About a broken soul and a new bond

11 The beginning of the storm


Notas iniciais
Dessa vez eu nem demorei tanto, heim hehe Tenho uma notícia ruim dessa vez: estou sem beta ): Eu revisei o texto algumas vezes, mas sou péssima nisso (alem de digitar muito no celular, o que deixa tudo meio louco). Então se encontrarem erros perdidos por favor me avisem :3 E espero que isso não atrapalhe a experiência de vocês. Só mais um aviso, tem umas partes meio tensas nesse capítulo. E nos próximos vai ficar pior Estejam preparados rs Não tem música dessa vez, mas se pensar em algo atualizo aqui rs

McCoy passou os dados de seu PADD para o projetor do computador, configurou para que eles fossem exibidos em tamanho bem grande, e cruzou os braços para assistir os mesmos gráficos pela sétima vez.

As ondas cerebrais de Kirk encheram a parede de fundo da sala do médico, em duas telas de ondas distintas, enquanto uma terceira tela mostrava um vídeo do holodeck no momento da sessão de treinamento.

O vídeo mostrava Jim sozinho no meio da sala, suas ondas ligeiramente alteradas no que parecia ser uma demonstração de ansiedade moderada, logo depois o treino de holograma começou com dois soldados inimigos vindo em direção ao capitão, e as ondas ficaram loucas. Um pico de adrenalina e cortisol tencionou todo o corpo de Jim, preparando-o para reagir a "ameaça", mas o monitoramento mostrava um conflito em suas ondas cerebrais, travando a resposta completa aos hormônios. Jim acertou um dos hologramas com o tiro de phaser, mas suas mãos tremeram e ele não conseguiu acertar o segundo, encolhendo-se quando o mesmo acerto-o com uma descarga de phaser holográfica. O holograma se encerrou e Jim levantou, atirando o phaser que segurava do outro lado da sala, enquanto xingava com a respiração ofegante e o rosto pálido. Spock foi em sua direção, e só nesse momento suas ondas cerebrais começaram a estabilizar.

McCoy pausou a reprodução, apertando os olhos. Ele mudou para a próxima sequência, e agora eram quatro telas de ondas cebrais que apareciam na projeção; duas de Jim, e duas de Spock. No vídeo, os dois estavam no centro do holodeck, aguardando o início da sessão de treino. As ondas do Vulcan estavam completamente normais, como se ele estivesse prestes a tomar seu chá, enquanto as de Jim mostravam pequenas alterações, mas nada muito fora do normal. O holograma começou, e só as ondas de Jim se alteraram. Mas era estranho, e McCoy se inclinou sobre sua mesa, porque ele tinha que estar deixando passar algum detalhe que explicaria aquilo. Ela sofria alguns picos, mas reduzia quase automaticamente, como se estivesse sendo estabilizada por alguma coisa. E parecia... diferente.

Nesse treino Jim havia conseguido terminar sem dificuldade, diferente do que fizera logo depois.

O médico suspirou, já irritado. Ele poderia dizer que o resultado da sessão era positivo, pois os exames mostravam melhora na condição geral de Jim na resposta a situação de risco, mas ao mesmo tempo, essas alterações... McCoy não tinha um bom pressentimento sobre elas.

Ele revirou no computador por arquivos de monitoramento de Jim, e agradeceu por ter mantido os arquivos dos três últimos anos intactos. Pegou um aleatório, provavelmente de alguma das confusões que Jim havia se metido na época de Khan, e fez duas telas, cada uma com esse arquivo sobrepondo o monitoramento de uma das sessões de treino de Jim.

Ali dava para ver claramente a resposta confusa que o cérebro de Jim mostrava agora, comparada com a coesão de antes. Mas essa parte ele já sabia, e sabia que aos poucos estava melhorando, o que o intrigava era o padrão diferente que aparecia quando as ondas começavam a se acalmar. No comparativo da sessão de Jim com Spock, esse padrão estava lá várias vezes, indo e voltando, e no de Jim sozinho ele só começou a aparecer no final, quando o holograma tinha se encerrado e Jim já se acalmava. Esse padrão não estava lá no monitoramento antigo, em nenhum momento.

Uma idéia estranha passou pela cabeça do médico, e ele pausou as reproduções. Fez duas telas comparativas novamente, mas dessa vez das duas ondas de Jim com a de Spock.

—Mas o que diabos... — Escapou dos lábios de McCoy quando ele viu, quase nitidamente, o padrão que ele havia identificado em Jim bater exatamente com o de Spock. Era como se as ondas estivessem tentando entrar em sincronia.

O médico passou a mão pelo rosto, os olhos castanhos ligeiramente arregalados na meia luz da sala. Ele nunca tinha visto isso em toda sua vida acadêmica.

O voodoo Vulcan de Spock tinha que ser o responsável... afinal, o que mais seria?

—Computador, localize o primeiro oficial Spock —Pediu, enquanto já encerrava a projeção, transferindo os dados comparativos para seu PADD novamente.

~

Spock estava de pé rigidamente do lado de fora da sala de pesquisa linguística. Havia solicitado a presença da tenente Uhura a um dos linguistas de sua equipe, ele pedira para que aguardasse que ela estava a caminho. Isso fora há exatos doze minutos e quarenta e três segundos. De acordo com o conhecimento prévio que tinha em relação a tenente, havia 72% de chance da demora significar que ela ainda não queria vê-lo.

Se não fosse Vulcan, Spock suspiraria. Passada os últimos três dias tentando entender o que fizera de errado para desencadear a revolta de Uhura. Entendia que estivera ligeiramente relapso em relação a seus deveres como companheiro romântico, pois o envolvimento com o tratamento do capitão ocupava a maior parte de seu tempo livre. Entretanto a reação da tenente em seus aposentos quatro dias atrás demonstrava ser muito mais além da carência humana usual. Spock pôde sentir através do toque breve; Uhura parecia irritada, mas acima disso magoada.

