POV Brittany

Sam adormecera fazia uns minutos, já eu, não iria tão cedo. Desta maneira, saí de nossa cabine e direcionei-me sozinha a parte exterior do Titanic, perto de sua popa. Não fiz questão de me apressar, pois queria ver os detalhes do navio sossegada desta vez. Na última noite, durante minha hodierna insônia, havia descoberto um ótimo lugar para assistir as estrelas. A vista era tão viciante que, poderia virar a madrugada sem problemas por lá, deitada naquele exato banco rígido de madeira.

O oceano era música.

O clima, frio. A noite serena.

Quanto à lua ao céu? Nem possuía palavras para expressar-me.

Ainda tinha dúvidas se estava sonhando ou não, por isso não queria fechar os olhos. Se eu fechasse, iria para o terceiro dia de viagem num raio de segundo. O que seria bom por um lado, o de estar mais próxima de casa, mas por outro, aquilo tudo poderia acabar. Será que eu estava pronta para isso? O plano era fugir, mas... E depois?

Subitamente, algo me tirou a atenção das estrelas.

Um vulto de mulher passou voando ao meu lado, pisando forte no pavimento. Preocupei-me e levantei o tronco, a fim de enxergá-la. Era ela. A obra de arte em garota. Pela tarde, havia enxergado-a um andar acima do deque em que eu me encontrava, quando a morena não parecia estar de bom humor, novamente. E agora, estava correndo aos prantos? Tinha algo errado.

Ergui-me do assento e a segui, curiosa.

Como eu suspeitava, a moça sentia-se triste. O que vi ao chegar à popa me chocou, mas não me impediu de continuar andando em direção a ela. A garota se localizava do outro lado da balaustrada, olhando para baixo e se inclinando, ameaçando soltar-se do parapeito para cair no mar, ainda que com receio. Um passo em falso seria seu fim.

Por que ela estava tão triste? Trêmula, arfante... Queria entender.

Ela não estava certa disso. Estava confusa. E eu não podia e não iria dar as costas a ela, agora estava envolvida demais. Talvez, não devesse me meter, mas meu sentimento em relação a aquilo não me permitia ignorar ou voltar atrás.

— Não faça isso... — Pedi, com calma. — Eu imploro.

Ela olhou para trás, bruscamente.

— Você?

— Apenas...

— Saia daqui!

Respirei fundo, aflita, olhando diretamente em seus olhos castanhos e continuei a me aproximar dela.

— Não posso sair sem antes saber que ficará segura, me dê a sua mão... — Estiquei o braço. — Para eu te puxar de volta.

— Não! Deixe-me em paz... Falo muito sério, irei me soltar.

— Tudo bem, tudo bem. — Abaixei a mão e à medida que a moça virou o rosto, atrevi-me a avançar, um pouco mais, chegando perto do parapeito, finalmente. Precisava distraí-la daquela ideia. Fingi observar o mar e a espiei de canto de olho. — Noite bonita, não?

— Só se for para você.

Péssima escolha de palavras, Brittany. Cuidado com essa boca. Dei dois passos para o lado e me pus mais perto da garota, e ela, continuou na mesma. Suas mãos agarravam firme a amurada, agora ela parecia mais uma personificação do hesito do que qualquer coisa.

Se caísse, seria um acidente.

— Você... Não vai se soltar. — Comentei. — Sabe disso, né?

— Como assim eu “não vou”? — Ela olhou para mim e franziu as sobrancelhas, aborrecida. — Não pense que pode deduzir o que farei ou não com a minha vida. Você não me conhece. Passar bem.

— Você está certa. — Concordei, colocando as mãos no bolso. — Só acho que, se quisesse isso de verdade, já teria se jogado. Olhe só quanto tempo se passou.

— Ora, é porque está me distraindo. Vá embora!

Ela voltou a encarar o mar. Eu precisava passar confiança a ela, comecei a ter ideia de como.

— Já disse, não posso ir, agora estou envolvido. Se você pular... — Tirei meu casaco, jogando-o no chão. — Eu pulo depois para te buscar, entende?

Livrei-me de minhas botas, e a garota me fitou.

— Iria morrer também, não seja estúpido.

— Sei nadar.

— Não importa. Só a queda o mataria.

— É um risco, não vou negar... Mas, francamente, não é isso que mais me preocupa. Essa água é muito fria, seria uma tortura até a completa morte.

Seu corpo se enrijeceu e suas mãos apertaram com ainda mais veemência o corrimão.

— Muito fria, é?

— Ahn, eu diria que é congelante. Talvez, abaixo de dois graus Celsius... Diga-me, já esteve em Wisconsin alguma vez?

— Hã?

— É só que, o inverno é muito intenso por lá... — Observei o balanço do mar. — Uma vez, tive o desprazer de cair no gelo fino quando voltava para casa com meu pai e vou te dizer, água gelada desse jeito, como essa daqui, parece com mil cacos de vidro rasgando todo o seu corpo. Você não consegue respirar, falar, ou pensar direito... Exceto na dor. E é por isso que eu não gostaria nem um pouco de pular nessa água atrás de você... Porém, como eu disse, não tenho escolha.

