Notas iniciais
Um comentário meio desnecessário: Sim, eu troquei a capa (dã). Por algum motivo obscuro eu não aguentava mais olhar para o meu desenho e tinha a bizarra impressão dele estar assustando as pessoas, ai eu tirei rs. Apenas isso mesmo rs Esse capítulo deu bastante trabalho para escrever, então espero que tenha valido todo meu sacrifício /dramática rs E QUE VENHAM AS LÁGRIMAS Música: One more day - Lydia ( a letra dessa música é muito esse capítulo, então escutem pfv )

Quando Jim e Spock foram energizados para a sala de transporte, McCoy já estava lá. O capitão não precisava olhá-lo para saber o quão dura estava sua expressão, nem tinha coragem para tal. Não depois de ter ignorado todos os avisos do médico indiscriminadamente, insistido em sua infantil ideia de que ignorar era superar.

Jim desceu da plataforma de transporte com os olhos baixos e passos arrastados. Seu corpo ainda sentia a fraqueza causada pela crise de pânico, além da dor muscular resultante da pancada do animal. Porém, o que realmente lhe dilacerava por dentro tudo que sua inconsequência iria desencadear.

Durante todo o tempo que Jim levou para chegar até a porta da sala, onde McCoy o esperava, eles se mantiveram em silêncio absoluto.

– Você também deveria passar na enfermaria, Spock. – O médico foi quem quebrou o silêncio, enquanto já encaminhava Jim para o corredor.

– Não há tempo, Doutor. Ainda devo voltar à superfície do planeta para reunir as equipes de pesquisa antes de voltar à nave.

– Pois então passe lá quando voltar. – Spock demorou alguns segundos para perceber do que realmente o médico estava falando.

McCoy ainda ficou na sala para receber um pequeno aceno de cabeça como resposta, para depois finalmente sair pelo corredor, com Kirk em seu encalço.

Durante todo o percurso até a enfermaria, a única coisa que Jim via eram seus sapatos, sujos pela terra acobreada do planeta, sendo colocados um a frente do outro conforme ele caminhava. Sua cabeça não parava de remoer o que tinha acontecido na beira do lago; a forma como ele tinha se deixado desesperar tão facilmente, o risco que havia corrido, e a maneira como Spock havia descoberto seu problema.

Por mais que não soubesse exatamente o que estava acontecendo consigo, Kirk sabia que Spock tinha percebido que havia algo muito errado com ele. Já haviam passado tempo suficiente servindo juntos para o Vulcan perceber que aquela estava longe de ser uma atitude normal para seu capitão. Na verdade, não precisa nem mesmo ter passado tanto tempo com Jim para perceber isso.

– Sente-se ai, você vai precisar de pontos nessa cabeça. – McCoy deu dois tapinhas numa das biobed* vazias da enfermaria e o loiro sentou-se nela logo depois, enquanto o doutor pegava alguns equipamentos que iria usar.

– Posso ajudar em algo, Dr.McCoy? – Uma enfermeira perguntou, solicitamente.

– Não, pode ir. Eu cuido disso. – Depois da forma ríspida como o médico chefe lhe respondeu, a enfermeira apenas concordou brevemente, deixando-os sozinhos na enfermaria.

McCoy voltou para a biobed onde Kirk estava carregando uma mesa de sutura com vários equipamentos. Ele parou em frente a seu capitão, e depois de checa-lo brevemente com seu tricoder começou a limpar e suturar seus ferimentos.

Por vários minutos nenhum deles disse uma única palavra.

Jim continuou sendo tragado pelo inferno interior de seus problemas, enquanto McCoy tentava descobrir se a vontade que tinha era de consolar ou xingar seu amigo. O médico ainda não havia decidido a resposta quando terminara de cuidar dos ferimentos de Jim.

– Pronto, acabou. – Anunciou ao término do último curativo. McCoy virou-se para guardas todas as coisas que havia pegado em seus respectivos lugares, e quanto se voltou para Jim ele estava exatamente na mesma posição que estava antes. O médico deixou escapar um suspiro audível, recostando-se na maca onde o loiro estava.

– Eu odeio dizer isso, e sei que não é algo que você goste de ouvir, mas...

