About a broken soul and a new bond
14 The explosion
Notas iniciais
A noite já estava alta, mas a festa não parecia nem próxima de acabar. A banda tocava animadamente no palco iluminado de hologramas festivos, e vários Merlykns dançavam cheios de energia pela pista de dança. Nyota se acomodou melhor na cadeira de uma das mesas mais afastadas da pista, e aproveitou o momento que ninguém a olhava para tirar um dos sapatos de seu pé, que àquela altura já devia estar com uma bolha do tamanho de um asteroide no calcanhar. Suspirou de alívio, tomando um gole daquela bebida rosa adocicada que já estava em suas mãos a uns bons vinte minutos, quase intocada.
Estava se divertindo mais do que imaginava que faria naquela noite. Os últimos dias não haviam sido dos melhores, dado toda sua situação com Spock, bem no meio desse inesperado primeiro contato. Ela imaginou que isso fosse amargar sua experiência, mas a novidade e empolgação tinham mantido sua mente ocupada, e por isso não parecia doer tanto.
Mas ainda doía, e quando “relaxava”, justamente como estava fazendo agora, que percebia como doía.
Sabia que as coisas estavam instáveis entre eles há algumas semanas, e justamente por isso acabou estourando na última vez que se falaram. Imaginou que isso fosse balançar Spock, que talvez ele sentisse sua falta e viesse procura-la com um pedido de desculpas mais sincero. Porém o tiro tinha saído pela culatra.
Ele não só não lhe procurara, como se unira ainda mais ao capitão. Uhura tinha visto quando Spock puxou Jim para fora do salão, a pouco mais de duas horas atrás...ele nunca se alterara dessa forma por ela, fosse por bem ou por mal. E ela sabia que aquela não era como as discussões bobas que Kirk e Spock tinham logo depois de Nero, que mais pareciam batalhas de ego.
Era diferente agora. Spock se preocupava com Jim, e o relacionamento deles tinha crescido com intimidade suficiente para que ele interferisse dessa forma. Como Spock e Uhura nunca haviam tido. Só não enxergava quem não queria, e Nyota passou tempo de mais se fingindo de cega.
Preferiu não ver como Spock ficou alterado com a morte de Kirk; como ficou transtornado naquele momento, e como seus olhos brilhavam de ódio quando quase matou Khan, e a única coisa que lhe fez parar foi a possibilidade de trazer Jim de volta. Além disso...houve aquele toque não dado na câmara. Ela sabia o que as mãos significavam para os Vulcans, aquilo não era leviano. Foi muito profundo, muito íntimo.
Apesar de amar Spock com todas as suas forças, ela tinha que admitir a derrota. Ela tinha perdido para James Kirk, mesmo que talvez ele nem soubesse disso.
Nyota deu mais uma olhada ao seu redor; todos ainda se divertiam, mas seu humor tinha murchando consideravelmente. Talvez fosse uma boa hora para voltar a seu quarto, afinal ainda teria muito trabalho a fazer no dia seguinte.
Ela suspirou, bebendo o resto do líquido rosa em seu copo com uma careta. Recolocou o sapato e deixou o copo sobre a mesa, levantando-se para ir embora. Caminhou discretamente pelo salão, torcendo para que nenhum Merlykn lhe chamasse para mais uma conversa, o que por sorte não aconteceu. Ao invés disso, foi chamada com um aceno por Jéssica, uma das tenentes de segurança que viera no grupo de desembarque.
— Hey, Tenente Uhura, você viu o Doutor McCoy por aí? Karl está trancado no banheiro a uns bons dez minutos, ele parecia meio enjoado, então estou com medo dele estar passando mal lá. – A tenente loira parecia bem preocupada.
— Eu o vi a alguns minutos perto do palco. Fique aqui pro caso de Karl sair, eu vou lá procurá-lo e trazer para cá, ok? — Nyota respondeu, apesar da sua vontade de ir embora. Não podia ignorar um pedido desses de sua colega, no fim das contas.
Ela respondeu com um sorriso e vários agradecimentos, apesar de Uhura dizer que não precisava. A morena a deixou lá e voltou por onde veio, procurando a sombra de McCoy em meio a tantos Merlykns dançantes. Não era muito difícil por ele ser o único humano ali, mas a festa ainda estava bem cheia.
Poucos minutos depois, ela viu o bom médico recostando em uma das mesas mais próximas do palco. Ela se aproximou, pedindo licença para os Merlykns que conversavam animadamente com ele, puxando-o para caminhar com ela.
— A que posso servir, Uhura? — O médico perguntou com um sorriso solícito.
— Doutor McCoy, Jéssica pediu para te chamar. Ela está do lado do banheiro, e parece que Karl está se sentindo um pouco mal. Você pode ir lá dar uma olhada nele?
— Oh, claro. — Ele concordou, e Uhura foi caminhando com ele em direção ao local. — Não duvido que tenha sido uma bebida ou alguma das comidas. Nunca consumimos nada disso, eu avisei pra ninguém abusar. O Jim foi outro que saiu todo ruim por causa disso. Inclusive acho que vou dar uma olhada nele antes de dormir. — Ele resmungava.
McCoy ainda falava pelo caminho, e quando estavam quase avistando a porta do banheiro, todas as luzes se apagaram repentinamente. Nyota se virou de um lado para o outro, não enxergando quase nada, enquanto vários Merlykns, e o próprio doutor, soltavam exclamações de surpresa e resmungos preocupados. Porém, segundos depois, um som alto sobrepujou todos eles. Todas as saídas do grande salão foram fechadas por portas pesadas, deixando tudo num completo breu.
