About a broken soul and a new bond

10 The first level of confrontation


Notas iniciais
Acho que bati o recorde de sumiço dessa vez, né? Desculpa gente, odeio ser essa autora escrota que faz isso com vocês ;-; Mas como eu sempre digo, eu amo muito essa história e a última coisa que quero é abandoná-la. Então ta aí, espero que aproveitem o capítulo. ALGUNS AVISOS ANTES: Contém cenas fortes. Não quero dar spoiler, mas é um pouco pesado então se preparem. Adicionei alguns avisos e gêneros novos na história (e mudei pra +18), porque acabei percebendo que teria que adicionar algumas cenas que não estavam no plano inicial pra essa fanfic (se ainda lembram, pretendo fechar uma trilogia, então vem mais uma fic depois dessa). Deem uma olhadinha depois, talvez deixe algumas pessoas felizes rs Música: Sledgehammer - Rihanna (SIM, É POR CAUSA DE STAR TREK BEYOND E ESSE CLIPE E MÚSICA MARAVILHOSOS)

Com um baque que ecoou por todo o cômodo, as costas do capitão se chocaram com o tatame fino do piso. Foi tão inesperado que a queda puxou pra fora quase todo o ar dos seus pulmões, fazendo-o tossir rouco. Definitivamente, essa havia doído bastante.

—Tudo bem aí, Jimmy boy?—McCoy perguntou do outro lado da sala, com um inegável ar de deboche. Ele levantou a caneca de café fumegante aos lábios, tomando um longo gole enquanto estudava a cena com olhos divertidos, apesar da nítida sonolência ranzinza.

—Apenas não fale nada, Bones.—"Não sei o que é pior; ele reclamando ou me zoando." Jim pensou, irritado. Tentou levantar rápido, mas uma pontada no cóccix o fez pensar melhor e fazer isso devagar, tentando conter uma careta.—Só um minuto, Spock.

O Vulcan assentiu, recuando dois passos para dar mais espaço a Jim. Aproveitando o momento de pausa, ele passou as mãos sobre a frente da blusa grossa de regulação térmica que usava, tirando os poucos amassados que haviam surgido durante o combate. Ele estava assustadoramente impecável, para alguém que passara a última meia hora num sparring com seu capitão, não havia um fio de seu cabelo fora do lugar ou uma gota de suor em seu corpo. Talvez o fato de que ele estivesse, na verdade, limpando o chão com Jim tivesse algo a ver com isso, ou era uma coisa dele mesmo. O fato era que, até agora, Spock já havia derrubado-o nada menos do que sete vezes, e em hora nenhuma Kirk chegou perto de fazer o mesmo.

Quando Spock propôs a ele durante o jantar da noite anterior que o encontrasse no holodeck às 0600 para uma nova fase de sessões, Jim nunca imaginaria que era a isso que ele se referia. Passada a surpresa, seu primeiro oficial explicou que era necessário voltar à prática de treinamentos de combate, para introduzir Kirk aos poucos a situações de estresse controlado.

Explicou também a presença de McCoy nessas sessões, que estaria lá para monitorar suas reações e controlar qualquer sintoma indesejado que pudesse surgir em Kirk, mas que ele acreditava que dificilmente seria necessário. O médico que não gostou nem um pouco de ser acordado tão cedo, como uma boa criatura noturna que era, mas em momento nenhum se negou.

Quanto a ser no holodeck, era uma justificava bem simples: privacidade. O local ideal para esse tipo de prática era o ginásio, mas não havia salas privadas (Jim deveria discutir essa ideia com o intendente responsável mais tarde), o que não tornava seguro a prática no meio de todos os tripulantes. Se Jim tivesse alguma crise, por menor que fosse, faria um grande estrago a tudo que eles haviam conseguir esconder por tanto tempo.

O holodeck era agradável, no fim das contas. Tendo quase o mesmo tamanho de uma das salas de ginásio, também era forrado de tatame, apesar de mais fino. A climatização era bem mais suave que no ginásio, sempre tão frio, e a total falta de móveis e decoração era confortável, dando uma sensação de completa privacidade bem vinda no momento. Usado principalmente para treinamentos do departamento de segurança, ele possuía inúmeros cenários de simulação interativa e ainda disponibilizava a opção de personalizá-los. Era a melhor tecnologia em holograma disponível na frota estelar, e a Enterprise era uma das únicas naves com o privilégio de tê-la. Kirk achava um desperdício que eles não a estivessem usando, mas Spock disse que não havia necessidade no momento.

Agora, quase quarenta minutos desde que começaram a sessão, Jim sentia que precisava pelo menos derrubar seu primeiro oficial uma vez. Apenas uma, nada mais, e ele estaria feliz. Spock não estava lutando nem perto de seus 70%, ele sabia, e isso cutucava incomodamente seu orgulho. O Vulcan mal encostava nele, só desviava de seus golpes e redirecionava sua força para derrubá-lo. Era altamente eficaz, e três vezes mais irritante.

Respirando fundo, Jim decidiu que precisava mudar sua tática. Não deveria deixar a abordagem de Spock irritá-lo, isso o estava desestabilizando e prejudicando seu desempenho. "Não vou mais jogar esse seu jogo, seu Vulcan safado" pensou, apertando os olhos para seu adversário. Precisava surpreendê-lo, e ele já tinha uma ideia de como.

—Pronto Spock, vamos continuar.—Jim balançou os braços, estalou o pescoço e foi para uma posição ofensiva, erguendo os pulsos fechados próximo ao queixo e pondo o corpo ligeiramente de lado. Spock não disse nada, apenas mudou-se para uma configuração similar, porém com os punhos baixos, um pouco acima da altura do quadril.