– “Eu te avisei”. Eu sei, obrigado por me lembrar. – Kirk terminou a frase por ele, passando a mão pelo cabelo, evitando o local com o curativo. McCoy revirou os olhos.

– O que foi que aconteceu naquele lugar, afinal? Seus sinais vitais ficaram loucos do nada, eu tentei falar com você pelo comunicador, mas ele estava mudo. Fui obrigado a ligar para Spock para avisar que alguma coisa estava acontecendo com você.

– Resumindo bastante; eu caí de um penhasco, e enquanto Spock tinha ido procurar algo para me tirar de lá eu fui atacado por um animal enorme. – Kirk forçou a mandíbula antes de continuar. – Eu tive uma crise de pânico e não consegui me mover. Teria morrido se Spock não tivesse aparecido e tonteado a coisa.

– Oh, merda. – McCoy passou a mão na testa, nitidamente preocupado. – Eu não sabia que havia chegado a esse ponto, Jim.

O capitão ficou em silêncio novamente, seus cotovelos apoiados sobre os joelhos enquanto as mãos cobriam o rosto tenso. Seus dentes estavam trincados com tanta força que chegava a doer.

– Não quero te dar sermão, mas você percebeu agora que o que está acontecendo com você não pode ser simplesmente ignorado? Poderíamos ter evitado tudo isso se você tivesse me ouvido.

Só queria enfiar a cabeça num buraco e desaparecer, e o moreno só estava piorando essa vontade.

– Já entendi, Bones. Mas já foi, já aconteceu, merda. – A voz do capitão era arrastada e o cansaço era nítido. Estava exausto. Exausto de ouvir, de fingir, de sentir, de tudo.

– Você sabe que, agora que o duende sabe que há algo acontecendo com você, não vai mais poder fugir, não é?

– Eu sei. – E como Kirk sabia disso. Cada neurônio seu fazia questão de lembra-lo, incansavelmente, a cada segundo desde que deixaram Betazed VI.

– O que você pretende fazer sobre isso?

– Olha, podemos ter essa conversa mais tarde? Minha cabeça parece que pesa 100 quilos. – McCoy torceu o nariz, em dúvida se Kirk estava realmente se sentindo mal ou se só queria fugir mais um pouco. Ele estava inclinado a acreditar que era um pouco dos dois.

– Ok, tudo bem, vá lá. – O médico se desencostou da maca onde estava, aproximando-se de Jim apenas para dar-lhe um leve tapinha em seu ombro, o que o fez direcionar os olhos azuis a McCoy. Tendo a atenção do outro, o moreno continuou. – Vou te dar dispensa médica pelo resto do dia, mas fique sabendo que de amanhã essa conversa não passa. – E depois de um aceno de cabeça, ele acompanhou com os olhos seu capitão deixar a enfermaria.

~

1.3 horas depois, Spock apareceu na enfermaria. O Vulcan atravessou a porta principal com os braços bem presos atrás das costas, e a primeira coisa que fez for procurar pelos leitos pela figura de seu capitão. Todas as macas estavam vazias, a enfermaria em si estaria vazia se não fosse por uma enfermeira que distraidamente organizava medicamentos em uma das prateleiras, mas que se virou para ele ao ouvir o som característico da abertura da porta.

– Oh, Comandante, Dr.McCoy estava esperando o senhor. Ele está na sala dele, quer que eu o chame?

– Não há necessidade, eu mesmo irei até lá. – E antes mesmo de jovem lhe responder, ele já havia se dirigido a sala de McCoy. Tocou no pequeno monitor ao lado da porta, para que sua presença fosse anunciada. Imediatamente depois ele pode ouvir a voz do médico chefe pelo auto-falante.

– McCoy Aqui.

– É Spock, Doutor. – A porta foi aberta logo em seguida, dando espaço para que Spock entrasse. McCoy estava sentado á sua mesa, e sua atenção parecia estar bem presa por seu computador e PADD sobre ela.

