About a broken soul and a new bond
6 Picking up the pieces
Notas iniciais
Antes mesmo de abrir os olhos, Kirk já sabia que estava na enfermaria. O estofamento da biobed era macio sob seu corpo, mas sua textura peculiar o fazia inexplicavelmente desconfortável. O silêncio seria completo, se não fossem os insistentes bipes que ele sabia virem dos painéis que, muito provavelmente, mostravam seus próprios sinais vitais. Porém, o que lhe dava plena certeza de onde estava era o cheiro. Aquele odor característico que tinha toques de produtos de limpeza, formol, antissépticos e sangue, apesar dele não saber ao certo se todos aqueles produtos eram realmente usados ali. Todas as enfermarias e hospitais tinham o mesmo cheiro, independente de onde ou quando, elas simplesmente tinham.
Kirk odiava aquele cheio. Sempre o odiou, desde que se lembrava. Odiava-o por ser sua única companhia nas muitas noites em que passara em hospitais, com suas gripes anormalmente fortes, alergias estranhas e outras doenças que resultavam de sua saúde medíocre. Odiava-o, pois mesmo depois de voltar para casa ele continuava sentindo-o por dias, como se entranhasse em seu corpo. Mas odiava-o principalmente por lembrá-lo o quão fraco ele realmente era.
Respirou fundo, antes de finalmente decidir abrir os olhos. A luz estava incomodamente forte, fazendo com que precisasse de uns bons minutos para conseguir enxergar algo além de um borrão de branco, cinza e azul. Quando tudo já parecia em seu devido lugar, Kirk se sentou, notando que a única coisa que lhe fazia companhia naquela sala era o som dos monitores. Só pode ver algum sinal de vida bem ao fundo da sala, onde duas silhuetas se moviam por detrás do vidro que separava a sala de observação da enfermaria propriamente dita.
Levantou-se de sua biobed, ignorando a ligeira vertigem que o ato lhe rendeu, para caminhar em direção à sala de observação. Não precisou se aproximar muito para reconhecer as duas figuras lá dentro. McCoy gesticulava bastante, quase freneticamente, seus lábios movendo-se com a mesma intensidade, jorrando palavras que Kirk não precisava ouvir para saber que não soavam nem um pouco contentes. Spock estava a cerca de dois metros na frente do médico, rígido como uma coluna de mármore, seu rosto menos expressivo que uma parede branca. Um alerta vermelho soou na cabeça do loiro, gritando que aquilo não poderia ser boa coisa.
O Vulcan foi o primeiro a ver Kirk. Seus olhos de chocolate fixaram-se certeiramente sobre seu capitão, quase como se sentisse sua presença. McCoy não demorou a seguir o olhar do outro, franzindo suas sobrancelhas perigosamente com a visão. Kirk só teve tempo de engolir em seco antes do médico disparar de onde estava, atravessando rapidamente a porta que dava para a enfermaria.
— Você perdeu a cabeça? Ou pior, fez ele perder a cabeça? — Esbravejou, dando ênfase ao “ele”, indicando Spock com uma das mãos quando ele cruzou a porta, logo atrás de si. — O que está fazendo aqui? Volte para lá, ande, ande.
— Bones, calma ai. Eu estou bem agor... — Foi cortado por um McCoy impaciente, praticamente rebocando-o de volta para a Biobed de onde tinha vindo.
— Uma ova que você está. Não aguento mais ouvir essa ladainha de “estou bem, estou bem”, foi por causa dela que nos enfiamos nessa maldita situação. Deite-se ai, agora fique quieto. — Kirk deitou-se a contra gosto, e logo seus sinais vitais preencheram o painel acima da biobed. McCoy e Spock fixaram os olhos no aparelho quase ao mesmo tempo, analisando aqueles dados com tanta atenção que Kirk manteve-se completo silêncio, temendo atrapalhá-los de alguma forma. O médico foi o primeiro a baixar os olhos, suspirando, antes de voltar a falar.
