Notas iniciais
Eu sei que vocês me odeiam, mas em espero que gostem do capítulo. Estou sem beta, então se encontrarem algum errinho já sabem.

Kirk fecha os olhos sem nem mesmo perceber, e quando os abre novamente, ele está numa sala quase exatamente igual a que saiu na nave; porém duas vezes maior. Não sentiu o formigamento padrão dos transportadores da frota estelar, nem o puxão no abdômen. Na verdade, mal sentiu qualquer coisa. Foi, quase literalmente, como passar por uma cortina de fumaça.

Hjakaar estava olhando para ele com aqueles olhos amendoados, a curvatura de seus lábios puxada levemente para cima num pequeno sorriso. Deu um passo para frente, virando sua cabeça para trás ao sentir uma movimentação no portal. Por entre a névoa de partículas, materializou-se Spock, bem ao seu lado. O Vulcan olhou de um lado ao outro, parecendo intrigado.

— Fascinante.

— De fato. – Kirk respondeu ao murmúrio de seu amigo Vulcan, sentindo uma brisa refrescante entrar por um portal na lateral da sala, que parecia ter mais de três metros. De lá, vinha a luz morna de um sol em pleno dia, e um céu azul com poucas nuvens convidava-o para dar uma olhada.

— Nós estamos na torre mais alta da capital. Decidimos que seria um lugar agradável de se receber os visitantes. Tem vista para quase toda a cidade...quer ver? — Hjakaar perguntou, com aquela voz cantada. Kirk concordou com a cabeça, acompanhando-o até a varanda. A essa altura, os outros já iam se materializando pelo portal e os seguiam naturalmente, todos atentos ao seu entorno.

No primeiro momento, Kirk apertou os olhos com a luz do sol que ofuscou sua visão. Segundos depois, ele já podia ver a bela paisagem que se estendia. A torre devia ter em torno de 300 andares, se comparado com as terrestres, erguendo-se solitária em sua altitude. Mais abaixo, outros prédios subiam em construções espiraladas por toda a cidade, alguns ligados aos outros por construções mais baixas. Bem na linha do horizonte Kirk podia ver a linha do mar, azul como o céu, circulando aquele lado da ilha. Na verdade, das várias. A capital parecia ser um arquipélago de ilhas muito próximas, como se divididas por riachos. La de cima mal dava para ver, mas haviam diversas pontes ligando todas ilhas como uma só.

— A superfície de Merlyk é 96% coberta por água. Só existem mais quatro cidades como essa em todo mundo. Porém, há muito mais construções abaixo...Dividimos nosso tempo na superfície e nos nossos oceanos. – Ele explicou, seus chifres reluzindo sob a luz do sol como se tivesse pequenos cristais brilhantes em seu interior. Era um pouco hipnotizante, Jim admita, principalmente quando eles se contraíram ligeiramente em algum momento.

— Há cidades submersas? — Kirk perguntava, curioso. Não tem muitos registros de cidades submersas nos planetas da federação, por isso é uma novidade estimulante. Ele percebe Spock bem atento ao seu lado, sua veia de cientista bem desperta.

— Sim. A milhares de anos atrás, nossa espécie nasceu na aguas profundas. Demoramos muito séculos para começar a explorar a superfície, e com o passar do tempo fomos nos adaptando. – O aliem se interrompeu por um minuto, reparando que seus dois companheiros já haviam passado pelo portal. Continuou, em seguida. – Se puderem me acompanhar, continuarei a história enquanto os guio até a sala onde poderemos ter uma reunião com o conselho maior.

Kirk concordou com um aceno, e o grupo seguiu Hjakaar pela segunda porta que havia na sala, ainda maior que a que dava para a varanda. A essa altura, todo o grupo não conseguia esconder a curiosidade, tanto pelo planeta em si quanto pela história de seus habitantes. Até McCoy que sempre era tão desconfiado parecia genuinamente curioso.

Eles seguiram por um corredor largo, as paredes eram feitas do mesmo material da sala anterior, porém em tons claros de pêssego. Ainda tinham entalhes pelas laterais do teto, decorados com cenas que pertenciam provavelmente a cultura dos Merlyks. Hjakaar continuou com sua história pelo caminho, enquanto passavam por outros aliens que pareciam ainda mais curiosos em relação a eles quanto eles próprios.

A história, apesar de resumida, era bastante interessante. Ao que parecia, os Merlyks se assimilavam as antigas lendas de sereias terrestres, tendo seu início de vida no mar e migrando para a terra aos poucos. Sua espécie se desenvolveu para um tipo de anfíbio, conseguindo viver em ambos os ambientes apesar de tender para o marítimo. Quando subiram a terra, começaram a desenvolver tecnologia. Sua história parecia pacífica, seus estudos foram sempre voltados a saúde e preservação da própria espécie, tornando a medicina bem avançada. Kirk percebeu, num ponto da conversa, que eles pareciam ser bastante religiosos também. Hjakaar mencionou um “deus de todos nós” algumas vezes, mas não se prolongou. Lembraria de procurar sobre isso mais tarde.

Depois de longos corredores, eles chegaram ao que parecia uma grande sala de reuniões. Uma mesa extensa, similar a que vira na nave, ocupava o centro da sala, e em seu entorno alguns sofás e mesinhas (em tamanho bem grande em relação a humanos) espalhavam-se por boa parte do ambiente. Lá, alguns grupos de outros Merlykns os esperavam.

– Não tivemos muito tempo, mas conseguimos reunir alguns grupos de irmãos que podem ter informações esclarecedoras para vocês. – Hjakaar se aproximou dos grupos, e três Merlykns deram um passo a frente.

— Esse é Tadrukohr, Diretor Geral dos Estudos Ciêtificos. – Apresentou o Merlykns mais alto de todo, com cílios longos e alaranjados. Os cabelos eram do mesmo tom, soltos numa cascata que ia até abaixo de seus ombros estreitos. Seus olhos eram de um tom que tendia ao mel, o contraste com as marcas azuladas em seu rosto deixando-os mais destacados. Vestia o mesmo tipo de túnica dos outros, porem em tons de cinza...Jim levantou a suposição daquilo ser alguma vestimenta formal, talvez.

— Esse é Ahsuhat, Diretor Geral da Saúde de Merlyk. – E apontou o Merlykn do meio, ligeiramente mais baixo que os outros. Esse, de todos, era o mais “feminino”, apesar de ser referido por um pronome masculino; Seus cabelos iam até abaixo dos quadris, e variavam entre tons de azul e verde agua, uma franja longa adornava a lateral de seu rosto, bem mais delicado que os dos outros. Seus olhos eram esverdeados, assim como as manchas em seu rosto. Seus chifres se iluminaram ao ser mencionado, e ele fez um gesto quase exagerado de cumprimento, parecendo empolgado.

— Por último, temos Umrysdrax o Ministro da Educação de Merlyk. – O último era um Merlykn com os ombros mais largos, parecendo ter uma estrutura mais forte. Tinha olhos castanhos como os de Hjakaar, e cabelos verde escuro num corte curto meio irregular. Seus chifres eram de um tom mais escuro que os outros, e mantiveram-se cintilando quase imperceptivelmente.