– Sente-se. – O médico indicou a cadeira vaga do outro lado de sua mesa, logo em frente a si. O Vulcan ponderou por um segundo antes de aceitar o convite, sentando-se logo em seguida com a postura reta, deixando que suas mãos repousassem sobre suas pernas. Assim que o primeiro oficial se sentou McCoy desligou seu PADD, colocando-o de lado, para enfim virar-se para ele. Uma respiração longa e cansada escapou por seus lábios antes de começar a falar.

– Não me sinto nem um pouco confortável falando sobre isso, ainda mais com você. Mas não há condições disso ser adiado, principalmente depois do que aconteceu nessa missão. – McCoy fez uma pausa, ponderando sobre as palavras que iria usar. A última coisa que queria era que fizesse as coisas parecerem piores do que são, até porque elas já estavam ruins o suficiente. – Jim não está nada bem, e isso não é de hoje. Essa crise de pânico foi apenas um sinal de que ele está chegando perto de seu limite.

– Eu já havia notado mudanças comportamentais no capitão desde o início da missão de cinco anos, mas confesso que não havia imaginado que tomaria tamanha proporção. – O Vulcan estreitou quase imperceptivelmente os olhos na direção do médico ao continuar. – Você tinha tomado conhecimento de algum fato relevante antes dessa missão, Doutor?

– Houve um incidente no refeitório, há dois dias atrás. Jim tomou um susto tão grande com uma brincadeira de alguns novatos que eu tive que dar-lhe calmantes para que voltasse ao normal. Mas antes disso eu já havia notado que ele não parecia estar dormindo direito, tinha algumas mudanças estranhas no humor, alguns comportamentos que não eram característicos dele. Antes que me culpe, eu tentei avisá-lo que não era seguro se expor a uma missão nesse momento, mas, para variar, ele não me ouviu. – McCoy cruzou os braços sobre o peito, recostando-se na cadeira, aflito. Observou o Vulcan ficar em completo silêncio, enquanto parecia estar pensando, buscando em suas memórias os acontecimentos daquele dia.

Spock se lembrava daquele dia no refeitório com clareza. Ele havia notado o comportamento anormal de Jim naquela ocasião, e havia tentado procurá-lo mais tarde com a intenção de, de alguma forma, perguntar sobre os motivos daquele incidente. Porém, por alguma razão indefinida, ele não perguntara.

– Eu deveria ter sido avisado sobre suas preocupações, Doutor. Se o capitão, por alguma razão, não estiver mais em condições psicológicas de exercer suas atividades eu deveria ser o primeiro a saber. – McCoy franziu as sobrancelhas ao ouvir o “Não estiver mais em condições psicológicas de exercer suas atividades”, ele sabia que era exatamente essa frase que aterrorizava Jim e o fizera guardar seus sintomas para si durante todo esse tempo.

– Jim me fez prometer que eu não iria contar para ninguém, droga. Eu não podia fazer isso com ele, dá pra ver nitidamente que ele está sofrendo, e nós nem imaginamos o quanto. Ele morreu, você se lembra disso? Da pra imaginar como isso pode ter afetado a cabeça dele?

– Sim, eu me lembro. — Os olhos castanhos de Spock se desviaram para algum ponto da mesa de McCoy quando ele citou da morte de Jim. Nunca iria se esqueceria daquele dia, por mais que quisesse. Aquilo o afetara mais do que sua metade Vulcan lhe permitia admitir. – Eu estou ciente de todos esses fatos, Dr.McCoy. Mas alguma providência precisa ser tomada.

– Eu sei disso. Já havia sugerido a Jim entrar em contato com uma colega minha que trabalha com tratamento de transtornos psicólogos, pois apesar de não ser a minha área, eu acredito que os sintomas de Jim, juntamente com seu histórico, se encaixam perfeitamente em transtorno de estresse pós-traumático. Mas ele quase me deu um soco quando sugeri isso, e depois começou a fugir de mim a qualquer custo.

– O tratamento é sem dúvida opção mais lógica, se esse for realmente o caso. Não entendo o motivo da recusa do capitão.

McCoy apoiou os cotovelos sobre sua mesa, cruzando suas mãos juntas antes de apoiar levemente o queixo sobre elas. O motivo de Jim recusar o tratamento era claro pra qualquer ser humano normal, mas não era de se surpreender que Spock não reconhecesse esse tipo de sentimento.