— Pronto, pode se sentar se quiser. — E foi o que Kirk fez, deixando que suas pernas pendessem para fora da biobed, porém sem tocar o chão. Mal havia terminado de se acertar em sua nova posição quando a voz de McCoy voltou a preencher a enfermaria vazia. — Sério Jim? Uma fusão? Na condição em que sua mente está? Não passou pela sua cabeça, ou melhor, pela cabeça de vocês — Virou-se para Spock, olhando-o de modo acusador — O quão perigoso isso poderia ser? — Kirk já havia aberto a boca para responder, mas foi forçado a engolir suas palavras quando Spock se mostrou mais rápido.
— Eu calculei os riscos antes de realizar a fusão, e as chances de desencadear alguma reação como essa era de apenas 13,78%. Não previ que a mente do capitão fosse reagir daquela forma, por isso assumo toda a responsabilidade sobre o incidente.
— Não se trata de assumir responsabilidades, Spock. Trata-se do que diabos vocês estavam pensando com aquilo. Onde vocês queriam chegar? Achei que tínhamos resolvido que tentaríamos convencê-lo a se tratar, você mesmo disse isso.
— Eu disse, realmente. Temo não ter tido sucesso nessa tarefa — Spock fez uma pausa, e seus olhos encontraram os azuis de seu capitão por um breve momento. Era um olhar recheado de cumplicidade, e só naquele momento ocorreu a Kirk que Spock provavelmente não contara a McCoy sobre o que havia acontecido em seu quarto na noite anterior. Uma onda de gratidão inundou-o com a descoberta, e ele finalmente se manifestou.
— Eu não posso aceitar esse tipo de tratamento, Bones. Mesmo que eu me cure completamente do que quer que esteja acontecendo comigo, a Federação nunca olhará para mim com os mesmo olhos. Não faça essa cara, você sabe como as coisas são. Eles nunca confiarão em mim para comandar uma nave novamente. —McCoy exalara o ar com mais força do que deveria depois das palavras de Jim, e era nítido em seu rosto que ele sabia como as coisas eram, mas ao mesmo tempo ele só queria o bem de seu melhor amigo.
— Não há outra solução, Jim. Se você continuar sem tratamento, eventualmente eles irão descobrir. Isso se algo ainda mais sério não acontecer antes.
— Há sim. E era exatamente isso que estávamos começando a trabalhar mais cedo, com a fusão. Spock acha que pode me ajudar com um método de fusão Vulcan, o que ficaria só entre nós, e a Federação não precisaria se envolver.
— Ah, um método Vulcan. — O médico apertou os olhos, cruzando os braços. — E como exatamente um método de fusão, que é usado entre telepatas sem emoções, vai ajudar um não telepata a se curar de um problema quase estritamente emocional? — Ele deu uma breve pausa, olhando de Jim para Spock. — Vocês percebem o quão ridículo isso soa?
— Se me permite corrigi-lo, Doutor, os Vulcans são seres tão providos de emoções quanto os seres humanos, somos apenas menos suscetíveis a elas. A diferença crucial entre nossas espécies nesse aspecto, é que os Vulcans são educados desde sua infância para controlar perfeitamente suas emoções, de forma a não permitir que elas interfiram ou, principalmente, se sobreponham ao pensamento lógico. — McCoy só torceu os lábios com as palavras de Spock, ignorando sua explicação prontamente.
— Independente disso, Spock, você sabe algo sobre a mente humana? Sabe como nossa psique funciona, as conexões que nosso inconsciente faz, todas as suas particularidades e sistemas de defesa? Você sabe alguma coisa de psicologia? — Kirk notou uma ligeira contração nos lábios do Vulcan enquanto McCoy despejava todo aquele sermão, assim como nas sobrancelhas. Era algo quase imperceptível, que qualquer pessoal normal não repararia se não estivesse olhando com muita atenção. Mas Kirk estava , e com o punhado de informações que ele tinha adquirido sobre a linguagem corporal de Spock, ele se permitiu interpretar aquilo como sinal de uma possível irritação. O médico não estava tão atento, Kirk nem esperava que estivesse, e simplesmente continuou falando. — Como você pretende fazer alguma coisa por ele se simplesmente não sabe o que está fazendo? Você não pode tratá-lo como um Vulcan, porque ele é um ser humano. Ele deve se tratar com pessoas que estudaram anos para resolver esse tipo de problema, e não com um metido a sabe tudo alienígena. — McCoy parecia querer continuar, mas Spock o interrompeu sem cerimônias.