Spock lutava diferente, Jim já havia percebido há algum tempo. A maioria do treinamento físico básico da frota estelar focava principalmente nas artes marciais humanas mais populares, como boxe ou jiu-jitsu. Aqueles que quisessem um carimbo de "treinado em combate" no currículo precisavam de alguma prática extra curricular, e muitos apenas estendiam o treinamento nesses mesmos estilos que já haviam tido introdução. Alguns seguiam caminhos diferentes, como ele próprio e Sulu, mas Spock conseguia se diferenciar ainda mais. Seu estilo era inteligente, prático, rápido e perfeitamente controlado. Era preciso como uma dança ensaiada incansavelmente, ao mesmo tempo que mantinha fluidez e autenticidade. Lembrava algum estilo de kung fu, mas Jim tinha certeza que era algo Vulcan.

Apesar de frustrante até agora, enfrentar Spock era desafiador. E todos sabem como Jim T. Kirk amava um bom desafio. Ele provavelmente só teria uma chance de tentar seu plano, e não a perderia.

Mantendo a atitude de "vou recuperar meu orgulho ferido, você vai ver", Jim foi o primeiro a se mover. Como se fosse impulsivo, ele se lançou em direção ao Vulcan com um chute alto, mas mudou de direção no meio do caminho e mirou o joelho dianteiro. Spock percebeu, porém, e puxou a perna, fazendo seu capitão pisar duro no chão vazio. Com a base desestabilizada, Jim foi alvo fácil de um contra ataque que veio em forma de cotovelada que, se não tivesse abaixado no último momento, teria pegado sua orelha em cheio. Aproveitando estar dentro do espaço de Spock, Kirk tentou um soco no abdômen, mas ele defendeu e se afastou com duas passadas rápidas para trás.

O capitão mantinha os olhos azuis cerrados, numa carranca de concentração. Novamente ele que se aproximou, tentando um soco de direita na altura do estômago. Spock defendeu novamente, empurrando seu punho com a mão direita para fora, abrindo a guarda de seu oponente quase perfeitamente se Kirk já não estivesse vindo com um gancho lateral diretamente para o rosto do Vulcan. Spock se abaixou no último momento, como o próprio Jim tinha feito anteriormente, e também como ele respondeu com um soco no abdômen.

Lá estava a chance, acenando pra ele. Se não tivesse míseros milésimos de segundo para fazer seu movimento, Jim poderia ter rido.

Para McCoy, que olhava a cena meio desinteressado, os próximos segundos foram no mínimo inusitados. Jim já estava apanhando desde que eles começaram a lutar, e o médico estava certo que seria assim até o fim. Ele sabia que seu amigo era um ótimo lutador, mas Spock parecia estar em outro nível, quase intocável. O duende foi o único capaz de bater em Khan, por deus.

Mas Jim adorava desafiar todas as expectativas, e antes que McCoy piscasse ele já havia segurado o braço que Spock usara para socá-lo e levava-o consigo enquanto usava a perna dobrada do Vulcan de apoio para montar seus ombros. Depois disso, em um segundo o capitão curvava seu corpo pra frente, usando as pernas como alavanca para derrubar Spock no chão sobre seu corpo, girando-o como num rolamento, até o moreno estar estendido no chão, com o braço preso entre as pernas de Jim numa chave dolorosa. McCoy quase deixou sua caneca de café escorregar de sua mão.

Jim sentiu Spock tentar puxar o braço da chave, mas ele estava muito bem preso e apenas com a força não sairia dali. Ele sentiu quando seu primeiro oficial desistiu, relaxando o braço, e logo depois vieram três batidas secas no tatame com a mão livre, sinalizando a rendição. Jim soltou o braço de Spock, e sem mover as pernas que ainda o seguravam no lugar ele se sentou, curvando-se para o Vulcan até que seu rosto entrasse no campo de visão dele.

—Te peguei.—Disse, com aquele sorriso de lado vitorioso que lhe caía tão bem. Ele libertou Spock sem esperar uma resposta, mas ainda teve tempo de pegar um olhar que parecia ser o mais perto que um Vuncan poderia chegar de surpresa sem ser escandaloso.

Quando Jim levantou do chão, McCoy o mirava com olhos arregalados. Kirk piscou pra ele, e o médico fez uma expressão exagerada de aprovação em resposta, fingindo bater palmas silenciosas.

—Mas você está de parabéns, Jimbo. Jurava que ele levava essa.

—Quem você pensa que eu sou? Não sairia daqui sem fazer esse Vulcan conhecer o chão pelo menos uma vez. —Jim respondeu ao médico, que sorriu balançando a cabeça de leve, para logo voltar a checar os dados que coletara de seu capitão durante o combate.

Quando Jim virou-se novamente para Spock, ele já estava de pé. Limpava a poeira da camisa com classe invejável, como se nunca tivesse caído no chão. O capitão se aproximou sorrateiramente, ainda com o mesmo sorriso de antes, até que Spock parou o que fazia, retribuindo o olhar.

—E então? Foi lindo ou não foi? —Cutucou-o no braço, fazendo o Vulcan desviar o olhar para o gesto desnecessário, depois voltar a olhar para Jim. Com esse ser humano extremamente tátil, Spock já havia deixado de se importar com o contato exacerbado há algum tempo.

—Devo admitir, foi... inesperado. Se posso perguntar, a que arte marcial ele pertence?

—Ah, faz parte de alguns truques de krav magá que aprendi quando novinho. —Jim torceu um pouco o sorriso quando lembrou daquela época da sua vida, e Spock inclinou a cabeça para ele.

