About a broken soul and a new bond
8 The first level of resistance
Notas iniciais
O ginásio estava vazio naquele horário, o que era comum se tratando de duas e quarenta da manhã, no horário da nave. Ele era dividido em quatro grandes salas: a principal, que era onde ficava os equipamentos padrão de academia; a sala dos esportes aquáticos, que continha uma piscina olímpica com três níveis de trampolim; e duas outras salas equipadas com todo o material para diversas artes marciais. Além dessas salas também havia um vestiário com mais de 20 chuveiros sônicos e uma sauna.
Todas as salas estavam com as luzes apagadas, com exceção de uma. Uma das duas salas de artes marciais estava acesa, e ao longe se podia ouvir o som seco de socos vindo de lá. Jim estava sozinho no cômodo, esmurrando fervorosamente um dos sacos de pancadas como se ele fosse a pior criatura do universo.
Sem se importar com o tempo que fazia isso, Kirk apenas continuou com a sequência de golpes. O suor já brotava insistentemente por sua testa e pescoço, escorrendo por seu peito nu até desaparecer na barra da calça de ginástica. A respiração acelerava, tornando-se ofegante pelo esforço, os músculos dos braços doíam. Mas não importava, não podia parar. Aquela frustração precisava acabar, não podia parar até que ela fosse toda embora.
Os limites físicos do seu corpo falaram mais alto, e seu braço fraquejou, fazendo o saco de pancadas vir de encontro a seu corpo. Teve de agarrá-lo para não cair, e ali ficou, apenas respirando.
— Merda, merda, merda — Resmungou, batendo com a testa contra o saco de pancadas, pontuando cada palavra. Só queria continuar batendo em qualquer coisa para descarregar todo aquele amontoado de sentimentos que estava comprimindo seu peito, mesmo sabendo que nada daquilo adiantaria.
~
Depois da rendição nas naves Nausicaanas, tudo correu sem mais problemas. Os Nausicaanos seriam transferidos para a Enterprise, onde seriam interrogados sobre seu esquema de pirataria para que qualquer outros envolvidos sejam devidamente punidos, e logo depois levados para a base estelar mais próxima para um julgamento diante da corte marcial. A ECS Berggrem não havia sido avariada a ponto de comprometer sua capacidade de dobra, não houve mortos e apesar de muito tripulantes terem se ferido havia poucos casos graves, e esses estavam sendo transferidos imediatamente para a Enterprise, onde a enfermaria era muito melhor equipada.
Quando a tela da ponte se apagou com a última negociação, Kirk ainda segurava-se firmemente em sua cadeira. Apertou o botão do comunicador no braço da cadeira, abrindo um canal de comunicação com a segurança.
— Tenente Higgens aqui, senhor. — Respondeu a voz do encarregado da segurança do outro lado.
— Quero um grupo da segurança comigo na sala de transportes assim que o pessoal da enfermaria tiver terminado com os feridos da ECS Berggrem. Os Nausicaanos estarão sendo transferidos para cá e precisarão de escolta até suas devidas celas.
— Considere feito, capitão. — O tenente respondeu, e Jim desligou o comunicador. Levantou-se de sua cadeira, já se encaminhando a passos duros para o turbolift. — Sulu, a ponte é sua.
Ele trocou um olhar significativo com Spock ao passar pela estação de ciências, e o Vulcan o seguiu sem uma palavra. Um par de intrigados olhos castanhos os fitou até o turbolift, mas nenhum deles se preocupou em notar.
As portas se fecharam e Kirk se apoiou na parede, fechando os olhos com força e soltando o suspiro que ele prendia desde que a tela se apagou na ponte.
— Meu deus, eu acho que vou vomitar. — Sua voz vacilou, ele ainda sentia as pernas bambas e o estômago dando voltas. — Pra que servem esses malditos remédios que eu tenho tomado? Achei que era pra evitar que essas coisas aconte... — Interrompeu sua fala quando o painel do elevador assobiou, indicando que o botão para paralisá-lo havia sido pressionado. Jim abriu os olhos.
— Porque você...