— É um prazer conhece-los. Sou James T. Kirk, Capitão da USS Enterprise, navegando em espaço inexplorado em nome da Federação Unida dos Planetas. – Kirk os cumprimentou com um aceno, depois apontou para sua própria equipe.

— Esse é meu Primeiro Oficial, e Oficial de Ciências, Sr. Spock. Esse é Leonard McCoy, Oficial Médico da Enterprise. E essa é a Tenente Uhura, Oficial de Comunicações, e Brigitte, sua tenente assistente. Esses são Jéssica e Karl, Tenentes do departamento de segurança. – Ele os apresentou um de cada vez, e todos foram fazendo pequenas reverências quando foram citados.

A partir daí, com todos devidamente apresentados, os assuntos específicos foram surgindo. A primeira a tomar a iniciativa foi Uhura, abordando o Ministro da Educação sobre especificidades de sua linguagem. A equipe de segurança acabou se juntando a conversa deles, por se sentir um pouco deslocada das outras especialidades. Depois, o Diretor Geral de Saúde chegou em McCoy, parecendo deveras curioso, enchendo-o de perguntas sobre a biologia dos humanos e outros seres que ele já havia visto. Seus chifres iluminaram-se quase completamente quando o médico começou a responde-lo, até um pouco intimidado por tamanha empolgação de um ser tão maior que si. Dado momento, ele até puxou o bom médico para falar com sua equipe, que conversava ao lado deles.

Spock, não contendo a curiosidade, começou a conversar com o diretor geral dos estudos científicos. Não demorou para se envolverem em complicadas e específicas conversas sobre sua tecnologia, mesmo com a dificuldade do tradutor universal com palavras muito específicas da língua dos Merlykns. Kirk sorriu ao perceber toda sua equipe sendo levada pelo espirito do primeiro contato, tão empolgada! Aquilo aqueceu seu coração, fazendo ele se esquecer brevemente do mau estar que o seguia desde que acordara naquela manhã.

O próprio capitão passou bastante tempo conversando com Hjakaar e Kagauss. Jim falou sobre alguns dos costumes humanos, enquanto eles faziam comparativos com seus próprios. A diferença mais gritante, além deles serem como anfíbios, era a telepatia. Pelo que disseram, parecia ser ainda mais intensa que a de Vulcans, e muitas vezes eles se comunicavam sem nem precisar de palavras. Kirk achou interessante que Kagauss disse que eles sentiam-se conectados com o planeta de forma geral, através do Deus de todos, que já haviam citado antes. A conexão era tão intensa que abrangia até animais e plantas mais complexas. Ele olhou pelo canto dos olhos para Spock, imaginando que ele deveria ficar “fascinado” com esse aspecto em específico, e imaginando se esse assunto surgiria em algum momento em sua conversa com Tadrukohr.

No que pareceu quase uma hora depois, os chifres de Kagauss se retesaram por um segundo, e ele parou de falar. Trocou um olhar com Hjakaar, parecendo meio tenso.

— Se me dá licença, Capitão Kirk, minha atenção é necessária em outro lugar. Retorno logo. – Ele disse educadamente, e o loiro acenou em resposta. Assim que ele saiu, Jim não conseguiu conter a curiosidade.

— Algo aconteceu? — Ele perguntou, e as guelras de Hajkaar se movimentaram no que parecia ser a forma deles de um suspiro.

— Convocamos os líderes das outras ilhas para uma reunião com vocês, e todos pareciam conseguir chegar ainda hoje sem problemas, porem o Embaixador da colônia Merrek teve um problema. Acabamos de receber essa mensagem em nossas mentes, Kagauss foi recolher mais informações e tentar resolver a situação. – Ele explicou, mas algo em seu olhar mostrava que aquilo poderia não ser apenas um problema superficial. Kirk cerrou ligeiramente os olhos, a palavra “colônia” lhe soando estranha no meio de uma raça que aparentava ser completamente unida como aquela.

— Vocês tem uma colônia no planeta? — Ele tomou a liberdade de perguntar, depois de hesitar por alguns segundos. Hajkaar torceu quase imperceptivelmente os lábios finos, meio desconfortável.

— Esse era um assunto que não pretendíamos abordar agora, mas temo que será necessário... Gostaria de sentar por um minuto? — Ele ofereceu, indicando um dos sofás próximos. Kirk aceitou com um aceno, seguindo-o até lá.

Quando ele sentou, sentiu-se afundar mais do que estava acostumado pelo estofado macio. O sofá era alto para a estatura humana, então seus pés não conseguindo tocar o chão. Ele se sentiu como uma criança, mas tentou afastar esse pensamento, procurando uma posição confortável. Hajkaaar se sentou logo ao seu lado, diminuindo um pouco a diferença de altura entre eles, e fazendo Kirk não ter que olhar tão para cima como quando estava de pé.

— Essa é uma história triste para nós, uma mancha de selvageria em nossa cultura pacifista que não gostaríamos de ter. Porém, ela inegavelmente ocorreu e, como desejamos uma relação de confiança entre nossas espécies, não podemos esconder. – Ele deu uma pausa, provavelmente pensando em como começar, mas então suas palavras voltaram. – Quando chegaram a esse sistema solar, devem ter percebido nosso planeta gêmeo. Ele é visível em nosso céu, principalmente em fins de tarde. Sua condição atualmente é inabitável, mas nem sempre foi assim.

— Seu nome é Merrek, e os Merrekns são, assim como nossos planetas, nossos irmãos mais próximos. Nossa fisiologia é muito parecida, sendo a diferença mais notória que eles não são telepatas. Eles se desenvolveram mais rápido que nós, e quando ainda construíamos nossos primeiros protótipos de naves, eles entraram em contato conosco. Anos depois, tivemos nosso primeiro contato físico. Os Merrekns nos mostraram muitas coisas que não sabíamos, e fomos parceiros em desenvolvimento por muitos séculos. A cerca de 700 anos, começamos a ter desavenças. O Merrekns, por não serem telepatas, não entendiam nossa religião, nossa relação com o planeta e com o Deus de todos. – Seu olhar se tornou ligeiramente sombrio, e seus chifres perderam o brilho por um segundo antes de continuar – Daí surgiu uma guerra que durou mais de 100 anos, perdemos muitos de ambos os lados. No fim, sofremos um ataque de Merrek que destruiu completamente uma de nossas cidades, onde hoje é a colônia Merrekn. Infelizmente, levados pelo furor da guerra, nosso conselho revidou com uma arma ainda pior, levando a destruição quase completa de Merrek. Todos nós, até hoje, sentimos por essa decisão. A guerra fez os Merrekns quase desapareceram, e, arrependidos, nos abrigamos os sobreviventes em nosso planeta criando a colônia. Nossa relação com os Merrekns a partir daí foi sempre muito...tensa. Eles nunca nos perdoaram, então na colônia vez ou outra há conflitos.

Kirk ficou atento durante todo o tempo, sem deixar transparecer o choque que aquela revelação causava. Saber que os habitantes de um planeta que estava prestes a trabalhar um tratado com a federação tinham em poder uma arma capaz de tornar um planeta inabitável era no mínimo inquietante. Sem falar que a história parecia muito vaga, faltavam muitas informações importantes ali que precisava ter certeza de correr atrás naquele meio tempo.