—"Novinho"...Você quer dizer, quando criança? Me parece um pouco violento e complexo para ser ensinado a crianças.

—Foi criado com táticas de guerra, é para ser violento mesmo. E realmente, não é para crianças. —Queria desconversar, mas Spock o olhava com aquela expressão de quando queria mais explicações. —Eu gravava as aulas escondido numa academia na cidade, e praticava sozinho em casa. Não adiantou absolutamente nada, só fui aprender mesmo vários anos e muitas surras depois.

Spock continuou olhando-o com interesse, as sobrancelhas franzidas como se estivesse pensando sobre isso. Era desconcertante, e Jim estava um pouco desconfortável e com um tipo de mau pressentimento sobre aquilo.

—Eu poderia te ensinar, mas aí não conseguiria te derrubar assim de novo. Que graça teria, não é? —Ele piscou para o Vulcan, que pareceu desistir de analisá-lo, e agora apenas contraía o canto dos lábios.

—Asseguro que para mim ainda seria bastante estimulante.

Jim piscou, ele não esperava aquela resposta. Era impressão sua ou Spock estava flertando? Não, ele não poderia estar. Ele não estava, definitivamente não. Jim partiu para a interpretação segura da frase.

—Ó meu Deus, Spock! Até você me zoando assim? Não esperava isso de você, meu coração está sangrando. —O capitão pôs a mão no peito, fingidamente ferido, mas com um largo sorriso nos lábios.

—Eu odeio interromper, mas eu já acabei com as leituras. Não sei se vocês sabem que já são mais de 0700, e que temos uma reunião geral as 0800, não é? —Bones resmungou, enquanto já programava o holodeck para encerrar a sessão.

—Nós sabemos, mamãe. Vamos Spock, antes que ele nos tranque aqui. —Spock apenas seguiu-o após concordar com a cabeça, o que deixou Kirk meio desconfortável. Ele não sabia se estava desapontado por Spock não ter dito mais nada ou se agradecia pelo "assunto" ter morrido.

Era bem estranho, e Kirk decidiu apenas tirar aquilo da cabeça. Tinha muitas coisas importantes para pensar, então não foi tão difícil.

Eles trancaram o holodeck e Kirk deu permissão ao computador para voltar a monitorar a sala, e logo os três se separaram para os preparativos da reunião, sem detalhes sobre os dados de McCoy ou a próxima sessão com Spock.

Estava tudo bem, eles só iriam revisar alguns dados e Spock falaria com ele. Talvez até mesmo naquela noite, se eles ainda fossem ter uma sessão no quarto de Jim. Não havia nada para se estar ansioso, ainda mais faltando menos de uma hora para uma reunião importante.

Com isso em mente, o capitão tomou um banho rápido e uma bela caneca de café, não se esquecendo de aplicar o hypo com seu ansiolítico da manhã. Torceu o nariz com a picada incômoda, não via a hora de se livrar logo daquilo. Esperava que os resultados do teste físico pudessem fazer McCoy reduzir a dose dos seus remédios, era melhor do que nada por enquanto.

Quando saiu de sua cabine, já eram 0748. Passando pela porta do quarto de Spock, se perguntou se ele já havia saído, mas considerando a hora o Vulcan já deveria estar lá. Ele sempre chegava cedo, era raro Jim conseguir chegar antes dele em qualquer coisa.

Como esperado, Spock já estava sentado em seu lugar habitual—a direita da cadeira central do capitão—quando Jim chegou à sala de reunião I, exatamente as 0755. Sulu e McCoy também já estavam lá, e antes que Kirk sentasse em sua cadeira Uhura entrara pela porta, com um bom dia baixo.

A morena passou direto pela cadeira ao lado de Spock, indo ao fundo da mesa para sentar-se entre Sulu e uma cadeira vazia. Mal sentara e já ligara seu PADD, não tirando os olhos dele. Kirk não pôde deixar de notar que ela não passou os olhos pelo Vulcan nem por um segundo. Sentindo-se curioso como uma colegial, Kirk inclinou-se na direção de Spock, captando sua atenção.

—Problemas no paraíso? —Perguntou, num sussurro quase inaudível, indicando Uhura com um movimento de cabeça.

Spock piscou para ele algumas vezes, sem entender. Jim indicou Uhura novamente, e o Vulcan seguiu seu olhar. O capitão percebeu quando a expressão dele mudou para entendimento, e logo mudou para alguma coisa que ele não soube decifrar. Spock franziu quase imperceptivelmente as sobrancelhas, desviando o olhar para seu próprio PADD.

—Não vejo como isso pode ser um assunto relevante no momento, capitão.

—Oh, você não negou! O que houve? Fez algo que ela não gostou ontem à noite? Você sabe que eu estou aqui para ajudar qualquer coisa, se precisar de dicas ou conselhos. Você sabe, tenho muita experiência com mulheres, e elas nunca reclamaram. —Jim disse num tom que só Spock conseguiria , com um sorriso torto nos lábios.

Pela segunda vez no dia, o capitão conseguiu arrancar uma expressão "Vulcan escandalizado" de Spock. Ele teve que apertar os lábios para segurar o riso, seu primeiro oficial parecia a ponto de corar.

—Capitão, considerando a posição e o momento em que nos encontramos, estou a ponto de considerar seu comentário inadequado. —Spock soou quase verdadeiramente ofendido, e Kirk quase se sentiu culpado.