— Se o doutor já tiver satisfeito sua ilógica vontade de tentar me insultar, acredito que eu possa deixar claro os motivos que me levaram a fazer as escolhas que fiz. — O medico cruzou os braços, encostando-se parcialmente na biobed onde Kirk estava sentado, a dois palmos do loiro. Ele encarava o Vulcan com uma de suas melhores expressões de deboche.
— Como quiser.
Spock fez um leve movimento de cabeça, como sempre mantendo a impecável educação.
— Ótimo. Ao fim de meu turno de ontem fui até os aposentos do capitão, a com o objetivo de questioná-lo sobre seu comportamento em Betazed IV e dialogar sobre a solução que havíamos discutido na enfermaria mais cedo. Durante nossa conversa ele citou a possibilidade da Federação não aceitá-lo de volta a seu cargo caso aceite o tratamento convencional, e essa possibilidade me intrigou. Depois disso, dediquei algumas horas á comprovar a veracidade dessa informação, descobrindo que é um fato inegável; dos capitães de naves da Frota Estelar que apresentaram algum tipo de transtorno psicológico relacionado direta, ou indiretamente, a seu trabalho em campo, apenas 8% manteve seu posto. Os outros 92% foram redesignados a postos onde havia pouca, ou nenhuma, possibilidade de serem expostos a situações de risco. Desses 92%, apenas 12% eram esporadicamente designados a missões de campo. Todos os capitães receberam seus devidos tratamentos depois de terem sido diagnosticados, e todos receberam alta de seus psicólogos, e psiquiatras, em alguns casos. Comprovada essa tendência da Federação a não confiar totalmente no julgamento de seus próprios psicólogos, não me parece sábio expor o capitão ao enorme risco de ser redesignado a outro posto, principalmente depois de mostrar sua notável aptidão para o comando.
— “Notável aptidão para o comando”? Obrigado, Spock. — O rosto de Kirk moveu sem a sua permissão, e quando percebeu já estava sorrindo. O primeiro oficial respondeu-o com um leve aceno, e um piscar ligeiramente mais demorado. Enquanto isso, McCoy ainda parecia impaciente ao lado deles.
— Ok, essa parte pode até ser verdade. Mas o que faz você acreditar que essa técnica Vulcan vai ajudá-lo tanto quanto um tratamento convencional ajudaria? — Spock voltou sua atenção para o médico com a pergunta, ajeitando sua postura antes de responder.
— A técnica por si só não será suficiente para recobrar a ordem na psique do capitão. Exatamente por ele não ser telepata, e eu não ter o mesmo conhecimento que um curandeiro Vulcan, que ela terá suas limitações. Porém, tenho pretensão de aplicar conceitos da própria psicologia humana no tratamento, ao quais seriam potencializados como seu uso durante as fusões — Spock notou a mudança de expressão no rosto de McCoy, e se adiantou antes que fosse interrompido — Antes de despejar suas ofensas, Doutor, friso que pretendo estudar minuciosamente essa área de atuação. Tenho conhecimento do quão perigosas as técnicas de psicologia podem ser quando aplicadas incorretamente, e não correrei riscos desnecessários.
— E como Jim ficará enquanto você “estuda”? Não dá pra deixar o capitão de uma nave estelar trancado em seus aposentos para sempre.
— Permita-me lembrar que minha capacidade de reter conhecimento é muito maior que a de humanos. Se tudo correr como planejo, terei adquirido todo o conhecimento que preciso dentro de 5,4 dias.