A porta fez seu característico "smoosh" ao lado do Vulcan, e o foco de seus pensamentos saiu da sala. Ela olhou de um lado ao outro do corredor, como se procurando alguém.

—Está sozinho hoje? Isso é raro. —A morena cruzou os braços, recostando-se na parede ao lado da porta. O Vulcan arqueou uma sobrancelha, não entendendo o fundamento daquela pergunta.

—Rápido, Spock. O que você quer? Sabe que ainda estamos trabalhando no tradutor e que temos pouco tempo pra isso.

—Perdoe-me por incomodá-la no meio do expediente, porem das outras três vezes que tentei contato em seu horário livre fui rejeitado. Asseguro que não irei tomar muito de seu tempo. Eu gostaria de saber apenas o que fiz para irritá-la, Nyota. Se me disser, prometo fazer o possível para reparar meu erro. —Spock foi sincero, e a menção ao primeiro nome pareceu ter amolecido um pouco Uhura. Ela continuou o encarando, mas quando falou sua voz não era tão ríspida.

—Ok, Spock. Eu esperava que você descobrisse por si mesmo, mas parece que isso não vai acontecer... Quantas vezes tivemos alguma refeição juntos ou passamos mais de 20 minutos juntos, exceto em expediente, desde que voltamos para a Enterprise?

—17 vezes. —Spock respondeu, automaticamente.

—Dezessete, Spock. Em mais de três meses de missão. Isso não é motivo suficiente? Eu sou a sua namorada, mas quase não falo mais com você! E não é por falta de procura da minha parte.

—Sinto muito, Nyota. Não imaginava que isso a incomodava tão profundamente. Qual a frequência semanal que seria aceitável para nos encontrarmos? — O vulcan perguntou, e se fosse qualquer outra pessoa ouvindo acharia que a frase estava coberta de sarcasmo. Entretanto não estava, e Uhura sabia disso, o que não a fazia menos problemática por outros motivos.

—Não se trata de uma "frequência aceitável", assim parece que eu estou te obrigando há passar um tempo comigo. Não é isso que deve ser, e não é isso que eu quero! — Spock olhava para ela com sua expressão de vulcan desentendido, e isso estava deixando-a irritada. Respirou fundo, tentando explicar melhor. —Nos deveríamos nos ver quando tivéssemos vontade, entende? Só que geralmente as pessoas que estão num "relacionamento romântico" tem vontade de se ver com frequência, porque sentem saudade da presença do outro. Mas isso não parece estar acontecendo com a gente, pelo menos não com você.

—Achei que você estava ciente que como Vulcan, não sinto necessidade que humanos sentem de tanta proximidade...

—Pára, Spock! —Ela interrompeu, seu tom subindo sem que percebesse. —Não vou ouvir isso, você não vai se esconder atrás da sua cultura de novo! —Os olhos do vulcan cresceram ligeiramente com a frase, e Uhura percebeu que estava começando a ficar alterada. Ela abaixou o rosto, apertando as têmporas levemente para a dor de cabeça que já estava dando sinais.

—Olha só, podemos conversar isso depois? Realmente não é o momento agora. Passe no meu quarto hoje depois do turno que tentamos resolver isso com calma.

—Sinto muito, mas hoje tenho um compromisso marcado com o capitão. Seria incomodo se nos encontrássemos amanhã? — Spock perguntou, inalterado apesar da explosão anterior da tenente.

Uhura não acreditou no que estava ouvindo. Ela apertou os olhos, a raiva borbulhando além do seu controle. Desencostou da parede, segurando a vontade de virar a mão na cara do moreno.

—É DISSO que eu estou falando! Prioridades, Spock! Perguntaria se você realmente sabe quais são as suas, mas contar as vezes que você e seu capitão fizeram essas reuniõezinhas já deixa isso bem claro. Aproveita que você acabou de ficar solteiro e pede ele em namoro, vocês já se agem como tal mesmo! —Mal terminara de cuspir as palavras e ela já havia entrado na sala de comunicações, Spock só teve tempo de ver seu rabo de cavalo chicotear o ar.

O vulcan piscou para a porta fechada. Lentamente, se virou para olhar o corredor; um grupo de três técnicos da engenharia no fundo do corredor fez o possível para parecer que não estiveram o tempo todo prestando atenção, apesar disso não ter dado certo. Fora isso, o corredor parecia vazio, mas Spock nem teve tempo de agradecer por isso.

—Jesus, o que foi que houve? Ela acabou mesmo de terminar com você no meio do corredor? O que foi que você fez, Spock? —O vulcan realmente não sabia de onde o bom médico havia saído, mas ali estava ele, bem atrás de si, o olhando com uma expressão entre assustado e divertido.

—Eu confesso que não tenho muita certeza, Doutor. —Spock parecia perdido, e se McCoy não tivesse assuntos muito mais sérios para tratar com ele com certeza poderia ter rido da situação. Meio sádico, ele sabia, mas tinha certeza que Spock deve ter merecido. Pelo menos um pouco.

—Pense nisso depois, preciso falar com você sobre Jim. Venha comigo. —Automaticamente Spock o olhou com atenção, e sem questionar seguiu o médico.

Eles entraram na primeira sala de conferências que encontraram pelo caminho, e depois de ajustar as configurações de privacidade da sala pra interromper as gravações, eles se sentaram.

—Enquanto avaliava os dados da sessão de ontem encontrei algumas alterações bem estranhas, espero que você tenha alguma explicação aceitável pra elas. —Leonard colocou seu PADD sobre a mesa, ligando no modo de reprodução na mesma sequência que vira em sua sala a momentos atrás.

Spock observava os gráficos com curiosidade científica, mas sem entender exatamente o ponto. Quando o gráfico mudou para o comparativo entre seu monitoramento e o de Jim, seus olhos se alargaram minimamente.

