About a broken soul and a new bond
9 The first level of recognition
Notas iniciais
Os olhos cor de céu se abriam para a escuridão submarina, sem se importarem em quase não enxergar. Ele reconheceu aquele lugar familiar quase no mesmo instante; seu esconderijo secreto, seu refúgio impenetrável. Tantas vezes ele havia afundado por aquelas águas, deixando-as lavar a dor do isolamento, dos olhares congelados, das palavras amargas, dos punhos pesados..Mais tarde ela também ajudou com a dor de um estomago vazio, da miséria, do luto, do sofrimento de ver a morte tão de perto. Incontáveis vezes ele estava lá, como pôde pensar que ele não estaria de novo?
Era frio ali, mas ele não se importava. Era o frio da dormência, e esse era acolhedor. Ele moveu suas pernas, sentindo a água se movimentar sob sua pele numa carícia suave, afável. Moveu seus braços, querendo mais daquela sensação, e logo estava nadando para lugar nenhum enquanto o mar lhe abraçava por todos os lados.
Ele respirou aquela sensação, se afogou nela. Precisava daquele contato, daquela carícia de dedos gelados e macios que tanto lhe foi negada, mas que no seu lugar secreto era lhe dada de bom grado.
Muito acima de sua cabeça, havia luz. Imagens dançavam na superfície da água, e vez ou outra ele podia ver o movimento delas pelo pouco de luz que chegava naquela profundidade. Ele não gostava delas. A superfície era caótica, imprevisível e insegura, e ele não queria isso. Gostava do abraço silencioso das águas, de sua calmaria, do silêncio.
Era seguro na escuridão do seu lugar secreto, e era assim que queria.
Ele olhou para baixo, para a imensidão negra do fundo do mar, e ela lhe olhou de volta com seus olhos que ninguém podia ver. Às vezes, parecia tentador ir para lá. Não haveria luzes, nem o eco dos longínquos sons da superfície, somente o mais profundo nada. Mas ele sabia que se fosse para lá, não haveria volta.
Seus olhos procuraram a superfície novamente, tão distante e pálida em suas luzes disformes, tão detestável que doía olhar para ela. Para que ele precisava dela? Porque continuar a ser machucado por ela, se a alguns metros abaixo ele encontraria a mais completa e absoluta paz? Descer lhe pareceu tão correto que, sem pensar, começou a nadar para baixo.
Para baixo e mais para baixo, assim ele nadaria até que não houvesse mais nada atrás dele.
A superfície era apenas um ponto distante quando alguma coisa aconteceu. Em algum lugar, uma luz brilhou. Era pequena, e se apagou tão repentinamente quanto apareceu, mas ele viu. Parou de nadar no mesmo instante, se perguntando por que haveria luz ali. A luz piscou de novo, brilhante como uma pedra de ouro, e dessa vez demorou um pouco mais para extinguir. Ela era tão bonita e parecia tão quente que não conseguiu controlar o impulso de simplesmente ir até ela.
A luz continuou piscando, mais forte e mais quente à medida que ele nadava em direção a ela. Não sabia o quanto nadou, ou por quanto tempo nadou, mais o que pareceu uma eternidade depois, sua já tão preciosa luz deixou de apagar. Ela se manteve a sua frente, exibindo deliberadamente seu brilho glorioso, enfeitiçando-o para perto. Quando ele estava quase tocando-a, já sentindo seu calor beijar a pele de seus dedos, ela explodiu em um milhão de faíscas luminosas.
E foi então que ele viu a porta.
Numa imensa parede de rochas, havia uma porta. Agora, com as pequenas partículas da sua luz, ele podia vê-la incrustada profundamente na pedra escura. A porta parecia antiga, meio encoberta por uma rede de plantas, mas definitivamente bem fechada. Ela tinha o formato do sol, e por toda sua volta havia inscrições em uma língua estranha, alienígena. Ele tocou nela e calor explodiu por seus dedos, percorrendo mãos e braços, até preencher o vazio do seu coração gelado. Ele suspirou, com o coração cantando em resposta àquele calor que tanto precisava.
Procurou desesperadamente por qualquer abertura que lhe desse algum vislumbre do que estava do outro lado, e quase vibrou ao encontrar uma pequena rachadura na porta. A água que vinha de lá estava quente e cheirava como terra ao sol, como um oásis num deserto, como uma tempestade de areia de verão. Havia mais cheiros, cheiros que ele não conhecia, e provavelmente cheiros que seu olfato não conseguiria captar. Mas acima de todos eles, havia o cheiro de alguém. Cheirava como um humano, ao mesmo tempo que não; era picante, mas suave; era selvagem e controlado; adocicado e ao mesmo tempo amadeirado.
