POV Brittany

No interior de um pequeno bar qualquer, diante ao porto de Southampton, eu e Sam tentávamos nossa cartada final. Caso contrário, nossos planos seriam outros, obrigatoriamente. O que seria brutal, já que nem plano B nós tínhamos em mente ainda, se quiçá saíssemos dos trilhos. Eu estava disfarçada de garoto, usando as roupas do meu irmão, o cabelo escondido por debaixo de uma boina e uma faixa apertando os seios ao máximo.

Nossa salvação? Era um torneio de xadrez que, rolava aquela madrugada no bar em questão.

Tivemos que pagar uma taxa específica para poder participar do mesmo, todavia eu faria valer a pena.

Eu tinha que fazer.

Essa era minha única opção.

— Britt, você é louca ou o que? — Sam questionou-me, quando paguei a quantia proposta no impulso, sem ao menos consultá-lo. — O que vamos fazer se algo der errado? Gastou boa parte do que temos...

Talvez, eu fosse louca mesmo. Eu o entendia, completamente. Mas, o que nós tínhamos afinal? Um pouco de dinheiro “roubado” e alguns trapos velhos para vestir, apenas. Porque liberdade, nome limpo e um lar passavam longe da gente, devido aos recentes acontecimentos.

Nosso dinheiro não valeria nada se não saíssemos da cidade.

Nós estarmos lá, prestes a participar de um campeonato de xadrez, já era um enorme risco para nós.

Estávamos nos expondo demais.

Qualquer um poderia alertar a polícia sobre nossa localização, caso desconfiassem que, porventura, eu fosse uma garota e que nós, tratávamos dos irmãos “Evans” fugitivos. Isso sim era loucura, se deixar ser pega. Além da companhia um do outro, Sam e eu não tínhamos nada afinal, e sabia-se lá por quanto tempo ficaríamos juntos, caso nos pegassem.

— Não seja pessimista. — Eu retruquei. — Não temos nada, exceto o agora. Lembra? Vamos jogar.

Acabou que ele me apoiou, então, entramos.

Na casa dos Evans, Sam e eu já havíamos possuído certo contato com o jogo antes de o casal pirar conosco. Adorávamos jogar, todo dia, após a chegada da escola. Bem, para mim era impossível esquecer como se jogava xadrez, por mais tempo que ficasse sem tocar em uma peça. Ou sem ver uma partida.

Ou até mesmo, sem imaginar uma.

As peças eram únicas, as funções claras, o objetivo certeiro.

A questão era que, ali, somente homens podiam entrar no torneio, assim precisei me apresentar como Brittan. Não era a primeira vez que fazia isso. Fora que, a polícia procurava um irmão e uma irmã fugindo juntos, não dois garotos. E isso também evitaria assédio ou coisa pior para o meu lado. Estávamos nos saindo bem com a farsa, só precisava continuar atuando até pôr os pés na América novamente, ou um pouco mais.

Não fazia muita ideia de até quando, exatamente. Mas, isso era o de menos.

Precisava ter foco nas estratégias possíveis no tabuleiro à minha frente.

Cada uma delas.

O prêmio para quem vencesse o torneio de xadrez eram duas passagens de terceira classe para o Titanic. Já era manhã, quando eu estava indo para a rodada final, contra o melhor dos homens presentes. Sam não estava mais no campeonato, fazia algumas horas, porém, ele havia chegado longe.

Agora, eu precisava ir até o fim, por nós dois. Manter-me firme, apesar do cansaço.

De olhos abertos, e sagazes.

O sono não me venceria.

— Huh, sério? — O cara avante debochou de minha jogada aos risos, mordendo o cigarro pela metade em sua boca. Quando afirmei, completamente séria e convicta de minha decisão, ele pôs a mão em um de seus cavalos e virou pedra, pensativo. — Como quiser... — Pegando o cigarro com outros dedos, movimentou os olhos diversas vezes, incerto, expeliu a fumaça dos pulmões e aí confessou: — Até que não foi tão ruim, garoto.

Ele movimentou seu último peão, deixando o cavalo de lado. E aquilo me abriu algumas possibilidades.

— Boçal, não acredito que fez isso! — Um cara resmungou para o meu adversário, aflito com suas futuras jogadas. — Droga...

Os minutos rolavam, rapidamente. Mais e mais. O clima era tenso, e olhares medrosos iam e voltavam para mim. Eu conseguia ver pura apreensão nos rostos dos homens em volta, e no meu oponente era pior ainda.

O jogo era meu.

Tinha ganhado.