—Ok, me desculpe, Sr.Spock. Quando não estivermos de plantão posso te dar algumas palestras. —Jim disse, bem na hora que o último convidado da reunião sentava em sua cadeira, e a porta fechava-se para dar início oficial a reunião. O loiro ainda fazia esforço para não rir, pois sentia Spock olhando-o com o pescoço reto e sobrancelhas franzidas, julgando-o silenciosamente.

O profissionalismo—que muitos achavam que não existia em Jim—falou mais alto e ele levantou de sua cadeira, deixando as brincadeiras para mais tarde. Quando a atenção de todos foi atraída pelo movimento, ele começou a falar.

Durante mais de duas horas eles continuaram falando, discutindo os dados que as diferentes estações conseguiram nas últimas horas sobre a nova espécie. Eram muitos dados, apesar do pouco tempo que tiveram. A sonda que cruzara com a Enterprise havia sido examinada minuciosamente, e com a união da estação de ciências, engenharia e navegação eles conseguiram coordenadas do possível sistema solar de onde viera, a composição dos materiais usados em sua construção, seu tempo de flutuação pelo espaço e até mesmo quais dados ela era capaz de recolher e enviar.

A equipe de linguística também não ficava para trás no quesito competência, pois conseguira traduzir a mensagem—numa língua nunca antes catalogada—em algo completamente coerente e entendível.

Quando a reunião acabou, Jim foi até a ponte com passos firmes e uma sensação quente no peito. Ele sentou em sua cadeira de capitão, sentindo o couro macio acolhe-lo num abraço agradável. Ele suspirou, e todos na ponte já estavam com os olhos sobre ele.

—Uhura, abra um canal para a nave inteira, por favor. —Ele pediu, e ela não demorou nem cinco segundos na tarefa.

—Ao seu sinal, capitão.

Jim inclinou-se ligeiramente para frente, e então apertou o botão no braço de sua cadeira

—Bom dia, tripulantes. Aqui é o capitão James Kirk, e hoje eu venho lhes dar um comunicado muito importante —Ele deu uma pausa breve, então continuou. —Alguns de vocês talvez já tenham ouvido algo sobre, mas durante o turno alpha de ontem, data estelar 2736.2, a tripulação da ponte captou uma mensagem enviada por uma sonda de origem não identificada. A mensagem mostrava uma forma de vida completamente nova, de acordo com os registros, e graças à equipe de comunicação conseguimos traduzir suas palavras. Era um convite para um primeiro contato, e depois de analisarmos os dados conseguidos pelas equipes de engenharia, ciência e navegação, decidi que a Enterprise deveria aceitar. A Federação já está sendo comunicada, e procederemos com cautela durante as próximas semanas, por isso peço a cooperação de todos. A mensagem traduzida estará disponível no banco de dados da nave, para aqueles que quiserem visualizá-la. A tripulação será avisada de novas informações assim que possível, um bom dia a todos. —Jim pressionou o botão para encerrar a transmissão, recostando-se novamente em sua cadeira com um suspiro.

A ponte estava toda em silêncio, e todos olhando para seu capitão. Jim passou os olhos por todos eles, então seus lábios se separaram em um largo sorriso.

—Sr. Sulu, dobra seis em direção às novas coordenadas, temos um primeiro contato para fazer! —Ele deu a ordem, e a tripulação voltou a seu trabalho, todos com expressões que pairavam entre felicidade, ansiedade e animação no rosto.

Jim ainda sorria em sua cadeira, não conseguindo conter nenhum desses sentimentos. Um primeiro contato era o sonho de toda equipe de exploração, e lá estavam eles prestes a realizar isso em seu primeiro ano de missão em espaço profundo.

Era quase bom de mais para acreditar, quase digno de suspeitas.

Porém naquele momento Jim Kirk só queria aproveitar aquela sensação maravilhosa, então ele empurrou aquela centelha de desconfiança bem para o fundo de sua mente, lembrando de procurá-la depois.

Aquele seria um dia maravilhoso, e depois de tanta miséria que tinha passado nos últimos tempos ele não queria deixar nada manchar esse único dia.

~

Já eram mais de 2230 quando a campainha de seu quarto soou, acordando um sonolento Jim que havia adormecido sobre a mesa do computador enquanto fazia o relatório diário. O capitão levantou num pulo, meio sobressaltado, e demorou uns bons segundos para se localizar no tempo e no espaço. Aquela sessão de sparring antes do turno havia o cansado mais do que esperava.

Mas era Spock na porta, ele tinha certeza, então não podia dormir agora. Desbloqueou a porta enquanto dava uma corrida no banheiro para lavar o rosto e ver se espantava um pouco o sono.

—Capitão? —Ouviu a voz de Spock alguns segundos depois, junto com o click do quarto se trancando novamente.

—Estou aqui, só um minuto. —Respondeu do banheiro, já secando o rosto com a toalha as pressas. —Pronto, voltei.

Spock estava de pé ainda na entrada do quarto, e assim que Jim saiu do banheiro os olhos castanhos do Vulcan piscaram em sua direção.

—Peço desculpas pelo atraso, tivemos alguns imprevistos com um experimento no laboratório II.

—Sem problemas...Foi algo sério? —Jim perguntou, sentando-se no sofá com as pernas cruzadas.

—Não, apenas um problema técnico em uma das incubadoras que armazenavam amostras. Já foi resolvido, nenhuma amostra foi danificada permanentemente. — Spock seguiu o loiro, sentando-se ao seu lado no sofá.

—Ah sim, que bom. Então, como foi com os dados do treino de hoje de manhã? —Jim não queria soar tão ansioso, mas tinha quase certeza que não tinha dado certo pela forma que Spock olhou-o logo depois. Ele respondeu-o calmamente, apesar disso.

