About a broken soul and a new bond
5 Evaluate the damage
Notas iniciais
Quando Jim acordara na manhã seguinte ele não fazia ideia de como havia chegado à sua cama. Tentou forçar sua memória, mas uma pontada aterradora atingiu sua cabeça como um rolo compressor, impedindo que fizesse qualquer coisa além de esperar que ela melhorasse. Alguns segundos se passaram antes que a dor diminuísse apenas o suficiente para que ele abrisse os olhos, deparando-se com seu quarto em completa penumbra.
— Computador, ajustar luzes para 30%. — A iluminação veio logo após o bipe de confirmação do computador, revelando uma imagem não muito familiar. Mesmo através da luz fraca, Kirk podia ver seu quarto perfeitamente arrumado; não havia nada no chão alem de seu tapete e um par de botas alinhadas ao lado de seu armário, seus livros se encontravam todos organizados sobre as estantes, assim como porta-retratos e outros pertences. Até mesmo sua mesa estava arrumada.
Não era como se Kirk fosse um completo desleixado com seus pertences, mas esse nível de arrumação não era de seu feitio, muito mais nesses últimos meses. Apesar disso, algo lhe dizia que seu quarto não estava daquela forma antes de adormecer.
Mas o que havia acontecido mesmo antes de adormecer? A última coisa da qual se lembrava era de voltar para o quarto depois daquela péssima conversa com McCoy se sentindo miserável, e então abrir uma garrafa de whisky que ganhara de presente de seu irmão em algum aniversário, depois tudo desaparecia em uma densa névoa escura até acordar naquele momento. Procurou por ela no lugar onde costumava guardá-la, num ponto privilegiado de suas prateleiras reservado apenas para garrafas de suas bebidas favoritas, e não a encontrou lá. Provavelmente a bebera inteira, e isso justificava perfeitamente a sua dor de cabeça e a falta de lembranças.
Amaldiçoou aquela ressaca quando percebeu que estava com sede de mais para pensar, sua saliva parecia amarga e duas vezes mais densa que o normal em sua boca. Precisava de um bom copo de água; ou talvez todo reservatório de água da nave, se dependesse de sua sede. Apoiou-se sobre os cotovelos para pôr-se sentado, e só quando já apoiava seus pés no chão para se levantar percebeu algo enrolado a sua mão direita. Ao movê-la, percebeu uma dor incômoda que não havia notado, e que definitivamente não estava lá antes de adormecer. Aproximou-a do rosto com a intenção de identificar o que circulava sua palma, e foi ao reconhecer aquela bandagem que suas memórias explodiram como uma supernova, inundando a mente e Kirk com a vergonha da compreensão de tudo que havia acontecido na noite anterior.
Lembrou-se de tudo com tanta clareza que era como se nunca tivesse esquecido. Agora eram nítidas as lembranças de embebedar-se de whisky até não conseguir manter-se em pé; de, dominado pelo desespero, atirar a garrafa quase vazia contra a parede e fazer o mesmo com quase tudo pelo quarto; de cortar-se com um dos cacos da garrafa; de enfiar-se debaixo do chuveiro com a temperatura da água quase negativa, desejando apenas que tudo acabasse. Depois, houve Spock. Lembrou-se de ouvir sua voz em seu estado de semiconsciência, chamando-o de tão longe que quase não conseguia ouvi-lo; de ser visto naquele estado deplorável por ele; de desabar em frente a ele.
Kirk cobriu os olhos com a mão, desejando continuar com a névoa no lugar daquelas memórias. E a vergonha e a humilhação criavam um nó insistente em sua garganta que quase o fazia querer vomitar. Como pôde ser tão fraco, tão deplorável, logo em frente a Spock?
Desde que assumira seu cargo como capitão da Enterprise tentara ao máximo ganhar o respeito de se primeiro oficial, principalmente depois de ser tão desprezado por ele no início. Ser tratado como uma adolescente irresponsável só fazia Jim almejar ainda mais conquistar o respeito do Vulcan. Era apenas um desafio que ele não conseguia resistir. Porém depois de todo aquele tempo servindo junto com Spock, ele não só conseguira arrancar algumas demonstrações de respeito de seu primeiro oficial, como também uma inusitada ligação começava a se formar entre eles. E quase sem perceber, essa ligação ganhava o nome de amizade.