Era fascinante.
Ele tentou ver pela fenda, mas a porta era tão larga que seus olhos não enxergavam o outro lado. Sabia que havia alguém lá, soube no momento que seus dedos tocaram a pedra aquecida. Cada célula do seu corpo clamava em resposta àquele ser, e nada parecia mais certo ou importante do que estar junto dele.
De repente, não fazia mais sentido ir para a escuridão.
Os pesadelos não acabaram depois daquela noite no ginásio; por muitas noites Jim ainda acordou sem ar, tomado pela agonia deles. Mas por alguma razão, ele não temia mais voltar a dormir. Não entendia como, mas sabia que quando voltasse a dormir, os pesadelos não voltariam, pelo menos não naquela mesma noite.
Ele sonharia com seu lugar secreto, com o abraço do mar, com a luz quente, com a porta e os cheiros desconhecidos. Mas principalmente, ele sonharia com a presença reconfortante do outro lado da porta, e isso acalmaria seu coração melhor do que todos os seus remédios, mesmo que no dia seguinte Jim não se lembrasse de nada.
~
Como prometido, as sessões com Spock começaram logo no dia seguinte. Eles decidiram o horário durante o almoço, logo depois de McCoy discursar durante quase 20 minutos sobre a perda de peso assustadora de Jim e jogá-lo numa dieta hipercalórica (que poderia ter o deixado em feliz, se não fosse toda composta por calorias saldáveis que não incluíam as contidas em batatas fritas, costelinhas e hambúrgueres gigantes).
Quando Spock entrou pela porta de seu quarto para a primeira sessão, Kirk estava nervoso como um cadete em sua primeira aula de tiro. Sabia que não havia motivos para aquele nervosismo. Era Spock ali, o mesmo Spock que o amparara em tantas ocasiões nesse último mês, seu melhor amigo e, no momento, praticamente seu terapeuta. A última coisa que devia estar era nervoso.
Para sua sorte, a primeira coisa que Spock fez foi relaxá-lo. Ele se sentou sob o tapete de meditação que o Vulcan trouxera e, guiado pela voz dele, aprendeu um exercício de relaxamento muscular. Kirk se sentiu estranho de início, com uma vontade meio estúpida de rir enquanto Spock o mandava contrair determinados músculos e depois relaxá-los, mas ela logo passou quando ele percebeu o quão eficaz isso realmente era. O exercício foi do músculo das panturrilhas até os de suas bochechas, e quando acabou seu corpo estava tão mole que quase lhe deu sono.
Antes que Kirk pudesse pensar em ficar ansioso novamente, Spock o ensinou outro exercício, dessa vez de respiração. Esse era simples e foi bem rápido, e depois dele nem que quisesse o capitão ficaria nervoso.
A conversa veio logo depois. Com Jim em estado de completo relaxamento, Spock questionou-o sobre o que vinha sentindo desde que voltara a Enterprise. Era a primeira vez que falava sobre isso diretamente com alguém, mas as palavras saíram com mais facilidade do que esperava. Ele falou sobre os pesadelos, a falta de apetite e de sono, o desânimo, a angústia e a falta de vontade de fazer qualquer coisa. Ele falou, e falou, e falou ainda mais, enquanto Spock apenas o observava e vez ou outra fazia anotações em seu PADD.
Quase 40 minutos depois, quando suas palavras finalmente terminaram, ele se surpreendeu com o quanto tinha a dizer. Suspirou, apreciando a sensação de alívio que colocar tudo aquilo para fora tinha lhe proporcionado. Tinha guardado o que sentia por tempo de mais, ele percebeu.
Quando o capitão achou que a sessão tinha terminado, Spock chamou-o para uma fusão de mentes, que ele aceitou sem hesitar. Juntos, andaram pela cidade destruída da mente de Jim enquanto os sons dos tornados ainda enchiam o ar. Continuava um caos lá, e Spock avisou que ainda ficaria assim por um tempo, mas a placa que eles haviam colocado no lugar da outra vez ainda estava intacta, da mesma forma que haviam deixado.