—Fascinante — Ele murmurou quando ela se encerrou, quase com admiração. Ele olhava como alguém que acabara de encontrar um substituto para o dilitium.

—Fascinante nada! Isso é bizarro. O que você está fazendo com a cabeça dele? Esse padrão não é normal para humanos! Olha, se você de alguma forma estiver transformando meu amigo num duende de sangue verde que nem você eu juro que— Spock o interrompeu educadamente antes que pudesse terminar a frase.

—Por favor, acalme-se doutor. Devo lhe dizer que é impossível "transformar" um ser humano em Vulcan, devido à condição biológica de ambas as espécies, apesar de ter certeza que o senhor estudou sobre isso durante sua formação acadêmica. —Spock achou que tinha ouvido McCoy bufar, mas não tinha certeza, então continuo.

—Esse tipo de compatibilidade é geralmente vista em Vulcans que compartilham um elo mental, por isso é realmente intrigante que algo assim seja relatado entre mim e o capitão, sendo que lhe asseguro que não possuímos nenhuma ligação mental. — O Vulcan mirava fixamente a imagem congelada da gravação de McCoy, as sobrancelhas franzidas numa contração imperceptível.

— Esse elo que você diz, é como as ligações matrimoniais Vulcans? E sim, eu sei sobre isso, antes que fale qualquer coisa. Não poderia ser um completo desenformado quando tenho um Vulcan pra cuidar na minha nave. —Spock piscou, levemente surpreso.

—Fico grato pelo interesse, Doutor, apesar desse tipo de assunto ser tratado com enorme reserva em minha cultura. Quanto à ligação, não exclusivamente esse tipo, mas em sua maioria sim.

— Ok, e o que explica isso? Você tem certeza que não está tipo, formando uma ligação com ele sem querer? — Spock voltou seu olhar instantaneamente para o médico com essas palavras, parecendo quase ofendido.

—Isso é impossível, doutor. Ligações fortes o suficiente para acarretarem essas reações são feitas exclusivamente por anciões Vulcans, não há relatos de ligações espontâneas entre minha espécie desde antes de Surak. Além disso, se houvesse qualquer sinal de uma ligação, eu poderia perceber através das fusões.

—Tudo bem, Spock, mas não podemos negar que alguma coisa está acontecendo. Por mais que pareça agir de forma positiva na recuperação de Jim, temos que descobrir o que diabos é essa droga. Isso não é nada normal, e sabe-se lá o que pode afetar na cabeça dele. — O médico mordeu o canto da boca, se mexendo na cadeira. Nitidamente desconfortável com o andamento infrutífero da conversa. Spock pensou por alguns segundos.

—Eu concordo, apesar de acreditar que a possibilidade disso agir de forma negativa para o capitão ser relativamente baixa. Penso que uma extrema compatibilidade entre mentes, que pareço apresentar em relação a ele, pode gerar uma amplificação do efeito estabilizador da fusão, mantendo-o em funcionamento por um período de tempo prolongado mesmo sem nossas mentes estarem em contato psíquico. Eu me assegurarei de encontrar mais informações sobre casos desse tipo, e também de realizar uma checagem mais profunda pela mente do capitão a procura de respostas.

—Sim, faça isso. Vou continuar com os monitoramentos, prestando atenção especial a essas ondas estanhas. E se descobrir uma ligação, me avise para eu mandar flores ao casal. — Leonard riu.

—Eu lhe asseguro, doutor, que— Spock foi interrompido pela voz do tenente de comunicação que substituíra Uhura na ponte vindo do autofante da nave.

—Ponte para Primeiro Oficial Spock, favor responder imediatamente.

Spock e McCoy se entreolharam, e o Vulcan logo se levantou e foi até o comunicador na parede e da sala.

—Comandante Spock aqui. —McCoy já estava ao seu lado, nem tentando evitar a curiosidade.

—Spock! Pare tudo que estiver fazendo e venha pra ponte agora, estamos recebendo um chamado com as mesmas características da transmissão de antes. Rápido, rápido! — Era Jim, com voz transbordando de animação.

—A caminho, senhor. —E desligou o transmissor. —Desculpe doutor, mas teremos que continuar nossa conversa em outro momento.

—Sem dúvida, agora vamos pra ponte. E não perca seu tempo tentando me impedir, não vou perder essa chamada por nada!

Spock apenas ergueu uma sobrancelha, suprimindo uma vontade muito humana de "dar de ombros".

~

Quando eles chegaram na ponte, Jim encarava a saída do turboelevador com um olhar ansioso.

—Ate que enfim! Eu não vou perguntar o que você está fazendo aqui, Bones. Mas já que está, arrume um lugar. —Jim disse, sorrindo, e se virou para frente.

Quando Spock atravessou a ponte para ocupar seu costumeiro lugar ao lado da cadeira do capitão, ele reparou que Uhura também estava na ponte, apesar de não estar em seu console. Previsível, mas ligeiramente desconfortável, ele percebeu.

—Ok, pode abrir a chamada. —Jim anunciou, agora com seus dois melhores amigos ao seu lado.

A chamada foi iniciada, e um ser quase idêntico ao da gravação anterior encheu a tela. As diferenças eram quase nulas, como um detalhe no penteado ou a forma das roupas, mas se Jim pudesse dar um palpite diria que era o mesmo. Ele não estava sozinho, dessa vez. Estava sentado no que parecia ser uma mesa de conferências, e ao seu lado havia dois outros aliens, um de cada lado. Um vestia roupas menos esvoaçantes e de tons mais avermelhados, fios de um verde quase neon deixavam sua cabeça num penteado assimétrico, onde um lado batia na altura de seus lábios e outros desciam até o meio de seu tórax. O outro tinha os fios curtos e cinzentos, sua vestimenta era rosada e leve, como uma túnica. Todos possuíam aqueles mesmos olhos castanhos amarelado, com íris gigantes lembrando a de animais selvagens. As marcas no rosto também eram de um padrão parecido, com diferenças quase imperceptíveis.