– Ora Spock, nem todo mundo é uma máquina como você. – O Vulcan franziu as sobrancelhas com o comentário maldoso do médico, mas ignorou-o, deixando-o continuar. – Ele está com medo. Qualquer um ficaria, no lugar dele.

– Medo é ilógico, Doutor. O capitão precisa do tratamento adequado, pois sem ele se tornará um perigo não só pra sua integridade física e mental, como para o sucesso da missão. Precisamos intervir. – O médico sabia que Spock tinha razão, mas algo na forma fria e impessoal que ele proferia aquilo lhe causava um incômodo significativo. Respirou profundamente, deixando que sua mão esquerda caísse sobre a mesa, enquanto a outra servia de apoio para sua testa.

– E o que você sugere que façamos? Ele vai precisar de um afastamento para o tratamento, e acredite, ele nunca vai concordar em deixar a Enterprise, mesmo que provisoriamente.

– Sendo essa a única solução viável, ele terá de aceitar. Falarei com ele pessoalmente e o farei entender. – Spock parecia determinado, e McCoy não tinha uma boa impressão de onde isso iria dar.

Mas realmente, não havia outra solução. O médico ainda pensou um pouco, antes de finalmente concordar.

– É, se é a única coisa que podemos fazer. – Ele torceu o canto inferior dos lábios, vencido. – Mas por favor, vá com calma. Não acredito que eu estou te pedindo isso, mas tente ser um pouco sensível uma vez em sua vida. O estado emocional de Jim está terrivelmente delicado, talvez até mais do que pensamos.

– Farei o possível. – Spock disse, ignorando a referência pejorativa a sua suposta “insensibilidade” subentendida naquela frase. – Agora se me permite, devo me retirar. Ainda há muito trabalho a ser feito na ponte com a ausência do capitão. – O médico assentiu com um movimento de cabeça, e logo em seguida Spock deixou a sua sala.

~

O turno de Spock acabava precisamente ás 20 horas, no horário da nave. Ainda permanecera mais algum tempo na ponte em função de alguns dados a mais que tivera que computar sobre o planeta, para só depois de quase uma hora se dirigir ao refeitório. Não passara nem quarenta minutos lá, estava anormalmente vazio para o horário, e a falta de filas para os replicadores diminuía consideravelmente o tempo de permanência do Vulcan no recinto.

Eram exatamente 21 horas e 4 minutos quando ele parou em frente a seus aposentos, inusitadamente hesitante. Os olhos cor de chocolate recaíram sobre a porta ao lado da sua, que dava para os aposentos de seu capitão, cogitando seriamente dirigir-se para lá. Ele sabia que aquele não era um horário adequado para a conversa que deveriam ter, mas algo dizia que, de alguma forma, era o momento certo.

Lembrou-se de tudo que sentiu irradiar da mente de Kirk, da quantidade de sofrimento á qual ele estava submetido, e quando deu por si já estava em frente aos aposentos de Jim, pressionando o botão que anunciava sua presença.

Dois minutos inteiros se passaram sem que Spock recebesse uma resposta do lado de dentro. O moreno moveu as sobrancelhas em estranhamento. Seu capitão nunca deixara de atender a um chamado, seja no comunicador ou na porta.

A possibilidade do outro estar dormindo veio a mente do Vulcan, mas era bastante remota para ser significativa. Estava ciente dos hábitos noturnos do capitão, devido a maioria de suas partidas de xadrez serem ao final de seus turnos, e tinha conhecimento de que Kirk não tinha o costume de ter sono a essa hora. Levou em consideração os acontecimentos daquele dia, e a quantidade de horas que o capitão estava recluso em seus aposentos, mas ainda não encontrava uma justificativa.

Pressionou o botão mais uma vez. Novamente não havia resposta.

O estado emocional de Jim está terrivelmente delicado, talvez até mais do que pensamos.

A frase de McCoy passou novamente por sua cabeça, e ele sentiu uma latente preocupação começar a se alastrar por sua consciência. Pressionou o botão mais uma vez.

Algo estava errado, Spock sabia. De alguma forma, ele sabia.