— Mas o que diabos?! — McCoy perguntou alto, e num reflexo a morena segurou-o pelo antebraço, não querendo correr o risco deles se separarem. Os Merlykns já começavam a se movimentar assustados, seus chifres se iluminando em padrões alertas.
Ela pensou ter ouvido a voz de Jéssica a chamando, e puxou McCoy para a direção que estavam indo antes. Ela parou quando uma das portas foi aberta repentinamente, e algo foi jogado dentro do salão. O objeto voou até o centro e começou a emitir uma luz vermelha forte enquanto flutuava, piscando num padrão rápido, até começar a emitir um ruído alto e perturbador. Nesse momento, todos os Merlykns começaram a gritar no salão, um som tão alto e doloroso que fez Nyota se encolher. Eles começaram a cair no chão, um a um, alguns inconscientes e outros parecendo estar em agonia.
A porta se fechou novamente, e não parecia dar nenhum sinal de que se abriria de novo.
Enquanto um alarme soava em sua cabeça que eles tinham caído em uma armadilha, algo ainda mais preocupante surgiu em sua mente e fez um calafrio subir por sua espinha.
— Leonard, Spock e o capitão! Eles não estão aqui. — Ela o segurou com força, nervosa, não sabendo se isso era algo bom ou ruim.
Mas algo lá no fundo lhe dizia que era muito, muito ruim.
~
Spock abriu os olhos lentamente, suas pálpebras parecendo pesar toneladas. Sua mente estava turva, enevoada, mas algo quente e acolhedor a envolvia como num abraço, confortável de mais para lhe dar vontade de se mover.
Estava deitado numa cama, provavelmente a do quarto que os Merlykns tinham atribuído a Jim, e o próprio capitão se aninhava entre seus braços num abraço suave enquanto respirava calmamente, dormindo um sono tranquilo. Seus rostos estavam tão próximos que eles dividiam o mesmo ar, e ele podia ver nitidamente as marcas de lágrimas nas bochechas de Jim. Ambos ainda vestiam as roupas de gala que usavam na festa, e Spock percebeu que ele mesmo ainda estava usando suas botas.
Piscou, completamente desperto pelo choque da situação. No primeiro momento, não moveu nem um mísero músculo. Em um segundo sua mente se perguntava como aquilo havia acontecido, mas no segundo seguinte era inundado pelas memórias da fusão.
Haviam chegado no centro daquele furacão, e rememorado juntos a origem dos problemas de Jim. Era muito mais profundo que TEPT, muito mais antigo, muito mais enraizado. Lembrou do capitão desabado em seus braços, chorando como uma criança, e da cacofonia emocional que tomara sua mente na hora, estilhaçado a barreira que havia posto entre eles anteriormente. O que aconteceu depois ainda não parecia claro, mas ele suspeitava que acabaram dormindo, esgotados pelo cansaço emocional.
Foi tomado por um forte sentimento de proteção, por pouco contendo a vontade de apertar o capitão em seus braços mais um pouco. Jim havia passado por tantas coisas, e por tanto tempo, que era surpreendente que não tivesse quebrado completamente. Era ainda mais surpreendente que tivesse desafiado tudo e se transformado nesse ser magnífico que dormia entre seus braços, com brilho ainda mais forte que um sol.
Porque era exatamente isso que ele era. Um sol.
O loiro se moveu suavemente, suspirando e se aninhando um pouco mais perto. Spock prendeu a respiração, mas não se moveu. Naquele momento, a impressão de algo que não era seu passou por sua mente. Ele sentiu conforto, a sensação de ser acolhido, e uma boa dose de tristeza passar numa corrente de pensamentos adormecidos. Era a mente de Jim, tão nítida como a superfície de uma lagoa límpida.
O Vulcan conteve um ofego, tomado por algo entre surpresa e pavor. “Estamos em contato físico próximo, há a possibilidade de ser apenas telepatia de toque” pensou, tentando se tranquilizar, mesmo que isso desafiasse a lógica em certos níveis.
Lentamente ele desfez o abraço, sentindo Kirk resmungar um pouco, mas ainda não acordar. Conseguiu se desvencilhar daqueles braços, sentando na beirada da cama, separando qualquer área de contato entre eles. O Vulcan respirou fundo e se concentrou novamente onde ele tinha sentido a mente de Kirk, e....
Ela ainda estava lá, quase tão nítida como antes.
Por mais de dez segundos, Spock olhou para o humano dormindo na cama e não soube o que fazer. Não era para ser possível! Ele tinha tomado todas as precauções, e não houve intermédio de nenhum curandeiro Vulcan, era totalmente espontânea. Ele pesquisara sobre ligações espontâneas; não havia registros de nenhuma desde os anos antes de Surak, muitos achavam inclusive que não passava de um mito da época.
Aparentemente, não eram.
Spock tomou uma respiração profunda, sentando-se completamente reto e olhando para a parede lisa do quarto. Precisava se acalmar, sua taxa respiratória e cardíaca tinha se elevado mais de duas vezes o normal. Precisava se concentrar, precisava ser racional e pensar no que faria agora. Kaidith!
Começou por seu senso de tempo; ao que parecia, tinham se passado aproximadamente uma hora e quarenta minutos desde que tinha adormecido. Ele checou o relógio do comunicador; uma hora e quarenta e seis minutos. Não foi preciso, mas foi próximo o suficiente para a situação. Tudo bem, ele precisava se acalmar ainda mais.
Deveria erguer uma barreira entre suas mentes antes que Jim fosse exposto a seus pensamentos, ou vice-versa. Era a solução a curto prazo mais lógica e viável.
Olhou para o capitão, chegando a cogitar ligar-se com ele mesmo no sono, mas abandonou a possibilidade no mesmo momento. Além de ser uma invasão de privacidade e da integridade de Jim, ele não sabia o que poderia encontrar. Não sabia se estava preparado para isso.