—Hyan'janss —Eles disseram, em uníssono. —Estamos gratos por terem respondido a nosso convite, viajantes. —Dessa vez foi apenas o do centro que se manifestou.

—Nós que estamos honrados pelo convite, senhores. Eu sou James Kirk, Capitão da nave estelar USS Enterprise, representante da Federação Unida dos Planetas. Nossa missão é justamente conhecer novos povos, e seu contato nos alegrou imensamente.

—Eu me chamo Hjakaar, e sou guardião do nosso planeta, Merlyk. Esses são meus companheiros e conselheiros, Kgauss e Wiahss. —Ele indicou primeiro o ser da esquerda, depois o da direita, e os "chifres" de ambos brilharam e movimentaram-se levemente, provavelmente em um comprimento. —Nosso sistema solar está a poucos anos luz de sua nave, mas para permitir sua aproximação de nosso planeta nos precisamos nos certificar de suas intenções pacificas. Gostaríamos que viesse a bordo de nossa nave com seus oficiais de confiança para uma reunião, assim poderíamos ter certeza de sua índole. Não se preocupe, isso é apenas a forma que encontramos de preservar nossa espécie e planeta, não queremos fazer nenhum mal. Nossa nave é pequena e inofensiva, e nossas coordenadas são 82.45.24.20.

Jim se moveu levemente em sua cadeira, pensando. Essa insistência em um encontro físico antes mesmo de discutirem qualquer termo parecia estranha, mas não podia confirmar nenhuma suspeita sem conhecer a cultura dessa espécie. Mas de qualquer forma precisava ter certeza que isso não era algum tipo de armadilha, antes de levar sua tripulação sênior para dentro de uma nave desconhecida.

— Nos concordamos, se não se importarem de scanearmos os arredores e sua nave. Também tenho a obrigação de zelar pela segurança de minha tripulação. —Jim respondeu, com um sorriso.

—Com certeza, capitão Kirk. Estaremos à sua espera, qualquer dúvida estamos à disposição nessa mesma frequência. — Eles fizeram o sinal com seus chifres novamente, e Jim respondeu com um menear de cabeça, então a tela se apagou.

—Sulu, quanto tempo até estarmos no sistema solar deles? — Jim perguntou, e o navegador virou-se ligeiramente para checar seus países.

—Nessa velocidade, aproximadamente 9 horas padrão, senhor.

—Ótimo, chegaremos ao início do turno alpha de amanhã. Spock e tenente Anderson, Quero toda informação que podem conseguir sobre esse sistema. Que dados já conseguimos a essa distância? — Kirk perguntou, e antes que terminasse Spock já estava na estação de ciências, ao lado do tenente.

— Por enquanto temos dados substanciais de apenas três planetas, um casse M, um N e um K. O sistema contém apenas uma estrela, classe G. — O tenente respondeu, e Spock completou. — Não conseguimos captar informações mais específicas a essa distância senhor, mas daqui a 5.48 horas os sensores serão capazes de captar mais informações.

— E as coordenadas que eles nos informaram, já conseguem captar alguma coisa de lá?

— Ainda não, capitão. Mas acredito que, também em 5.48 horas, teremos informações suficientes para concluir se há probabilidade significativa de ameaça nesse encontro. — Spock disse, já voltando para o lado da cadeira de capitão.

— Tudo bem, então. Quero todos atentos aos sensores, qualquer mudança significativa deve ser reportada imediatamente. Spock, Uhura e McCoy, venham comigo, temos um primeiro contato para planejar. Sulu, a ponte é sua, não hesite em me contatar quando tivermos novas informações.

O timoneiro concordou com um aceno, e Jim liderou o caminho para o turboelevador. Spock e McCoy foram logo atrás, com Uhura por último. Quando as portas do elevador se fecharam, o clima era visivelmente tenso. A morena estava praticamente de costas para Spock, com a mandíbula apertada e os braços cruzados. O Vulcan tentava ignorar, mas parecia desconfortável, e evitava contato visual. Jim olhou bem para a situação, depois encontrou McCoy com os olhos, procurando respostas. O médico apenas deu um sorriso torto e ergueu os ombros, como quem não sabia de nada.

~

— Spock, o que houve entre você e Uhura? Vocês brigaram de novo desde aquele dia? — Jim perguntou, depois de tentar conter a curiosidade desde que Spock entrara no seu quarto.

—Nada que seja relevante no momento, capitão. Podemos conversar sobre isso em outro momento? — O Vulcan estava sentado pacientemente sobre o tapete de meditação, onde estava a quase quarenta minutos aguardando que Jim começasse os exercícios de relaxamento para a sessão dessa noite. O loiro já havia levantado para trocar de roupa, onde passara quase 15 minutos nessa tarefa, depois ir ao banheiro, escovar os dentes, e agora insistia em tentar "jogar conversa fora".

—Ah, vamos lá, Spock. Você já está evitando esse assunto há dias, e hoje ela te tratou como se tivesse a doença mais contagiosa do universo. O que houve? — O capitão quase fez beicinho, se balançando de sua posição sentada. Spock queria muito suspirar.

—Se eu lhe disser, você vai finalmente me permitir começar a sessão para qual vim? — O olhar que o Vulcan lançou a Jim deixou claro que ele já estava começando a ficar impaciente.

— Eu não estou te impedindo de começar nada, credo. Só queria manter uma conversa entre amigos aqui... — o capitão olhou de lado para o moreno, que mantinha a mesma expressão. — Ok, ok, eu vou parar de enrolar e vamos começar a sessão, satisfeito?