Precisava entrar naquele quarto.

Chegou a segurar o comunicador entre os dedos, com a intenção de contatar McCoy para que ele usasse o código de emergência médica para entrar, porém uma solução mais rápida surgiu em meio a seus pensamentos.

O banheiro compartilhado.

Em passadas rápidas, o Vulcan voltou para frente de seus próprios aposentos, e ao adentrá-los foi direto para a entrada do banheiro. Tentou abri-la, mas estava travada. Ela só travava quando acesso ao outro cômodo estava aberto, o que o levava a acreditar que era lá que Jim estava. Forçou sua audição aguçada na tentativa de captar algo fora do comum, mas só conseguiu ouvir o som do chuveiro.

– Capitão, o senhor está bem? – Aumentou o tom de voz para que pudesse ser ouvido do outro lado da porta, mas não obteve nenhuma resposta. Esperou mais alguns segundos, para então repetir a pergunta, um pouco mais alto. Dessa vez conseguiu captar um ruído diferente, algo como um murmúrio ou um gemido, mas por mais que se esforçasse não era capaz de identificar exatamente o que estava sendo dito.

O som cessou tão repentinamente quanto começou, deixando apenas o ruído do chuveiro.

– Se o senhor não responder em um minuto, eu vou ser obrigado a entrar. – Novamente, nenhuma resposta. 30 segundos já haviam se passado, 40, 45, 50, 55, 59, e nada. No exato momento em que o minuto se completou, Spock entrou com a senha do sistema de privacidade do banheiro e a porta se abriu.

Só precisou dar dois passos para dentro do cômodo para localizar seu capitão.

Ele estava sentado no chão do box, de costas para a parede. Seus joelhos dobrados juntos em frente ao corpo serviam de apoio para seus cotovelos, enquanto seu rosto era escondido por entre os braços cruzados sobre a cabeça. Ainda estava com as mesmas roupas que usava quando Spock o viu pela última vez na plataforma de transporte, com exceção das botas, só que agora completamente encharcadas. O chuveiro estava ligado no máximo, e a água caía numa densa cascada sobre a nuca de Jim, escorrendo pelo resto do corpo.

Havia uma trilha de gotas de sangue que iam da porta do quarto de Kirk até o box, o vermelho do sangue contrastando vividamente contra o branco do piso do banheiro. Também havia marcas no blindex que cercava o box, e alguns resquícios de sangue diluído em água próximo de onde o loiro estava sentado.

Spock computara todos esses detalhes em questão de um segundo, e no segundo seguinte já invadira o box, abaixando-se ao lado de seu capitão.

A água do chuveiro estava terrivelmente gélida, e o corpo de Jim tremia descontroladamente debaixo dela. O Vulcan desligou o aparelho, mas não podia focar em aquecê-lo agora, tinha que encontrar a origem do sangramento. Sondou atentamente o corpo de seu capitão, e ao passar os olhos sobre sua mão direita notou um gotejamento rubro. Tocou-a, virando a palma para si, revelando um grande corte que pegava do meio da palma da mão até a junção entre o polegar e o indicador. Algumas pequenas gotas de sangue ainda se desprendiam do ferimento, porém eram poucas, o que significava que o sangramento já estava praticamente estancado.

O moreno deixou o box somente para procurar por qualquer pedaço de tecido que pudesse usar para cobrir o ferimento. A primeira coisa que apareceu em seu campo de visão foi a toalha de rosto, e foi ela mesmo que usou. Rasgou uma tira do tecido e largou o resto sobre a pia, voltando para o lado de Jim. Notou que ele já havia recobrado algum resquício de consciência, pois levantara sua cabeça, apoiando-a na parede, enquanto abria minimamente os olhos azuis.

– Spock? O que...O que você está fazendo aqui? Não era pra você estar aqui. – Sua voz era um sussurro rouco que mal tinha forças de deixar sua garganta, e seu hálito cheirava a whisky. Ele balançou a cabeça, apertando os olhos fechados novamente. – Não era pra ninguém estar aqui. Não...Não era para ninguém me ver assim. – Um soluço escapou por entre seus lábios ao mesmo tempo em que ele virava o rosto para o lado oposto de Spock. O Vulcan parou momentaneamente de enrolar o pedaço de tecido na mão de Jim para focar seu rosto, e mesmo sem vê-lo, ele sabia que seu capitão estava chorando.