Jim sabia como era difícil atravessar toda aquela sólida barreira de indiferença emocional de Spock, mas depois de ver o verdadeiro homem por detrás dela era impossível não se apegar. Apegara-se ao ponto de violar a primeira diretriz, arriscando sua carreira e sua vida por seu primeiro oficial.
Por tudo isso, qualquer risco de abalar as tão recentes estruturas daquela amizade era assustador. E sempre havia os deveres em relação à Federação, e mesmo depois de tudo que passaram Kirk ainda era devidamente cauteloso ao entrar nesses méritos. Será mesmo que Spock correria o risco de quebrar alguma regra por Jim?
Não ter resposta para aquela pergunta lhe deu náuseas.
Levantou-se da cama o mais rápido que sua insistente dor de cabeça permitia, procurando desesperadamente por uma boa quantidade de água gelada. Afundar-se em dúvidas não levaria a nada, e enquanto pudesse manter-se distraído para evitar esses pensamentos, ele faria.
Depois de quatro grandes copos de água, Kirk permitiu sentir-se menos pior. A dor de cabeça ainda persistia, obviamente; ele não esperava que água fosse solução para isso. Por outro lado, talvez um banho gelado fosse uma melhor opção. Seguindo essa linha de pensamento, o capitão já se encaminhava para o banheiro quando, ao passar por sua mesa, notou o piscar de uma luz no painel de seu computador. Ao se aproximar, percebeu ser o indicador de mensagem. Abriu sua caixa de entrada para saber do que se tratava, deparando-se com uma mensagem de voz de ninguém menos que seu primeiro oficial.
Suas sobrancelhas moveram-se sem ser convidadas, e apesar de estar tremendamente envergonhado por seu comportamento da noite anterior, uma curiosidade quase compulsiva queimava seu estômago. Antes que pudesse mudar de ideia, ativou a reprodução de mensagem e a voz de Spock preencheu o silêncio do cômodo.
— Capitão, foi notificado à tripulação que o senhor não se sente disposto no dia de hoje. Assumirei todas as suas responsabilidades na ponte, por esse motivo não há necessidade de nenhuma preocupação de sua parte. Tomei a liberdade de desativar os despertadores e comunicadores para que o senhor não fosse incomodado em seu repouso. É de opinião do , e também de minha própria, que o senhor deve apenas se preocupar em repousar durante esse tempo. — Ouve uma pequena pausa, mas a voz retornou logo em seguida. — Sobre o incidente da noite anterior, asseguro-lhe que minha palavra será mantida. No momento que encerrar meus compromissos, irei de encontro ao senhor para discutirmos uma solução viável para seu dilema. Spock desligando.
Guiando-se apenas pela entonação da voz de Spock, ele poderia muito bem estar falando sobre as fases de uma tempestade magnética, sobre coordenadas de asteroides ou até mesmo sobre o conserto dos replicadores. Mas Spock era simplesmente assim, essa maneira impessoal de se referir fazia parte dele. Isso já irritara Kirk por muitas vezes, e provavelmente irritaria algumas mais, porém ele adquirira um aprendizado importante para ajudá-lo na tarefa de não fazê-lo; atentar aos pequenos detalhes. Um discreto crispar de lábios, um movimento de cabeça, um fechar e abrir de mãos, um mover de dedos, um brilho diferente no olhar, um arquear de sobrancelhas ou um cenho franzido. Em qualquer outra pessoa, essas reações poderiam ser consideradas ordinárias, ou até mesmo irrelevantes, mas para Spock elas tinham o poder de mostrar o que sua voz ou expressão escondia.
Para um bom entendedor elas mostravam que, no fundo, Spock se importava.
Ele podia não ter visto o rosto de Spock enquanto ele falava, mas aquela pausa podia dizer-lhe muita coisa. Ou o próprio conteúdo da mensagem já era bastante significativo. Mesmo que o próprio Kirk não visse qualquer solução para seu problema, seu primeiro oficial estava se mostrando disposto a, juntos, encontrarem uma.
Aquilo ainda não respondia a pergunta que lhe atormentara há alguns poucos minutos atrás, mas agira em si melhor que um dos hyposprais calmantes de Bones.