— Ok, gênio, mas ainda é tempo de mais pra manter o capitão isolado sem atrair atenção indesejada.
— Por esse motivo precisaremos de sua cooperação, Doutor McCoy. — O médico ergueu as sobrancelhas, mas Spock apenas continuou. — Não há condições de manter o capitão recluso a seus aposentos durante todo esse tempo, e eu acredito que ele nem ao menos ache isso vantajoso. Por isso, creio que o melhor a fazer seria deixar que retome seus afazes normais na ponte. – O Vulcan dirigiu o olhar a Jim com as próximas palavras. – Mantendo o bom senso de evitar situações possivelmente estressantes, é claro. Isso por si só já reduziria em 42% a possibilidade de uma nova crise, por hora. Mas ainda não é uma margem segura o suficiente, o que me leva a recorrer a seus conhecimentos médicos. Essa porcentagem se elevaria a no mínimo 78,3% se o Doutor concordar em medicar o capitão com algum tipo de ansiolítico durante esses primeiros dias. – McCoy já esperava por um pedido desse, mas isso não o impediu de mudar sua expressão para uma carranca desagradável. Kirk não teve uma reação muito diferente; seu desconforto ao citar as medicações nítido em sua face.
— Hey, hey, espera aí. Você não tinha me falado nada sobre remédios. — A voz de Jim apareceu na conversa, depois de alguns bons minutos em que se conteve em apenas observar seus dois amigos discutirem sobre seus problemas. McCoy seguiu o protesto do capitão logo depois. — Eu sou só um médico, não um psiquiatra. Não acho seguro passar esse tipo de medicamento a Jim sem um diagnóstico prévio.
Spock não se deixou abalar pela recepção negativa de sua sugestão, e sua voz se mantinha no mesmo tom sereno. — Você está sendo radical, Doutor McCoy. O senhor sabe que existem ansiolíticos fracos que podem ser receitados por médicos, não necessariamente psiquiatras. Esses medicamentos tiveram seus efeitos colaterais erradicados, não prejudicando a coordenação motora ou a cognição do usuário enquanto cumprem sua função de diminuir a ansiedade e a tensão — O Vulcan dirigiu-se a seu capitão agora, lhe direcionando um olhar tranquilizador — Esse remédio agirá como um filtro para os estímulos que possivelmente desencadeariam uma crise de pânico, tornando-os menos agressivos. Também ajudará o senhor a se sentir mais relaxado, contribuindo também para um sono mais estável, se estiver com problemas para dormir.
Kirk cruzou os braços, mordendo o lábio sem perceber. Apesar de já ter se acostumado com remédios em geral, a ideia de ter um controlando a forma como sentia psicologicamente não tinha como ser agradável. Mas ter um surto no meio da tripulação não era uma opção, portanto ele não tinha escolha. Desconfortável ou não, era o que tinham, e ele não poderia se dar ao luxo de reclamar.
—Contanto que isso não me deixe dormindo em minha cadeira durante todo o turno, eu posso me acostumar. — Depois de sua declaração, tanto Kirk quanto Spock viraram se para McCoy. – E então Bones? O que diz, vai nos ajudar ou teremos de nos virar sozinhos?
McCoy suspirou, abaixando momentaneamente sua cabeça enquanto passava a mão pelo rosto.
— Vocês tem a noção do quanto isso tudo é antiético, não é?
— Há controvérsias nesse caso em específico, Doutor. — Kirk viu McCoy levantar a cabeça, a mão ainda no rosto enquanto respirava profundamente. Olhava para Spock com um ar quase homicida, mas o capitão sabia que ele estava prestes a ceder. Não havia mais o que dizer, Spock o cercara por todos os lados, seus argumentos eram irrefutáveis. O médico procurou Jim com os olhos cansados, só para vê-lo erguer as sobrancelhas para si. McCoy ergueu as mãos a altura dos ombros, vencido.