— Realmente, parece complicado. Os humanos, e muitas outras raças que fazem parte da federação, também tem suas tristes histórias de guerra. Talvez simplesmente faça parte de um sistema natural de evolução...O importante é sempre aprendermos com nossos erros. — O aliem piscou seus longos cílios para suas palavras, seus lábios se curvando no que parecia ser um pequeno sorriso enquanto confirmava brevemente, seus chifres cintilando quase imperceptivelmente. Eram honestas, apesar da ligeira vontade de Kirk investigar melhor sobre aquilo. Os próprios humanos já tentaram acabar com seus semelhantes algumas centenas de vezes, e danificaram bastante seu planeta no processo...sem contar com as guerras com outros planetas.

Hjakaar abriu a boca para voltar a falar, mas se interrompeu no mesmo momento, olhando para a porta de entrada a sala, a alguns metros deles. Kirk se virou a tempo de ver Kgauss atravessando por ela com passos calmos, indo automaticamente em direção aos dois. Houve dois segundos do que parecia ser uma comunicação sem palavras entre Hjakaar e Kagauss, e então Hajkaar voltou a se dirigir a Kirk.

— Ao que parece, o embaixador da colônia não conseguirá comparecer hoje. Porém, podemos usar esse tempo para mostrar aos senhores mais do nosso planeta, o que acham? Amanhã faremos a reunião planejada, e poderemos discutir todos os assuntos com mais calma.– Ele ofereceu, e Kirk acenou em resposta. Não estava em posição de negar um pedido desses, de qualquer forma.

Um terceiro Merlykn se aproximou deles, um pouco mais baixo que os outros, com cabelos curtos e azulados. Hjakaar o indicou com a mão, já se levantando.

— Esse é nosso Ministro de relações, ele pode, junto com nossos especialistas, guiar vocês por uma visita. Se me dá licença, eu sou necessário em outro lugar para lidar com os preparativos da reunião. Me juntarei a vocês mais tarde, quando lhes daremos oficialmente boas vindas com uma comemoração. – Ele disse, com sua voz melodiosa, e Kirk também se levantou. O cumprimentou com um aceno, agradecendo a hospitalidade, e se virando para o ministro.

O Merlykn o levou até junto dos outros, onde pediu que o seguissem para a pequena expedição. Spock, Uhura, McCoy e todos outros também se juntaram, e eles partiram por entre os grandes corredores do prédio. A visita guiada passou por vários ambientes de trabalho, que mais pareciam focados em questões burocráticas, e logo se estendeu para a cidade.

Uhura foi a primeira a se separa do grupo, quando foram apresentados ao centro de informação da cidade, que mais se assemelhava as grandes bibliotecas (com arquivos digitais, em vez de livros) da terra. Ela e seus tenentes, acompanhados de Umrysdrax, ficaram para aprender o máximo possível sobre a cultura e os costumes dos Merlykns, enquanto o resto do grupo seguia viagem. Após isso, foi Spock que deixou o grupo. Kirk viu os olhos castanhos brilharem nas estações de ciência avançada da cidade, enquanto meia dúzia de cientistas os cercavam com perguntas sobre as mais diversas tecnologias alienígenas. O vulcan negou quando Kirk perguntou se queria ficar enquanto seguia viagem, relutante em sair do lado de Jim por aquela preocupação velada que cismava em ostentar, mas o loiro só precisou insistir um pouco para ele aceitar, levado pela empolgação. Tadrukohr ficou com o Vulcan, levando-o por entre os corredores, liderando o grupo de cientistas.

Kirk, McCoy e os dois tenentes de segurança seguiram por mais uma viajem pela cidade, sendo levados a um centro de esporte onde acontecia uma demonstração do esporte mais popular entre os Merlykns, que Kirk não conseguiu entender bem o nome. Apesar disso, era intrigante. O local era como um grande campo de futebol (se comparado com a estrutura terrestre) com arquibancadas altas, porem o esporte não era disputado no chão. Ao invés disso, o que parecia ser um campo de força erguia uma esfera tremulante de água translúcida com cerca de 100 metros, e dentro dela mais de 30 Merlykns nadavam animadamente de um lado para o outro, quase como se dançassem e lutassem ao mesmo tempo. A parte mais intrigante era que suas longas pernas pareciam assumir o formato de caudas, lembrando Jim novamente de Sereias, como tinha acontecido ao olhar os entalhes assim que chegou no planeta. Era uma vestimenta? Ao longe, não parecia. Ele ficou realmente curioso, e perguntou para o Ministro, que o explicou se tratar de uma "segunda forma" para os Merlykns. Suas "pernas" surgiram de forma evolutiva quando começaram a se adaptar a vida na terra, mas nunca perderam a habilidade de voltar a essa forma marítima. Jim ficou realmente maravilhado, assistindo ainda mais atentamente a movimentação dos jogadores, achando incrível a capacidade de adaptação e metamorfose daquela espécie.

Cerca de meia hora depois, eles deixaram o estádio para recomeçar o tour. Já devia estar perto (se já não havia passado) do horário de almoço da nave, mas Jim não sentia nenhum sinal de fome; na verdade, se sentia ligeiramente enjoado. O mal-estar que sentira pela manhã tinha voltado pouco depois de terem deixado as estações de ciências, e apesar do capitão ter feito de tudo para ignorar as sensações e focar na missão, a dor de cabeça estava começando a chegar em níveis realmente incômodos.

— Jim, está tudo bem? Você não está com uma cara muito boa. — McCoy perguntou baixinho, quando chegavam ao hospital referência da cidade, que o Ministro falava animadamente sobre. O capitão virou-se piscando, cogitando se fingir de desentendido, porem sabendo que não daria muito certo com McCoy àquela altura.

— Está tudo bem, eu só estou com um pouco de dor de cabeça. Não dormi muito bem noite passada. — Ele tentou sorrir, mesmo que suas têmporas estivessem pulsando numa pressão que já passava do nível do simples incômodo. McCoy franziu as sobrancelhas, desconfiado.

— Tem certeza? Eu trouxe algumas hypos, posso te dar um analgésico pra melhorar. Pode ser fome também, já está tarde.

— Não precisa, eu-

— Jim, já passamos dessa fase, não? Ficar negando não ajuda em nada, é só um maldito analgésico. — O capitão suspirou para o tom de sermão de McCoy, e achou melhor não insistir. Um analgésico seria bom, no final das contas.

— Ok, ok. Me dá logo esse hypo. — Acabou cedendo, rolando os olhos. McCoy estalou a língua numa expressão vitoriosa, porem sem sorrir. Pediu licença para o Ministro, dizendo que o capitão precisava de cuidados médicos rapidamente, e ele lhe mostrou uma pequena sala. O médico deu a Hypo rapidamente, e eles voltaram a se juntar ao grupo, onde um preocupado Ahsuhat perguntava se estava tudo bem, já oferecendo os equipamentos do hospital se precisassem, invadindo o espaço pessoal de McCoy no processo. O médico disse que estava tudo sob controle, parecendo até um pouco tímido, levando Jim a segurar um pouco o riso. O hypo tinha melhorado um pouco sua dor, apesar do enjoo e a estranha sensação de vazio ainda persistirem, por isso poderia tentar se concentrar na visita novamente.