— Pare de falar, capitão. Estenda suas mãos. — Jim piscou. Spock havia se aproximado, e agora estava a menos de um braço de distancia dele. O capitão lembrou-se do que seu primeiro oficial havia feito há minutos atrás, na ponte, e apenas fez o que ele pediu. O Vulcan fez praticamente o mesmo movimento de antes, envolveu ambos os pulsos de Jim com seus longos dedos, apertando levemente seu polegar na parte de dentro do pulso, exatamente onde pulsava sua artéria. E lá estava; o formigamento, a tranquilidade, a serenidade, a paz. Os olhos de Jim pesaram e ele quase suspirou novamente, aquilo era melhor do que qualquer calmante. Queria fechar os olhos de novo e apenas embeber-se daquela tranquilidade que era tão diferente da artificial que os remédios proporcionavam, sem se preocupar em quão estranho aquilo soava.
— Fascinante — Spock murmurou, depois de quase dois minutos inteiros em completo silêncio. A pulsação de Jim, que antes retumbava a níveis assustadoramente altos, agora era tão plácida como se ele estivesse dormindo, e ele podia sentir a mente dele transformar-se de uma tempestade á um mar de águas tranquilas.
— Oh, também acho. — Jim quase sorriu, as pálpebras caídas pelo relaxamento repentino. — Como você está fazendo isso?
— Eu potencializei minhas habilidades telepáticas para que atuassem como um canal de mão dupla, podendo assim estabilizar sua mente com a minha própria. A probabilidade dessa técnica se mostrar eficiente em um não telepata era mínima, mas levando em consideração a compatibilidade de nossas mentes e a situação em que estávamos eu achei a tentativa lógica. — Spock sutilmente soltou os pulsos de Jim, encerrando o contato muito antes do que o capitão pegou-se desejando.
— Então tudo isso que eu estava sentindo vinha da sua mente? — Jim ainda sentia sua pele formigando levemente onde havia sido tocado, e apesar do contato ter sido encerrado ainda podia sentir a tranquilidade que ele trouxera como um eco em sua cabeça.
— Sim. — O Vulcan respondeu, como se fosse óbvio. — Você se sente bem o suficiente para que eu desbloqueie o turbolift, capitão?
— Hey, espera aí.... Eu tinha algumas coisas para te perguntar. — Jim coçou a nunca, meio sem jeito, não sabendo exatamente o porquê. Spock encarou-o por alguns segundos, sem se mover.
— Ainda temos aproximadamente 7.9 minutos antes que os pacientes feridos da ECS Berggrem sejam transferidos, se suas duvidas puderem ser sanadas nesse tempo não vejo nada que impeça-o de perguntar. — Kirk interpretou isso como um “pode perguntar”.
— Porque os remédios não fizeram efeito?
— A maioria dos remédios que o Dr.McCoy passou para o senhor modifica a química de seu cérebro, por isso seu efeito não é imediato e sim progressivo. Estima-se que eles demorem em média uma semana para atingir seu efeito definitivo, o que significa que o senhor só teve essa reação ao ataque à nave porque os remédios ainda não atingiram todo seu potencial.
— Ah, sim. — Kirk parou por um segundo, organizando suas perguntas. — Você podia ler minha mente enquanto estava fazendo aquilo com a sua mão?
— Não, capitão. A telepatia ao toque funciona captando principalmente sentimentos e sensações. — Jim não conseguiu conter um alívio sutil, ainda achava desconfortante a ideia de dividir seus pensamentos nitidamente.
— E quanto às sessões com você, quando vamos começar? — Jim esfregou as mãos, num movimento sutilmente ansioso.
— Sinto que só poderemos começar amanhã, capitão. Admito ter subestimado o estudo da psicologia humana, precisarei de 17,% a mais de tempo para assimilar todo o conteúdo que necessito para administrar o tratamento.
— Nossas mentes são mais complexas do que você esperava, senhor primeiro oficial? — Kirk permitiu o canto de seu lábio a contrair levemente, com um toque de divertimento.
— Negativo, apenas mais ilogicamente emocionais. — Também havia um tênue toque de humor na voz de Spock, e Kirk sentiu-se privilegiado por apreciá-lo.
— Acho que já fiz todas as minhas perguntas, podemos ir agora.
— O senhor está certo de estar bem o suficiente para receber os Nausicaanos? Como primeiro oficial, posso fazê-lo pelo senhor sem que nenhum tripulante...
— Spock — Kirk interrompeu-o, dando um simpático aperto no ombro do Vulcan. — Está tudo bem, eu estou bem. Sou o capitão dessa nave, preciso fazer isso. — O primeiro oficial apenas olhou para Jim por um ou dois segundos, depois concordou com um aceno.