Ele podia sentir. A mão trêmula entre as suas enviava-lhe ondas de tristeza que tocavam seu âmago, arranhando sua máscara impassível que tanto demorou para recolocar no lugar.

Essa era a terceira vez que Spock via seu capitão chorar, e, pela terceira vez em sua vida, ele não sabia o que dizer.

Optando pelo silêncio, o primeiro oficial apenas desviou o olhar e terminou o que estava fazendo antes. Agora precisava se concentrar em aquecer seu capitão antes que ele tivesse uma hipotermia.

– Consegue ficar de pé? – Perguntou, mais sua única resposta foi mais um soluço contido. Esperou por 14 longos segundos, e como sua pergunta ainda não havia sido respondida adequadamente, preferiu encarar o silêncio como um “não”. Passou seus braços por baixo do corpo de Jim e, sem aviso, ergueu-o do chão como se não pesasse mais que uma pena.

Spock prontamente ignorou os débeis e desorientados protestos de seu capitão, que tentava inutilmente empurrá-lo, agitar as pernas e resmungar. Era inútil, mesmo que estivesse em condições perfeitas. E Kirk logo percebeu isso e desistiu de suas tentativas de se livrar de seu primeiro oficial, optando por encolher-se o máximo que podia, demasiadamente humilhado para fazer qualquer outra coisa.

Percebendo que Jim havia desistindo de “lutar”, o Vulcan saiu com ele do banheiro, levando-o para seus aposentos. Ao passar pela porta, o cenário que se revelava era, no mínimo, perturbador; todo o quarto de Jim estava revirado. A maioria dos objetos que ficavam em estantes, como livros e porta-retratos, jaziam espalhados pelo chão juntamente com almofadas rasgadas, quadros e até o PADD de Jim. Havia uma garrafa de bebida quebrada também, próxima à mesa do computador, e vários cacos de vidro espalhavam-se num raio de um metro envolta dela.

As sobrancelhas de Spock se contraíram sem que ele percebesse, e ele suprimiu uma vontade de respirar fundo. O estado daquele cômodo nada mais era do que um reflexo do que estava se passando na mente de Jim, e a constatação disso causava ao Vulcan uma sensação que ele encontrava dificuldade em nomear. Talvez angústia fosse a palavra certa, ou aflição, ele não tinha certeza. O que sabia era que o atingia em níveis que se tornava difícil suprimir, e isso era preocupante.

Caminhou mais alguns passos até o sofá de dois lugares, certificando-se de não pisar em nenhum objeto pelo chão. Chegando a frente do móvel, abaixou-se apenas o suficiente para que pudesse pôr seu trêmulo capitão sobre as almofadas, tão delicadamente quanto possível. Kirk flagrou-se relutando em se separar do outro, afinal, estava com frio, e o corpo de Spock era agradavelmente quente contra sua pele gelada. O que restava de seu orgulho, se é que restava algo, o fez afastar esse pensamento, encolhendo-se no sofá, permitindo que seu primeiro oficial se afastasse.

– Computador, ajustar temperatura para 32 graus Celsius. – Tão logo Spock terminou a frase, um bipe característico pode ser ouvido vindo da mesa do computador, indicando que a ordem havia sido recebida. Os olhos castanhos voltaram-se para Kirk, cujo olhar perdia-se em algum lugar entre a porta e o chão do quarto, e seus lábios, que estava prontos para formar uma pergunta, desistiram de se mover.

Voltando a sua tarefa de aquecer o outro, o Vulcan afastou-se do sofá, indo até o armário. Depois de abrir quase todas as portas a procura de roupas adequadas, voltou para o lado do loiro levando uma calça de moletom grafite, a única do material que encontrou, e uma blusa de malha meia manga, na cor branca. Depositou as roupas sobre o braço do sofá, voltando-se para Jim.