Eles seguiram pelo tour pelo hospital, Ahsuhat animadamente apresentando os mais variados equipamentos, mostrando que a saúde era uma das principais preocupações daquela espécie. Pelas estatísticas que eles lhes mostraram, mais de 90% das doenças existentes eram tratáveis com sucesso. Ainda lá, eles receberam uma mensagem que pedia para que voltassem ao prédio principal, pois os seria oferecido um almoço e a pediam a presença de McCoy para que os auxiliasse com os alimentos que sua tripulação poderia consumir. Dali, voltaram a prédio a que chegaram.

Ainda no hall, se encontraram com o resto do grupo que já os esperava. McCoy seguiu acompanhado de alguns funcionários da casa para ajudar com o almoço, enquanto os outros foram levados para uma sala de espera com sofás confortáveis. Spock, observando Kirk pelo canto dos olhos enquanto caminhavam até lá, tentava se desvencilhar educadamente de sua conversa com Tadrukohr, que apesar de interessante o impedia de ir para o lado de seu capitão. Ele finalmente conseguiu quando chegaram a sala de espera, pedindo licença para ir se sentar ao lado de Jim, que o recebeu com um sorriso caloroso.

— Hey, Spock! E aí, se divertiu lá? – Perguntou animadamente, achando engraçado o erguer de sobrancelha que recebeu do Vulcan em resposta.

— Vulcans não “se divertem” durante o trabalho, Capitão. – Seu tom era o “vulcan indiferente” padrão, mas o capitão podia nitidamente perceber sua animação nos mínimos detalhes, principalmente quando continuou, já se acomodando no sofá ao lado de Jim. — Apesar disso, os Merlykns tem posse de certas tecnologias que posso definir como no mínimo...estimulante.

— Sei...eu imaginei que gostaria, por isso falei para você ficar lá. – Ainda sorria abertamente, cruzando as pernas. Percebeu que Spock o encarava fixamente por alguns segundos, e acabou inclinando a cabeça num silencioso “o que foi?”.

— Tenho a impressão que algo o incomoda, capitão. – Ele começou, e Jim não pode deixar de pensar quando ele tinha ficado tão transparente assim para não conseguir esconder mais nada dos outros. Ou então McCoy e Spock tinham adquirido algum nível de poder sobre ele.

— Oh... não, está tudo bem. – O vulcan continuou o encarando, e Jim bufou. – Você tem passado muito tempo com Bones. Está começando a se parecer com ele, sabia? – Completou, quase fazendo um bico de irritação fingida. O vulcan arqueou uma sobrancelha novamente, mas nada além disso. Kirk sabia que teria que falar algo para ele ficar satisfeito... novamente.

— Não é nada, ok? Eu só tive uma dor de cabeça. Bones me deu um analgésico e eu estou bem agora. Não venha ficar preocupado com qualquer coisa que acontece você também. – Resmungou, parando para notar que seu mal estar realmente tinha diminuído consideravelmente. Até o enjôo tinha dado uma trégua, e seu estômago começava a resmungar de fome.

— Se sentir qualquer outra coisa, é imprescindível que nos avise, capitão. Ontem foi uma sessão...difícil. É importante que não ignoremos qualquer alteração em sua condição agora. – Jim desviou o olhar quando ele mencionou a sessão, lembrando do quão realmente desagradável tinha sido, o quanto ela havia lhe lembrado de coisas que não queria. Lembrou do pesadelo também, tendo um pequeno calafrio. Não era um bom momento para falar desse tipo de coisa agora, ele ainda não confiava em si mesmo o suficiente para isso.

— Eu sei, Spock. Vou avisar qualquer coisa, ok? – O vulcan concordou, e ele achou que era mais do que justo mudar de assunto agora. – Deixa eu te perguntar uma coisa...você ouviu alguém mencionar a palavra “Merrek” ou “colônia Merrekn” nesse meio tempo?

A partir daí, Jim começou a falar sobre o que Hjakaar tinha lhe contato sobre a história de guerra do planeta, falando baixo e discretamente, atento para que não estivessem prestando atenção na conversa. Spock estranhou a história, concordando que era algo digno de se pesquisar e perguntar antes de firmar qualquer tipo de acordo.

Eles ainda conversavam quando um Merlykn veio lhes avisar que a refeição já estava servida, e os guiou até a sala de jantar. McCoy já os esperava lá, sentando-se ao lado de Kirk – enquanto Spock se estabelecia automaticamente em seu outro lado -, e avisando sobre quais pratos era seguro Jim comer e quais não, de acordo com sua enorme lista de alergias. O assunto sobre os Merlykns e os Merrekns ficaria para mais tarde.

O almoço se passou tranquilamente, tirando um ou outro incidente da tripulação experimentando comidas e tentando disfarçar quando elas não se adequavam a seu paladar. O próprio Kirk aproveitou muito bem sua refeição; comeu algo parecido com uma porção de curry, só que em tons festivos de azul. Parecia estranho a primeira vista, mas era realmente saboroso. Os Merlykns tinham opções veganas além da carne de alguns animais típicos, o que foi bastante apreciado por Spock, que também pareceu aproveitar sua comida.

Quando todos tinham terminado a refeição, um Merlykn simpático e bem mais baixo que os outros apareceu para apresentá-los a seus aposentos. Jim pensou em negar, eles podiam muito bem voltar para a nave e retornar no dia seguinte, mas podia ser considerado falta de educação, então só aceitou.

Eles foram levados a um prédio bem próximo a gigantesca construção que chegaram, que parecia ser um hotel pela movimentação de Merlykns bem arrumados andando com malas de um lado para o outro do hall. Eles chamaram muita atenção, e viram muitos chifres brilhando com interesse por onde passavam. O Merlykns que os guiava, cujo nome era Gynlar, se apresentou como responsável pelas acomodações e os levou ao andar onde estavam seus quartos, explicando que provavelmente estranharam algumas partes do quarto, por serem feitos para a fisiologia Merlykn, e pedindo desculpas por isso.

Ele entregou um cartão para cada um, e indicou os quartos a que cada um pertencia, explicando que eles desbloquearam as portas. Explicou também que havia um tipo de comunicador no quarto ligado diretamente ao pessoal dele, e que qualquer coisa poderia ser pedida por ali. Eles agradeceram, e cada um foi para seu próprio quarto.

Jim não notou grandes diferenças no quarto, só que os móveis pareciam maiores e a iluminação era bem suave. A cama parecia ter um colchão de água (ou algo parecido com isso) e ele achou interessante, pois mesmo sabendo que já haviam colchões assim na terra ele nunca tinha se deitado em um. Depois de explorar um poucos os outros cômodos, e tendo um pouco de dificuldade em entender como a privada funcionava, ele percebeu que havia um cômodo separado onde só havia uma piscina com pouco mais de um metro de profundidade, e quase nenhuma iluminação. Não foi preciso pensar muito pra perceber que a biologia dos Merlykns, apesar de ter evoluída, ainda necessidade de bastante contato com água.