Continuando o trabalho que tinham começado, eles procuraram outra coisa pra consertar. Jim estava se sentindo confiante, e escolheu um bar que costumava ir muito enquanto estava na academia. Juntos, foi tão fácil quanto da outra vez, e em pouco tempo o lugar parecia exatamente como se lembrava. Em nenhum momento
Eles consertaram mais uma parte daquela rua juntos, e quando terminaram já era noite na mente de Jim. Porém, quando voltaram a realidade e o fraco zumbido dos motores da Enterprise voltou a ser a única trilha sonora, só haviam se passado 10 minutos.
E durante o próximo mês inteiro essa seria a rotina do capitão e de seu primeiro oficial. Duas vezes por semana Spock ia aos aposentos de Jim ao fim do turno, e ficava lá durante duas horas inteiras. Eles faziam os exercícios de relaxamento; conversavam sobre Jim, sobre como ele se sentia, sobre como era antes de tudo isso, como queria ser a partir dali, sobre seus medos e suas falhas, seus planos e suas metas; depois Spock entrava na mente de Jim e eles reconstruíam tudo que podiam daquela cidade em ruínas.
Às vezes, Spock ficava até mais tarde para jogar xadrez, que era o que qualquer curioso da tripulação achava que eles faziam desde o início. Nesses dias, eles jogavam até o sono de Jim aguentar, ou até Spock definir que era hora dele dormir para que tivesse “o mínimo de horas de repouso necessário para garantir que seu corpo humano trabalhe de forma funcional”.
Eles almoçavam juntos também, na maioria dos dias. Geralmente era McCoy que tomava conta das refeições de Jim, mas quando por algum motivo o bom médico não podia exercer essa função, Spock ocupava seu lugar com louvor. O resultado dessa vigília de seus melhores amigos foi bem positivo no final, pois nessas quatro semanas o capitão conseguiu recuperar metade do peso que tinha perdido, e graças a isso já não se sentia mais com cara de paciente recém-saído da enfermaria.
A enfermaria, por sinal, foi um lugar que Kirk acabou indo menos do que esperava. Bones só o chamava uma vez por semana para checar sua condição, mudar ou manter os remédios e perguntar sobre seu progresso com Spock. Na terceira semana ele já pôde reduzir a dose do composto que tomava antes de dormir, e se as coisas continuassem como estavam, McCoy estava otimista que poderiam reduzir o ansiolítico em breve.
Durante esse tempo a Enterprise já aceitara e terminara duas missões inteiras, além de resolver o caso dos Nausicaanos. Primeiro foi o transporte de um grupo de astrofísicos e peritos em física quântica Andorianos a uma importante convenção no planeta Alpha Enestan (apesar de Jim achar um desperdício usar uma nave como a Enterprise simplesmente para transporte), e depois foi prestar assistência técnica à tripulação da USS Juhani, que teve problemas com seu motor de dobra bem na fronteira do espaço inexplorado.
Agora, depois de quase quatro dias viajando preguiçosamente em dobra três, já em território inexplorado, a rotina da Enterprise e de seu capitão estava prestes a ser quebrada.
Eram 1427*, no horário da nave, e estava tudo bastante calmo na ponte. Jim estava sentado em sua cadeira lendo parte dos relatórios semanais dos setores da Enterprise, que nada tinham de novidade além de alguns pedidos esdrúxulos (como mais uma expansão da sala de recreação dois e reposição de toneladas de equipamentos científicos danificados), até que algo no painel de Chekov começou a apitar.
— Senhor, um objeto estranho entrou no alcance dos sensores — o jovem russo disse, analisando os painéis de sua estação com o cenho franzido, como que para ter certeza do que estava lendo.
Jim mudou a postura imediatamente, sentando corretamente em sua cadeira.
— Especifique, tenente.
— Eu não tenho certeza, senhor. Ainda está muito longe, mas está se aproximando a cerca de 28% da velocidade da luz.
— Sr.Spock, me consegue mais informações? — Kirk pediu, virando-se minimamente para sua direita.
— O objeto tem 781,502 kg, 6,916 metros de diâmetro e sua trajetória é linear e contínua. Desta distância os scanners só captam parte de sua estrutura, que parece ser composta quase exclusivamente por metais, mas há materiais que o computador não consegue identificar. Não há traços de matéria orgânica. — Os dedos de Spock se moviam fervorosamente pelas telas de sua estação, abrindo e fechando janelas de dados e comandos. — Consegui uma imagem, capitão.