Eram exatamente 20 horas e 3 minutos quando o sinal sonoro da porta inundou o quarto, sobressaltando Kirk o suficiente para que quase derrubasse o livro que tinha em mãos. O susto fora autêntico, apesar do loiro estar a quase meia hora observado a porta de esguelha a espera daquele toque, ridiculamente ansioso para seus próprios padrões.
Uma respiração levemente mais profunda escapou por seus lábios enquanto levantava de sua cama, e se estendeu até que deixasse o livro que lia, ou tentava ler, sobre sua mesa. Ainda teve tempo de pensar em como era ridículo estar tão nervoso antes de suas palavras cortarem o silêncio.
— Entre. — Kirk ainda estava de pé quando a porta se abriu, e por algum motivo que ele desconhecia continuou de pé depois dela se fechar as costas de seu primeiro oficial. Spock estava em sua impecável postura habitual, o uniforme perfeitamente arrumado, os braços bem presos atrás das costas e sua típica expressão Vulcan.
— Capitão — Spock cumprimentou-o com um leve aceno de cabeça, sendo retribuído pelo loiro logo em seguida. "Como se nada tivesse acontecido" o pensamento flutuou por sua consciência sem nem perceber, mas não impediu Kirk de desviar o olhar ao encontrar as íris cor de avelã do Vulcan.
— Então, Spock. Como foi o turno de hoje? — A pergunta saiu antes de que se desse conta, trazida por alguma estranha necessidade de falar alguma coisa que, de preferência, não tivesse relação com seu problema. "Só adiando o inevitável, seu babaca" sua mente lhe chutava por dentro enquanto trocava os objetos da mesa de lugar, enganando-se que estava apenas a arrumando.
— Nada fora do comum ocorreu, capitão. Acompanhei mais um grupo de exploração à superfície de Betazed IV para recolher mais amostras e catalogar espécimes. A missão correu sem imprevistos, e se mostrou bastante produtiva. Acredito que se nos mantivermos nesse ritmo poderemos deixar o planeta em certa de 6.4 dias.
— Hm, que bom. — Jim já havia trocado tudo que estava em cima da mesa pelo menos duas vezes quando respondeu. Um silêncio deveras incômodo se instalou entre eles depois de encerrado o assunto, e Kirk já não tinha mais o que fazer com as mãos para se distrair. Podia sentir os olhos de Spock sobre si, o que parecia fazer algo borbulhar em seu estômago. Um suspiro cansado lhe escapou quando finalmente se deu conta de que não podia mais fugir.
— Acho que seria melhor sentarmos para termos essa conversa, não? — Seus lábios se curvaram em um meio sorriso amargurado pelo que ainda estava por vir, e por tudo que já havia passado. E, de alguma forma, já não tinha tanto receio de olhar diretamente para Spock.
Este, por sua vez, encarava seu capitão sem entender exatamente a necessidade de se sentarem; o leve pender de sua face para o lado quase delatando seus pensamentos. Lembrou-se então que os humanos tinham a propensão a procurar uma posição que lhes permita certo nível de relaxamento ao tocar em assuntos potencialmente estressores, e por fim concordou com um aceno.
Jim foi o primeiro a mover-se, indo sem muita pressa para a direção da mesa mais ao fundo do quarto. Era uma mesa pequena, em comparação com a de seu computador, mas cumpria perfeitamente a função a qual Jim a havia incumbido; acomodar seu belo tabuleiro de xadrez 3D. Havia também duas cadeiras, uma em cada lado da mesa, que também serviam para as partidas de xadrez. Jim sentou-se em uma delas, e enquanto Spock acomodava-se na outra o loiro movia seu tabuleiro para o canto da mesa, de forma que não ficasse entre eles. Feito isso, ele virou-se para Spock.
— Melhor agora. — Não deu tempo para o outro concordar, ou não, antes de continuar. — Primeiro, acho que lhe devo desculpas. Não sei onde eu estava com a cabeça ontem à noite, e realmente não era pra você ter presenciado aquela cena ridícula.
— Não há nada para se desculpar, capitão.