— Se você realmente não vê problema em confiar a sua sanidade a magia negra Vulcan do Spock, o que mais eu posso falar? Só espero que realmente dê certo, e eu não me arrependa de ter permitido essa maluquice de vocês dois. — Spock ergueu uma sobrancelha, e Kirk quase não conseguiu se impedir de revirar os olhos com a implicância gratuita de McCoy.
— A telepatia Vulcan não é “magia” Doutor, posso lhe fornecer pelo menos 79 fatos que comprovam isso.
— Ele sabe, Spock, está só implicando com você. — Kirk disse, atraindo um olhar irritado pelo canto dos olhos do Doutor, que já se desencostava da biobed onde esteve durante toda a conversa, movendo os ombros incomodamente.
— Enfim, acho que já acabamos, não? Tive que transferir três pacientes que estavam em observação aqui para outra ala só pra poder atender o nosso querido capitão com privacidade, e agora tenho que arrumar algumas explicações para eles e para os enfermeiros que tranquei lá com eles. — Spock fez menção de falar algo, mas McCoy ergueu a mão no mesmo instante, interrompendo-o antes que começasse — Amanhã, Spock. Passe aqui antes do seu turno, e conversaremos os detalhes desse seu plano maluco. E você, Jimmy boy— Leonard deu um tapinha singelo no joelho de Jim, virando-se para um dos armários próximos a biobed enquanto continuava. — Vou te dar um sedativo bem leve só pra te ajudar a dormir, e amanhã veremos como ficará essa medicação.
Jim ia retrucar, chegou a torcer os lábios em uma discreta careta, mas desistiu no meio do caminho. De que adiantaria? Só adiaria o inevitável, e ele já estava fazendo isso a um bom tempo. E convenhamos, ele não tinha uma noite de sono decente há tanto tempo que a possibilidade de dormir uma noite inteira começava a ser tentadora de mais para resistir. Depois do cansaço e da necessidade destroçarem a barragem do seu orgulho na noite anterior, o resto ficava mais fácil. O que era mais um chute para quem já estava no chão?
McCoy não demorou mais do que dois minutos remexendo nos armários, até voltar para o lado de Kirk com um hypospray e uma pequena maletinha preta nas mãos. Ele a colocou delicadamente sobre a maca, abrindo-a, e logo vários frascos de medicação surgiram de dentro dela, alinhados em fileiras numa ordem que parecia ser alfabética. O médico passou o dedo pela etiqueta de alguns deles, até parar sobre um dos últimos da segunda fileira. Tirou o frasco de lá, acoplou-o ao hypospray e virou-se para Kirk.
O capitão apenas esticou o pescoço para McCoy, dando-lhe espaço. A picada veio logo em seguida; rápida como sempre, incômoda como sempre.
— Pronto, agora já pode ir. É provável que já comece a se sentir sonolento nos próximos segundos, mas nada muito significativo. — O médico virou-se para guardar os objetos que retirar do lugar, enquanto Kirk passava a mão sobre o pescoço, levemente desconfortável com a conhecida dor da picada enquanto descia da maca onde estava sentado.
— Eu preciso passar aqui antes do turno também?
— Claro que precisa. Agora vão, tenho muitas coisas para fazer. — O médico virou-se para o capitão e o primeiro oficial apenas para dirigi-los um aceno que poderia ser interpretado como uma despedida, mas Kirk sabia que estavam apenas sendo enxotados. Ele riu, já se voltando para a saída. — Ok, ok. Obrigado, Bones.
— Tenha uma boa noite, Dr.McCoy. — Spock disse cordialmente ao seu lado, seguindo-o para fora da enfermaria. Ainda puderam ouvir o bom médico resmungando antes da porta se fechar atrás de ambos, o que conseguiu arrancar mais um discreto sorriso de Jim. O mau humor de seu amigo era simplesmente cômico, mesmo nessas situações.
— Eu realmente achei que ele seria totalmente contra sua ideia, mas até que foi fácil convencê-lo.