— Coloque na tela principal. — Jim apertou a PADD sem que percebesse, enquanto expectativa borbulhava quente em seu estômago.
Quando a imagem finalmente preencheu a tela principal da ponte, todos os olhos estavam nela. No meio da imensidão negra e pontilhada de estrelas, havia um ponto se movendo. Ainda era pequeno, mas sua forma perfeitamente cônica era nitidamente distinguível.
— Isso é o mais próximo que conseguimos? — Jim já havia se levantado de sua cadeira a essa altura, aproximando-se da tela até o meio da ponte.
Como resposta a imagem se ampliou, e o objeto cresceu três vezes o tamanho de antes. Agora era possível ver que quatro ramificações metálicas saiam do casco do objeto, dispostas simetricamente e em formato retangular, inclinavam-se para trás em um ângulo que parecia ser algo próximo à 45°.
Agora foi a vez do console de Uhura começar a apitar insistentemente. Ela voltou sua atenção para ele no mesmo segundo, pressionando o transmissor em seu ouvido.
— Pegou alguma coisa, tenente Uhura? — Jim perguntou, contendo a excitação que começava a querer se alastrar pelo corpo com as milhares de possibilidades que passavam por sua cabeça.
— Parece que a nave está emitindo algum tipo de sinal. – Os olhos castanhos corriam de um lado para o outro da sua tela, suas sobrancelhas franzidas em uma expressão de pura concentração. De um segundo para o outro, seus olhos cresceram em surpresa e ela virou para Kirk, piscando. — É uma mensagem, senhor!
— Coloque na tela.
Jim apoiou suas mãos na borda da mesa entre a estação de Chekov e Sulu, e a tela da ponte se encheu novamente. Inicialmente, a mensagem nada mais era do que borrões e estática, Kirk estava pronto para virar-se para a estação de comunicação cobrando atitudes quando tudo estabilizou e a ponte caiu em completo silêncio.
Diante deles revelava-se a imagem de um ser diferente de tudo que a federação conhecia.
Inicialmente, parecia humanoide. A imagem só mostrava a parte superior de seu corpo, e ali se podia distinguir dois braços, um tronco e uma cabeça. Ele vestia uma espécie de túnica sem mangas, com tecidos sobrepostos e de algum material leve e fino que se movimentava de maneira quase sobrenatural, fazendo com que a forma de seu corpo não fosse mais visível do que uma ligeira silhueta. Os braços, mais longos que os humanos, terminavam em mãos de apenas três dedos que se moviam com uma suavidade felina enquanto faziam um gesto breve que provavelmente era uma saudação.
O seu rosto era comprido e oval, ligado ao corpo por um pescoço esguio e de quase duas vezes o tamanho de seu correspondente humano, e em suas laterais guelras movimentavam-se num ritmo arrastado de respiração. Os olhos eram grandes e ligeiramente afastados, tinham formato de amêndoas e eram preenchidos por tons de amarelo e marrom que escureciam nos cantos, como se as íris ocupassem todo o globo ocular. Suas pupilas eram apenas pequenos pontos negros no meio daquela intensa mistura de cores. Manchas azul royal contornavam seus olhos como se tivessem sido delineadas com um pincel, bem rentes na parte inferior, mas engrossavam na superior, formando suaves ondas sob a testa. Os cílios eram tão grandes que pareciam ter mais de cinco centímetros, orgulhosamente esticando-se para a lateral de seus olhos naquele tom escuro de roxo. Não havia nenhum sinal de nariz em seu rosto, e a boca era um fio fino que quase não tinha volume de lábios. Sua cabeça parecia esticar-se levemente na parte traseira, onde o que aparentava ser cabelo prendia-se em um rabo de cavalo alto, caindo como uma cachoeira de fios ondulados que variavam entre tons de azul e verde até depois de onde a imagem revelava. Do topo da testa, onde pele e cabelo se encontravam, um par de chifres crescia como ramos de uma árvore. Eles eram da mesma cor que sua pele, um azul pálido e estriado com tons de lilás, e contraíam-se levemente, mostrando serem completamente articulados.
— Hyan'janss — ele disse, um som estranho e não humano, que fazia Jim lembrar-se ao mesmo tempo de um chiar de cobras e um canto de baleias. — Viajantes. — A voz completou, e Jim soube que o tradutor universal havia pegado pelo menos uma parte da frase.