Despi-me de outra jaqueta.

— Queria muito que voltasse para esse lado da amurada, e me liberasse dessa responsabilidade terrível... — Eu disse à moça. — Mas, se vai ter que ser assim, tudo bem. Eu posso lidar com isso.

— Você é completamente maluco!

— Pode ser... — Assenti, dando de ombros e aí me curvei para perto da morena. — Mas, com todo o respeito senhorita, não sou eu quem está pendurado na borda do navio, né... Vamos, me dê sua mão, por favor.

Coloquei o braço em seu campo de visão.

— Sei que você não quer fazer isso.

Trêmula, ela suspirou e segurou minha mão, virando-se para mim devagar.

— Ufa... Essa foi por um triz. — Pronunciei, sorrindo para a moça, com o intuito de tranquilizá-la. — Sou Brittan Pierce.

Ela estava ofegante, porém ouvia seu coração bater tão alto quanto sua respiração.

— Santana Di’Abla Lopez.

Sorri.

— Depois terá que ditar isso para mim.

Santana achou engraçado, vi covinhas aparecerem em suas bochechas.

— Já nos vimos antes?

— Talvez, em outra vida... Vamos, venha para cá. — Eu solicitei a ela, não soltando-a um segundo.

Quando Santana foi escalar o parapeito, ela escorregou na barra de seu vestido e começou a berrar, suspensa no ar. Eu apertei sua mão, firme.

— Te peguei Santana, eu te peguei!

— Brittan!... Socorro!... Socorro!

Puxei-a para cima, com certa dificuldade.

— Vamos, força! — Supliquei.

Ela gritou mais um pouco, deveras atormentada, pendurada em minhas mãos. Isso não ajudaria, ela precisa manter a calma, caso contrário escorregaria. Ela não podia escorregar.

— Me ajuda, por favor!... Socorro!... Socorro!

— Santana, calma! Escute, eu te peguei. Ok? Eu te peguei. E não vou te soltar. Não vou. — Tentei puxá-la, novamente. — Vamos lá, venha para cima. Você consegue! Sei que consegue! Tome impulso! — Santana encontrou apoio. — Isso... Isso mesmo.

Abracei seu corpo e passei-o por cima da amurada, caindo no chão junto a ela. Em seguida, ouvi passos. Quando levantei a visão, enxerguei alguns guardas da tripulação diante de nós, horrorizados.

— O que houve?! — Um dos homens interrogou, olhando para minha roupa jogada ao chão e Santana apavorada nos meus braços e tirou conclusões precipitadas. Não tirava sua razão. A situação era estranha. — Afaste-se dela, agora!

Pus-me de pé.

— Não se mova! Ouviu bem, delinquente?! — Ele olhou para os outros. — Chamem o suboficial!

(...)

— Isso é inaceitável! — Disseram algemando-me. — Que absurdo...

Não acreditava naquilo. Irônico. No fim, estava sendo presa.

— O que o fez pensar que poderia pôr as mãos imundas na minha noiva, seu miserável?! — Um sujeito gritou, irado, se pondo perante a mim. — Ei! Olhe para mim, desgraçado! Estou falando com você!

O homem me puxou pela gola da camisa e eu abaixei os olhos.

— Sebastian! — Santana reprimiu-o, enquanto acudiam-na num banco. — Pare...

— O que achava que estava fazendo?! Diga! Vamos!

Abaixei o olhar, de novo. O que mais eu faria naquela situação? Só me restava ficar quieta. Estava abatida. Nada do que eu dissesse valeria algo para aquelas pessoas. Estava sozinha.

Perdão, Sam. Perdão.

Santana correu até o tal Sebastian, puxando-o para longe de mim.

— Sebastian, chega! Foi um acidente.

— Ah, um acidente? — Ele debochou dela, risonho.

— Sim, um acidente... Bem estúpido, na verdade. — Santana gaguejava ao mirabolar uma mentira, ao passo que falava. — E-eu estava me inclinando e escorreguei.

— Se inclinando, é?

— Exato. Estava me inclinando muito, para poder ver as... As... Como chamam?

Sebastian fez uma careta.

— Hélices?

— Hélices, isso... Então eu escorreguei. E estaria no mar agora mesmo, se o Sr. Pierce não tivesse me salvado. Ele poderia ter caído também, sua atitude foi muito heroica.

Ele riu, olhando para os outros senhores.

— Ah, ela queria ver as hélices.

— Como eu disse antes, mulheres não devem se misturar com máquinas. — Um careta ao lado de Sebastian comentou, rindo. — Vejam no que dá.

O suboficial chacoalhou-me, com ardor.

— Foi isso mesmo que aconteceu, rapaz?

Santana arregalou os olhos para mim, pedindo claramente para eu manter sua farsa e não revelar a sua tentativa de suicídio.

— É... Aconteceu mais ou menos assim.

— Bom, o garoto é um herói então. Que bom, meu jovem. Muito bem. — O rico careta voltou a falar, contente. — Tudo está bem. Maravilha! Porque não voltamos ao nosso conhaque, agora?