— O Doutor entende que meus argumentos são lógicos, e que essa é a melhor de nossas alternativas. Ele também considera demasiadamente a amizade pelo senhor para levar em conta os fatos que lhe apresentei sobre a Federação, e evitar colocar sua carreira em risco. — As palavras do Vulcan atraíram o olhar de Kirk, assim como um singelo sorriso para seus lábios enquanto murmurava uma baixa afirmação.
Antes que percebesse, foi tomado por uma vontade incontrolável de bocejar. Seus olhos pesaram, e seu corpo todo relaxou. Quase tropeçou em suas próprias pernas devido a todo esse relaxamento repentino, e nada disso passou despercebido para o atento Vulcan ao seu lado.
— Aconteceu algo, capitão?
— Não, está tudo bem, só quero chegar logo a minha cama. Esse remédio já está começando a fazer efeito e eu não quero acabar desmaiando de sono no meio do caminho.
Spock concordou com um aceno, e o resto da caminhada até seus aposentos foi feita num silêncio confortável. Demoraram pouco mais de cinco minutos para chegar a seu destino, mas quando chegaram a frente à entrada do quarto de Kirk, o capitão já estava quase fechando os olhos. Ele apoiou-se no batente da porta, virando-se para seu primeiro oficial com um sorriso abobalhado pelo sono.
— Eu te convidaria para uma partida de xadrez, mas provavelmente dormiria antes mesmo de acabar de arrumar as peças.
— Eu compreendo. É melhor que o senhor descanse, então. —Os olhos de Spock discretamente percorreram o corredor, e percebendo que não havia tripulantes por perto, continuou. — Se sentir algo durante a noite, peço que não hesite em contatar o Dr.McCoy ou a mim. Estarei aqui o mais rápido que puder, se precisar de mim.
— Pode deixar, mamãe. — Kirk riu, já com fala meio mole. Spock ergueu uma sobrancelha para ele, o que só o fez sorrir ainda mais.
Ele ficou ali, sorrindo bobamente, olhando para seu primeiro oficial todo preocupado com a sua saúde, e ele percebeu que aquilo lhe aquecia por dentro. Era uma sensação engraçada, um formigar que nascia em algum lugar perto do estômago e se estendia efusivamente por todo seu corpo, anestesiando por onde passava. Isso se atrelava a uma sensação de conforto e relaxamento tão plena, que ele sentia-se quase flutuar. Kirk sabia que deveria ser apenas algum efeito colateral do remédio de McCoy, mas seu olhar estava magnetizado pelo outro.
— Há algum motivo em especial para o senhor estar me olhando dessa forma, capitão? — Longos segundos em que Kirk apenas o encarava já haviam se passado quando Spock cortou o silêncio, trazendo seu capitão de volta a realidade. Kirk piscou os olhos algumas vezes e balançou de leve a cabeça, sentindo-se repentinamente envergonhado, quase como se tivesse sido pego fazendo algo que não deveria.
— Oh, desculpe. Acho que esse remédio me deixou meio chapado, melhor ir deitar. — Ele coçou a nuca, desencostando-se do batente da porta. — Boa noite, Spock.
— Boa noite, capitão. — Spock apenas curvou de leve a cabeça em um cumprimento simples, e continuou onde estava. Kirk sabia que ele não sairia dali enquanto a porta não se fechasse, então apenas deu um passo para trás, numa permissão muda para os sensores. Ainda houve uma última troca de olhares, que veio junto com um pouco mais daquela sensação engraçada, então a porta se fechou.
Kirk suspirou para seu quarto vazio, virou-se e foi direto para sua cama, retirando as peças de roupa pelo caminho. Jogou-se de qualquer jeito na cama, enroscando-se preguiçosamente em seus lençóis, e em menos de um minuto já havia caído no sono.
Naquela noite não houve pesadelos, suadouros nem faltas de ar. Não houve desespero, culpa, nem medo. Houve apenas a consciência confortável de que ele não estava sozinho, e aquilo proporcionou a melhor noite de sono que tivera desde que voltara à Enterprise.
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