— Xeque-mate... — Falei, movendo minha torre em direção ao rei branco encurralando-o, promovendo o fim do jogo. Olhei para o meu irmão, radiante. Mal acreditava na minha sorte. — Vamos voltar para casa!

Sam sorriu e os donos do bar me parabenizaram. Logo, foram buscar minha recompensa (os bilhetes). Assim que pegamos as passagens em mãos, Martin, meu adversário, levantou de sua cadeira, irado, e pegou na gola de minha camisa, pronto para me acertar um murro. Minhas pernas cambalearam, estava a ponto de fechar os olhos, esperando o pior.

— Filho da puta! — Ele gritou, e então, soltou-me esbofeteando a cara do colega ao lado. — Isso é culpa sua, seu inútil. Era para você estar aqui, não eu. Eu disse que não conseguiria! Eu disse!

Uns bêbados começaram a rir e o nocauteado tampou o nariz, chocado, no chão.

— Como iria saber que perderíamos para ele, Martin?! É só um pirralho!

— Cale a maldita boca, verme! Não diga mais nenhuma palavra! Falo sério!

Sam me abraçou sorridente, aos pulos, o que amenizou aquela tensão crescente e me fez ignorar os homens.

— Vamos para Nova York com o Titanic! Meu Deus! Dá pra acreditar?!

— Não, não dá!

— Mas, vamos B! É real! Vamos mesmo!

— Não colega, vocês não vão não... — O balconista nos informou, calmamente, secando uns copos. Isso era preocupante. Ele teria descoberto a verdade e chamado à polícia? Por que não iríamos para Nova York? Ele ficou mudo, e, mesmo que em curto prazo, fora desesperador. O velho percebeu nosso choque e apontou para o relógio em suas costas, traduzindo sua afirmação precedente. — O Titanic zarpa em poucos minutos, rapazes.

Porcaria! Porcaria, porcaria... Eu precisava correr. Não iria deixar o Titanic ir sem mim. Segurei o braço de Sam. Nada tiraria essa viagem da gente. Nada, nem distância, nem polícia, muito menos o tempo.

— Vamos!

E assim nós deixamos aquele lugar. Corremos tanto pela multidão, desviando de obstáculos pela rua, pelo porto, que minhas pernas queimavam, tremiam e doíam como nunca. Eu me encontrava ofegante de um jeito feliz, e não apenas cansado, cada vez mais próxima ao grande navio.

Subi em uma das rampas da embarcação com Sam logo atrás de mim.

— Espera! — Berrei, engrossando a voz. — Passageiros, somos passageiros!

Mostrei as passagens ao tripulante receptor, antes que não desse mais, ou que a polícia aparecesse e acabasse com a minha alegria e ele as pegou, para ver de perto.

— Passaram pela fila do exame médico? — Perguntou, verificando a integridade dos bilhetes.

— Claro! — Menti. — Agora mesmo...

— Nós não temos piolhos, senhor... — Sam acrescentou, divertido. — Nem gripe, nem nada.

— Somos perfeitamente saudáveis. E americanos.

— Muito americanos. — Meu irmão adicionou.

— Certo... — Ele assentiu e deu-nos acesso à porta, movendo o corpo para o lado, devolveu-nos os bilhetes. — Venham, entrem.

Pulamos porta adentro do transatlântico, nos deparando com algumas pessoas sentadas e/ou ocupadas com algo no ambiente. Mas, o que eu e Sam continuamos a fazer? Correr e correr mais um pouco, como se não houvesse o amanhã, porque correr estava emocionante. Mal acreditávamos que o nosso destino acabara de tomar um novo rumo.

— Somos as pessoas mais sortudas do mundo, Sam!

— Eu sei!

— Dá pra acreditar?!

— Não!

De súbito, esbarrei numa moça no meio do caminho e parei um instante para poder buscar minha boina que, acabara escorregando de meus cabelos, soltando-os ao ar. Ao alcançá-la, freneticamente, botei-a na cabeça e fitei a garota por poucos segundos. Sua pele era morena, seus olhos eram castanhos bem escuros e cintilantes, e seus lábios eram carnudos. Parecia uma obra de arte perfeita, pintada nos mínimos detalhes. Nem precisava de mais tempo ali para ter plena certeza disso. As sobrancelhas dela franziam-se nada satisfeitas para mim e ainda sim, era a mulher mais linda que já tinha visto na vida. Abaixei o rosto e retornei a corrida.

— Ei! — Ela esperneou, indignada. — Que grosseria...

— Mil perdões moça, mesmo!

Continuei, sem voltar a olhar para trás. Eu havia me esquecido de engrossar a voz.

Esperava que isso não se tornasse um problema real, futuramente.