Soltaram as algemas que apertavam meus punhos e naquele instante, senti um enorme peso deixar meu corpo. Era uma pessoa renovada. Passei a vestir os meus casacos. Estava muito, muito frio.

— Olhe só para você, Santana. Deve estar congelando aqui fora. Vamos entrar. — Sebastian a envolveu nos braços e começou a se afastar em companhia aos outros, de repente pararam e ficaram de conversa, e aí, só ele voltou. — Talvez, você possa se juntar a nós amanhã, num jantar... Para, bom, divertir nossos convidados com seu conto heroico de hoje.

Era claro que ele não me queria lá, mas eu iria, só para afrontá-lo. Não gostava dele, não sabia o porquê, porém não gostava.

— Claro... — Respondi séria, escondendo minhas mãos nos bolsos da jaqueta. — Conte comigo.

Ele sorriu, superficialmente.

— Ótimo, está marcado.

— Ei... Posso levar um amigo?

— Um amigo? — Sebastian perguntou, desconfiado.

— Sim, apenas um.

— Hum, não vejo o porquê não... Nos vemos lá.

Ele deu as costas e saiu, mas seu mordomo -eu acredito- ficou e se colocou defronte a mim.

— Cigarro? — Indagou.

— Não, obrigado. Eu não fumo.

Ele levantou as sobrancelhas surpreso, e guardou o maço no bolso do paletó.

— Bem... É melhor amarrar os cadarços. — Indicou, num tom estranho. — Tenho que dizer, muito curiosa essa história, Sr. Pierce. Huh, a jovem escorrega de repente e você ainda tem tempo de tirar as duas jaquetas e os calçados?

Ele riu e voltou-se para outro lado, sumindo.

Alguém tinha se tocado.

POV Santana

Enquanto penteava o cabelo para dormir, pensei em Brittan e na loucura que quase havia cometido naquela noite. Parei e obervei minha imagem no espelho. Queria poder escolher meu destino. Queria não ser um objeto.

Talvez, fosse melhor eu não olhar mais no espelho.

Esquecer que eu era eu e botar a máscara de outra garota, novamente.

— Sei que tem andado meio triste pelos cantos, Santana... — Sebastian apareceu na porta do meu quarto e veio andando, alcoolizado. — Pretendia guardar isso para nossa festa de noivado, mas... — Ele sentou num canto da penteadeira. — Prefiro lhe dar esta noite, para melhorar as coisas.

Como se isso fosse possível.

Não era.

Sebastian abriu uma caixa de joias. Dentro, continha uma pedra azul em formato de coração. Me surpreendi.

— Meu Deus...

— É para você se lembrar dos meus sentimentos por você.

Claro, outra futilidade gigantesca. Olhei para meu noivo.

— Isso aí é um...

— Diamante? Óbvio.

Ele o pegou e correu para botá-lo no meu pescoço, sem ao menos pedir licença.

— Cinquenta e seis quilates, para ser exato. Foi usado por Luís XVI. E é chamado de “o coração do oceano”.

Encarei a joia no espelho, pesando em minha garganta. Olá! Somos adornos, coração do oceano. Eu e você. Não há diferença.

— Impressionante...

— É da realeza, né. — Ele se inclinou em direção a minha orelha. — Somos da realeza, Tana.

Afastei-me dele, e Sebastian se ajoelhou ao meu lado, apoiando a cabeça em uma mão.

— Não há nada no mundo que eu não te daria. Não há nada que eu negaria... Se você não me negar também. — Seu tom de voz era intimidador, eu não gostava daquilo. Existia algo ruim em seus olhos. Ele passou a mão em meu rosto. — Abra seu coração para mim, Santana.

Petrificada, engoli em seco e olhei para frente.

— Sebastian... — Me ergui, indo em direção à saída. — Eu preciso dormir.

Abri a porta, na esperança de ele ir embora.

— Sabe que não poderá fugir por muito mais tempo, não é? Vamos nos casar, e o seu papel como esposa é me dar herdeiros.

— Não precisa me lembrar disso a cada segundo. Agora, por favor... Deixe-me sozinha, estou cansada.

Esperei que ele deixasse o quarto e fechei a porta, cambaleando até minha cama.

O que eu ia fazer? O que?

Não queria me casar.

Não queria ter o mínimo contato com o meu noivo.

Não queria mil cacos de vidro rasgando todo o meu corpo. Queria pular do navio, de novo. Porém, essa parte me dava medo.

Medo demais.

Eu era muito grata pelo surgimento do Sr. Pierce nos arredores da popa, mas se não fosse por ele, eu teria levado minha decisão adiante e talvez estivesse mais leve. Existia alternativa não tão ruim em minhas mãos? Existia chance de eu me sentir bem? Existia possibilidade de eu começar a gostar de Sebastian? Não conseguia ver nada. Nada... Ora, eu deveria apenas ir dormir e parar de pensar em bobagens. Seria bem melhor assim.

Eu daria um jeito, de alguma forma.

Notas finais
Até ♥