Spock desbloqueou o turbolift, e eles saíram pelos corredores como se nada tivesse acontecido. O capitão suportou passar pelos feridos da ECS Berggre como se eles não lembrassem sua própria tripulação ferida no incidente com Khan, suportou encarar os enormes Nausicaanos como se não houvesse nenhuma grama de medo em seu corpo, e tudo isso com sua típica expressão de Jim Kirk, o capitão mais novo da Frota Estelar, que já salvou a terra duas vezes da destruição completa. E para os feridos, para os Nausicaanos e para toda sua tripulação, estava tudo bem.
Mas ainda naquela noite, quanto seus demônios viessem atormentar seu sono novamente, Jim Kirk seria lembrado que não estava tudo bem.
Ele sonhara com seu pai naquela noite, com o dia de sua morte. Em como ele foi corajoso, como salvou a nave inteira sacrificando a si mesmo, e em como ele não teve medo. O sonho mudara depois disso, e logo Jim estava nele, sentando em sua cadeira de capitão na ponte da Enterprise. Era a mesma cena do início do turno que se repetia, mas quando os Nausicaanos atacaram e os alarmes começaram a soar, Kirk não conseguiu dar a ordem para acionar os phaisers.
Ele tentou, chegou a sentir as palavras saindo de sua boca, mas não ouviu nenhum som. Todos os oficiais da ponte olhavam para ele, esperado pelas ordens que não estavam sendo dadas. Mas ele estava falando, sabia que estava. “Fogo! Atirem neles, o que vocês estão esperando?!” ele dizia, mas todos apenas continuavam olhando para ele, como se ele não estivesse fazendo nada. Jim levantou de sua cadeira, gesticulando e gritando até sua garganta doer, mas nada acontecia. Os alarmes começavam a soar mais altos e estridentes, as luzes de emergência piscavam fervorosamente, banhando toda a ponte com um vermelho mórbido.
Sem aviso, o casco da nave se rompeu no lado direito da ponte. Como em câmera lenta, todos os oficiais das estações daquele lado foram sugados para a escuridão do espaço. “Não!” Ele gritou para o silêncio sombrio, correndo para todas as estações que ainda estavam inteiras, tentando inutilmente reverter aquele estado de caos. Era inútil, estava tudo destruído, todos estavam morrendo. Ele tinha perdido completamente o controle.
Os olhos azuis, já marejados, notaram outra figura na sala. Spock estava lá, olhando para ele com aqueles olhos cor de chocolate. “Spock, não foi culpa minha. Eu dei a ordem, eu...Eu tentei, mas não podia fazer mais nada.” um soluço cortou suas palavras, e ele estendeu uma mão para o Vulcan, que continuava completamente imóvel. Quando seus dedos estavam prestes a tocar o tecido azul do uniforme de Spock, eles se desfizeram em pequenas partículas de poeira, sendo sugados para fora da nave junto com a maior parte dos objetos da ponte. Ele viu, incrédulo, enquanto todo seu braço começava a se desmaterializar a sua frente. Desesperado, tentou tocar o Vulcan com a outra mão, só para ver o mesmo efeito se repetir.
“Porque isso está acontecendo comigo? Porque eu estou perdendo? Spock, não me deixe perder, eu não posso, eu não posso.”Gaguejou, sentindo as lágrimas escorrerem por seu rosto. Metade de suas pernas já havia desaparecido, assim como metade de toda a ponte, quando Spock o respondeu. Mas quando o Vulcan falou, não foi a sua voz que deixou seus lábios, foi a de James e George Kirk, em uníssono.
“Eu não acredito em cenários sem vitória.”
Jim acordou sem ar, soluçando. Seu rosto estava molhado, sua cabeça estava doendo e seu peito parecia que iria explodir. A primeira coisa que fez foi olhar para seus braços, depois jogar o cobertor para o lado e fazer o mesmo com suas pernas. Apesar do alívio de constatar que ainda tinha todas as partes do corpo, em nada ajudou com a pressão insuportável em seu peito.
Levantou da cama, passando a mão pelo rosto e cabelos. Não poderia voltar a dormir, não depois daquele sonho. Olhou o relógio do computador, ainda eram dez pras duas da manhã, definitivamente cedo demais para acordar. Mas não voltaria a dormir, não conseguiria.
As lembranças do sonho voltaram num flash em sua cabeça, e ele apertou os olhos, não querendo se lembrar. Precisava fazer alguma coisa, ocupara a sua cabeça para que não pudesse mais pensar naquilo, para que não precisasse mais pensar em nada, pelo menos por algumas horas. Olhou pelo quarto, mas ele sabia que nada que fizesse ali iria livrá-lo daquele pensamento. Precisava se mover, manter-se ativo e ocupado, precisava descarregar. O ginásio apareceu em seus pensamentos, e instantaneamente passou a ser a melhor das opções. Colocou a calça de moletom que usava para eventuais treinos e foi o mais rápido que pode para o ginásio.