Exploração terminada, o capitão da Enterprise se deu alguns minutos para apenas relaxar um pouco. Deixou as botas de lado e se deitou na cama, sentindo a movimentação agradável da água por baixo de si. Fechou os olhos, sentindo a dor de cabeça começar a voltar. Estava começando a se tornar irritante esse vai e volta, e mal havia se passado metade do dia. Se fosse só a dor, ele poderia se acostumar, mas não era. Tinha um mal estar que não deveria estar lá, uma angústia, bem lá no fundo, como se algo que deveria estar lá simplesmente não estivesse.

Como no seu sonho.

Cobriu os olhos com a mão, suspirando ao lembrar. Teria que falar com Spock dele, provavelmente. Assim como sobre tudo aquilo que aquela memória lhe trouxera a tona. Teria que falar com ele sobre Winonna, apesar dessa ser a última coisa em sua vida que ele queria falar.

Vivera toda sua vida sem precisar falar disso, porque precisava agora?

Mordeu a parte interna do lábio, se levantando da cama. Seu humor já estava um lixo de novo, precisava se distrair. Colocou as botas novamente e saiu do quarto, sabendo que a melhor coisa a fazer era se distrair com trabalho.

E bem, havia muito dele a ser feito.

~

O resto do dia havia se passado mais rápido do que o esperado, e logo o sol de Merlykns já era substituído por uma enorme lua, e um céu muito mais estrelado do que humanos estavam acostumados a ver.

Jim tinha passado a maior parte da tarde enfiado no centro de informação da cidade, ocupando seu cérebro em procurar mais informações sobre a guerra entre Merlyk e Merrek. Vez ou outra passava por Uhura, que apesar de manter a educação nos poucos momentos que se falavam, ainda mantinha uma distância considerável. Ele sabia que tinha a ver com seu término com Spock, agora que descobrira que ela tinha ciúmes de si. Não era hora de falar sobre isso, mas sabia que em algum momento teria que ter uma longa conversa com ela.

Pouco vira dos outros, também. Spock ainda estava pelos laboratórios, e McCoy fora praticamente abduzido por um Ahsuhat aparentemente muito interessado na fisiologia humana. Com toda a experiência de Jim com envolvimento inter-espécie, ele tinha quase certeza que o Merlykn estava flertando com o médico.

Agora, no que devia ser por volta de 2100 horas, no horário da nave, a festa em comemoração a chegada deles estava começando.

Uma grande cobertura foi preparada na área externa de um centro de convenções local, envolta por um belo jardim de flores exóticas e bem cuidadas. Havia um grande palco com projeção holográfica (ainda mais avançada que a da própria Enterprise), várias mesas com iguarias locais foram arrumadas ao longo da lateral do salão, e uma enorme quantidade de Merlykns fora convidado. Hajkaar explicou que chamara grandes ícones da sua cultura, como cantores, grandes cientista, poetas, esportistas e figuras desse porte.

Antes da festa, o grupo tinha voltado a Enterprise pra se vestir a altura de tal comemoração. Todos usavam suas roupas de gala, como sempre bem incômodas, e tentavam se misturar na multidão.

Algum tempo depois das apresentações Jim estava recostado ao que parecia ser o bar da festa. A princípio ele tinha ido parar ali fugindo de um trio de Merlykns de um grupo musical que pareciam ter um interesse fora do normal em sua anatomia, e acabara descobrindo algumas bebidas interessantes.

Normalmente ele não negaria uma investida direta dessas, independente da espécies. Jim tinha uma libido das grandes, e depois que ele descobriu que os Merlykns eram hermafroditas e ageneros, admitia a si mesmo que um pouco de curiosidade havia aparecido. Porém...não ia rolar. Seu humor era tão ruim que nem uma aventura dessas parecia interessante. “Nem isso sobrou do velho Jim” pensou sombriamente, bebendo o resto do líquido âmbar de seu copo, sentindo a queimação adocicada no fundo da garganta.

— O que é isso que você já está bebendo, senhor? Isso são modos de um capitão? – McCoy recostou ao seu lado, fazendo uma miserável tentativa de imitar Spock ao falar.

— É uma festa, Bones. Eles tiveram o trabalho de trazer toda essa comida e bebida, seria um desperdício não experimentar. – Respondeu, com um meio sorriso sem muita vontade.

— Claro, claro. Mas não abusa, ok? eu sei que precisa relaxar, mas você está tomando remédio e sabe-se lá o que de estranho tem nessas bebidas.

— Você mesmo não aprovou a maioria delas pra consumo humano antes da festa? – o capitão ergueu uma sobrancelha, e McCoy cruzou os braços, torcendo os lábios.

— Olhei, mas nunca se sabe, e você é todo errado aí. Você sempre tem alergia a alguma coisa, então manera.– Ele falou, e agora Jim notou que seu sotaque estava bem mais forte que o normal.

— Olha quem fala, você que já tá ficando torto. Isso que dá, fica aceitando tudo que que o Ahsuhat te dá pra beber. Cuidado, Bones, daqui a pouco vai parar num quarto que não é o seu. – E riu quando o médico corou com sua provocação.

— Cala a boca, homem. Não sou que nem você que tem fetiche pelo exótico, não faço essas coisas não. – Ele olhou de um lado para o outro discretamente, talvez vendo se Ahsuhat estava por perto, mas ele parecia distraído falando com alguém mais ao fundo do salão, então continuou. – Falando em exótico, cadê o Spock? Não está com você?

— Não consegui falar com ele desde o início da festa. Os Merlykns parecem gostar bastante dele. – O capitão resmungou, pedindo mais um copo ao alien simpático no balcão. O mau estar estava lá de novo, para piorar ainda mais seu estado, e Jim só queria voltar para seu quarto.

— Que isso, ciúmes é? – o médio brincou e Jim revirou os olhos. O movimento fez sua cabeça doer, e ele segurou a vontade de apertar os olhos.

— É, isso mesmo, Bones. Se ver meu namorado Vulcan diga que estou procurando por ele e morrendo de saudades, ok? – Devolveu, mau humorado. McCoy o olhou por alguns segundos, não realmente ofendido pela falta de paciência dele, mas com algo quase carinhoso no olhar. Ele deu um tapinha no ombro do loiro, e se desencostou do bar.

— Ok, darei seu recado. Vá lá pegar um pouco de ar fresco Jimbo, e qualquer coisa é só chamar o bom médico aqui. – e saiu, indo se juntar a um grupo de Merlykns que pareciam quase convencendo Uhura a cantar para eles.

Jim os encarou por um tempo, observando sua empolgação. Ele estava assim a apenas algumas horas atrás, mas alguma coisa o estava consumindo a ponto de até isso ser suprimido por essas angústia. Decidiu aceitar o conselho do médico e, depois de pegar mais um drink, caminhou até o lado de fora da grande cobertura.

Estava um pouco mais silencioso lá, apesar da música e o ruído de conversas ainda poder ser ouvido nitidamente. O ar era fresco, e vez ou outra uma brisa suave fazia a ponta de um ou outro fio de seu cabelo fazer cócegas na testa. Jim respirou fundo, deixando o cheiro de plantas que não conhecia e maresia encher suas narinas. Era relaxante, de uma forma estranha.