Tudo bem, faria a partir de sua própria mente. Ele podia fazer isso. Deslizou da cama até o chão, sentando-se de pernas cruzadas. Fechou os olhos, controlou a respiração e entrou em estado meditativo. Afundou-se em sua mente a procura da ligação, e não foi nem um pouco difícil de encontra-la.
Próximo ao local onde costumava ficar a ligação que tinha com sua mãe, estava ela. Brilhava com um grande rio luminoso, com correnteza constante. Nada se comparava ao fio frágil que compartilhou com T'Pring nos poucos anos que se mantiveram juntos. Ela era saudável e forte, muito mais do que o ideal de uma ligação. Era... fascinante.
Foi tomado por sentimentos conflitantes por um momento. Ao mesmo tempo que aquilo era uma dádiva, um milagre...ela provavelmente era indesejada, fora de lugar ali. Eles eram amigos; o primeiro e único ser que Spock pôde usar esse título para definir, e era isso que Spock era para Jim, ele tinha certeza. Não havia espaço para aquela ligação, não deveria haver.
Spock suprimiu sua ilógica dúvida e se forçou a colocar uma barreira. Sentiu-a surgir no meio da ligação como uma barragem em meio a correnteza, aos pontos contendo a passagem das águas duradas. O rio correu mais violento, resistindo a contensão com vontade, causando um incômodo doloroso que se espalhou por sua mente. Sentiu também em Jim, que se agitava do outro lado. Ouviu-o gemer com a intrusão, quase acordado de seu sono.
Precisava ser rápido, precisava ser forte. Empurrou mais um pouco, e a barreira se fixou. Foi doloroso, como se lhe privassem de parte do oxigênio que precisava para viver. Como se parte de seu corpo abruptamente parasse de existir. Mas precisava ser forte.
A barreira não era completa, a ligação ainda corria por frestas entre ela, mas era o suficiente para conter o fluxo de pensamentos de um lado para o outro. Pelo menos até a missão acabar e Spock conseguir um curandeiro para separá-los de forma ideal. Era isso que ele tinha que fazer, era isso que ele deveria fazer. Ele sabia. Sem dúvidas Jim ia querer aquilo fora de sua mente.
Porque então seus olhos queimavam? Porque parecia ter uma farpa gelada em seu peito?
Ele ouviu um gemido mais alto e sons de movimentação na cama, e isso fez seu transe cessar. Abriu os olhos e se virou para a cama, vendo um Jim encolhido quase em posição fetal, segurando a cabeça entre as mãos com nítida expressão de dor.
— Jim! Você está bem? — Ele murmurou, sentando-se novamente ao lado do humano na cama, tocando suas mãos frias. Seus dedos formigaram com o toque, e a ligação reagiu, forçando a barreira com sua correnteza. Ele afastou a mão no mesmo momento.
— Spock...? O que...o que houve? — Os olhos azuis se abriram lentamente, suas sobrancelhas ainda franzidas numa expressão dolorida. — Arg, minha cabeça tá doendo pra caralho.
Ele resmungou, apertando as têmporas. Spock apertou os lábios, sabendo que apesar da probabilidade da dor de cabeça ser pelo excesso de bebida e choro, a barreira na ligação provavelmente tinha algo a contribuir. Jim piscou os olhos algumas vezes, tentando enxergar na semi penumbra do quarto.
— Onde estamos? Isso é meu quarto? — Ele começou a se sentar, mas ao que parece a dor de cabeça não permitiu muita movimentação, então voltou a se deitar. Ele piscou umas duas vezes, e então um flash de reconhecimento passou por seu rosto. — Oh... Não acredito que fiz isso.
— Jim, eu...
— Não, me desculpe Spock. Eu não podia ter agido assim no meio da missão...não sei onde estava com a cabeça, aquela fusão poderia ter posto tudo em risco... – Enquanto ele falava, a voz entre pesar e vergonha, Spock ouviu sons do lado de fora do corredor. Sua audição era sensível, e no silêncio naquele horário, não era difícil ouvir. Eram muitos passos, talvez mais de cinco Merlykns, pelo peso e tempo de suas pisadas fortes. Jim ainda estava falando quando Spock os ouviu parar, bem em frente a porta. Aquilo lhe deu um pressentimento ruim.
— Eu não posso— Spock pôs a mão em frente a boca de Jim, interrompendo-o. O humano arregalou os olhos inchados para ele, sem entender no primeiro momento. Spock olhou para a porta com as sobrancelhas franzidas, prestando toda a atenção possível. Jim seguiu seu olhar e pareceu entender que ele ouviu algo de errado.
O capitão, automaticamente alerta, passou os olhos pelo quarto, localizando seus comunicadores em cima da estante que ficava em frente a cama. Sinalizou-os com um movimento de cabeça para Spock, e começou a se levantar lentamente para alcança-lo. O Vulcan acompanhou seus movimentos, fazendo o menor barulho possível.
Quando estavam a menos de um metro de alcançar os comunicadores, Spock ouviu um zumbido do outro lado da porta. Era baixo, mas em milésimos de segundo ele cresceu exponencialmente e no mesmo momento soube o que era.
Só teve tempo de pular em cima de Jim, caindo por cima dele no chão atrás da cama, ao mesmo tempo que um disparo poderoso explodiu a porta do quarto em vários pedaços.
Três Merlykns de capacetes e muito bem armados entraram no quarto, e em segundos Jim e Spock eram levantados de onde estavam por mãos fortes e frias.