~
O tempo que ficou parado foi apenas o suficiente para regular sua respiração, depois disso Jim voltou a fazer exatamente a mesma coisa de antes; esmurrar o saco até que se sentisse melhor. Não importava quanto tempo demorasse, uma hora isso iria acontecer, ele sabia que iria. Tinha que acontecer.
Estava tão empenhado nessa tarefa que nem ao menos ouviu a porta da sala se abrir, espantando-se quando uma voz conhecida se sobressaiu ao som de seus socos.
— Com licença, capitão, mas acredito que se o senhor continuar nesse ritmo seu corpo entrará em exaustão em cerca de 12.45 minutos. — Spock já havia atravessado quase toda a sala quando se manifestou, parando a cerca de dois metros de Jim. Ele ainda vestia o uniforme impecável de ciências, e cruzava as mãos atrás das costas como se estivesse se apresentando para o briefing de alguma nova missão ou projeto de pesquisa.
Kirk não parou o que estava fazendo, apenas desviou brevemente os olhos para a figura de seu primeiro oficial, sentindo um leve calafrio. Ele lhe lembrou do sonho, e não queria pensar naquele maldito sonho.
— Você e essa péssima mania de me subestimar, Spock — Respondeu, colocando ainda mais força em seus golpes.
— O senhor está me interpretando errado. Não estou subestimando-o, apenas devo lembrá-lo que as limitações física de seu corpo estão consideravelmente reduzidas devido a fatores como alimentação inadequada e insuficiente, horas de sono escassas e de má qualidade e altos níveis de estresse, entre outros.
— Você está exagerando — Jim bufou em resposta.
Spock não respondeu, apenas ficou em silêncio observando seu capitão se comportar como o ser altamente ilógico que era. Em ocasiões como essa, quando palavras mostravam-se ineficientes, provas concretas costumavam funcionar melhor.
Jim apertou os olhos ao observar o silêncio de seu primeiro oficial. Sabia o que ele estava fazendo, conhecia Spock muito bem. Ele iria esperar ali, com aquela cara deslavada, enquanto Jim se desgastava até que os 12.45 minutos se passem e as palavras de Spock se provassem ser verdade. Mais isso não iria acontecer, porque ele era James T. Kirk e ninguém o subestimava.
Sua noção de tempo não era tão boa quanto à do Vulcan, mas dava para o gasto no momento. Ele passaria da estimativa de tempo de Spock, apostava sua capitania nisso. Continuou com seus golpes em sequências de 3, 5 e 2, sem parar, prestando atenção em manter o ritmo de sua respiração. Sentia os olhos de Spock queimando sua nuca, mas não se deixou afetar, iria conseguir.
Nove minutos se passaram, e ele ainda não havia parado. Seus braços estavam queimado, mas se recusava a parar. Dez minutos e ele já não conseguia mais manter o ritmo constante de sua respiração, o tempo que passara nessa atividade antes estava cobrando seu preço.
— Capitão, seria sábio se o senhor parasse agora.
Ignorou a voz de Spock veemente, não ira deixá-lo ganhar. Onze minutos e seu braço fraquejou pela primeira vez, levando-o a quase cair. Quase.
— Capitão.
Spock chamou, e foi ignorado novamente. Doze minutos e a respiração de Jim estava tão acelerada e descompassada que os cantos de sua visão começaram a embaçar. Só mais alguns segundos e já podia parar, precisava aguentar apenas mais um pouco. Um, dois, três, um, dois, um dois, três, quatro, já ia acabar. Doze minutos e cinquenta segundos, só mais uma sequência e conseguiria.
— Já chega, Jim!
Antes que seu punho pudesse tocar a superfície do saco de pancadas mais uma vez, sentiu as mãos de Spock em seus ombros empurrando-o abruptamente para trás. Recuou dois passos debilmente, e teria caído no chão se não houvesse uma parede espelhada atrás de si com a qual suas costas se chocaram com violência.
Spock segurou-o contra a parece, parecendo saber que se o soltasse suas pernas cederiam e ele iria direto ao chão. A respiração do capitão ainda era errática e superficial, e ele fazia de tudo para evitar os olhos alienígenas que o fitavam tão intensamente.