—Fico grato. — Spock ajeitou sua postura, indo direto ao assunto. —A tenente Uhura terminou nosso relacionamento romântico hoje.

— O que? — Jim sentiu seu queixo cair. Como poderia? Apesar de seus altos e baixos, ele achava Spock e Uhura o casal mais estável de toda aquela nave. Ela sempre parecia tão apaixonada pelo Vulcan, ele nunca esperou que houvesse um termino, que dirá que viesse dela — Mas como assim, o que houve?

—Minhas habilidades sociais com humanos são limitadas, por isso não fui capaz de entender perfeitamente a motivação da tenente. Mas parece que não sou presente o suficiente para manter uma relação satisfatória, além de "me esconder atrás de minha cultura" para justificar meu senso, de alguma forma distorcido, de prioridade.

—Ouch, isso foi pesado. — Jim fez uma careta, sem nem mesmo sentir. — Será que ela só não está nervosa? Vocês ainda poderiam tentar se resolver.

—Eu tentei um diálogo com ela, onde me ofereci para alterar minha rotina com objetivo de passar o tempo que ela achasse necessário em sua companhia. A proposta não a agradou, por achá-la não espontânea.

—Agora acho que estou me sentindo um pouco culpado. Se você não passasse tanto tempo em nossas sessões teria mais tempo pra ela e talvez isso não tivesse acontecido.

—Nyota parece seguir a mesma lógica, apesar de não saber do teor de nossos encontros. Acredito que ela tem o que os humanos chamam de “ciúme” de você.

—Meu Deus, sério? Desculpe, Spock. —Jim cobriu a boca com a mão, verdadeiramente surpreso. Um misto confuso de sentimentos estava passando por ele agora, dentre eles alguns bem estranhos (como estar ligeiramente lisonjeada) mas o que se destacava era a culpa. Não podia deixar que isso ficasse assim, não poderia prejudicar a pessoa que mais lhe ajudava.

—Olha, eu vou falar com ela e explicar as coisas, sei que não era pra ninguém saber sobre as sessões, mas não posso deixar isso acabar com seu relacionamento.

—Não há necessidade. — Spock hesitou por meio segundo, mas Jim não notou — Kaidith, Jim. O que é, é. Não há lógica em sentir pesar por algo que já teve fim. Alem do mais, sinto que nosso relacionamento teria um fim precoce com ou sem meu envolvimento em seu tratamento.

Jim piscou, pensando em quantas vezes mais ele poderia ser surpreendido essa noite. Ele inclinou levemente a cabeça em silencio, esperando que Spock continuasse. O Vulcan segurou seu olhar, e houve uma troca intensa de algo que Jim não conseguiu explicar, mas que fez seu estomago aquecer.

—Eu não posso dar o que Nyota precisa, já havia realizado isso há algum tempo. Admito que insistia em tentar ser o ideal para ela, por considerar com apreço sua amizade, mas no último ano tenho falhado nessa tarefa. Ela perceber era inevitável, nosso distanciamento só acelerou o processo.

—Eu...sinto muito em ouvir isso, Spock. — Jim desviou o olhar, não sabendo o que dizer. O calor subiu para seu peito, e ele não sabia o que fazer com ele também.

—Não há nada para sentir. Já podemos começar a sessão? — Spock ainda olhava para ele, a expressão completamente em branco. Jim sabia o que isso significava.

—Vamos, deixe-me só falar uma coisa, ok? — Spock não disse nada, então Jim tomou isso como um sim. Sabendo que poderia estar passando um pouco do limite, o capitão estendeu sua mão e pousou-a sobre a mão do Vulcan, que repousava tranquilamente em seu joelho dobrado. Ele sentiu um estremecimento da pele quente sob seus dedos, e apertou-a levemente, fazendo sua mão formigar estranhamento com o contato.

— Pode não ter dado certo com Uhura, mas não pense que isso é por alguma incapacidade sua. Humano ou Vulcan, todos nós somos capazes de amar, e você não é diferente. Espero que chegue logo o momento que você não precise se forçar a ser algo que uma outra pessoa precise, mas que seja apenas você, e que isso baste. Garanto que isso vai acontecer, assim como aconteceu com a nossa amizade.

— Jim, eu — Spock começou, mas Jim ergueu a mão livre, interrompendo-o

— Não, não diga nada. Eu só queria que você soubesse o que eu penso.

Spock o encarou por alguns segundos com a expressão contida, mas aos poucos o chocolate de seus olhos suavizou e esquentou, e Jim esperava que fosse porque ele havia compreendido o que quis dizer. O capitão soltou lentamente a mão do Vulcan que ainda segurava, e sorriu.

—Agora podemos começar a sessão, já está bem tarde, né.

Spock concordou suavemente com a cabeça, e sem mais palavras eles começaram os exercícios de relaxamento.

Menos de meia hora depois, eles já estavam andando pela cidade de memórias de Jim. Agora, o centro da cidade já era tão perto que ele sentia que chegaram nele pelas próximas semanas, e isso era um pouco desconfortável. Jim não fazia idéia do que iriam encontrar ali, e uma onda de medo gelava seu estômago ao pensar nisso.

"Antes de adentrarmos em sua memória, peço que me de alguns segundos para realizar uma pequena análise em outros pontos de sua mente." Spock disse, cruzando os braços trás das costas.

"Ah, ok. Sem problemas." Jim piscou, e Spock fechou os olhos, parecendo começar a tal a análise. O capitão estranhou um pouco, Spock não fazia algo assim desde as primeiras sessões, mas achou que seria algo de rotina, para checar o processo talvez. Recostou-se numa mureta próxima e apenas esperou.