– O senhor necessita de ajuda para trocar suas roupas? – Sua resposta se resumiu a um quase imperceptível manear de cabeça. Spock assentiu, desviando o olhar ao perceber que seu capitão já começava a retirar as peças de roupa molhada. 2.76 minutos depois, Jim estava completamente vestido com as roupas secas que o moreno trouxera. Spock não pode deixar de pensar que esse tempo poderia ter sido reduzido pelo menos á metade se sua ajuda tivesse sido aceita.

O primeiro oficial pensou em pegar um cobertor para Kirk, mas ao olhar atentamente para o loiro notou que seus tremores já haviam cessado, e logo descartou a ideia. Já não havia perigo de hipotermia, mas ele ainda possuía um ferimento em sua mão que necessitava de atenção médica.

– Aconselho o senhor a se dirigir à enfermaria, o ferimento em sua mão necessita de tratamento médico. – As palavras de Spock se perderam no silêncio do quarto, pois Jim não parecia tê-las ouvido. Ele continuava sentado no sofá de couro, as mãos largadas sobre as coxas enquanto um olhar perdido ofuscava os olhos azuis. – Capitão? – O Vulcan tentou mais uma vez, aproximando-se do outro. Estendeu sua mão para tocar-lhe o ombro, mas interrompeu sua ação ao ouvir a voz de Jim.

– Eu estou acabado. – A voz do loiro era um sussurro frágil, que ameaçava quebrar-se com o menor esforço. Os olhos claros continuavam encarando o piso, enchendo-se de pesar conforme as palavras voltaram a deixar seus lábios. – Tudo que fiz para chegar até aqui, tudo que passei, vai tudo por água a baixo. Eles vão tirar ela de mim, e eu... Eu não sou nada sem ela.

Kirk não pode conter o tremor que passou por sua voz na última frase, sendo seguido de um discreto soluço contido. Aquela altura era impossível deter as lágrimas que queimavam seus olhos, e foi preciso apenas um piscar para que elas escapassem, correndo por suas bochechas até desaparecerem em algum lugar por seu queixo.

– Ninguém tirará nada de você, Capitão. O senhor precisa do tratamento adequado, apenas isso. A partir desse momento a única coisa que a Federação poderá fazer é lhe dar um afastamento provisório até que tenha alta.– O primeiro oficial agora se sentara ao lado de Jim, e reprimia uma aterradora vontade de tocá-lo. Ele estava quase tão fragilizado quanto na ocasião em que o vira morrer, e aquela era a última coisa que queria rever.

– Eles não vão me deixar voltar. Pense, Spock. – O rosto de Jim virou-se para a figura ao seu lado, e Spock não soube dizer se o que fazia aqueles olhos brilharem tanto eram as lágrimas, a raiva ou a dor. – Você acha mesmo que eles darão a melhor nave da Frota, num novo projeto de missões, para águem no estado que eu estou? E se o que estiver acontecendo comigo for irreversível? Nem eu mesmo me reconheço mais, por Deus. Quando que o homem que eu era teria entrado em pânico daquela forma, em Betazed IV? Eu tinha um phaser no cinto, mas eu não consegui me mover. Você consegue imaginar o que é isso? Ficar paralisado de medo? Eu não controlo mais o meu corpo, eu não controlo mais a minha cabeça, como vão deixar que eu controle uma nave?

Mal terminara de despejar aquelas palavras e Jim escondeu o rosto entre as mãos. Não conseguia sustentar o olhar de Spock, admitir tudo aquilo era humilhante de mais. Estava completamente destruído, destroçado, e não conseguia enxergar uma forma de juntar seus pedaços.

– Depois de tudo que você passou, havia uma possibilidade de algo desse tipo ocorrer. A mente humana é frágil a eventos traumáticos, e a morte, sem dúvida, é o maior deles. Mas o que está ocorrendo com você é tratável, eu lhe garanto isso. Você só precisa se permitir ser tratado.

– Como você pode me garantir isso? Como pode me garantir que eu vou ficar bem, e que, mesmo depois de tudo isso, a Federação não vai me chutar como um cão sarnento? – Kirk virou o rosto apenas o suficiente para olhar para seu primeiro oficial, e ver a resposta estampada em seus olhos castanhos. Vulcans não mentem, todos sabem. – Você não pode.