— Eu não sei o que aconteceu, mas esse comportamento completamente ilógico e infantil não irá beneficiá-lo em nada. — O Vulcan suavizou a pressão nos ombros de Jim, de forma que apenas amparava-o agora.
— Se...Se você...Não tivesse me parado...Eu teria conseguido passar...dos malditos 12 minutos. — O capitão respirava com dificuldade, tendo que interromper a frase várias vezes para conseguir terminá-la. Suas mãos estavam fechadas em punhos, e um olhar desafiador escurecia o azul de seus olhos.
— Provavelmente, e logo depois, como eu disse, você entraria em exaustão. — Jim bufou em resposta ao Vulcan, que continuou. — O que você está tentando provar, Jim?
— Nada! Não estou tentando provar nada. — Ele se desvencilhou dos braços do outro, afastando-se dois passos, virando-se de costas para Spock. Sua voz saiu mais ríspida do que pretendia, mas não voltou atrás.
Ele escondeu os olhos com uma das mãos, enquanto a outra apertava sua nuca nervosamente. Uma maré de sentimentos confusos ainda agitava-se dentro dele, podia senti-los revirando suas entranhas e tirando tudo do lugar. Seria tão fácil apenas pedir que Spock o tocasse daquela maneira, como no turbolift, e dissipasse todo aquele nó em seu peito. Era tão tentador, mas não podia. Precisava controlar sua própria cabeça, precisava recobrar o controle sozinho.
— Jim... — Spock se aproximou a passos silenciosos, tocando o antebraço de seu capitão com apenas a ponta de seus dedos. — Você quer que eu...
— Não toque em mim! Não quero que você faça aquilo de novo. — As palavras duras cortaram a frase do Vulcan como uma faca, altas de mais para a sala vazia. Spock recolheu sua mão instantaneamente, as sobrancelhas quase sumindo na linha perfeitamente reta de sua franja enquanto observava a expressão de quase dor no rosto de Jim.
— Não posso, não posso...Eu vou conseguir ficar bem sozinho, eu... — Desviou o olhar novamente, recuando mais um passo. — Essa é a merda da minha cabeça e eu preciso conseguir colocar ela no lugar por mim mesmo. — Apesar das palavras decididas, faltou força em sua voz, e as palavras saíram banhadas em algo que mais parecia mágoa.
Alguns longos segundos se passaram sem que nenhum dos dois dissesse absolutamente nada. O único som que podia ser ouvido em toda a sala era o chiado a respiração ainda irregular de Jim, parecendo alto de mais para todo aquele silêncio denso.
O capitão ainda estava com os olhos perdidos no chão quando percebeu o movimento de Spock, sutilmente se aproximando de sí. Ele parou quando estava a pouco menos de um metro de distância, mas Jim ainda não conseguiu olhar para ele.
— Jim. — O tom de Spock era suave, e Kirk percebeu que o som de seu nome era bem agradável dessa forma. — Olhe para o espelho. Olhe para você mesmo no espelho, por favor — Ele continuou, no mesmo tom macio.
Por um momento, Jim hesitou. Algo prendia seus pés ao chão como cola, e a mesma coisa fazia a palma de suas mãos suarem. Era medo? De que ele tinha medo, se já se vira no espelho incontáveis vezes? Inspirou profundamente o ar pesado do ginásio, e, segurando aquele pensamento, se virou para o espelho.
Lá, ele viu Spock de pé ao seu lado, viu o saco de pancadas ainda se movendo minimamente dos golpes que havia tomado, viu a mancha de suor que suas costas haviam deixando no espelho, e, por fim, viu alguém parado em frente ao espelho. Aquela pessoa tinha olheiras fundas sob os olhos azuis cansados, seus cabelos eram opacos, apesar do brilho dourado que já tiveram um dia. A pessoa parecia bem mais magra do que deveria ser, com os ossos aparecendo sob a pele pálida, quase cadavérica, que mais parecia ser feita de pano. A pessoa parecia cansada, parecia decadente, mas principalmente parecia doente.
Kirk sentiu sua garganta queimar, esse não podia ser ele. A luz fria da sala parecia tornar tudo pior, e ele sentiu uma vondade aterradora de se cobrir com qualquer coisa, de esconder aquela figura dantesca para que ninguém visse a sua desgraça.
Seus braços fecharam-se em torno de si, escondendo o que alcançavam. Sentiu seus lábios tremerem e mordeu-os no mesmo instante, contendo os impulsos quase compulsivos de choro que apertavam sua garganta. Não aguentava mais olhar.