O centro de convenções era ao lado do mar, apesar de alguns metros acima. Foi preciso andar apenas uns poucos metros para encontrar um muro baixo que delimitava o terreno, quase colado a encosta de pedras que dava no mar. Estava vazio ali, e o som das ondas lá embaixo quase abafava os ruídos da festa.

Jim caminhou até lá, recostando-se na pedra fria. Não havia nuvens, e uma única lua decorava o céu em meio a milhares de estrelas. Jim se lembrou de todas as vezes que subia no telhado de sua casa em Iwoa para ver o céu, quando estar lá dentro parecia insuportável de mais.

Ele não queria voltar para lá, mas todos os seus pensamentos pareciam puxa-lo de volta para aquela casa.

— Capitão? – Uma voz alienígena soou entre um quebrar de onda e outro, e Jim se virou para ver quem surgia pelo caminho mau iluminado do jardim. A luz das luminárias do jardim alcançaram a figura alta, e Jim viu o punhado de cabelos cinzentos e roupas esvoaçantes.

— Kagauss, boa noite. – O capitão cumprimentou com um aceno suave de cabeça, baixando o copo que tinha levado aos lábios a pouco. O Merlykn retribuiu o aceno, seus chifres iluminando ligeiramente o ambiente ao reagirem.

— A festa não está do seu agrado? – Ele parou ao seu lado na mureta, de costas para o mar.

— Não, a festa está ótima. Eu só vim pegar um pouco de ar fresco, e admirar um pouco da paisagem. – Jim se apressou em esclarecer, mas manteve a voz calma. O maior assentiu suavemente, ficando em silêncio logo depois. O capitão achou que não tinha sido convincente o suficiente, mas lembrou que Kagauss era o que menos falava dos aliens que conhecera, então talvez fosse apenas o jeito dele.

— Seu primeiro oficial parecia estar procurando por você agora a pouco. – Ele disse depois de alguns minutos, fazendo Jim piscar pela questão um pouco abrupta.

— Oh, Spock? Já entro para procura-lo, não deve ser nada urgente. – Comentou, sem saber exatamente o que dizer.

— Vocês parecem ser próximos. Até mesmo nós, sem contato telepático direto, conseguimos sentir a ligação de vocês.

— Ligação? – Jim piscou, franzindo as sobrancelhas.

— Sim, a ligação que os une. É forte, quase visível. Me surpreendi quando disseram que apenas o Vulcan era telepata, é incrível um ser não telepata ter uma ligação assim com outro. Vocês devem ser almas gêmeas.

Jim engasgou com a bebida com a última frase, batendo discretamente no peito enquanto tossia. Kagauss até chegou a perguntar se estava tudo bem, mas o capitão respondeu com um aceno enquanto limpava uma lágrima do canto dos olhos.

— Não, nós não...o que quer dizer com visível? – Ia começar a negar, mas a curiosidade falou mais alto. Era estranho ouvir algo assim, ainda mais depois de todo o papo de Spock sobre checar suas mentes para algo mais e tudo aquilo da noite passada.

— Quando nosso povo encontra um parceiro, eles formam ligações mentais. Quando ela é forte o suficiente, nós podemos vê-las como fios luminosos os ligando. São muito preciosas e queridas por nosso povo, e geralmente só são quebradas pela morte. – Ele explicou, pacientemente.

— E...você consegue ver isso entre nós? Eu e Spock? – O capitão estava meio incrédulo, e ligeiramente assustado.

— Não exatamente. Não consigo ver, mas podemos sentir algo como. – Confessou, depois de parecer pensar por alguns segundos.

— Isso é...estranho. – Jim riu, passando a mão livre pelos cabelos. Devia ser algum efeito colateral das sessões, como Spock tinha falado antes. Saber que isso era visível para os Merlykns deixou Kirk aflito...será que eles conseguem sentir mais do que isso? Será que poderia suspeitar de algo de seu “tratamento”? Nah, ele devia estar ficando paranóico. Ele se desencostou da mureta, continuando. – Eu e Spock somos apenas bons amigos, talvez amizade apareça como algum tipo de ligação pra vocês, não?

— Talvez, capitão...talvez. – Kagauss deu um meio sorriso para Jim, mas de alguma forma, na meia luz da lua e daquela pequena luminária de jardim, pareceu ameaçador. Com certeza, era impressão sua.

— Eu acho que vou voltar agora, ainda tem muita festa para aproveitar. – Ele desconversou, se despedindo de Kagauss brevemente, que não pareceu com nenhuma intenção de voltar para lá.

Jim voltou pelo caminho que veio, achando aquela conversa toda meio...estranha. Kagauss não tinha se mostrado de muita conversa até agora, aí então vinha com esse papo sobre ligação e Spock. Não fazia muito sentido, mas vai saber o que se passa na cabeça deles, as vezes era só curiosidade.

Quando estava chegando a entrada do salão, Jim se lembrou porque tinha saído de lá. A dor de cabeça deu uma pontada violenta, fazendo-o efetivamente apertar os olhos dessa vez.

Ok, precisava de mais distração. Ele olhou para seu copo, estava vazio. Era uma boa hora pra enche-lo, e quem sabe daqui a alguns a dor de cabeça já não pareceria tão ruim. Ou talvez poderia achar aqueles Merlykn de antes, seria outra bela distração.

Cerca de uma hora e meia depois, Spock finalmente conseguiu deixar a mesa dos diplomatas que hajkaar tinha apresentado bem na hora que McCoy tinha dito que Jim o procurava. Essa festa tinha servido para ele descobrir que Merlykns eram muito dados a consumir o seu equivalente a álcool, e que ficavam realmente insistentes e (ainda mais) animados com eles.

Rodou o salão como fizera antes de ser interrompido, procurando por Jim. Encontrou-o meio escorado a parede ao lado do bar, um copo meio frouxo na mão e um Merlykn exageradamente feminino ao seu lado, parecendo falar algo engraçado muito mais perto do que deveria. Ele desviou os olhos azuis dele por um minuto, e seu olhar cruzou com o do Vulcan.

— Spock! Vem cá! – Ele chamou animadamente, e Spock hesitou por um minuto antes de ir, mas acabou indo assim mesmo.

— O doutor McCoy avisou que você estava me procurando, capitão. Está tudo-

— Nah, deixa isso pra lá. Essas lindas donzelas estão procurando boas companhias, porque não fica aqui com a gente? Tem demais pra mim, de qualquer forma. – Ele falou num tom sacana, mas Spock percebeu ser... forçado? Ele olhou bem para Jim; rosto corado, fala mole, reflexos lentos, esse jeito forçado... Aquilo não iria acabar bem.

— Você está embriagado, Jim. – Disse o óbvio, e Jim riu dele.

— Que nada, esses bebidas não são nada pra mim. Posso beber mais umas cinquenta. – e levou o copo que tinha em mãos a boca, na intensão de beber ainda mais. Spock automaticamente tirou o copo de sua mão, derrubando um pouco no chão.