Alguém segurou uma respiração atrás de Jim, e o ser voltou a falar. Ele falou por cerca de cinco minutos, com aquela voz macia e melodiosa que fazia o capitão não conseguir identificar seu gênero (e se tinha algum), e o tradutor só conseguiu pegar algumas poucas expressões e palavras soltas como "nossos irmãos", "pacífico", "contato" e "dividir sabedoria".
Quando as palavras acabaram, o ser pendeu a cabeça para o lado de leve, e enquanto repetia o movimento de mão que fizera antes, a sua pele brilhou. Como o reflexo de água sob a luz do sol, a pele do ser se iluminou por inteiro, brilhando em tons suaves de azul enquanto ele sussurrava "Vyan'janss".
E repentinamente, a tela se apagou.
Por quase um minuto, ninguém se moveu. Jim se virou para sua tripulação, vendo as expressões de maravilha, surpresa e incredulidade nos olhos arregalados e lábios entreabertos de cada um. Seu próprio rosto não estava diferente, os olhos azuis brilhavam na mais pura expectativa. Respirou fundo; ainda não era hora pra isso, muita coisa precisava ser esclarecida.
— Chekov, refaça a trajetória do objeto, precisamos saber de onde isso veio. Sulu, aproxime-nos o máximo que puder, precisamos definir o que exatamente é isso e de onde veio essa mensagem. Spock, todos os scanners nele! Quero destrinchar a composição de cada grama dessa nave, e se isso estiver enviando dados para qualquer lugar eu quero ficar sabendo. Vamos, vamos, todo mundo trabalhando! — As ordens apressadas do capitão trouxeram todos de volta a realidade, e a ponte novamente foi preenchida por sons frenéticos de digitação e bipes de resposta das estações.
— Uhura. — Jim chamou, dando a volta na ponte até estar ao lado da cadeira da tenente. — Quero que junte seus melhores linguistas e encontre uma forma de calibrar o tradutor universal para me dar mais do que essas palavras soltas.
— Imediatamente, capitão. — A morena confirmou com a cabeça, e seu rabo de cavalo voou alto quando ela se virou de volta para sua estação, já ligando para os subsetores de comunicação pelo transmissor.
O capitão virou-se para sua cadeira, não conseguindo pensar em manter-se sentado numa hora daquelas. Ele foi para a estação de Spock, em vez disso, já jogando milhares de perguntas sobre todos os dados que seu primeiro oficial coletava.
De uma coisa ele tinha certeza; aquele seria um longo dia.
~
O que pareciam incontáveis horas depois, Uhura finalmente se levantou de seu lugar na sala de pesquisa linguística, dando lugar ao tenente que pegaria o turno beta. Ela havia saído da ponte poucos minutos depois de terem recebido a mensagem da nova espécie, enfurnando-se naquela sala com mais 13 dos melhores especialistas do setor de comunicação em busca de uma tradução descente para aquela mensagem. Não foi nada fácil, por ninguém ter ideia do tipo de sintaxe que se aplicava naquela língua, mas depois de muito trabalho duro e inúmeras calibragens diferentes, o tradutor havia pegado mais de 80% da mensagem e ela estava quase certa de que o turno beta daria conta do resto.
Andando pelos corredores ainda um pouco movimentados pela troca de turno, Uhura só conseguia acumular expectativa. O capitão se pronunciaria sobre a mensagem para o resto da tripulação no dia seguinte, depois de uma reunião com a equipe sênior, o que a fazia uma das únicas pessoas a saberem o conteúdo dela. Ela apertou as mãos no vestido vermelho sem perceber, tentando conter a vontade de gritar pelos corredores o quanto aquela mensagem era especial.
Apertou os lábios, sabendo que nada poderia sair dali, não até a reunião. Mas ela estava tão ansiosa, tão embriagada pela expectativa que borboletas dançavam alegremente em sua barriga, fazendo-a sentir vontade de comemorar. Precipitado? Como certeza. Porém como não ceder, quando o sonho de todo linguista parecia estar se aproximando em dobra 8? Quando a possibilitar de conhecer, estudar, catalogar uma língua e cultura completamente novas quase pulava de paraquedas no colo de sua equipe.