Se Deus quisesse, não seria.

Acompanhada de Sam, subi umas escadas, até chegar à lateral superior do Titanic, onde muitas pessoas acenavam do convés para suas famílias lá embaixo. Eu os imitei, mesmo que não tivesse de quem me despedir. A não ser da cidade.

— Tchau!

— Para quem você está acenando? — Sam indagou, procurando por alguém, na “plateia”. — ... B?

— Para a cidade, ora. — Ri, mando beijos ao vento. — Vamos sentir muitas saudades! Só que não...

Ele riu de mim e se entregou, fazendo o mesmo.

— Tchauzinho, Evans! Até nunca mais!

(...)

— Onde fica o nosso quarto?

— G-44. — Respondi.

— Ok.

Procuramos pelos nossos aposentos em centenas deles espalhados por todo o setor da terceira classe que, sem grandes surpresas, era o mais profundo e estranho do navio além de cheio de ratos e gatos para caçá-los. Sam parecia querer se apressar mais e mais.

Quando encontramos o quarto, ele comemorou o fato do outro beliche no espaço ainda estar vazio dos nossos colegas de quarto e começou a tirar algumas roupas de dentro de sua mochila, após encostar a porta. E eu simplesmente sentei-me numa das camas, não dormíamos bem desde nossa fuga, passei a me dar conta ao sentir o macio do colchão. Sentia falta de um colchão. Mesmo que o dos Evans fosse ruim, era melhor que a rua.

— Muito bem, Brittany... — Sam olhou sério em minha direção, do nada, e tirou uma navalha do meio dos trajes dobrados de sua bagagem, chegando a mim, ligeiramente. — Precisaremos cortar o seu cabelo.

— Quê?!

— Para não ocorrer mais acidentes, que nem mais cedo com a garota da primeira classe, desculpe...

(...)

Voei até a proa do Titanic, sendo seguida pelo meu irmão, e parei eufórica, agarrando o parapeito avante.

— Tenho que admitir, ter cabelo curto é bem mais fácil... — Comentei, respirando com gosto o ar que batia em minha face. — E só se passou um dia.

— Você acha? — Sam soava aliviado, assenti para ele, alegando estar cansada de minha boina, sentia-me mais livre e segura agora. — Então... Isso quer dizer que, sua raiva de mim já passou?

— Eu não disse isso... Mas, pelo menos cortou o seu também.

— Claro, era necessário...

— Ei Sam, olha! — Apontei para um golfinho nadando no mar. — Viu só? Tem outro ali!

— Britt, têm vários!

— Eles estão tão felizes!

— Só perdem para nós...

Por um tempo, ficamos ali, só assistindo os animais “disputando corrida” contra o navio. Não me lembrava de ter visto algo parecido quando fomos para o Reino Unido. Não me lembrava de muita coisa do navio que nos levou até lá, só que a segunda classe era ótima.

— Já consigo ver uma pontinha da Estátua da Liberdade... Minimamente, lógico. — Sam brincou. — Vê também?

Ri, abri os braços e fechei os punhos.

— Somos livres! — Gritei alto, com todas as minhas forças. — Preparem-se...

— Estamos voltando com tudo! — Meu irmão gargalhou e ficamos em silêncio depois, de novo. — Britt, agora falando sério... Você já me perdoou?

— Claro que sim! Não seja besta.

POV Santana

Sentada à mesa com mamãe, Sebastian, Quinn, Biff, Mercedes e uns homens, o que eu mais sentia era tédio com aquela conversa-fiada deles, e a comida que já não aguentava mais comer na minha frente, encarando-me, nada satisfeita.

O Titanic é isso. O Titanic é aquilo.

Esplêndido. Blá-Blá-Blá. Custou não sei quanto.

Foi projetado de tal maneira.

Todos estavam achando aquela conversa deslumbrante, e eu só queria sair dali. Porventura, passear pelo deque, sozinha. Entretanto, ao invés disso, resolvi acender um cigarro para relaxar na cadeira.

Assim que fiz, Maribel inclinou o corpo, rudemente, sussurrando:

— Sabe que eu não gosto disso, Santana.

Olhei para ela e baforei em sua direção, desafiando-a.

— Sim, ela sabe disso, Maribel. — Sebastian falou, arrancando o cigarro de meus dedos, para apagá-lo em algum canto da mesa. Olhou para o garçom. Depois para mim. — Nos dois queremos um carneiro malpassado ao molho de hortelã, por favor... Gosta de carneiro né, querida? Espero que sim.

Não abri a boca e sorri falsamente, matando-o com os olhos. Eu estava muito irritada. Queria furar seu olho com um garfo.