— Ah, claro que há. Aquele não foi um comportamento digno de um capitão, e você sabe disso; já me criticou por muito menos do que aquilo. — Como se a situação já não fosse desgastante o suficiente, sua mente não perdia a oportunidade de alfinetá-lo com um pouco de autopunição, mesmo sem perceber. — E, por favor, pare com o "capitão". Não estamos na ponte, já lhe falei isso mil vezes.
— É apenas a força do hábito... Jim. — O Vulcan deu uma discreta ênfase em seu nome que fez o loiro erguer uma sobrancelha. — E se me permite usar seu próprio argumento, você não é capitão durante todas as horas do seu dia. Concordo que o adverti em algumas ocasiões, mas em todas estávamos durante o turno ou em missões e era exatamente o ponto que tornava seu comportamento inadequado. — Kirk não conseguiu impedir-se de pensar que o "algumas" de Spock podia ser tranquilamente ser substituído por "um milhão" que ainda assim seria pouco. Mas independente disso, havia uma inegável verdade em suas palavras que Kirk preferia ignorar apenas porque ele próprio não aceitava o que havia acontecido, estando fora do horário de trabalho ou não.
— Independente disso, não foi um bom comportamento de se ter na frente de seu primeiro oficial. — Kirk cruzou os braços, afundando-se na cadeira enquanto procurava algum outro ponto do quarto para o qual pudesse olhar sem sentir-se envergonhado. Havia um "Você deve estar me achando um merda agora." quase subentendido naquela frase.
— Eu não estava sob o título de primeiro oficial ontem. Eu vim como seu amigo. E é dessa mesma forma que estou aqui agora. — As palavras do Vulcan chegaram aos ouvidos de Kirk acompanhadas por uma onda de calor que parecia inundar todo seu corpo. Aquela confissão roubara-lhe todas as palavras, e ele olhou para Spock com os lábios levemente entreabertos. Houve mais alguns segundos de contato visual entre os dois antes do moreno continuar. — Minha intenção não é, nem nunca será, julgá-lo. Estou aqui única e exclusivamente para ajudá-lo, Jim.
Havia algo na forma como Spock pronunciara seu nome que fez seu coração pular uma batida, mesmo ele sabendo que isso era fisiologicamente impossível. Ninguém poderia duvidar daquelas palavras, não ditas daquela forma. Não havia mentira naqueles olhos. De repente Kirk percebeu que aquilo lhe deixara emocional de mais, e ele estava a ponto de ceder àquela súbita vontade de levantar-se e ir abraçar seu primeiro oficial. Conteve-se, entretanto, limitando-se a dar a Spock o sorriso mais sincero que dera em meses.
— Obrigado, Spock. — E Kirk estava tão grato que não existiam palavras o suficiente para expressá-la. Mas de uma forma, ele sabia que o moreno havia entendido.
— Eu diria que não há necessidade de agradecimentos, mas temo soar repetitivo. — Havia uma quase imperceptível contração no canto dos lábios do Vulcan que davam a suas palavras um ligeiro, e bem vindo, toque de humor. Kirk permitiu que o sorriso repousasse por mais algum tempo em seus lábios enquanto concordava com um aceno de cabeça. Eles ainda permaneceram num silêncio estranhamente confortável por algum punhado de segundos, como se apreciassem o novo nível de cumplicidade a que aquela amizade havia chegado.
— Então, você teve alguma ideia sobre o que fazer com meu "problema"? — O capitão cortou o silêncio, ajeitando-se na cadeira.
— Na verdade, sim. Depois de deixar seus aposentos ontem, dediquei-me a meditar sobre isso por algum tempo. A opção mais adequada ainda seria o tratamento tradicional, acompanhado de profissionais especializados em casos com o seu, mas esse método necessitaria do envolvimento da Frota, e acredito que o senhor não queira isso. — Kirk concordou com um aceno, apoiando seus braços sobre a mesa enquanto Spock continuava. — Ainda há a possibilidade de contatar um psicólogo especializado que não tenha envolvimento com a frota e manter o tratamento em sigilo, mas as chances de sucesso dessa opção são inferiores a 13,74%; o que torna ilógico arriscar. Entretanto, ainda há uma última opção; recorrermos a técnicas alternativas que possam ajudar sua psique a recuperar-se por si só de seus traumas. — Kirk franziu as sobrancelhas, e deveria haver uma interrogação tão nítida em sua expressão que Spock não esperou para explicar.