Com tudo isso fervilhando dentro dela, Uhura sabia que não conseguiria pregar os olhos naquela noite. Precisava pelo menos dividir isso com alguém, pelo amor de Deus. Mas quem? Só havia essa possibilidade com quem já estava ciente do conteúdo da mensagem, ou seja: sua equipe, o capitão e Spock. Sua equipe estava exausta, não podia interromper o descanso deles apenas porque estava tendo uma crise de ansiedade como uma cadete. Sentiu-se ligeiramente ridícula por essa parte, mas preferiu ignorar. Afinal, tenentes adultos e experientes também tinham direito a um pouco de ansiedade em situações como essa, não é? É.
Continuando sua linha de pensamento, ela acabou numa escolha fácil. Entre Spock e o capitão, era óbvio quem escolheria. Quem melhor que seu namorado Vulcan para aquietar suas borboletas sentimentais com uma boa dose de explicações e probabilidades lógicas?
De quebra, podia conseguir um bom jantar com ele, como não fazia a umas boas semanas. Talvez, só talvez, a animação do momento os ajudasse a dar pelo menos um passo a mais na relação. Oh, seria fechar o dia com chave de ouro, com certeza. Ela olhou no PADD que carregava, ainda eram 2146. Spock nunca se deitava antes das 0100, por todo aquele papo de Vulcans precisarem de menos horas de sono, ainda tinha tempo de pôr em prática sua ideia.
A tenente de comunicação discretamente se apressou para seu quarto, tomou um banho rápido, e em meia hora já estava em um novo uniforme. Pensou em usar um par de suas roupas civis, mas poderia chamar atenção, e Uhura queria parecer casual. E era casual, ela só iria pedir para jantar com o namorado, o que tinha de surpreendente nisso? Não precisava fazer um estardalhaço por uma coisa dessas, era só ir e tudo ficaria bem.
Antes que pensasse em algum motivo que a fizesse desistir e passar a madrugada em claro sozinha, Uhura saiu de uma vez de seus aposentos. Pouco mais de cinco minutos depois, lá estava ela parada em frente à porta de Spock.
Sem exitar, ou se deixar pensar nisso, Nyota tocou o painel que acionava o sinal sonoro. Não demorou mais de um minuto e a voz formal de Spock quebrou o silêncio do corredor.
— Pois não.
— Sou eu, Spock. — Não quis parecer muito empolgada, mas torceu os lábios assim que a última palavra saiu, tendo quase certeza que não havia tido êxito.
— Tenente Uhura, em que posso ajudá-la? — Ela piscou, isso era um pouco estranho. Já haviam passado a algum tempo da fase onde ela tinha que ter uma justificava para entrar no quarto de Spock.
— Se você me deixar entrar, , eu ficaria feliz em contar. Vamos, é terrível falar com você por essa porta. — Dessa vez, ela deixou que o um tom brincalhão fluísse por suas palavras, na tentativa de rachar um pouco essa barreira de formalidade que Spock já deveria ter parado de construir com ela.
De resposta, ela recebeu um silêncio de quase dois minutos. Suas sobrancelhas franziram automaticamente com a demora ainda mais atípica, e já estava prestes a tocar o sensor novamente quando a porta se abriu.
Spock estava parado bem em frente a porta, meio de lado, mas com a postura tão rígida como se estivesse prestes a receber ordens. Uhura deu dois passos para dentro do cômodo, apenas o suficiente para sair do alcance dos sensores, fazendo-o se fechar automaticamente.
— Você demorou, o que houve? Está escondendo alguma coisa de mim, é?
Ela disse, sorrindo, enquanto passava os braços por cima dos ombros do Vulcan num abraço caloroso. Apesar de ter sentido Spock tenso contra seu corpo no primeiro momento, não demorou para uma mão quente tocar cuidadosamente sua cintura, fazendo Uhura sorrir no abraço. Normalmente ela não se aproximava do Vulcan assim, mas a ocasião a deixou um pouco fora do normal.
No mesmo instante em que se afastou de Spock, e só ali, a tenente de comunicação percebeu que eles não estavam sozinhos no quarto. Um par de olhos azuis incomodamente zombeteiros estavam presos nela, e quando seus olhares se encontraram, um sorriso de lado se juntou a eles. Uma pontada de mau humor afugentou algumas de suas borboletas antes mesmo que se desse conta.
— Oh, capitão. Que surpresa vê-lo aqui. — Ela sorriu, apesar de não tenha alcançado muito bem seus olhos. Era impressão de Jim, ou tinha um pouco de sarcasmo ali também?