— Mas o que significa isso? — Jim protestava, puxando os braços em resistência. O Merlykn o puxou com mais força, ignorando seus protestos, prendendo seus braços atrás das costas com um dispositivo de algemas que apertaram seus pulsos com força. O mesmo estava sendo feito com Spock ao seu lado.
— Boa noite Capitão, Sr.Spock. Espero que me desculpem pelo tratamento um pouco rude, mas é necessário. — Uma voz conhecida encheu o cômodo, fazendo Jim e Spock erguerem os rostos a tempo de ver a figura alta de Kgauss atravessar a fumaça do quarto. Spock travou a mandíbula, e Jim apertou as sobrancelhas num misto de surpresa e raiva.
— Kgauss? É assim mesmo que trata seus convidados? Porque isso não parece nada cordial. — Ele sibilou quando o Merlykn parou a pouco mais de dois metros de distância.
— Não ajo em nome dos Merlykns, se é o que você quer saber. Também não é nada pessoal, acredite. Não é minha intensão ferir nenhum membro de sua tripulação, vocês só tem algo que eu preciso...ou melhor, alguém. — Seus cabelos cinzentos se moveram quase imperceptivelmente quando ele virou o rosto em direção a Spock, que franziu as sobrancelhas em resposta.
Kirk sentiu um calafrio passar por sua espinha.
— Se parar agora, eu juro que não encaro isso como uma declaração de guerra contra a Federação Unida dos Planetas.— Ele tentou, mas Kgauss pareceu não lhe dar atenção.
— Foi realmente o destino vocês terem aparecido nesse momento, tendo um telepata na tripulação. Achei que teria muito mais trabalho para conseguir um que não fosse Merlykn, mas o destino sorriu para nossa causa, ao que parece. — Ele se aproximou de Spock, ajoelhando em frente a ele. O Merlykn que havia algemado o Vulcan manteve a arma bem apontada para suas costas, se certificando que ele não tentasse resistir. — Os Merrekns não precisam esperar mais.
— Se você acha que vai colocar essas mãos sujas no meu primeiro oficial, você está muito enganado. — Jim fez menção de ir em direção a eles, mas o Merlykn ao seu lado o puxou para trás com força, fazendo seu joelho bater no chão bom um baque audível. Ele segurou a respiração com o choque de dor que correu por toda sua perna, e o Merlykn o segurou pelos ombros para que não tentasse repetir o movimento.
— Não desperdice sua energia, Capitão. Ele não vai conseguir nada de mim. — O tom de Spock foi forte, porém baixo. O vulcan tinha seus olhos fixos em Kgauss, que agora o olhava de perto com suas íris vibrantes.
— Você tem certeza disso, Sr.Spock? — A voz de Kgauss era um chiado baixo, como o sibilar de uma cobra. Ele aproximou do rosto de Spock até estar a cerca de vinte centímetros, então seus chifres vibraram e cintilaram fracamente, as ramificações menores começaram a se mover para baixo, em direção ao rosto do Vulcan. Ele tentou se afastar do contato estranho, mas Kgauss o segurou no lugar com uma mão forte, e as pontas de seus chifres tocaram as têmporas do primeiro oficial.
Kirk assistia aquilo inquieto, com uma sensação terrível na boca do estômago.
— Spock! Eu disse pra não tocar nele! Spock!! — Ele gritou quando os chifres de Kagaus brilharam mais forte, e Spock não pôde fazer nada além de apertar os olhos quando o mundo desapareceu.
Kgauss forçou a entrada na mente de Spock, quebrando todas as suas barreiras como se fossem insignificantes. Ele estilhaçou uma a uma, frio e preciso como um bisturi cirúrgico, deixando a mente de Spock nua e exposta. O vulcan não podia fazer absolutamente nada enquanto ele revirava cada canto de sua mente, procurando por algo que ele não fazia ideia do que era. Todos os anos de ensinamentos Vulcan não foram o suficiente nem para atrasar Kgauss. Nunca em sua vida tinha se sentindo tão impotente e vulnerável; era, além de tudo, humilhante. O medo gelou seus ossos e paralisou seu corpo. Foi horrível.
Mas foi ainda pior quando Kgauss achou o que estava procurando.
Ele o sentiu sorrir pela ligação forçada, assim que encontrou o lugar onde ficava sua ligação com Kirk. Ele a tocou, e a sensação de invasão alienígena na ligação deixou Spock se sentindo doente. Foi ainda mais invasivo do que ter sua mente exposta, porque deixava Jim exposto também.
“Que sorte a minha, vocês estão mesmo ligados” Ele sibilou em sua mente, e a voz veio de todos os lugares. “É tão jovem e forte, tão bonita. Você não faz ideia da magnitude dela, não é?” Continuou, e Spock se encolheu mentalmente. Ele mal conseguia se manter, que dirá formar palavras.
“Sabe...Nós temos um domínio surpreendente sobre telepatia aqui. Quando descobri que sua espécie era telepata, imaginei que tivesse mais domínio. Mas você é como uma criança que ainda nem aprendeu a andar. Seu capitão então...Apesar dele não ser telepata, ele vai sentir tudo que eu fizer aqui, você sabia?” Kgauss tocou novamente a ligação, com mais força, como se a apertasse com as mãos. Spock sentiu o aperto como se fosse em seus pulmões, e perdeu o ar. A ligação se contorceu, e ele apertou mais forte. “Dói, não é? Ela é forte, mas se eu apertar um pouco mais pode ser ruim. Para mim, isso é como uma porta aberta para a mente dele. Daqui, eu posso fazer o que eu quiser. Imagina o que posso fazer com a mente de um não telepata? Qualquer coisa. Ele parece tão frágil, tenho quase certeza que não aguentaria muito.”