— Existem inúmeras técnicas alternativas, mas é reduzido o número delas que poderíamos usar nessas circunstâncias. A que estaria mais propícia a ter resultados positivos é um método de fusão de mentes que curandeiros Vulcans costumam usar com o intuito de ajudar a curar as dores resultantes de quebra de vínculos, entre outros problemas que possam ocorrer na psique Vulcan. Com o devido cuidado, eu poderia administrá-la em você, obviamente adaptada às limitações de uma mente não telepata e a sua situação em particular.
— Hm. — As íris azuladas de Kirk vagaram pela mesa enquanto ponderava sobre tudo que havia ouvido. Se requisitasse um psicólogo especializado para a nave a frota com certeza ficaria sabendo, e mesmo que consigam alguma desculpa o próprio profissional não se prestaria a tal mentira. Ao trazer um psicólogo que não fosse associado à Frota eles se livrariam desse problema, mas mantê-lo em segredo dentro da nave seria quase impossível. E então havia o tratamento proposto por Spock. Com a promessa de sigilo do Vulcan, não havia o perigo da informação vazar; ele já era da tripulação, portanto não precisaria se esconder; e eles já costumavam se encontrar com frequência fora do turno, suas "sessões de tratamento" poderiam facilmente se camuflar no meio de seus costumeiros jogos de xadrez noturnos.
— Caso eu ache sua técnica Vulcan a melhor alternativa, isso não seria um incômodo para você, seria? — Ele não sabia muito sobre fusão de mentes, mas sabia que Vulcans não costumavam sair por aí fundindo suas mentes com qualquer um. Tratava-se de um toque muito íntimo, e eles reservarem suas intimidades para poucos, às vezes nenhum, outro ser. A última coisa que queria, depois de tudo, era forçar Spock a sair de sua zona de conforto por um problema que era apenas seu.
— De forma alguma, Jim. Se eu ofereci-me para realizá-la, é porque não vejo nenhum problema. Porém se for incomodá-lo de alguma forma, posso pesquisar outros meios e recalcular as possibilidades de acordo com a eficiência de cada uma.
— Não, não precisa, está tudo bem pra mim. — Apressou-se em dizer, quase atropelando as palavras. — Se está bom para nós dois, acho que é isso que vamos fazer, certo?
— Como quiser. Antes de começarmos, preciso realizar uma fusão para analisar os danos causados a sua psique para que possa traçar os pontos do tratamento.
— Oh, claro. — Jim piscou, olhando em volta. — Aqui mesmo está bom? — Spock imitou o gesto de seu capitão, voltando sua atenção para ele logo depois.
—Temo que precise de um pouco menos de distância física entre nós, e um local mais confortável talvez seja mais indicado. — Um murmúrio de entendimento escapou pelos lábios do loiro enquanto seus olhos procuravam um local mais adequado pelo quarto.
— O sofá está bom?
— Creio que sim.
Com a confirmação de Spock, Kirk levantou-se de sua cadeira, sendo prontamente seguido pelo outro. Sentaram-se quase ao mesmo tempo no sofá, com uma distância de poucos centímetros entre eles. O capitão pegou-se sem saber exatamente o que fazer, e com uma insólita sensação se espalhando por seu estômago. Não era um incômodo, mas havia algo sobre ter Spock dentro de sua cabeça que o fazia sentir-se estranho, talvez nervoso. Na única vez em que fundiram suas mentes Kirk não estava num estado adequado para se lembrar dos detalhes, então ele preferia encarar aquilo como uma primeira vez. E não saber o que esperar era um tanto assustador.
Seus pensamentos foram interrompidos quando Spock virou-se para encará-lo. Kirk repetiu o gesto, fazendo suas pernas moveram-se automaticamente para o lado com o movimento, e quando se deu conta seu joelho já fazia contato com o do Vulcan.
— Asseguro-lhe que serei breve na fusão, e tomarei todo o cuidado de não acessar nenhuma de suas memórias. — Era a voz de Spock, mas baixa e grave do que estava acostumado a ouvir. Seus olhos procuraram os do moreno e havia algo de tranquilizador ali, quase como se ele tivesse sentindo o que se passava consigo. E apesar dele não saber ao certo se era por esse motivo que estava nervoso, suas palavras acalmaram um pouco aquela sensação estranha.