— Você já consumiu bebidas o suficiente por hoje, capitão. Com licença, mas acho que é hora de levá-lo a seus aposentos. – Disse, deixando o copo sobre uma mesa próxima e segurando Jim pelo braço, que debilmente protestou. Os Merlykns também protestaram, aparentemente mais bêbados que Jim, mas foram ignorados.

— Que isso Spock! Nem começamos a nos divertir, peraí. – Ele tentava puxar o braço, mas Spock continuava puxando-o para fora até chegarem a um corredor vazio, que dava para os elevadores.

O Vulcan se virou, mais visivelmente irritado do que costumava ficar.

— O que aconteceu? Estamos no meio de uma missão de primeiro contato, é nosso primeiro dia num planeta até então desconhecido e na primeira oportunidade você se embebeda? – Seu tom era duro, e suas mãos estavam cerradas em punhos.

— É uma maldita festa, Spock! É isso que é suposto fazer em festas, todos eles estão fazendo a mesma coisa!

— Nenhum deles é um capitão de uma nave da frota estelar mentalmente instável e em missão! – Sua voz soou mais alta do que gostaria, e ele se arrependeu da sua escolha de palavras no minuto que viu a expressão de Jim. Ele parou de falar, apertou os lábios e desviou o olhar, visivelmente ofendido.

— Então é isso que eu sou pra você? – perguntou, baixo, um sorriso – que costumava aparecer bastante nos últimos meses – tinha um que depreciativo tomando seus lábios.

— Não, Jim. É isso que você está, não o que você é. E você está se comportando de forma inconsequente, novamente pondo em risco a missão e sua própria saúde e segurança. – dessa vez sua voz tinha mais de seu tom habitual, mas Jim não procurou seus olhos.

— Foda-se, vou pro meu maldito quarto. Nem deveria ter saído de lá essa noite. – Ele resmungou, começando a seguir pelo corredor em direção ao elevador, mas visivelmente tonto de mais para andar sem trombar com as paredes.

— Deixe-me ajudá-lo. – Spock segurou um dos braços de Jim, na intensão de ajuda-lo a caminhar, mas foi repelido num empurrão.

— Não. Eu não preciso...arg. – Ele abaixou a cabeça quando um enjôo violento, junto com uma pontada forte na cabeça quase o fez ir ao chão. Talvez ele realmente não conseguisse ir sozinho, para infelicidade de seu orgulho que pelo visto não havia sido pisoteado o suficiente.

– Mas que merda. Eu acho que preciso vomitar. – Resmungou, e sem muita escolha deixou Spock ajudá-lo a caminhar até o elevador.

O caminho até o quarto de Jim foi feito em completo silêncio, daqueles bem desconfortáveis. Em algum lugar em meio a névoa de álcool de sua mente Jim sabia que estava agindo como um idiota, e se sentia ridículo por isso. E Spock sentia que tinha sido duro de mais, sabendo que não deveria, principalmente depois da última sessão com Jim.

— Você ainda quer vomitar? – Spock perguntou assim que entraram no quarto, preparado para abrir a porta do banheiro.

— Não, só quero deitar. – Foi a resposta baixa, e então Spock ajudou seu capitão a deitar na cama, sentando-se na beira dela ao seu lado.

Jim caiu de costas nos lençóis macios, cobrindo os olhos com o braço. Tentou tirar os sapatos sem se levantar, mas eles não queriam sair de seus pés de forma nenhuma. Vendo sua dificuldade, Spock o ajudou. Assim que seus pés estavam livres o loiro se encolheu na cama, sentindo tudo voltar para sua cabeça.

Derrepente, ele se sentia como uma criança novamente.

— Eu não estou bem hoje, Spock. – Confessou, e o Vulcan se virou para que conseguisse olhar para a figura encolhida na cama.

— Eu tive um sonho horrível essa noite. Estava sozinho no mar, mas era em um lugar que parecia muito familiar, como se eu já tivesse estado lá muitas vezes. E tinha uma porta que eu sabia que tinha alguém do outro lado, mas essa pessoa não estava mais lá. Era pra estar, mas não estava – Ele deu uma pausa, respirando profundamente. – E então eu não conseguia mais respirar, e tinha sangue...tudo estava vermelho, e não tinha ninguém mais comigo. Eu estava sozinho, e eu estava morrendo.

— Você não está sozinho, Jim. – Spock repetiu o que há havia dito algumas vezes, e continuaria repetindo quantas vezes mais for preciso. – Eu estou aqui com você.

— Mas você não estava lá! Eu estava morrendo e você não estava lá. – Ele repetiu, a voz cheia de dor, quando se sentou na cama, descobrindo o rosto para revelar os olhos azuis marejados.

— Eu sinto que preciso de algo, mas eu não sei o que. E tem essa maldita necessidade de falar sobre...sobre ela e...eu não quero. – Passou as mãos pelas cabeça nervosamente, trêmulo, a agonia se transformando quase em desespero.

— Jim, fique calmo. – Spock se aproximou, tocando os pulsos de Jim na tentativa de ampara-lo, e um reflexo da intensidade dos seus sentimentos atravessando seus braços como uma corrente elétrica. Mesmo assim, ele manteve a postura e não o soltou.

Jim ergueu o rosto para o Vulcan, os lábios trêmulos e os olhos transbordando de tristeza. Ele ficou uns segundos em silêncio, como se procurasse por algo.

— Spock, funda comigo. – Seu tom era quase súplica, e Spock instintivamente quis se afastar devido a toda aquela intensidade.

— Não, Jim. Eu não posso, você está muito instável, isso poderia – foi interrompido quando Jim segurou sua mão direita, levando-a até a lateral de seu rosto.

— Por favor Spock, eu...eu preciso disso. Preciso pôr isso para fora, ou acho que vou enlouquecer. – Novamente, sua voz era apenas um fio frágil. Sua pele estava quente, e uma lágrima escorreu por sua bochecha, tocando o dedo indicador de Spock.

A tristeza de Jim era tão intensa que Spock sentia-a no fundo de seu peito, chegando a doer. Sabia que não deveria fazer aquilo, mas não podia negar nada aqueles olhos. Não dessa forma, ele simplesmente não conseguia. Jim o deixava terrivelmente comprometido, e aquilo era tão perigoso.

— Por favor, Spock. – Ele pediu novamente, e o Vulcan conteve uma respiração trêmula. Jim apertou sua mão, fechando os olhos com força.

E então Spock fez.

A fusão foi uma confusão. Ele foi tragado pela mente de Jim com violência, jogado por entre a tempestade de raios e nuvens pesadas que tantas vezes vira naquela bela cidade mental semi destruída, mas que até então não tinha adentrado. Achou que fosse perder o controle com a intensidade indomável daquela ligação, e precisou de todo seu esforço para se manter ali.