A dor o atravessou num flash, profunda como uma facada. A ligação tremeluziu, se ele continuasse, ia atingir Jim de uma forma que não poderia imaginar. Pânico passou através de Spock quando ele pensou que Jim sentiria aquilo, e que sua mente não telepata e instável poderia não suportar.
Ele poderia enlouquecer...ou ainda pior.
“PARE!” Ele gritou, desesperadamente. Kgauss parou no mesmo instante. Sentiu o fluxo voltar ao normal, e era como se seu coração só agora tivesse voltado a bater.
“Parece que agora você entendeu” E liberou a mente do Vulcan.
Assim que Spock abriu os olhos, ele procurou por Jim. O capitão estava caído no chão ao seu lado, e sentiu toda cor deixar o seu rosto quando por um segundo pensou que o pior havia acontecido.
— JIM! — Se desvencilhou dos braços que o seguravam e se jogou em direção a Jim. Um dos Merlykns fez menção de segura-lo, mas Kgauss o impediu.
Com as mãos presas, ele não podia checar seu pulso ou respiração, então aproximou o ouvido do peito do humano. Sua respiração estava tão alterada que foi difícil se concentrar no som que vinha do peito do loiro, mas quando finalmente conseguiu ouvir as batidas suaves de seu coração o alívio foi instantâneo. Ele suspirou, sentando-se no chão, em frente a Jim. Ele estava vivo.
— Ele desmaiou. Sua mente fraca não consegue lidar nem com uma leve oscilação. Mais ou pouco e ele poderia até ter morrido...tão rápido assim, nem eu imaginaria. — Spock virou o rosto ao ouvir a voz de Kgauss, sentindo seu peito ferver. Apertou as mãos atrás das costas até seus dedos doerem, ferir Kirk era algo que normalmente já era capaz de alterar Spock, mas naquela situação em específico estava deixando-o a beira do descontrole.
— Se estou correto, você vai usar seu poder sobre minha ligação com o capitão para me chantagear e fazer o que você necessita. — Ele concluiu, tentando manter sua voz firme apesar da raiva que ameaçava transbordar.
— Preciso, Sr.Spock. E você vai fazer, correto? — O alienígena respondeu, se levantando suavemente do chão, limpando o pouco de poeira que sujara suas vestes quando se abaixou.
— Acredito que serei obrigado á. — Naquele momento, ele não conseguia pensar em nada que pudesse fazer. Ainda não sabia o que deveria fazer, mas até lá poderia pensar em algo. O importante era manter distância de Kgauss; se ele não pudesse tocar sua mente, não poderia fazer mal a Jim.
— Muito bem. Vamos, então. Já perdemos tempo o suficiente. — Kgauss ordenou, já se encaminhando para a saída do quarto. Um dos Merlykns pegou Jim no colo, enquanto o outro levantou Spock rudemente do chão.
— Antes eu exijo saber onde está o resto da minha tripulação. — Spock falou, se forçando a não andar atrás de Kgauss até que lhe respondesse.
— Eles estão bem, lhe garanto. Seu capitão será levado para junto deles em breve, enquanto nós vamos até nosso destino. — Ele respondeu, mas Spock ainda se mantinha parado.
— Que garantia tenho de que fala a verdade?
— Todo o prédio foi isolado por um dispositivo que não permite nenhum tipo de comunicação, então minha palavra terá de bastar. — Ele fez um movimento de cabeça e o Merlykin atrás de Spock o empurrou para frente. Ele era bem maior que Spock, e apesar do Vulcan ter força superior, ainda seria um desafio resistir...além de não ter muita utilidade. Ele não estava em posição de fazer exigências enquanto a vida de Jim estivesse em risco. Tendo isso em mente, Spock só se deixou ser guiado.
Eles saíram do quarto, com o Merlykn que levava Jim logo atrás. Spock parou por um segundo quando ele seguiu para outra direção com um outro Merlykn que ficara no corredor antes, enquanto Spock, Kgauss e os outros dois iam para o outro lado. O sentimento de proteção gritava na mente de Spock que não devia se afastar de Kirk, mesmo que isso fosse a melhor opção para protegê-lo.
— Não precisa se preocupar, já disse que não é minha intensão ferir nenhum de vocês. Quando tudo isso acabar, vocês poderão voltar a sua nave. Se quiserem me prender por desobedecer nosso pequeno tratado, também não me importo. Mas só depois que tudo for feito. — Kgauss pareceu perceber a hesitação de Spock, sua voz era firme e não havia sombra de mentira.
Spock ainda desconfiava; depois desse ataque repentino, desconfiaria de tudo. Porém, forçou seus olhos para longe do corpo adormecido de Jim enquanto ele sumia pelo outro lado do corredor.
Ainda não sabia para que Kgauss precisava dele, mas tinha certeza que era algo... ruim. Mas não podia arriscar Jim. Já era risco suficiente ele estar vulnerável pela ligação, se estivesse fisicamente também seria de mais. Sozinho, Spock poderia pensar num plano melhor, poderia prezar pela segurança de seu capitão com mais calma e racionalidade.
Eles seguiram o corredor até o elevador, subindo até o último andar. Chegando lá, subiram por um ramo de escadas que parecia não ser usado a um bom tempo, dando numa larga porta trancada. Kgauss usou sua mão no scaner embutido na parede, e a porta se abriu. Lá, na cobertura do prédio, havia uma nave auxiliar da cor do céu. Tinham tamanho suficiente para aparentemente umas dez pessoas, e a porta lateral se abriu quando se aproximaram.
— É seguro, apesar de não ser muito usado aqui. Para onde vamos não há estações de teletransporte. E mesmo se houvesse, elas estão offline. — Kgauss esclareceu, apesar de Spock não ter perguntado.