– Não posso lhe garantir todos esses fatores, mas há 73,8% de... – Antes que pudesse terminar a frase o moreno foi interrompido abruptamente por seu capitão.

–Você não entende. Não quero ouvir sobre possibilidades, eu quero, eu preciso que alguém me dê certeza que eu não vou enlouquecer e perder a Enterprise. – A voz subitamente alta foi interrompia por um soluço violento, e mais lágrimas escaparam por seus olhos, pingando sobre o tecido da calça. Spock pôde perceber que ele perdera completamente o ritmo de sua respiração quando voltara a falar, num sussurro quase inaudível. – Eu não sou nada além de um covarde. Vocês deveriam ter me deixado morrer naquele maldito dia.

Foi então que, entre um soluço e outro, Kirk sentiu um leve toque em seu ombro. Mesmo sob o tecido da camisa, ele podia sentir o calor daquele contato; não só um calor físico, mais um calor em forma de conforto, de amizade, de companheirismo. Ele não sabia como podia sentir tudo aquilo apenas por um toque, mas ele sentia. E só confirmou tudo isso quando encontrou os olhos do Vulcan, que refletiam e intensificavam tudo que sentia através do toque da mão de Spock em seu ombro.

– Por favor, não diga isso. Jim, você é o homem mais corajoso que já conheci em toda minha vida, e estou certo de que toda tripulação tem a mesma opinião. Você provou a todos, incluindo a mim, que pode ser um dos melhores capitães da Frota. Não deixamos que morresse naquela ocasião porque acreditávamos que merecia continuar vivendo, e porque ainda precisamos de você.

Por longos segundos, a única coisa que Kirk conseguia fazer era olhar para Spock. Suas palavras vibrando em sua cabeça como se tivessem luz própria, como se tivessem o poder de brilhar até derreter as camadas de medo que congelavam cada articulação de Jim. Era um calor tão confortável, que sua única vontade era envolver-se por completo dele.

E foi então que embriagado por essas doces palavras, juntamente os as inúmeras doses de tristeza e whisky que ainda nublavam seus pensamentos, Kirk invadiu o espaço pessoal de Spock. Lentamente infiltrou-se entre os braços de seu primeiro oficial, pousando a testa sobre seu ombro esquerdo em um gesto inusitado, que, sem dúvida, surpreendeu o moreno.

A respiração do Vulcan travara no segundo em que Jim se movimentara em sua direção, e mesmo depois que o loiro já havia se acomodado sobre seu ombro, o ar não queria deixar seus pulmões. Todo o seu corpo parecia ter se contraído, tenso com a proximidade do outro. Definitivamente ainda não havia se acostumado com a propensão humana ao contato, mas tinha consciência de que suas reações para com Jim eram exageradas até para seus próprios padrões.

– Eu estou com medo, Spock. Nunca tive tanto medo em toda a minha vida. – A primeira frase causou um déjà vu em Spock forte o suficiente para trazê-lo de volta a realidade. A realidade em que tinha seu capitão e amigo entre seus braços, quebrado por seus problemas, e precisando de ajuda.

Da sua ajuda.

– Eu sei, Jim. –Timidamente, Spock moveu seu braço direto de encontro a Jim. Houve um segundo em que o moreno hesitou, mas continuou logo em seguida, pousando sua mão carinhosamente sobre a parte de cima das costas de seu capitão. – Eu vou ajudá-lo, eu lhe prometo isso.

Fora aquele quarto com o intuito de convencer Kirk a aceitar o tratamento proposto por McCoy, mas depois de tudo que ouvira e sentira junto a ele, já não era aquilo que se sentia obrigado a fazer. Precisava encontrar outra forma, alguma que, principalmente, não pusesse em risco o posto de Jim como capitão.

E iria encontrá-la, nem que para isso tivesse que quebrar alguma cláusula do regulamento da Frota.

Por Jim, iria encontrá-la.

Notas finais
QUERO VER VOCÊS BOTANDO TODOS ESSES FEELS PRA FORA NESSES REVIEWS HEIM Meu coração agradece