— Porque isso está acontecendo comigo, Spock? — Foi um murmúrio baixo e trêmulo, mas Spock ouviu. — Porque eu não consigo resolver? Eu sou realmente tão inútil assim? Ela estava certa esse tempo todo? — Essa última frase fora dita tão baixo que até mesmo a audição Vulcan teve dificuldade em captar completamente, mas ele pode sentir ainda mais mágoa transbordar por ela.
— De forma alguma o adjetivo inútil pode ser usado para se referir a você, Jim. O fato é que sua mente esta passando por um momento conturbado, e tudo que você necessita é de ajuda. Se você me permitir, eu posso mostrá-lo.
Jim virou-se minimamente, parecendo uma figura pequena e frágil, tão diferente de como costumava ser.
— Me mostrar como?
— Em uma fusão. — Spock se aproximou um passo, e Jim levantou os olhos, encarando-o. Havia tanta coisa não dita que escorregava por aquelas piscinas azuis, tanto medo, aflição, mágoa...Mas no fundo, havia algo mais. — Eu lhe garanto que não será como da última vez.
Jim mordeu o lábio, não podendo negar que estava com medo. Porém, mesmo assim, ele balançou a cabeça afirmativamente. Spock merecia aquela confiança.
Com a resposta positiva, Spock se aproximou uma última vez. Sua mão se dirigiu com cautela ao rosto de seu capitão, que já fechara antecipadamente os olhos azuis.
— Minha mente para sua mente.
Houve um sussurro em Vulcan, um toque delicado e um formigar quente em sua bochecha, então Jim sentiu tudo desaparecer. Sua mente foi tragada para o desconhecido, e uma sensação de leveza inundou todo seu corpo, fazendo-o sentir como se flutuasse num oceano de pura paz. Antes mesmo que Jim pudesse assimilar o quão agradável era aquela sensação ela fugiu por entre os seus dedos, e logo estava sendo tragado por uma corrente de águas turbulentas. Ele sentiu um universo de cores passar diante de seus olhos, mesmo sentindo que, fisicamente, eles estavam fechados. As cores se transformavam em formas sem sentido, e quanto mais rápido a corrente o carregava, mas elas se multiplicavam. Era caótico, perturbador, mas dolorosamente familiar.
No tempo de uma batida de coração, tudo mudou. Havia um chão abaixo de seus pés, como se sempre estivesse estado ali, e um cenário quase infinito a sua volta. Jim estava em algum lugar bem alto, como um penhasco, e a primeira coisa que viu foi o céu; ele estava completamente encoberto por nuvens tão carregadas que eram quase negras, a chuva forte nublava a visão enquanto movimentava-se de um lado para o outro com o vento, rajadas de luz brilhavam por detrás das densas nuvens conforme os raios cortavam o céu, trazendo consigo um trovão estrondoso que fazia a terra tremer. As nuvens moviam-se numa dança bizarra, comprimindo-se e girando entre si, até que delas jorravam tornados ameaçadores que chegavam ao chão com fúria, destruindo tudo que tocavam.
Onde os tornados tocavam, havia uma cidade. Jim reconheceu ali vários dos grandes prédios de São Francisco, o prédio da Academia da Frota estelar entre eles, mas ao mesmo tempo também reconheceu uma grande parte do deserto de Iwoa, suas longas áreas de plantações, o prédio onde havia estudado quando criança e a base onde a Enterprise havia sido construída. Tudo ali parecia familiar, mas desorganizado, e tudo estava sendo impiedosamente destruído por aquela tempestade.
“O que é isso tudo? Porque esta tudo desse jeito?”
“Isso é a sua mente, Jim. Ou uma representação dela, ao menos” A voz de Spock respondeu sua pergunta de dentro de sua cabeça, e de alguma forma, Jim não se assustou com isso. Ele podia sentir a presença do Vulcan lá, tanto como ele sabia que se olhasse para seu lado direito, o veria em pé ali, bem ao alcance de seu braço.
“Essa tempestade é tudo que tem lhe atormentado, e a cidade é uma representação de todas as suas memórias, seu conhecimento, sua consciência...Você, em suma.” Ele continuou, surgindo no campo de visão de Jim, bem ao seu lado.
“Eu diria que está pior do que eu pensava, mas seria uma mentira.” Ele se sentiu rir, mas era doloroso onde deveria ser engraçado. “De alguma forma, é como se eu pudesse sentir isso acontecendo, e a pior parte é que nada que eu faço parece amenizar essa dor.”