— Tudo bem, eu confio em você. — Um sorriso acompanhou aquelas palavras, e foi a vez de Spock sentir algo agitar-se em seu estômago. Absteve-se quase no mesmo segundo, precisava focar completamente na fusão ou além de resvalar nas memórias de Kirk, poderia revelar ao loiro coisas de suas próprias memórias.
— Tenho permissão para começar? — O Vulcan perguntou, antes que tivesse tempo para sentir mais alguma coisa. Kirk respondeu com um aceno suave, contendo o ímpeto de fechar os olhos. A mão de Spock moveu-se com uma lentidão atípica, e aqueles míseros segundos que ela demorou a chegar aos pontos de fusão no rosto de Kirk pareceram uma eternidade. Quando o toque finalmente chegou, o loiro não pode deixar de notar como os dedos do Vulcan eram quentes contra sua pele, e as áreas de contato formigavam levemente.
Os olhares se tocaram mais uma última vez, e então tudo desapareceu.
Não havia mais seu quarto, o sofá onde se sentava, muito menos seu próprio corpo. Só havia sua consciência, imersa em si mesma, e Spock. Era inexplicável a forma como era capaz de sentir presença da mente do moreno junto a sua, entorno e dentro dela. Se pedissem para dizer onde a mente de Spock começava e a sua acabava, ele não saberia dizer. Sentiu-se roubando o bordão de seu primeiro oficial quando percebeu estar fascinado com essas novas sensações.
Spock podia sentir nitidamente a forma como seu capitão maravilhava-se com a nova experiência, e não pode conter uma centelha de contentamento. Não havia tido tempo para notar isso da primeira vez em que se fundiram, mas dessa vez era impossível não perceber a facilidade com que suas mentes se uniram, adaptando-se uma a outra como se já tivessem estado juntas muitas e muitas vezes. Esse nível de compatibilidade era terrivelmente raro, ele sabia, o que só tornou tudo ainda mais fascinante.
"Vejo que o senhor não achou a experiência desagradável" A voz de Spock ecoava por toda a consciência de Jim, vindo de todos os lugares ao mesmo tempo que de lugar nenhum. Ele podia sentir pequenos fragmentos do que Spock estava sentindo, mesmo sendo notável que o moreno ainda se continha.
"Eu posso sentir o que você sente! Como? Na fusão com o outro Spock não foi assim, e acho que na de Betazed também não" Sua mente agitava-se com a excitação das novas experiências, enquanto Spock era um mar calmo ao lhe responder.
" Há diferentes tipos de fusão, Jim. No caso de sua fusão com meu eu mais velho, ele apenas queria dividir suas próprias memórias com você, não houve uma troca. Em Betazed IV havia mais semelhança com a fusão que estamos tendo agora, mas você estava em estado de semi consciência, e não foi capaz de sentir com exatidão. " Quando a voz de Spock cessara Kirk não precisava dizer que havia entendido, sabia que ele podia sentir.
"Wow, isso é incrível" A mente de Jim era um sol quente entorno de Spock, emanando empolgação e curiosidade numa magnitude que era completamente nova para o Vulcan. Nunca ninguém, que não fosse sua falecida mãe, havia lhe recepcionado com tanta boa vontade, sentindo-o como se fosse algo digno de ser admirado. A única pessoa que se aproximara disso era Nyora, mas mesmo assim...Mesmo assim...
De repente era como se a calmaria que vinha da mente se Spock se tornasse uma ligeira turbulência. A ligação que antes parecia tão clara, agora começava a se turvar e Kirk não sabia mais o que estava sentindo. Foi só por um segundo, mas ele estava certo de que tinha sentido algo.
"Hey, está tudo bem?" Um estranho silêncio se seguiu as palavras do capitão. Era um silêncio de palavras, de pensamentos e sentimentos que quase fazia o loiro sentir-se sozinho em sua própria mente novamente. Quase, pois ainda podia sentir, em algum lugar bem lá no fundo, aquela presença única que só podia vir de Spock.