—Pela minha análise e do Dr. McCoy, seus resultados foram bastante promissores. Não houve nenhum efeito psicológico negativo durante nosso treino, mesmo ele sendo um componente estressor. Na próxima sessão prática já podemos avançar para a próxima fase.

—Quer dizer que vou poder continuar limpando o chão do holodeck com você? —Kirk disse, sorrindo de lado. Spock segurou o olhar dele, e seus olhos castanhos brilharam com um misto de desafio e diversão muito bem contidos.

—Você vai poder continuar tentando. —O capitão riu abertamente, fazendo seu ombro escovar de leve no do Vulcan no processo.

—Tentando? Eu finalizei você hoje, esqueceu? — Spock não respondeu, apenas ergueu uma sobrancelha para ele, fazendo Jim voltar a sorrir. — Ok, talvez eu tenha apanhado um pouco antes disso. Mas eu aprendo rápido, você sabe. Daqui a pouco você não vai mais ter chance comigo.

—Seu otimismo é quase cômico, Jim. —Jim piscou com aquele comentário, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Spock continuou —Quanto às sessões de fusão, elas serão em dias intercalados com as práticas a partir de agora, evitando que fique com a agenda sobrecarregada.

—Oh, então não teremos sessão hoje?

—Foi um dia de muitas reuniões e tarefas, você deveria descansar. E deveremos passar para a próxima fase nas sessões de fusão também, por isso o correto seria estar com a mente relaxada.

—Mas eu estou relaxado, juro. Vamos, você já está aqui, o que custa? — Jim encarou o Vulcan, que não parecia muito convencido. O capitão então se levantou, indo até o meio da sala, onde já havia deixado o tapete de meditação que Spock lhe emprestara pronto.

—Venha, eu já tinha deixado tudo preparado, você não vai fugir. Eu sei que minha cabeça não deve ser um lugar muito agradável de se estar, mas quanto mais rápido formos com isso mais rápido melhoro, certo? —Enquanto falava Jim já se sentava no tapete, começando os exercícios de relaxamento muscular.

—Jim, você sabe que o tratamento não funciona assim. Acelerar desnecessariamente as etapas pode ser prejudicial, nós já discutimos sobre isso.

Jim ouviu Spock dizer de onde estava, mas não parou o que fazia. Estavam com os olhos fechados, e assim continuou enquanto prosseguia com os exercícios. Durante esse último mês ele tinha se apegado um pouco a essas sessões, apesar de não admitir isso nem por cima de seu cadáver. Era contraditório, pois não gostava de fatores externos interferindo em sua cabeça, mas elas lhe deixavam tão relaxado e leve que era impossível não achar agradável. Hoje em particular estivera um pouco agitado, então aquela sessão seria muito bem vinda e não era nem um pouco legal da parte de Spock negar isso a ele.

Já havia estava quase terminando o exercício de relaxamento respiratório quando ouviu uma movimentação no quarto. Spock estava indo embora? Como se atrevia? Jim abriu os olhos, pronto para reclamar, quando deu de cara com o Vulcan sentado a sua frente.

—Não interrompa o exercício, se não a taxa de eficácia diminui —O Vulcan disse, e Jim nem tentou segurar o sorriso.

—Ok, me desculpe. —E voltou ao que fazia.

Uns poucos minutos depois o capitão já havia acabado, e finalmente abriu os olhos. Spock o encarava parecendo um pouco contrariado, apesar de Jim não ter certeza de como sabia disso, porque o Vulcan se mantinha impassível.

—Não vou estender a fusão, considere isso apenas um teste da nova fase —Spock disse calmamente, aproximando-se apenas um pouco em sua posição ajoelhada, quase tocando as pernas de Jim.

—Tudo bem —Ele concordou, e o Vulcan ergueu a mão ate seu rosto.

—Vou começar, com licença. —Os dedos alcançaram os pontos psi de Jim, e ele fechou os olhos com um aceno leve de cabeça.

No segundo seguinte, o mundo girou em um caleidoscópio de cores. Não havia mais nenhum puxão no estômago como nas primeiras vezes, ou o sentimento de estar perdido ou se afogando. Foi rápido e quase agradável, e logo já sentia o chão da sua cidade imaginária.

Estava bem mais arrumado lá, ele notava. A maior parte dos arredores da cidade parecia reparada, e os lugares já eram quase iguais aos que Jim se lembrava. A tempestade recuara um pouco também, se concentrando no centro da cidade, apesar de ainda parecer feroz. Entretanto, o céu ainda tinha cor de cimento e a chuva não dava sinais de melhora.

Eles estavam dentro dela, dessa vez. Jim virou-se para procurar Spock, e encontrou-o alguns metros a sua frente, já caminhando para mais perto do centro. Ele ocorreu um pouco até alcançá-lo, passando a caminhar ao seu lado.

"Então, como vai ser essa nova fase? Não vamos mais reparar as coisas?" Jim perguntou, enfiando as mãos nos bolsos da calça de moletom que usava.

"Ainda vamos, mas de uma forma diferente. Sinto que chegamos ao limite do que podemos reparar "manualmente", a partir de agora teremos de usar alguns recursos para que sua mente tome consciência dos danos e os repare por si só." Spock virou uma esquina quando já estavam chegando nos limites da parte reparada da cidade, entrando numa pequena ruela.

"Ok, tenho um mau pressentimento sobre isso." Jim resmungou enquanto caminhava pela ruela, até que ela terminou numa porta dupla fechada que parecia um pouco familiar. Eles pararam de andar, e Spock virou-se para ele, sério.