— Só gostaria de saber para que precisa exclusivamente de mim. — O Vulcan finalmente perguntou, enquanto era levado para dentro da nave. Kgauss entrou logo atrás, e um dos Merlykns foi se sentar na cadeira do piloto, ligando a nave. As portas se fecharam e Spock sentiu o princípio da decolagem, ao mesmo tempo que Kgauss lhe respondeu, sem lhe olhar.
— Quando for o momento, você saberá.
~
A primeira coisa que Jim teve consciência era que estava em movimento. Sentiu, ainda em semi consciência, que seus pés arrastavam superficialmente no chão liso, e ele era sustentado facilmente pelos ombros. Depois disso, ele sentiu a memória de uma dor terrível. Como o resquício de uma crise de enxaqueca, porém mais profunda, e ele não soube dizer de onde vinha. Era fria e aterrorizante, como um fantasma.
Tentou mover suas mãos, percebendo que ainda estava algemado. Uma onda de ansiedade passou quando lembrou do que tinha acontecido. Quis abrir os olhos, quis saber logo se Spock ainda estava com ele, mas conseguiu reunir forças para se conter. Os Merlykns que o carregavam não pareciam perceber que tinha acordado, e seria bom ter um elemento surpresa, se precisasse.
Abriu quase imperceptivelmente os olhos, somente o suficiente para enxergar uma pequena fresta. Viu o chão cor de areia dos corredores e os pés dos dois Merlykns que o carregavam, e nada mais. Não ouviu outros passos, também. Spock não estava lá.
Um calafrio passou por sua espinha, o medo aterrorizante de algo ter acontecido com ele serpenteando por seu estômago. Lembrou do sonho, e ficou levemente enjoado. Não, não podia deixar o pânico tomar conta de si. Não podia! Precisava do velho Jim, precisava pensar, precisava agir. Kgauss tinha dito que precisava de Spock, não iria mata-lo. Spock estava em algum lugar ainda, só precisava acha-lo. Mentalizou isso, tentando evitar que sua respiração acelerasse de mais e seu elemento surpresa fosse por água abaixo.
Sentiu os Merlykns fazerem uma curva, depois outra. Andaram por mais um corredor, e finalmente pararam. Jim abriu um pouco os olhos novamente, vendo que tinham parado em frente a uma porta que lhe lembrava a porta do local onde tivera a festa de recepção, a algumas horas atrás. Não ouviu nenhuma música vindo de lá. Na verdade, não havia praticamente nenhum som. Não era bom sinal.
Sentiu um dos Merlykns o segurar melhor e fechou os olhos novamente, bem no momento em que o colocavam sentado no chão, ao lado da porta. Ouviu-os mexer em algum equipamento, talvez o mecanismo que travara a porta. Arriscou abrir um pouco os olhos de novo. Os hologramas do aparelho refletiam no capacete de um deles enquanto parecia descodificar algo, enquanto o outro mexia num painel preso a própria porta.
Ambos estavam distraídos, seria um bom momento para um ataque. Mas ele estava algemado, e não fazia ideia de como usar as armas deles, não havia visto nenhuma até agora. No mesmo momento que esses pensamentos passavam por sua mente, o Merlykn que mexia na porta deu um passo para trás, e ela se abriu.
A partir daí, tudo aconteceu em milésimos de segundo.
Ambos os Merlykns deram um sobressalto. O que estava mais próximo de Jim deixou cair o aparelho holográfico, o outro foi mais rápido e tentou pegar a arma no coldre, porém um disparo o atingiu bem no meio do peito. Um disparo de phaser, ele teve absoluta certeza.
Os olhos azuis de Jim se arregalaram e seu corpo se moveu sem que ele se desse conta. Levantou num salto do chão, se jogando com toda a força sobre o Merlykn que não tinha sido atingido, fazendo a arma cair de suas mãos enormes.
— Capitão! — a voz de Uhura chegou a seus ouvidos em meio ao caos de tentar manter o Merlykn no chão. Ele o empurrou no momento seguinte, mas Karl já estava ao seu lado, com Phaser apontado ameaçadoramente em direção ao alien. O Merlykn pareceu perceber que estava em desvantagem e congelou, pondo as mãos para o alto antes que acabasse como seu parceiro.
— Jim! Você está bem? — O capitão se virou a tempo de ver McCoy se aproximando, sotaque sulista carregado e sobrancelhas franzidas em preocupação.
— Eu estou bem, mas precisamos encontrar Spock. Foi Kgauss, ele explodiu a porta do meu quarto, fez algo com a mente de Spock e eu...eu desmaiei nesse momento, não sei o que aconteceu.— Enquanto falava de forma apressada, Kirk percebeu o estado da sala onde a poucas horas acontecia a festa de boas vindas da qual tinha saído.
As luzes haviam sido cortadas, e ele demorou a enxergar o que acontecia somente com a luz do corredor. Haviam Merlykns por todo lado, a maioria desmaiada, enquanto alguns se encolhiam no chão, parecendo estar em pura agonia. Suas vozes em sofrimento enchiam a sala com gemidos baixos e sem energia...como tudo tinha acabado daquela forma?
— Kgauss...o que ele fez? — Jim reconheceu de Hjakaar, apesar de agora parecer apenas um fio em comparação a antes. Ele virou o rosto a tempo de ver Uhura se aproximar, parecendo fazer um esforço tremendo para amparar o grande corpo do diplomata que se apoiava entre ela e Jessica.
— Ele disse que precisava de Spock, ao que parece por conta de sua telepatia. Ele mencionou que não agia em benefício próprio, e precisava de um telepata que não fosse Merlykn. E o que aconteceu aqui? O que diabos está acontecendo nesse planeta que nós não sabemos? — O tom da voz de Jim se alterou nas últimas duas frases, e suas mãos forçaram as algemas que ainda o prendiam.