"Sim. Eu vou aprofundar um pouco mais a ligação agora. É possível que você se sinta um pouco desconfortável, mas é imprescindível que mantenha a calma para que a ligação se mantenha estável." Kirk sentiu-se grato pelo fim do silêncio, mesmo que ele tivesse sido tão rápido.
"Ok" O capitão concordou, afastando a repentina apreensão que ameaçou lhe atingir. Ele sentiu Spock esperar por um momento, paciente, até que o loiro sentir que Kirk estava calmo o suficiente, então passou ao próximo nível.
O Vulcan encontrou um pouco de resistência ao tentar aprofundar-se na mente de seu capitão, mas nada que não fosse esperado. Era como uma porta que não era aberta há muito tempo; é preciso um pouco de força de início, porém após isso é apenas abri-la. Foi partindo dessa premissa que Spock forçou um pouco a entrada, sentindo que gradativamente a mente de Kirk cedia espaço, e logo já não era necessário esforço algum.
O segundo nível era bem diferente do primeiro. No primeiro era onde ficavam os sentimentos conscientes, e a própria consciência. O segundo era o lar do inconsciente, das memórias, dos sonhos e dos traumas; era nesse onde se encontrava o âmago do problema de Kirk.
Assim que se sentiu dentro do segundo nível, Spock viu a justificativa para tudo que estava acontecendo com seu capitão. As memórias que deveriam ser classificadas como agradáveis vagavam beirando o inconsciente, completamente fora de seus lugares, como se sua importância fosse reduzia. Enquanto as memórias ruins vagavam por todos os lugares, dobrando, triplicando de tamanho e importância. Seu inconsciente estava tão instável, expandindo e reduzindo indiscriminadamente, parecendo estar sempre prestes a invadir o consciente, jorrando-lhe memórias e sensações sem controle. O mais perturbador de tudo, era que todo esse nível parecia flutuar envolto em algo que lhe lembrava uma camada de gelo, fina e quebradiça, onde abaixo se agitavam as memórias da morte de Kirk. Qualquer deslize poderia ser o suficiente para romper aquela frágil camada, fazendo tudo mergulhar na agonia daquelas lembranças. Spock podia sentir todos aqueles sentimentos opressores vindo de todos os lados, principalmente o medo, e aquilo lhe causava uma terrível sensação se claustrofobia.
No meio de todo aquele caos, algo lhe chamou atenção. Havia um ponto em particular, nos limites do insciente de Kirk, que parecia ligar-se a vários outros por um fio quase imperceptível. Se focasse bem sua atenção sobre ele, podia senti-lo emanar algo que não conseguia identificar corretamente, mas não parecia ser nada agradável.
Cautelosamente, aproximou-se daquele ponto. Era como um pequeno amontoado de memórias, pensamentos e sentimento, todos tão emaranhados neles mesmo que se tornava difícil distingui-lo. Spock já estava perto o suficiente para tocar quando algo aconteceu. As paredes que o cercavam moveram-se sem aviso prévio, como se mudassem de forma. Uma delas estava perto de mais, e antes que o Vulcan pudesse evitar ela estilhaçou sobre si.
Imediatamente depois, estava na sala do reator de dobra novamente. Mas era diferente dessa vez. Sentia sua cabeça latejar insuportavelmente enquanto os pulmões não respondiam a suas vãs tentativas de conseguir apenas um pouco mais de oxigênio. Sua garganta estava apertada, tanto pela falta de ar quanto pelo medo da morte. E ela estava tão perto, tão perto que quase podia sentir seu hálito acariciando sua nunca. Levantou os olhos para a porta do reator e viu ele mesmo, Spock,de pé do lado de fora, com uma expressão que fez seu coração apertar ainda mais no peito.
A cena tremeluziu diante de seus olhos, e depois ele era ele novamente. Agachado em frente à porta do reator, sentindo os olhos queimarem com as lágrimas mais dolorosas que um dia imaginou que derramaria enquanto olhava para a figura de Jim estirada na chão. Não havia sido afetado por nenhum tipo de radiação, mas o ar machucava ao chegar a seus pulmões. Um crescente sentimento de impotência e arrependimento inundava seu corpo sem controle, dilacerando completamente sua máscara de indiferença que sustentara durante toda sua vida.