"Essa é uma fase importante, e preciso ter certeza que você confia em mim antes de começarmos. Se não como... amigo, como seu terapeuta responsável."

"Já disse que confio em você, já deveria ter certeza disso." Jim respondeu, mas os olhos castanhos de Spock continuavam bastante sérios.

"Essa fase do tratamento, principalmente por ser através da fusão de mentes, é muito íntima. Você terá de acessar memórias chave nessa fase, e através da rememoração vamos questionar o porquê dessas memórias terem papel na instabilidade da sua mente. É a primeira fase de enfrentamento, e tem seu grau considerável de desconforto. Eu terei de estar presente, para interromper a memória ou a fusão, dependendo de como sua consciência se comportar. Por isso lhe pergunto, Jim... Você confia em mim para isso?"

"Oh nossa, eu sabia que isso não daria em boa coisa." Kirk apertou as mãos nos bolsos, com um meio sorriso nervoso no canto dos lábios.

Ele confiava em Spock, por deus. O homem havia salvado sua vida algumas vezes, como não confiaria? Ele devia essa isso a ele, era quase sua obrigação. Olhou para a porta, e sentiu um peso gelado no estômago. A questão era que ele mesmo não sabia se estava preparado pra todas as coisas que guardava na cabeça, outra pessoa ver isso era... Assustador. Ninguém tinha chegado perto o suficiente para ver essas coisas antes.

Respirou fundo, olhando novamente para Spock. Ainda estava com o estômago gelado, e sentia que seu corpo físico talvez estivesse começando a suar fora da fusão, mas não daria para traz agora.

"Eu confio em você, Spock, com a minha vida. E depois disso, o que são algumas memórias?" Ele sorriu, e sentiu Spock relaxar um pouco. Não no rosto, mas na mente. Fez um pedido mental para que essa calma o contagiasse, e numa respiração profunda, colocou a mão na barra da porta.

"Obrigado, Jim." Spock respondeu, aproximando-se até ficar ao lado de Jim, que lhe respondeu com um sorriso suave.

"Não por isso. Vou abrir, ok?"

"Quando quiser."

"E lá vamos nós." Jim voltou seu olhar para a porta, suspirando. Sem se dar tempo de hesitar, ele a abriu.

Assim que passaram por ela, Jim soube que estavam em Iowa. Tinha cheiro de Iowa; cheiro de poeira, diesel, porcos e mato. Era inconfundível. Ao olhar para o alto, ele viu o céu estrelado que costumava admirar durante a maior parte de sua vida. A noite estava linda, e aquilo era meio nostálgico. Olhando em volta, Jim reparou que eles pareciam estar nos fundos de algum lugar. Era um corredor escuro e mal cuidado que só recebia luz de um poste no outro estremo da passagem, já no que parecia ser uma rua um pouco movimentada. Da porta onde vieram dava pra se ouvir música alta e pessoas falando, algumas gritavam, outras riam, um punhado parecia até cantar.

Antes que Jim pudesse se perguntar por que estavam numa memória vazia, a porta se abriu num estrondo. Uma figura muito bêbada foi empurrada por ela, e por algum milagre cruzou o beco até apoiar-se na parede oposta a porta, sem cair no chão.

—Pra fora, moleque! Te deixar entrar é uma coisa, mas te aturar arrumando briga no meu bar já é de mais. Vai pra casa, antes que alguém chame seu pai. —Um homem baixo, mas volumoso, gritou da porta. Ele se virou pra dentro, e puxou outro garoto de lá. —E vá você também, pensa que não te vi? Anda, saia. —Ele empurrou o outro pela nuca, que saiu rindo e tropeçando, caindo sentado no chão ao lado do primeiro. Era um garoto baixinho e magro, com cabelos pretos arrepiados e um rosto delicado e muito branco.

A porta se fechou, e Jim sentiu vontade de rir e vergonha ao mesmo tempo, num misto bem conflitante. Ele se reconheceu ali facilmente, no segundo que foi jogado pela porta em sua jaqueta de couro marrom escura e surrada, seu mesmo corte de cabelo de sempre e aquela cara de bêbado. Reconheceu o outro também, um dos amigos de rebeldia adolescente que tivera.

O jovem Jim—entre seus 15 e 16 anos—, que ainda estava meio escorado na parede, se virou para a porta fechada e deu uma cusparada ensanguentada na direção dela, limpando o canto da boca logo depois.

—Chamar meu pai? Há, essa é boa. —Ele se desencostou, andando o mais linear que seu estado alcoolizado lhe permitia, em direção ao outro.

—Anda Jon, levanta daí. Ainda podemos tentar no bar do Travis.

—Você tá louco, eu não sei nem quem eu sou! Me ajuda a levantar aí, cara. —O menor, um garoto que Jim lembrava ser um ano mais novo que ele, agitava as mãos tentando alcançar Jim, que ria e desviava, ou segurava e soltava a mão dele logo depois, fazendo-o começar a levantar e cair em seguida.

—Porra, Jim! Para com isso, idiota! —Ele resmungava, mas ria quase descontroladamente.

"Ah, isso era bem divertido" Kirk riu da memória, cruzando os braços e se apoiando na parede para assistir. Spock estava bem ao lado dele, e se Jim pudesse adivinhar diria que ele tentava encontrar alguma lógica naquela cena. Não iria encontrar, ele podia assegurar. Aquele ritual adolescente de embebedar-se até o limite e sair por ai procurando por uma boa briga não era racional, e ele sabia disso. Era tão rotineiro para Jim nessa época que ele nem mesmo tinha certeza do que acontecia depois disso na memória. Não lembrava direito dela, e tinha certeza que era culpa daquela bebida toda.