O Vulcan movia-se pelos limites do inconsciente de Jim, a procura de alguma informação que o ajudasse a explicar os dados de McCoy. O lugar materializava-se como um denso e calmo mar escuro, e Spock lembrou-se de já ter estado lá uma outra vez. Lembrou-se do surto de Jim na missão de rotina, de como tivera que afundar-se no núcleo de sua mente para tirá-lo do transe que entrara. Era uma memória que forçava suas barreiras emocionais, por isso era seguro evitá-la.

Mas diferente da primeira vez, não havia o peso da tristeza e da agonia o empurrando para baixo. As águas eram calmas, e uma corrente quente passava vez ou outra.

Era confortável.

Acolhedor.

Era fascinante, a mente de Jim. Que facilidade de adaptar surpreendente ela mostrava, moldando-se perfeitamente para acolher a intrusão alienígena de Spock, mesmo não tendo sido feita para esse fim. Mas Spock tinha um trabalho a fazer, então apenas suprimiu suas sensações pessoais e se concentrou em procurar por algum sinal de ligação.

Forçou uma sondagem o máximo que consegui, mas não conseguiu chegar a lugar nenhum. Não parecia haver nada além da compatibilidade, o que era tranquilizador. Por segurança, Spock ergueu uma pequena barreira mental, que evitaria que a simples compatibilidade tivesse chances de evoluir. Uma parede quase invisível cintilou entre ele e o resto do oceano de Jim, ao mesmo tempo em que um flash dourado passou por Spock, tão rápido que ele não sabia ao certo se realmente tinha visto.

"Ouch, Spock! O que você está fazendo?" O Vulcan ouviu a voz de Jim, e o mar sumiu. Quando abriu os olhos, estava novamente na cidade mental com um Jim encarando-o com sobrancelhas franzidas e uma mão no peito.

"Desculpe-me Jim, você sentiu algum desconforto?" O loiro desviou o olhar, coçando a nuca enquanto a outra mão esfregava desconfortavelmente o peito.

"Mais ou menos, não sei dizer. Senti um aperto no peito, depois um choque fraco. O que você fez?"

A sobrancelha de Spock subiu sem que percebesse. Essa definitivamente não era uma reação esperada, precisaria investigar melhor.

"Eu ergui uma barreira entre nossas mentes, para limitar a fusão. Nosso contato prolongado pode acarretar algumas pequenas consequências que eu gostaria de evitar, como nos mantermos ligados em níveis baixos mesmo depois do fim da fusão. Peço perdão se foi desconfortável para o senhor, deveria ter feito isso antes."

"Ahm, ok... Só espero que você não precise fazer de novo." ele sorriu meio de lado, então continuou. "Vamos continuar agora?"

"Certamente. Se puder liderar o caminho, acredito que encontraremos uma passagem para alguma memória logo à frente"

Jim concordou com a cabeça e passou a frente de Spock, seguindo em direção a parede no fim da rua. O Vulcan caminhava logo atrás, absorto no que tinha acabado de presenciar. Sentir desconforto com a criação de uma barreira não era normal em um psi nulo como Jim, tinha que haver alguma informação sobre a mente dele que Spock não estava conseguindo alcançar. E aquela luz dourada que tinha visto, era apenas impressão sua?

Precisava ir mais fundo, mas tinha certeza que isso não seria nem um pouco agradável para Jim.

Apenas alguns metros depois, Spock sentiu Jim parar de caminhar. O humano estava visivelmente tenso, imóvel, parado em frente à única porta na parede a frente deles. Era uma porta dupla, larga e pesada, que parecia ser de alguma construção extensa.

"Jim?" Spock perguntou, preocupação vazando em seu tom. Ele podia sentir o receio de Jim, e ele já começava a se materializar no clima da cidade imaginária. Nuvens negras já se agitavam acima deles, e ao longe um raio caiu, fazendo um trovão cortar o silêncio.

Jim mordeu a língua, com força. O pedido de procurar outra memória queimando sua garganta, mas ele não podia se permitir fazê-lo. O objetivo do tratamento era enfrentamento, não era? Ele não podia se permitir essa covardia. Ele respirou fundo, e colocou a mão na barra da porta.

"Está tudo bem, Spock. Vou abrir"

Sem esperar uma resposta do Vulcan, ele empurrou a porta.

Um céu nublado esperava-os do outro lado, com nuvens quase tão pesadas quanto as da cidade mental de Jim. Eles estavam em uma espécie de pátio, em frente a um ginásio de tamanho moderado, mas que facilmente acomodaria uma grande quantidade de pessoas.

Uma multidão se aglomerava em filas em frente a eles. Formada quase exclusivamente de humanos, a multidão parecia extremamente mal nutrida, alguns com ossos aparentes sob a pele e olheiras fundas nos olhos. Havia crianças, idosos, homens e mulheres, e todos estavam na mesma condição.

As filas levavam a uma tenda improvisada onde médicos examinavam-nos, um a um, com diversos tipos de tricoders e aparelhos diferentes. Depois de examinadas, as pessoas eram direcionadas a um dos dois lados da tenda, onde pequenas multidões se aglomeravam. De um lado, eles eram escoltados por guardas armados ate a entrada do ginásio, do outro pareciam ser liberadas para a parte de fora das grades do pátio. Muitas das pessoas eram levadas a força, gritando por conhecidos e parentes que ainda estavam lá dentro, e eram quase violentamente postas para fora. Elas continuavam lá, entretanto, agarrando-se as grades em silêncio, esperando voltar para perto de seus conhecidos o mais breve possível.

Na parte final da fila, quase exatamente ao lado deles, o jovem Jim apareceu. Ele parecia ter entre 12 e 13 anos, e estava tão magro que Spock quase não o reconheceu. Seu cabelo loiro era opaco e desgrenhado, chegando a seu ombro por falta de corte, suas roupas estavam sujas e rasgadas, e seus olhos eram selvagens. Olhava de um lado para o outro, sobrancelhas franzidas e respiração quase ofegante, enquanto segurava a mão de uma criança menor atrás dele, que parecia a beira de uma crise de choro.