“Isso é causado por sua insistente propensão a agir por conta própria, sem ajuda.” A voz de Spock soou amena, apesar das palavras diretas.
“Não é assim, eu aceitei a sua ajuda e a de Bones.”
“Aceitou? Siga-me, e eu vou demonstrar uma coisa.” Spock virou-se, caminhando por entre as poucas árvores que os cercavam, e Jim não hesitou em segui-lo. Ele não precisava olhar o caminho para andar, ele apenas sabia pra onde ir, como se uma força invisível o estivesse puxando para frente, mas não de uma forma desconfortável, era mais como ser guiado.
Era estranho caminhar assim pela própria mente, Kirk percebeu. Havia uma atmosfera de sonho no ambiente que deixava sua passagem de tempo confusa, assim como seu tato e audição ligeiramente mais aguçado, apesar dele ter, em algum lugar lá no fundo de sua cabeça, a consciência de seu corpo físico em pé na no ginásio da Enterprise. Seu estado de humor também já havia mudado a essa altura, e uma calma que não parecia ser sua se infiltrava por todo aquele medo e instabilidade que o atormentavam há minutos atrás, pouco a pouco tornando aquela sensação cada vez mais amena.
Quando Spock parou de caminhar, Jim se chocou ao notar que eles já beiravam a entrada da cidade. Olhando para trás, ele viu o penhasco onde estavam vários metros de altura acima deles e não fazia ideia de como haviam chegado ali embaixo tão rápido, ou por onde vieram.
“A instabilidade da sua mente se reflete em distorções no espaço-tempo nesse ambiente, por isso nossa deslocação aqui pode ser afetada tanto para ser acelerada ou retardada. Esse efeito pode ser controlado, porém isso fica para outra ocasião, não nos atrapalhará agora.” Spock disse calmamente, sentindo e respondendo a pergunta de Kirk antes mesmo de ele formulá-la.
Ele virou para seu capitão, e só estão Jim percebeu que eles haviam parado ao lado de uma placa de sinalização de mais ou menos dois metros, onde a frase “Bem-Vindo a Iwoa”estava pintada com uma tinta levemente luminosa, já bastante desgastada pelo tempo. Mas diferente do que ele se lembrava, essa placa estava com o ferro de suporte tão torto que a fazia dobrar-se em um ângulo beirando os 90 graus.
“Essa placa representa uma das diversas coisas que foi danificada pelo fenômeno causado por sua instabilidade. Agora, eu gostaria que você tentasse colocá-la no lugar.”
“Assim, sem ferramentas? Essas coisas são bem fortes, não sei nem como ela foi ficar assim. Já bati de carro numa placa dessas uma vez e ela só entortou alguns centímetros. “
“Estamos em sua mente, Jim. Tecnicamente, você pode fazer qualquer coisa.” Jim percebeu que Spock frisou discretamente a palavra “tecnicamente” e algo sobre isso o deixou levemente desconfiado. Normalmente, uma declaração dessas o deixaria no mínimo animado com as milhares de possibilidades, mas no momento a única reação que tirou dele foi um “oh” de compreensão.
Ele se aproximou da placa, logo a segurando com as duas mãos e puxando-a para cima com não muita força. O aço era gelado sob seus dedos, e a placa não se moveu nem um milímetro. Olhou para Spock com as sobrancelhas levantadas, mas o Vulcan não fez nenhum movimento para desmentir o que tinha dito antes. Jim tentou mais uma vez, com mais força, mas novamente não houve nenhum resultado. Ele bufou, mudando de posição para que ficasse quase em baixo da parte torta da placa, na tentativa de conseguir mais força. Empurrou de novo, dessa vez com tudo que tinha, e só assim sentiu a movimentação da barra de aço, porém para o lado errado. Sem nenhuma razão lógica aparente, ao invés de desentortar a placa apenas entortou mais, movimentando-se para o sentindo contrário que Jim estava empurrando.
“Mas o que infernos? ”O loiro se afastou rapidamente da placa, sem entender absolutamente nada. Procurou os olhos do Vulcan novamente, na tentativa de obter alguma explicação para aquilo.
“O senhor me permitira tentar?” Definitivamente aquilo não era o que Jim esperava sair dos lábios do seu amigo.
“Como assim quer tentar, não viu o que essa coisa fez?” Perguntou, com a voz ligeiramente mais alta do que deveria. Spock não respondeu, apenas continuou olhando-o com aquela expressão estoica padrão, como se ainda estivesse esperando uma resposta. Jim deu de ombros.