Diante deles, Jim mais novo parecia ter desistido de provocar o amigo e realmente o ajudava a levantar. Mas, bêbados como estavam, os dois quase caíram de novo no processo. Jim acabou por escorar as costas do outro na parede, usando seu próprio corpo de apoio para que não caíssem, e o tal Jon apenas riu e jogou os braços sobre os ombros do loiro.

—Hey Jimmy, não acha que já está bom de rua por hoje? Porque não vamos pra minha casa? Meus pais saíram hoje. —Ele resmungou, puxando Jim para mais perto.

—Sério, Jon? Quem foi que disse que hoje estava afim de "umas gostosas"? —O loiro respondeu com um sorriso de lado.

—Não é difícil mudar de ideia quando James Tiberius Kirk está por perto. —Chegando ainda mais perto, o moreno lambeu o queixo de Jim, que riu e empurrou a cabeça do garoto com a mão que não estava ocupada segurando-o (e a si mesmo).

— Para com isso, garoto. Aqui fora não, o idiota do Frank conhece todo mundo por aqui.

—Vamos lá, só um pouco. Olha como você me deixou. —O garoto desceu a mão até o quadril de Jim, puxando-o para mais perto, moendo os dois juntos numa provocação descarada.

—Mas já assim? Acho que realmente precisamos dar um jeito nisso. —Ele sussurrou em resposta, a voz languida. Jim olhou para o início do beco, que dava para a rua movimentada, e pareceu cogitar por um segundo. —Ah, foda-se. —E beijou Jon.

Jim, o capitão da Enterprise, que observava toda a cena a uns dois metros de distância, se perguntava porque de todas as memórias essa tinha que ser justamente a primeira. Uma timidez ridícula e que nada tinha a ver com ele queimava seu rosto, e ele só queria que aquilo terminasse logo e que a maldita memória fosse direto ao ponto. Eles não entraram ali para ver um curta erótico adolescente, no fim das contas. Desviou os olhos azuis para Spock, vendo-o na exata posição que estava quando a memória começou, olhando para sua versão mais nova com uma curiosidade quase científica. Não fazia ideia do que o Vulcan estava pensado, e isso o deixou ligeiramente nervoso. Tentou forçar um pouco na ligação para ter uma ideia, mas não sabia exatamente como fazer isso e só encontrou silêncio.

"Achei que isso seria óbvio, mas não estou julgando sua orientação sexual." Spock disse, sem desviar o olhar da cena, sobressaltando seu capitão. "Apenas me encontro ligeiramente... surpreso. Sua reputação com as mulheres na Academia era muito comentada."

Kirk tossiu, sem saber direito porquê. Sentiu as bochechas quentes, e agradeceu por estar escuro. Spock deve ter sentido sua curiosidade, deveria ser mais cuidadoso.

"Pff, não achei que estava. As pessoas geralmente reagem assim quando descobrem que sou bissexual, nada fora do normal. Essa foi a fase da minha vida que eu descobri isso, então estava um pouco empolgado com as possibilidades." Respondeu, desviando os olhos de volta para a cena. Agora sua versão mais nova prensava energicamente o amigo na parece, uma mão apertando sua cintura enquanto a outra brincava com o cabelo curto da nuca. Alguns sons baixos escapavam pelo beijo fervoroso, fazendo Jim desviar o olhar novamente.

Procurando outro lugar para olhar, ele reparou numa movimentação no início do beco. Um grupo de quatro ou cinco pessoas estava parado bem na entrada, ficaram talvez um minuto inteiro ali, parecendo olhar na direção deles. Uma das pessoas então veio andando com passos pesados, e quando estava a quase três metros deles acendeu uma lanterna, jogando direto no casal escorado na parede.

Naquele exato instante ele lembrou que dia foi aquele. Suas mãos se apertaram em punhos instantaneamente, antes mesmo que o grito áspero cortasse o silêncio do beco como uma faca.

—James fodendo Kirk, seu viadinho! —Os dois não tiveram tempo nem de quebrar o beijo antes que o homem que gritara empurrasse Jim para longe do moreno. O adolescente cambaleou para o lado, quase caindo, mas antes que ao menos soubesse o que estava havendo o homem acertou um soco certeiro no seu rosto, bem na lateral.

Jon ficou imóvel, os olhos arregalados e o corpo colado a parede, mas o homem passou direto por ele. Seu foco era Jim, apenas ele.

—Me ligam dizendo que você tá fazendo merda no bar, sou obrigado a vir até aqui pra te levar embora e é assim que eu te encontro? Se agarrando no meio da rua com outro homem, que nem uma puta barata? —Ele gritava, fazendo respingos de saliva voarem. Seu hálito fedia bebida à distância, mas seus movimentos eram muito mais coordenados que os do jovem Jim, que se esforçava para se levantar sob os cotovelos.

O soco havia cortado o supercílio do loiro, e uma cascata de sangue manchava a lateral de seu rosto. Tentou abrir o olho, mas o sangue não o deixava enxergar. Mais atrás, o capitão ainda apertava os punhos com força, o ódio que sentira na ocasião voltando com força, fazendo seu estômago borbulhar.

—O que você tem a ver com isso, Frank? Não te pedi porra nenhuma, e te devo menos ainda. Você é só o cara que dorme com a minha mãe, não é nada meu! —O jovem Jim gritou, a voz rasgada pelo ódio.