— Você acha que conseguimos fugir pelos fundos da tenda? Não parecem ter guardas atrás dela. — Uma menina de pele cor de oliva perguntou atrás de Jim, num sussurro quase inaudível. Seus cabelos eram negros como seus olhos, e elevavam-se em cachos rebeldes, moldando seu rosto fino e dando-lhe uma aparência tão selvagem quanto a de Jim. Ela também segurava a mão de duas outras crianças menores, e outros três meninos atrás deles amontoavam-se juntos, o que indicava que estavam todos em grupo.

—Não da, com certeza tem guardas. A única chance seria tentar correr pela lateral, enquanto eles abrem o portão para os outros saírem. Mas é muito arriscado, não vamos conseguir levar os menores e com certeza nem metade vai conseguir sair. Temos que esperar pra ver o que vai acontecer— o loiro respondeu, voz áspera, mas decidida.

—Mas que droga. Eu sinto que isso não vai dar em boa coisa. Pra que precisamos passar por um exame médico antes de um discurso? Porque tem que nos dividir? Isso não faz sentido, Kodos podia ter discursado na praça central, ele —

—Shii! Para de falar, se nos pegarem falando disso com certeza vai ser pior. Não podemos fazer nada além de esperar, Lydia. — Jim cortou as palavras irritadas da menina, olhando para ela pesadamente. —Eu odeio isso também, mas não ha o que fazer. — Ele mordeu o lábio no fim da frase, desviando o olhar nitidamente consternado. Em qualquer idade, Jim detestava estar impotente e a mercê dos outros, era nítido.

Spock, que até agora tentava compreender todo aquele cenário estranho, teve um súbito entendimento. Colônia humana, estado de inanição, Kodos como governante... Aquilo era Tarsos IV. Mas não havia nenhuma informação no banco de dados da Federação sobre Jim ter estado lá, como era possível?

Estava pronto para perguntar sobre isso a Jim, mas as palavras morreram em sua garganta quando viu os olhos de seu capitão. Ele fitava fixamente sua versão mais nova, passando os olhos por todas as crianças atrás dele, suas mãos apertadas em punhos tão fortemente que Spock quase o via tremer. A tristeza era palpável, o Vulcan encontrou difícil de olhar e voltou-se para o desdobramento da memória. Deixaria as perguntas para depois, Jim precisava enfrentar os fantasmas de seu passado, por mais doloridos que fossem.

As filas ainda estavam andando, e não demorou a vez de Jim e as crianças que o acompanhavam chegar. Ele foi o primeiro a ir, direcionado até a mesa de um médico de meia idade, que apesar de parecer magro, nem de longe se comparava ao resto das pessoas na fila.

O médico passou um scaner pelo dorso da mão de Jim, a procura do chip de identificação que todos os colonos deveriam ter. Deveriam.

— O que houve com seu chip, menino? — O médico olhou para a máquina em branco, depois observou melhor a mão de Jim. Havia uma pequena marca lá, parecia um corte quase completamente cicatrizado. O homem piscou, suspirando. — Você tirou, não é? Tudo bem, não importa muito agora. Qual o seu nome?

Jim respondeu com um olhar gelado, e completo silêncio. O médico esperou por apenas 30 segundos, depois suspirou novamente.

— Ok, não vai dizer. Como eu disse, já não importa mais. Eles vão realizar alguns exames agora, boa sorte. — o homem sorriu tristemente, e Jim franziu as sobrancelhas para o comportamento suspeito, mas não falou nada. Uma outra médica apareceu, levando-o até a parte da tenda que eles estavam fazendo os exames.

Lydia e as outras três crianças menores já estavam fazendo os exames também, Jim percebeu pelo canto dos olhos. Elas ainda tinham seus chips de identificação, mas não tiveram nenhum tratamento diferente do de Jim.

Vários tricoders passaram por ele, duas amostras de sangue e um exame físico rápido foram realizados, tudo em menos de 10 minutos. Os resultados estavam prontos instantaneamente, e Jim ouviu a médica que lhe examinara falando bem baixo com um médico próximo.

— Eu sei que o sistema imunológico dele parece fraco, e tem as inúmeras alergias, mas ele é só uma criança. Não podemos mandar ele pra lá. — Ela estava nervosa, apertando firmemente o PADD em suas mãos. Seus olhos pareciam tristes quando passou por Jim rapidamente.

— Dianna, não. As ordens foram claras, apenas os saudáveis, ou pelo menos com boas qualidades genéticas. Não questione isso, se não nós também vamos para lá. — O homem respondeu, ainda mais baixo que a médica, e tratou de sair de perto dela, dando o assunto por encerrado. A médica ainda ficou alguns segundos no mesmo lugar, parecendo pensar, depois voltou para perto de Jim.

— Pronto, meu bem. Por favor, vá com esse senhor aqui até o ginásio. — Os olhos azuis de Jim fixaram-se nos dela, e ele teve certeza, pelo pesar que eles refletiram, que ele estava indo para ter um destino horrível. O homem que ela indicou já estava ao lado de Jim, e ele não teve escolha a não ser ir com ele até a lateral da tenda.

Enquanto caminhava, o jovem Jim olhou para trás, onde já podia ver as três crianças menores de seu grupo serem levadas para o lado oposto, em direção a grade. Lydia, por outro lado, estava sendo mandada por outro médico para a direção de Jim.

As filas estavam em seus últimos ocupantes, e o segurança que levava Jim parou nos limites da tenda, segurando o menino pelo braço. Lydia se junto a eles, trocando um olhar cúmplice com Jim. Agora que os menores estavam de fora, eles sabiam o que deveriam fazer. Quando dois dos três meninos maiores do grupo se juntaram a eles, o guarda começou a andar com o pequeno grupo até o ginásio.