— Calma, homem! Espere, acho que consigo abrir as algemas com essa coisa — McCoy dizia, depois de voltar de uma breve revista no Merlykn que Karl mantinha bem quieto sob a mira de seu phaser. O médico encaixou o pequeno dispositivo em um orifício das algemas, elas reluziram e abriram no mesmo instante.
— Obrigado, Bones. — Jim soltou as mãos e as moveu um pouco, sentindo-as levemente doloridas pelo aperto.
Os olhos de Hjakaar estavam sem brilho, não parecendo focar nada em particular. Seus lábios se moviam vez ou outra, mas sem formar palavras...pelo menos não que o tradutor universal pudesse traduzir. Sua mente parecia confusa, tanto pela situação quanto pela dor.
— Não o pressione tanto, capitão. Eu entendo que precisamos entender o que está acontecendo, mas assim que as luzes foram desligadas e a sala trancada, algum dispositivo foi jogado na sala e afetou todos os Merlykns de forma terrível. Conseguimos destruí-lo porque, por sorte, Karl tinha mantido um phaser, mas eles parecem estar sentindo os efeitos até agora. Acho que foram afetados pela telepatia. — Jéssica tentou apaziguar, sentando Hjakaar numa cadeira próxima com o auxílio de Uhura. Ele, apesar de tudo, era o único Merlykn que conseguiu falar com eles depois do uso do dispositivo.
— Mas que droga de situação... — Jim passou a mão pelo rosto, inquieto e aflito. Cada segundo que perdiam era um segundo a mais que não fazia ideia do paradeiro de Spock.
— Hey, o que está fazendo? Não se mova! — Karl gritou, e a atenção de todos se voltou para o Merlykn que tinha levado as mãos ao capacete, e ignorando a ordens do humano o tirou.
Para a surpresa de todos, ele não tinha chifres. Sua pele tinham um tom mais escuro de azul, e seus olhos brilhavam num amarelo intenso e expressivo. Ele parecia um Merlykn, mas ao mesmo tempo não.
Algo passou pela mente de Jim no mesmo instante.
— Você...é um Merrekn? É disso que se trata? — Ele se aproximou, sobrancelhas franzidas enquanto se lembrava do que Hjakaar tinha lhe falado antes, algumas coisas começando a se conectar em sua mente.
— Você não sabe do que fala, não sabe da nossa história, não tem direito de se intrometer. Eles saberão o que nós sofremos, saberão da mesma forma! Vocês, malditos Merlykns, terão o que lhes é mais precioso tirado de vocês assim como fizeram conosco! — O Merrekn sibilou agressivamente, olhando fixamente para Hjakaar, praticamente ignorando a existência de Kirk.
— É vingança que isso se trata? Por isso levaram meu primeiro oficial? O que diabos vocês pretendem com isso? — Nesse momento, ele captou a atenção do Merrekn.
— Não é uma simples vingança. Eles destruíram nosso planeta, massacraram nosso povo e tomaram a liberdade e dignidade dos que restaram. Não temos direitos, não temos identidade, não temos nada. Agora é a vez de vocês ficarem sem nada, e seu amigo será a peça chave disso. Não me importo com o que fizerem comigo, nada poderá impedir o que virá! — Seu discurso se inflamou, mas o Merrekn não saiu do lugar. Sua postura era rígida e decidida, tão certo do sucesso do plano que participava que dar aquelas informações era irrelevante.
Uhura, que parecia um pouco atônita desde que Kirk começara a falar, andou até a frente de Hjakaar e o segurou pelos ombros, sacudindo levemente.
— Senhor, por favor! Precisamos descobrir o que está acontecendo. Nosso primeiro oficial foi levado, e Kgauss tem um plano. Seu planeta pode estar em risco !Por favor, nos ajude! — Parte das palavras foram ditas numa tentativa da língua nativa do Merlyknss, principalmente sua súplica. Apesar do esforço, seu tom tinha uma nota de desespero que fez Kirk lembrar de toda história de Uhura com Spock. Havia muito sentimento em sua voz, demais para quem parecia ignorá-lo a maior parte do tempo.
De alguma forma, aquilo pareceu tirar Hjakaar de seu aparente transe. Seu rosto se virou lentamente para a morena, os grandes olhos demorando alguns bons segundo para terem algum foco. Sua boca se moveu com dificuldade, e ela quase não conseguiu ouvir as palavra que saíram de seus lábio.
— Não consigo...comunicação confusa. Eu...Eu posso...para sua mente? — Quando ela entendeu as palavras, um calafrio serpenteou profundamente em eu estômago.
— O que ele disse?
— Eu ouvi mente? Uhura, nós não-
— Tudo bem, eu dou permissão. — Ela respondeu, cortando os protestos de Jim e McCoy. Suas experiências com toque em sua mente com Spock não tinham sido das melhores; na verdade, tinham sido horríveis. Sempre havia um ruído, como uma interferência, e aquilo tinha deixando uma frustração latente que fora um dos motivos que levaram ao término...
Além de Jim. Mas isso era assunto para outro momento.
Deixar um Merlykn tocar sua mente era ainda mais assustador, mas ela não podia se deixar deter. Eles precisavam descobrir o que estava acontecendo, cada segundo contava para Spock.
— Uhura, você ficou maluca? Spock usar o voodoo mental dele em humanos já é assustador, imagina um Merlykn! Nós não sabemos a extensão dessa coisa deles. — McCoy gesticulava quase exageradamente enquanto andava até o lado da morena, seu tom firme.