—Graças a Deus não sou! Quem queria ser alguma coisa de um traste como você? Bostinha mal-agradecido. —Frank abaixou apenas o suficiente para segurar o loiro pela gola da camisa, cuspindo as próximas palavras com requinte de crueldade —Aposto que se seu pai pudesse te ver agora, agradeceria por ter morrido antes de te conhecer.

—CALA A BOCA, SEU FILHO DA PUTA! —Em puro reflexo, James segurou a cabeça de Frank e puxou para frente, dando uma cabeçada bem no nariz do homem.

O homem gritou, soltando Jim e cambaleando para trás, as mãos segurando o nariz que já começava a sangrar. Jim tentou levantar nessa pequena vantagem, mas a cabeçada o deixara ainda mais tonto que já estava e ele caiu sentado novamente.

—SEU MERDA! —Jim só conseguiu ouvir o grito de Frank, antes que um chute o acertasse direto no estômago. Ele se encolheu no chão sujo, as mãos tentando proteger a cabeça enquanto mais e mais chutes dobravam seu corpo em dor.

—Chega, já estou cheio de você! Se você aparecer na minha casa de novo, eu vou acabar com você. TÁ OUVINDO, SEU VIADINHO? EU VOU ACABAR COM VOCÊ! —Ele gritava, enquanto um chute particularmente forte nas costas fazia Jim tossir violentamente no chão.

Depois disso, ele simplesmente se virou e foi caminhando para a saída do beco, como se nada tivesse acontecido. A memória começou a ficar turva, e o capitão sabia que era porque seu eu mais jovem estava desmaiando.

Tudo ficou preto muito rápido, até que Jim percebeu que era porque seus olhos tinham se fechado. Ele os abriu, e encontrou os castanhos de Spock fixos nele, com o zumbido suave do motor da Enterprise no fundo.

—Você está bem, Jim? —A voz do Vulcan era suave, e seus dedos ainda estavam a meio caminho de se afastar do rosto de Jim, como se estivessem receosos de encerrar o contato.

—Estou, Spock. Está tudo bem. —Os dedos se afastaram, enfim. Mas o primeiro oficial continuou sentado onde estava.

—Essa memória, o que ela o faz sentir? —Spock sabia a resposta, ele sentiu praticamente tudo junto com Jim, apesar de ter controlado parcialmente a transferência emocional durante a rememoração, mas Jim precisava reconhecer.

O capitão suspirou, mordendo o lábio. Não esperava que a rememoração fosse tão... Intensa. Seus sentimentos ainda estavam meio confusos, e aquela resistência natural de falar sobre eles queimava o fundo da sua cabeça. Ia falar, entretanto. Sabia que essa era importante, apesar disso não lhe agradar.

—Ódio, principalmente. Frank atormentou minha vida e do meu irmão desde meus 10 anos de idade, por isso Sam saiu de casa. Eu não podia fazer isso, então tinha que arranjar formas de aturá-lo. Não deu muito certo, brigávamos o tempo todo. Quando minha mãe estava viajando era pior, e isso era na maior parte do tempo. Dessa vez que você viu, foi quando ele passou dos limites. —Jim ajeitou as pernas, não por estarem numa posição ruim, mas por sentir uma necessidade estranha de se movimentar. Ele continuou, em seguida. —Quando eu acordei, quase dois dias depois daquilo, estava no hospital. Minha mãe estava lá, e Frank estava preso. Nunca soube ao certo quem dedurou ele pra Winnona* e pra polícia, mas também nunca quis saber. Ela me pediu desculpas assim que abri os olhos, e passou as duas semanas seguintes inteiras sem tirar os olhos de mim. Ás vezes eu acordava de noite e ela estava no quarto, sentada na poltrona do outro lado, me olhando. Acho que ela se sentia culpada.

—E você, acha que ela tinha culpa? —Jim, que olhava fixamente para a padronagem do tapete Vulcan, congelou.

—Eu... — Hesitou, apertando os olhos azuis. Por um segundo seu rosto se contraiu numa expressão estranha, dolorida, e ele abaixou a cabeça novamente, escondendo-a. —Eu não sei. Mas isso não importava, já estava feito. Eu aceitei as desculpas dela... Eu sempre aceitava, no final.

Depois daquilo, Jim não disse mais nada. Spock deu a sessão por encerrada depois que o silêncio se estendeu por mais de dois minutos, não querendo prolongar o que não seria mais produtivo.

Eles se despediram com poucas palavras, e Spock saiu do quarto. Ele ainda ficou cerca de 15 segundos no corredor vazio, encarando a porta fechada. Durante esse tempo, apenas durante esse tempo, um sentimento escorreu por entre as fechaduras de seu controle emocional e o fez apertar a mandíbula com um pouco mais de força que o normal.

E se ele tivesse tomado a decisão errada? E se esse caminho não fosse o ideal? E se Jim ainda não estava preparado para enfrentar a tempestade em sua mente? Spock havia calculado tantas vezes, feito tantas estimativas, equações de probabilidade e estudos específicos, mas mesmo assim...

Não, ele não iria conduzir isso errado. Não se permitiria errar dessa vez.

Notas finais
*Winnona é o nome da mãe do Kirk. E ai galere, gostaram do capítulo? Tive muita dificuldade em escrever ele, por algum motivo obscuro. O rescrevi umas três vezes, e nunca ficava satisfeita com o andamento. No final acho que consegui, porque acabei gostando bastante dele. AH, quero a opinião de todo mundo aqui nos reviews, pra saber se realmente acertei na mão com ele hahahaha A história vai dar uma guinada importante agora, então espero que vocês fiquem comigo pra ver onde isso vai dar ♥