Depois daquilo a cena se confundia, as memórias de ambos misturando-se até nenhum deles saber o se o que sentiam era só deles. Compartilharam o medo da morte e a dor da perda, até que tudo desapareceu no calor de um toque nunca dado.
A fusão se desfez abruptamente ante a intensidade daquelas memórias, e a mente de Kirk expulsou a de Spock com tamanha violência que ele voltou à realidade como se tivesse levado um soco. O corpo do Vulcan foi impulsionado vários centímetros para traz, e ele teve que apoiar a mão sobre o acento do sofá para recobrar o equilíbrio. Seu peito subia e descia em respirações descompassadas, vibrando a cada batida desesperada de seu coração. O eco daquele medo esmagador ainda vibrava em sua cabeça, juntamente com a dor latente da quebra da fusão.
Se Spock havia voltado daquela maneira, seu capitão voltara ainda pior. Jim agarrava-se ao sofá com tamanha força que o nó de seus dedos estavam esbranquiçados. Todo seu corpo vibrava entre espasmos e tremores, imerso no turbilhão de sentimentos que aquela memória lhe trouxera. Sua respiração estava ainda mais irregular que a de seu primeiro oficial, e eu seus ouvidos zuniam como se uma bomba estivesse explodido bem ao seu lado. Os olhos azuis arregalavam-se, prendendo-se a qualquer coisa naquele quarto que tentasse convencer sua cabeça que aquilo era só uma memória.
Spock foi o primeiro a estabilizar as respostas físicas de seu corpo, apesar de precisar de quase um minuto inteiro para isso. Sua instabilidade foi rapidamente substituída por uma rígida máscara Vulcan, mas ainda era possível ver o medo bem no fundo dos olhos cor de avelã. Ele ficou ali, quase imóvel, observando atenta e preocupadamente que Jim não parecia estar melhorando.
—Jim. —Chamou-o com a voz baixa, mas não recebeu nenhuma resposta. Foi só quando ameaçou aproximar a mão do braço de Kirk que os olhos azuis recaíram sobre ele, cintilando contra a iluminação do quarto. —Devo chamar o ?
Kirk chegou a abrir a boca para falar, mas nenhum som deixou seus lábios. Sua cabeça estava tão confusa ao ponto de não discernir seus próprios pensamentos, e tudo que restava eram aquelas malditas memórias. Uma tontura repentina fez seu estômago girar junto com a sua cabeça, e faltou bem pouco para não colocar o pouco que tinha comido naquele dia para fora.
Spock não esperou por palavras, ver a cor abandonar completamente o rosto de seu capitão já fora resposta suficiente. Levantou-se rapidamente de onde estava, apressando-se para chegar ao comunicador do computador.
— Spock para enfermaria. — Anunciou, não tirando por nenhum segundo os olhos da figura de seu capitão sobre o sofá, que só parecia perder ainda mais a cor a cada segundo.
— McCoy aqui. Diga, .
— É o capitão, . Acredito que ele esteja tendo algum tipo de crise de pânico. Esvazie a enfermaria, estou levando-o para o senhor. — Ouviu o médico amaldiçoar antes de responder.
— Ok, venha rápido. — E desligou o comunicador.
Spock voltou para o sofá, tocando o braço de seu capitão. — Jim, preciso levá-lo a enfermaria. Consegue andar? — A voz de Spock parecia vir de muito longe, e a única coisa que Kirk conseguiu entender foi seu nome. Aquele zumbido em seu ouvido estava cada vez mais forte, sobrepujando qualquer outro som. Sentia-se terrivelmente desorientado, e ainda tinha aquela terrível sensação de que seu corpo estava muito menor do que realmente era.
Tentou puxar o ar, desesperado, apenas para perceber que não conseguia. Não conseguia respirar. Suas mãos procuraram algo em que se segurar, encontrando os braços de Spock. Mas também não conseguia senti-lo, seus dedos estavam dormentes. Seus dedos, suas mãos, seus braços, sua pernas, ele não sentia mais nada. Os olhos azuis procuraram a face de seu primeiro oficial, marejados de pânico, e sua visão periférica já não existia mais.
"Eu vou morrer de novo. Por favor, não me deixe morrer de novo."
Foi a última coisa que teve tempo de pensar antes de Spock sumir diante de seus olhos, e tudo ser imerso na mais profunda escuridão.
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