Repentinamente, uma confusão de memórias lhe atingiu em flashs antes que pudesse impedir; Viu o pequeno Jim, com cerca de 4 ou 5 anos, ouvindo animadamente as histórias de seu pai na Frota Estelar pela voz de sua mãe, de como ele era incrível, e de como Jim tinha que ser como ele; viu-o com a mesma idade esperando sua mãe voltar das suas infinitas missões, ansioso para passar um pouco mais de tempo com ela; vio-o se cansar de esperar alguns anos depois, com cerca de 8 anos, quando percebeu que ela passava menos de cinco dias por mês em casa; viu-o com 10 anos depois de sua primeira briga séria na escola, que lhe custou um dente e um corte no supercílio, ouvindo de sua mãe como seu pai estaria envergonhado, e como ela estava envergonhada dele; viu-o com 11 anos, não entendendo o que sua mãe vira em Frank, e as inúmeras brigas que se seguiram disso; viu-o, ainda criança, dirigindo um carro vermelho no deserto, e sua quase efetiva tentativa de acabar com tudo; viu-o voltando a terra depois de Tarso, sendo abraçado por uma mãe que só falava que quase tinha perdido a única coisa que ainda lhe lembrava de seu pai; viu-o com 16 anos, afundado em bebida, sexo e brigas, chegando em casa para encontrar sua mãe bêbada quebrando a casa e lhe dizendo que ele era uma vergonha para seu pai ; viu-o ver seus amigos comemorarem o natal, o dia de ação de graças e o aniversário normalmente, enquanto ele nunca conseguiu ter uma comemoração normal porque sua mãe sempre estava bêbada e chorosa, ou bêbada e lhe despejando ofensas;

Depois de tudo isso, a confusão se estabilizou eu uma memória em particular.

Spock estava na casa de Jim, a casa que ele crescera. Era aniversário de 18 anos de Jim, e ele tinha acabado de voltar para casa de um bar onde tinha passado as últimas horas fingindo que aquele dia não existia. Porque aquele dia era o pior de todos, era o pior de todos os 365 dias do ano. Junto com seu aniversário, era aniversário de morte de seu pai, e sua mãe sempre ficava pior naquele dias.

Ele abriu a porta cautelosamente, sem acender a luz, esperando passar despercebido até seu quarto, esperando que ela por algum motivo não estivesse em casa. Ele entrou e fechou a porta, olhando ao redor, esperando não ver nada.

O que, infelizmente, não foi o caso.

Sua mãe estava sentada a mesa de jantar, um copo de vidro tinha caído e se quebrado perto de seus pés, uma garrafa de vinho estava virada sobre a mesa ao lado de uma mancha púrpura sobre a toalha de mesa branca. Winnona estava com a cabeça baixa apoiada sobre seus braços dobrados, aparentemente inconsciente sobre a mesa.

Jim parou onde estava, pensando em deixá-la ali, pensando em fingir que não tinha visto a cena deplorável que era, a mesma cena que já vira inúmeras vezes.

Mas ele simplesmente não conseguia.

— Mãe, acorda. – Sacudiu de leve seus ombros, mas nenhum sinal – Mãe, você tem que ir pra cama, não pode dormir aqui. – Tentou novamente, falando mais alto.

Ela resmungou algo, se movendo um pouco, e Jim respirou fundo, sabendo que não daria certo. Decidiu que era melhor só levá-la de uma vez, e foi isso que fez. Pegou-a no colo e subiu as escadas até o quarto dela, pondo-a na cama delicadamente. Pegou um cobertor no armário e a cobriu, mas antes que pudesse se virar para sair do quarto ela o segurou pelo braço.

Jim virou para ela, vendo seus olhos tristes o encarando. Ela o puxou mais um pouco, num pedido mudo para que sentasse. Ele hesitou, algo em seu íntimo lhe dizendo para ignorar e ir embora, mas novamente não conseguiu. Ela levou a outra mão até seu rosto, numa carícia suave em sua bochecha. Sua mão estava fria, fazendo Jim quase se arrepiar pelo contato.

— Dezoito anos. – Ela disse, baixo. Jim piscou, surpreso por ela lembrar...ou se importar. Mas o que veio a seguir apagou qualquer resquício de esperança que ele pudesse ter. – Dezoito anos que você me deixou sozinha.

Jim apertou os lábios...Ela não estava falando dele, muito menos falando para ele. Devia ter ido embora quando teve a chance.

— É tudo tão horrível sem você, George. Eu não consigo suportar, não consigo lidar. – Ela começou a chorar, e Jim congelou no lugar, sem coragem de fazer qualquer coisa. – A única coisa que você me pediu para fazer eu não consegui. Nosso filho, ele...Eu fiz de tudo, mas eu não consegui. Ele nunca vai ser como você...Ah, meu amor, me desculpa.

Cada palavra parecia ser gravada com fogo no peito de Jim, e doeu de uma forma inimaginável. Naquele momento, ele não aguentou mais. Tirou a mão dela de seu rosto e levantou, saindo do quarto escuro.

Jim encostou na porta fechada, sentindo seu corpo escorregar por ela até estar sentado no chão. Cobriu o rosto com as mãos, sentindo vontade de arrancar aquele rosto. Aquele rosto tão parecido com o de seu pai, que só lhe lembrava todos os dias o que ele tinha que ser, mas que nunca conseguiria. Lhe lembrava que não era digno do amor de sua mãe porque era um inútil, um ser humano deplorável que era apenas um pedaço de merda, e que nunca seria merecedor do sangue do herói da frota estelar, George Kirk, que corria em suas veias.

Ele nunca seria, não Importa o que fizesse de sua vida...ele nunca seria como seu pai.

A dor de Jim atravessou para Spock com uma intensidade assustadora, e em meio a cacofonia de sentimentos ele sentiu algo se estilhaçar entre os dois, e um calor intenso o dominou completamente.

Foi tão forte que a fusão se quebrou abruptamente, mas o calor ainda estava lá.

Ambos voltaram ofegantes, e a primeira coisa que viu foram os olhos de Jim. Aqueles olhos que ele secretamente odiava, porque eram “os olhos de seu pai”. Aqueles olhos que Spock secretamente admirava, por nunca em toda sua vida ter visto olhos tão intensos e verdadeiros.

As emoções da fusão ainda rugiam descontroladas em seu peito, e sua cabeça parecia não estar funcionando muito bem. Por isso, ele apenas cedeu a única vontade que pulsava insistentemente em sua mente, e puxou Jim num abraço.

Ele apertou o humano em seus braços, sentindo-o paralisado por um segundo, mas em seguida Jim começou a tremer numa violenta crise de choro e o apertou de volta, afundando o rosto em seu peito.

Spock dividiu tudo com ele; a dor, a rejeição, a frustração e a tristeza. Não negou nada, não bloqueou nada. Ele a permitiu passar através dele, fluir como num grande rio selvagem que já havia sido reprimido a tempo de mais, e agora finalmente estava correndo livre. Jim sentiu também, toda aquela aceitação crua de Spock que vibrava em sua mente como um grande sol quente, mesmo que aqueles sentimentos tivessem lhe causado tanta aversão e vergonha por todos esses infinitos anos.

Aquilo era tudo que ele precisava.

Notas finais
Esse capítulo era pra ter sido dividido em duas partes, mas eu acabei deixando ele inteiro porque gosto desse final e tentei ser legal deixando um cap bem grandão rs Agradeço se deixarem review sobre o que acharam do capítulo, mas peço que não me xinguem ou ofendam pela demora pfv. Eu sei que isso é horrível pra você, leitor, que está curioso sobre a continuação da história, mas eu tenho meus motivos pra ter demorado esse tempo todo, e espero que sejam respeitados.