— Fique tranquila, t Uhura, eu já estava saindo. Não vou atrapalhar a noite de vocês. Afinal, depois do que fizeram hoje merecem comemorar — O loiro desencostou-se da mesa onde estava, caminhando alegremente para a porta. Nyota acompanhou-o com o olhar, pegando o momento em que ele piscou para Spock numa expressão quase caricata, murmurando um "vai lá, garotão" para o Vulcan, que apenas ergueu uma sobrancelha. Uhura quase revirou os olhos com aquele comportamento, se perguntando como ele realmente podia ser capitão de uma nave estelar.
— Não brinquem até tarde, crianças. Amanhã teremos mais um dia cheio pela frente. — O capitão encerrou com um aperto leve no ombro de Spock, e deixou o quarto sem olhar pra trás.
A porta se fechou, prendendo um silêncio estranho no cômodo. Spock, que ainda estava parado no mesmo lugar desde que a morena , virou-se novamente para ela com a expressão tão neutra como apenas um bom Vulcan poderia.
Sem esperar por palavras ou convites, Uhura saiu da entrada do quarto, caminhando até onde Kirk estava há pouco. Ela respirou fundo, e havia um cheiro refrescante no ar. Parecia shampoo, e ela já havia sentindo-o antes em vários lugares. Era de Jim, ela sabia. Ele deve ter tomado banho antes de vir para cá.
Olhando para a mesa de Spock, Uhura viu o tabuleiro de xadrez meio puxado para o meio da mesa, mas numa posição desconfortável para o uso. Ela não jogava, apesar de saber as regras por alto, mas a configuração das peças parecia estranha, como se tivesse sido arrumado às pressas, e não efetivamente jogado. Na lateral da mesa, perto da parede, jazia uma das xícaras de Spock. Um resto de chá sujava seu fundo levemente, e logo ao lado dela havia um copo quadrado, ainda com meio dedo de um líquido âmbar. Era whisky, obviamente. A bebida favorita de James T. Kirk.
De repente, Uhura virou-se novamente para o namorado, o rabo de cavalo voando com o movimento. Ela sorria, mas as borboletas já não faziam cócegas em sua barriga, nenhuma delas.
— Então, onde estávamos? Ah, sim. Saí agora a pouco do turno, e achei que seria legal jantarmos juntos, o que acha? Quase não te vi hoje, na verdade quase não te vejo há alguns dias. — Seu tom foi reduzindo a cada frase, e a última não passou de um murmúrio.
— Eu já consumi minha quantidade diária de nutrição — Simples e claro, Spock atravessou a sala até parar atrás de sua mesa, e calmamente começou a arrumá-la.
Uma imagem mental de Spock e o capitão sentados lado a lado na mesa do refeitório, tendo suas refeições enquanto Kirk discursava alegremente sobre qualquer coisa invadiu violentamente os pensamentos de Uhura. Com uma imperceptível contração de sobrancelha, ela tentou afastá-la, mas ela simplesmente se recusava a sair.
— Ah, claro. Eu deveria ter imaginado — Nyota suspirou, não conseguindo conter um riso que beirava o sarcasmo. Spock continuava organizando sua mesa, como se Uhura nem estivesse lá. Seu humor já havia despencado completamente, e o que era para ter sido uma proposta de noite agradável transformara-se num empurrão em direção a uma conversa que ela simplesmente não queria ter.
Mas Nyota Uhura era uma mulher forte, compreensiva e sabia a hora adequada para esse tipo de conversa, e as vésperas de uma data importante definitivamente não se enquadrava nesses momentos.
— Tudo bem, deixamos o jantar para outro dia. — Inclinando-se sobre a mesa, Uhura selou um beijo leve na bochecha de Spock, que parou o que fazia no mesmo instante. O beijo foi leve, casto, e durou apenas um segundo, mas foi o suficiente para prender a atenção do Vulcan. — Boa noite, Spock. — Foi a despedida baixa, mas antes que pudesse se afastar uma mão quente tocou seu pulso, apenas superficialmente.
— Você está com raiva. Eu fiz algo que a desagradou?
— Você acha que fez? — O Vulcan não respondeu dessa vez, apenas a observou com aqueles olhos escuros, que ela não entendia como podiam ser tão expressivos e ao mesmo tempo tão enigmáticos. — Depois conversamos sobre isso, ok? — Com essas últimas palavras, e mais um "Boa noite", Uhura saiu da cabine de Spock sem olhar para trás, desejando apenas que ela nem tivesse entrado.
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