Quando estavam na metade do pequeno caminho, Jim viu uma brecha entre os guardas. Ele colocou a mão direita discretamente para trás, começando uma contagem regressiva com os dedos. Todos os outros do grupo ficaram instantaneamente atentos.

Cinco, quatro, três, dois... Quando Jim sinalizou o número um, o maior dos quatro garotos se jogou contra as costas do guarda com o ombro, derrubando-o no chão.

Os próximos segundos foram uma confusão de movimentos. Jim pegou o pasher do homem que havia caído no chão, e disparou várias vezes sobre os guardas em frente ao ginásio. Lydia e os outros dois meninos se separam, correndo desesperadamente em direções diferentes, mas todos em direção a grade, Jim indo logo atrás. Houve gritos, as pessoas do lado de fora da grade e os médicos da tenda se abaixaram, fugindo dos disparos. Metade dos guardas correu em direção a eles, mas eles eram rápidos, e continuaram correndo.

Jim viu um dos meninos ser atingido por um tiro, caindo inconsciente no chão. Lydia gritou quando um dos seguranças se lançou sobre ela, mas a menina era rápida como um felino selvagem, e conseguiu se desvencilhar dele. O outro garoto já estava escalado as grades, eles iriam conseguir.

Foi quando Jim ouviu. Um grito desesperado no formato de seu nome alcançou seus ouvidos, e ele virou a cabeça para a fonte do som. Era sua mãe, saindo do meio dos guardas, correndo desesperadamente em sua direção. Jim se desconcentrou, e seus pés se atrapalharam, fazendo o garoto cair no chão. Ele viu Lydia fazer menção de vir em sua direção.

— Não! Corre, vai embora!! — Gritou, e a menina voltou a correr. Mas era tarde, e um dos guardas já havia a alcançado, derrubando-a pesadamente no chão.

A essa altura, já havia dois deles sobre Jim. Suas mãos foram presas atrás das coisas, e ele foi colocado em pé a força. Alguns segundos depois, sua mãe o alcançou.

— O que vocês estão fazendo? Soltem-no, não sabem quem ele é? É o meu filho, seus idiotas, mandei soltá-lo! — Ela gritava histericamente, empurrando os guardas. Eles soltaram, reconhecendo a autoridade dela, e a mulher tomou Jim em seus braços.

— Meu deus, James! Onde você esteve? Eu procurei por todo buraco desse lugar. Porque você fez isso comigo, seu idiota? Eu achei que tinha perdido você, eu fiquei com tanto medo, tanto medo. Achei que já tinham te colocado lá dentro, Por deus, eu achei que tinha perdido a única coisa que restava dele... a única coisa...Eu não podia deixar você ir com eles, George nunca...Há tanta coisa pra você ainda, meu deus — As palavras saíram emboladas, o choro compulsivo de Winonna dificultava o entendimento do que ela dizia. Ela apertava Jim entre os braços, o rosto escondido na curva seu pescoço magro.

Apesar de tudo, Jim entendeu todas as palavras dela. E isso doeu ainda mais que a fome que tinha passado todos essas semanas. Ele a empurrou, os olhos queimando e as mãos tremendo, tirando-a do seu campo de visão enquanto procurava por seus amigos.

Os guardas já os arrastavam até a entrada do ginásio, todos eles. Lydia gritava, tentava empurrar os guardas, mordia-os, mas nada adiantava. Um dos meninos ainda estava inconsciente, o outro apenas seguia levado pelo guarda, cabeça baixa o suficiente para que Jim não pudesse ver seu rosto.

— Mãe, o que vai acontecer lá dentro? —Ele perguntou, mas Winonna só chorava e balbuciava palavras avulsas. — Mãe, para! O que vai acontecer com as pessoas lá dentro?! —Ele gritou, sacudindo a mulher pelos braços.

— Eu não podia fazer nada, mas eu consegui te salvar. Kodos não quis ouvir ninguém, foi um golpe. Ele disse que não podemos salvar todos, não há comida. Ele só quer ajudar a metade "melhor", aquela maldita Eugenia dele... — Finalmente disse, com a voz cortada por soluços.

Ele ia matá-los, ia matar metade da colônia.

Jim se desvencilhou da mãe e correu, com toda a força que ainda tinha, em direção a porta. Aquilo não podia acontecer, eram quatro mil pessoas! E Lydia, estavam levando ela pra lá.

— Lydia, Lydia! — gritou, quando já estava perto da porta. Um guarda o segurou, mas ele lutou. Sentiu seu ombro estalar, deslocado, mas conseguiu fugir dos braços do homem.

— Jim! Jim, por favor! — Lydia chorou, já em frente à porta, puxando-se pra fora com toda a força, enquanto era segurada por dois guardas. Os outros dois garotos já tinham sido postos para dentro, só faltava ela. Não havia mais ninguém no pátio, apenas os médicos. Quando ela entrasse, seria o fim de tudo.

O pequeno Jim correu, as pernas doendo e o ar faltando nos pulmões. Alcançou Lydia, se jogando sobre ela e o segurança. O choro dos dois se misturava, enquanto dois outros guardas puxavam Jim para trás.

—Vai ficar tudo bem Lydia, eu vou te tirar daí. Vai ficar tudo bem! — Gritava, segurando a mão dela com o braço que ainda funcionava. Ela o olhava desesperadamente, já não conseguindo formular palavras, só gritava seu nome. Um guarda forçou seu braço, e o ombro deslocado doeu a ponto de turvar sua visão.

A mão de Lydia escorregou, e Jim caiu no chão, com o guarda por cima. Ele não conseguiu ver a porta se fechando, mas ouviu o som da tranca.

E tudo ficou em silêncio.

Notas finais
E ai, o que acharam? Tarsos IV é bem pesado né? Me contem nos reviews ♥ e logo logo tem mais.