— Também vai fatiar a carne e mastigar para ela, Sebastian? — Mercedes indagou, alfinetando-o, aos risos. Ela piscou para mim. Enfim alguém me entendia naquele almoço. — Ei... Quem pensou no nome Titanic? Foi você, Sanford?

— Sim, fui eu. — O calvo admitiu risonho, engolindo o que mastigava até então. — Eu queria um nome que pudesse transmitir o tamanho do navio. Sua grandeza, estabilidade, luxo... E, acima de tudo, força.

Claro que queria.

— Você conhece o doutor Freud, Sr. Ryerson? — Perguntei, irônica e ele negou. — A teoria dele sobre a preocupação dos homens com tamanhos... Pode ser bem interessante para o senhor, talvez devesse checar uma hora.

Quinn, Mercedes e Howell se divertiram com a minha observação, já os outros nem um pouco.

— O que deu em você hoje? — Mamãe reprimiu-me. — Que deselegância tremenda...

Argh... Bastava. Soltei o guardanapo que, segurava, na mesa e levantei.

— Com licença.

Deixei-os para, finalmente, ir para o deque, vagar. Apoiei-me numa balaustrada após alguns passos, e olhei para os passageiros de relance. Um deles continuou me encarando há apenas um andar abaixo. Tentei ignorá-lo, mas o loiro era persistente. E, ele era-me familiar. Voltei os olhos nele, e assim ficamos. Até Quinn aparecer atrás de mim.

— Ei, Sant... — Ela se pôs do meu lado. — Te entendo totalmente por ter deixado a mesa daquele jeito.

Não disse nada, e ela deu um suspiro.

— O Sebastian não ficou nem um pouco feliz com a sua saída.

— E daí, Quinnie? Não me importo. Não consigo ser igual a você, já disse.

— Eu sei. Mas, você tem que se controlar, para o seu próprio bem... Falo isso por experiência própria, você sabe. — Ela pegou minha mão, apertou levemente, e eu a fitei. — Vamos voltar, sim? Antes que as coisas piorem. E, ele resolva vir até aqui te levar de volta.

— Tá bom...

(...)

Mais tarde, eu estava lá, no meu lugar marcado. Vendo minha vida de fora do corpo. Como se eu já tivesse vivido, escutado e visto tudo aquilo. Uma série interminável de festas e bailes, iates, joias, casamentos e partidas de polo sobre a mesa de jantar. As mesmas pessoas desinteressantes preenchendo as salas e os assentos, com a mesma conversa vazia de sempre.

Eu não fazia parte daquilo.

Eu não queria fazer.

Sentia-me num grande precipício, a beira de pular, sem ninguém para me segurar. Exausta de fingir me importar e fazer o papel da boa garota que eu não era. Ninguém se importava com o que eu estava realmente sentindo, ou sequer percebia.

— Bote um sorriso nesse rosto... — Sebastian havia pedido. — Não custa nada.

E eu simplesmente, não conseguia o fazer.

Nem queria.

Ele que se preocupasse com outra coisa, porque isso me custava sim algo. Custava-me muito.

Num impulso, abandonei o salão de festas, simulando uma ida ao toalete, mas me dirigi até meu quarto. O dia tinha acabado para mim.

Joguei minha bolsa numa mesa ao lado da cama e comecei a tirar as luvas que cobriam meus braços.

— Rachel? — Chamei.

Não houve resposta.

— Rachel? — Eu precisava de ajuda para me soltar daquele espartilho apertado. — Rachel?... Rachel?... Rachel?

Parei em frente a um espelho e tentei me soltar daquela roupa, sem sucesso. Comecei a me enfurecer ainda mais vendo minha imagem. Sempre enfeitada, sempre falsa. Puxei com agressividade os colares do meu pescoço e taquei-os longe, soltei o cabelo aos puxos. Tanta tranqueira em mim. Tanta coisa que não valia nada, realmente. Nada.

Eu não era mais uma pessoa, era um objeto.

Um mero objeto.

— Rachel?!

Onde ela estava? Onde? Eu precisava de sua ajuda.

— Rachel...?

Peguei minha caixa de joias e arremessei no chão. Depois fiz o mesmo com outras pratarias por ali, zangada.

Infeliz.

Desgostosa.

Lágrimas de ódio e tristeza desciam sem controle por toda a extensão do meu rosto. Um objeto. Eu era como tudo o que estava arremessando. Sem real valor.

Parei e olhei para o espelho, de novo.

Eu sabia o que fazer para me livrar disso. Para me livrar de tudo.

Só tinha uma saída... A morte.

Notas finais
Até ♥