocasião tivesse despertado a verdadeira Quinn que eu conhecera há tempos. — Você está melhor?
Ela me encarou, sem mudar de expressão.
— Claro.
Certo. Claro, Fabray... Mas, não existia firmeza em sua voz, muito menos vida em seus olhos.
POV Brittany
Rumo aos dormitórios, a fim de trocar as vestes, com o estômago roncando e a cabeça doendo em consequência disso, por coincidência ou não, eu acabei encontrando com meu irmão. Ele se localizava em frente à porta do único salão da terceira classe, muito próximo às escadas. Acenei.
— Oi!
— Ei, B... Estava te esperando. — Sam me puxou para um canto do corredor. — Santana veio até aqui te procurar mais cedo, ela conseguiu falar com você?
— Conseguiu... — Eu sorri. — Obrigada.
— Não há de quê. — Ele olhou para os lados. — Ouça, antes de jantarmos, preciso falar com você em particular.
— Tudo bem, eu já estava indo para nosso quarto de qualquer forma, então...
— Ótimo.
No momento em que Sam e eu atravessamos a porta de nossos aposentos, nos deparamos com Hummel e Anderson aos beijos no beliche deles. Vestidos. Quando os mesmos nos viram, levaram um baita susto.
— N-Não é o que estão pensando... — Blaine correu a comunicar, pulando para longe do outro garoto. — Não é!
— Nós... Érr... Nós só...
— Tá tudo bem, vocês não precisam se explicar... — Sam disse, enquanto eu fechava a porta. — Não devem nada a nós.
— Não iremos denunciá-los, rapazes. — Acrescentei, sentando em minha cama. — Fiquem calmos, por favor.
Eu sorri. Sabia que estava rolando algo entre aqueles dois, era óbvio.
— O que...? — Kurt perguntou-nos, incrédulo.
— Tá tudo bem. — Voltei a dizer.
— O que querem de nós, huh? — Blaine questionou, desconfiado. — Dinheiro? O que? Podem dizer, daremos.
— Não queremos nada, cara. — Sam enunciou, dando dois tapinhas no ombro do garoto, acomodando-se ao meu lado. — A gente não liga.
— A-Algum de vocês também é... — Blaine começou.
— Não, não. — Meu irmão riu e refutou. — Mas, não vemos problemas. Além disso, são nossos amigos. Podem relaxar. Sério.
— Ok...
— Neste caso, vamos jantar. — Kurt avisou, levantando-se com Blaine. — Até.
— Nos vemos no salão. — Sorridente, eu falei.
Logo, eu e Sam estávamos a sós.
— Odeio o fato das pessoas não poderem ser livres. — Ele comentou, incomodado.
— Eu também, Sam.
— É Britt, eu sei...
— Sobre o que queria conversar?
— Ahn, claro. Bom, você sabe aquela amiga da Santana que estava com a gente ontem?... Quinn? — Assenti, e ele continuou: — Então, hoje nós dois conversamos depois que Santana foi te procurar e... Eu enxerguei pura tristeza em seus olhos quando nos vimos, por isso perguntei o que estava acontecendo, e ela acabou cedendo... Mostrou-me o que o marido dela a fez como punição por ela ter chegado tarde... Britt, o braço dela estava todo roxo... Porém, ninguém pode ver por debaixo daquelas luvas enormes... E por mais que tenha cedido e me contado tudo, ela insiste em dizer que está tudo bem, que não acontece muitas vezes... Mas, com certeza, ela esconde outras feridas como aquela pelo corpo, só que com maquiagem ao invés de luvas...
Os olhos dele começaram a lacrimejar em uma mistura de raiva e chateação. Sam não se emocionava muitas vezes, sempre se mantinha forte, desta vez os muros que o cercavam estavam realmente abalados. Preocupei-me e pus uma mão em seu braço, buscando acalmá-lo.
— Respira.
— Ela é como nós, Brittany. Não podemos deixá-la presa com aquele cara. Não podemos. Eu estava pensando... De ela fugir conosco, quando chegarmos a América... O que acha?
— Maravilhoso. Você não precisava nem perguntar, sabe disso. Só basta convencermos ela, sim?
— É... Ainda tem essa parte.
Abracei-o.
— Vai ficar tudo bem, Sam. Pode acreditar.
Ele suspirou e retribuiu o abraço.
— Seu otimismo me assusta às vezes.
Ri, levemente.
— Ora Sam, precisamos ver o lado bom da vida também, senão, só enxergaremos a tristeza e perderemos força para seguir em frente.
— Tem razão... Você é tão inteligente, Britt. Antes de nascermos poderia ter dividido um pouquinho comigo não? Egoísta.
Revirei os olhos e mostrei a língua para ele.
— Vamos comer!
Fale com o autor