“Ok, vai lá. Não sei porque você me pediu permissão, em primeiro lugar.” Ele cruzou os braços, apenas observando enquanto seu primeiro oficial aproximava as mãos da barra de aço. Porém, quando ele estava a centímetros de tocá-la seus dedos foram repelidos violentamente por alguma coisa. Kirk viu faíscas saírem do local do contato, como se fossem circuitos em curto, e tão logo desaparecerem quando Spock retirou a mão.
"Spock, você está bem?" Jim se adiantou em direção a seu primeiro oficial, preocupado. Spock estava analisando sua mão direita calmamente, apesar de uma queimadura aparentemente dolorosa colorir a ponta de seus dedos de verde.
"Fascinante, embora tenha imaginado esse resultado." O Vulcan murmurou, fazendo Jim franzir o cenho.
“Você sabia que isso iria acontecer e colocou a mão mesmo assim?"
"Era necessário. Eu precisava demonstra para que você tomasse consciência de algo que esta fazendo inconscientemente."
"Eu? O que eu..." A frase morreu em seus lábios quando finalmente percebeu. Tudo ali era sua mente, tudo ali vinha e era controlado por ela, mesmo que ele próprio não tivesse consciência disso. E esse, especificamente esse era o ponto que Spock queria chegar.
"Fui eu que fiz isso com você." Não era uma pergunta, ele sabia que tinha sido responsável. Sua voz pesou com a culpa e seu olhar fugiu para longe, a última coisa que queria era machucar Spock.
"Sim, Jim. Teria feito com qualquer outro. É um mecanismo que defesa que você desenvolveu para garantir a integridade de seu ego, é comum em humanos. Porém, no seu caso, está sendo mais prejudicial do que benéfico.” Spock deu uma pausa, e Jim sentiu seu olhar sendo puxado de volta para o Vulcan. Por alguns instantes ele resistiu, temendo encontrar algum ressentimento, reprovação ou até decepção naqueles olhos cor de chocolate, temendo que eles lhe refletissem o que tantas vezes já vira em seu passado, e que machucara-o tão fundo que ainda doía.
“Se me permite uma comparação explicativa, cito um fêmur fraturado em uma época onde a medicina ainda era rudimentar. O osso danificado precisava ser imobilizado para que pudesse se regenerar por si próprio, e enquanto o tratamento durasse o paciente deveria fazer uso de muletas para que pudesse se locomover. Se o paciente usasse as muletas pelo tempo recomendado, a lesão se curaria sem complicações e logo ele voltaria a andar sem assistência. Se essa prescrição não fosse seguida e ele insistisse em andar por si só, a lesão se agravaria e o tratamento se entenderia indefinidamente, ou poderia até tornar seu estado irreversível.” Ele continuou, sua voz soando suavemente didática e limpa, ao mesmo tempo sendo agradável e apática. Tão característica, tão única, tão Spock.
“Jim.” Chamou, e essa única sílaba vibrou por todo o corpo do capitão, dando-lhe coragem para finalmente encontrar o olhar do outro. O que ele viu ali tirou todo o oxigênio de seus pulmões.
“Permita-me ser sua muleta, divida seu fardo comigo.“
Naqueles olhos havia dedicação, havia compreensão e companheirismo, ali havia alguém que não julgava, não depreciava ou diminuía. Ele oferecia aquele amparo de forma tão inocente e pura que Jim não compreendia como era possível existir um ser tão gentil.
Jim queria dizer que sim, mas ele não conseguia falar. Havia um nó de comoção em sua garganta que não deixava as palavras saírem, e ele tinha medo de tentar e perder o controle de suas emoções.
Então ele viu a expressão de Spock relaxar ainda mais, seus lábios se contraírem minimamente para cima e seu rosto pender de leve para o lado. Jim não precisava dizer nada, Spock estava sentindo tudo com tanta clareza como se fossem seus próprios sentimentos. Eles eram uma só mente, ao mesmo tempo em que eram apenas eles mesmos.
“Tentaremos mais uma vez, dessa vez juntos.” Spock disse, e Jim concordou com um manear leve de cabeça.
Eles moveram suas mãos em direção à placa quase ao mesmo tempo. Não houve nada que impedisse Spock de se aproximar dessa vez, e quando empurraram juntos o cano de aço ele era leve debaixo de seus dedos. Sem quase nenhum esforço, eles empurram-no como se fosse feito de pano.
Juntos, foi quase tão fácil e natural quanto respirar.
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