— Não faça isso Uhura, nós vamos pensar em outra forma. Eu vi Kgauss usar isso em Spock e foi horrível, eu tenho certeza que alguma coisa aconteceu e...eu não sei o que pode acontecer com você e não quero arriscar. — Kirk se juntou ao médico, verdadeiramente preocupado, apesar do pensamento de Spock estar mais fora do alcance a cada segundo se revirar no fundo de sua mente.
— Outro jeito? Vocês estão vendo o estado dos Merlykns? Você viu, doutor, que Hjakaar foi o único que conseguimos que reagisse a nós. Essa...arma, sei lá, fez algo com eles que eles simplesmente não respondem. Eu sou a pessoa que mais se familiarizou com a linguagem deles nesse tempo, eu vou fazer isso, e nenhum de vocês vai me impedir. E você não ouse fazer disso uma ordem, Jim! — A voz dela oscilou com a emoção, e suas mãos se fecharam na barra do vestido para esconder o fato de que tremiam visivelmente. Ela olhou de Jim para McCoy, que continuavam calados. O uso de seu nome ao invés de seu título deixou claro para Jim que aquela era uma decisão muito além do profissional.
— Tudo bem. Faça isso, Tenente. — No momento que essas palavras deixaram a boca de Jim num suspiro, o médico se virou para ele escandalizado, como se não acreditasse no que ouvia.
— Você está completamente louco? Eu sei que precisamos resgatar Spock, mas isso é ridículo!
— Não é, Bones. É...a opção mais lógica. — Seus olhos suavizaram em direção a tenente, como se dissessem que entendiam sua decisão. Ele próprio não pensaria duas vezes em fazer a mesma coisa, e ela sabia disso.
O médico ficou olhando de um para o outro por um segundo, sabendo que a batalha estava perdida. Não adiantava mais falar.
— Parece brincadeira que a palavra do CMO não significa nada pra essa equipe. Mas vamos lá, estarei aqui se alguém começar a ter um piripaque. É só pra isso que eu sirvo. — McCoy resmungou, e Jim e Uhura trocaram um olhar que dizia que se a situação não fosse tão crítica, eles ririam.
— Tudo bem então, vamos com isso. — Uhura suspirou, e se virou para Hjakaar. O médico e o capitão se puseram ao seu lado, quase ao mesmo tempo que o Merlykn focou os olhos enevoados na figura da morena. Alguns segundos se passaram, e seus chifres começaram a cintilar e se mover em direção ao rosto de Uhura.
Ela sentiu o primeiro toque na lateral direita de sua testa; suave e macio, levemente mais gelado que sua pele. Diferente de Spock, com seus dedos quentes de Vulcan. A ansiedade a deixava enjoada enquanto as pontas articuladas tocavam seu rosto, uma a uma, e todas as perguntas que giraram em torno de sua mente desapareceram quando os chifres brilharam ainda mais forte e então tudo mudou.
A primeira coisa que sentiu foi dor. Muita dor. Informações demais eram jogadas em sua cabeça numa velocidade absurda, como se uma escotilha fosse aberta numa pressão que não suportasse; Imagens novas, antigas, coloridas demais para seus olhos, textos e mais textos numa escrita que não conhecia, vozes, cálculos, décadas e mais décadas de conhecimento sendo jogadas sem controle em sua cabeça num milésimo de segundo.
Uhura achou que seu cérebro fosse explodir, literalmente.
Ela chorou mentalmente, tentou segurar aquela enxurrada com uma força psíquica que não tinha. Hjakaar, mesmo em seu estado debilitado, sentiu seu sofrimento e se conteve. Apesar disso, ainda era demais. Elas queira que parasse, sentiu-se chorar mesmo sem sentir seu corpo físico, quase como uma criança desesperada. Mas lá no fundo, ela se lembrou do porque fazia aquilo.
Spock, eles precisavam achar Spock.
A palavra brilhou em sua cabeça, dando-lhe forças. Uhura era uma mulher forte, ela tinha se disposto a fazer isso, e iria fazê-lo. Em mento a todo caos de pensamento turbulentos que não eram os seus, ela tentou passar a mensagem. Projetou o mais forte que conseguia o que precisava saber.
A princípio, achou que não tinha conseguido. Mas então, rápido como um raio, ela foi atingida por mais uma enxurrada. Mas dessa vez era a que precisava.
Ela voltou a si com seu estômago se contorcendo violentamente, e só conseguiu se virar de lado para botar tudo para fora. Em algum momento ela acabara de joelhos no chão, e não soube quando, mas Hjakaar já tinha se afastado e agora parecia desmaiado meio que sobre Jéssica, bem a sua frente. McCoy a segurava pelos ombros, e enquanto tentava controlar sua respiração, sua audição começava a voltar e ela podia o ouvir gritando.
— Uhura? Uhura, você está me ouvindo? Tenente? – Uma das mãos do médico foi para a testa de Uhura, ajudando a sustentar o peso de sua cabeça, que agora parecia pesada demais para ela mesma. Ele se virou para Jim, notas visíveis de raiva em sua voz. – Eu DISSE que isso ia acontecer! E agora, capitão? Eu não tenho nenhum equipamento aqui e provavelmente ela-
— Jesus, Bones. O que você queria que eu fizesse? Ela-
— Você é o capitão! Podia ter dado uma ordem!
— Não, eu não podia! Spock ainda precisa-
— Capitão. – Uhurra sussurrou, a garganta doendo pelo esforço. Tanto Jim quando McCoy pararam de falar no mesmo instante, focando toda a atenção nela. A morena levantou o rosto para eles, expressão decidida apesar da pele pálida e suada.
— Eu sei onde Spock está.
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