About a broken soul and a new bond

7 The attempt to organize the chaos


Notas iniciais
Hey, meus amores, EU VOLTEI! É, tô sabendo que eu demorei absurdos pra postar e vocês devem estar querendo arrancar o meu couro. Minha gente, eu tava (ainda tô, esse inferno astral ainda não acabou) no meu último período de faculdade, enfrentando o tão temido monstro do TCC. Eu sei que vocês podem encontrar bondade nos seus corações pra me perdoar ;-; Oh, mais uma coisa. Esse capítulo só passou por uma das minhas betas, a outra tá em período de vestibular e não pode corrigir ele, então se encontrarem algum errinho ai me avisem pfv. Agora vão lá a aproveitem a leitura e DESSA VEZ TEM MÚSICA Música: Set You Straight - Digital Daggers

Kirk dormira tão bem naquela noite que acordar parecia um pecado, quase uma heresia. Seu sono fora profundo, tranquilo e estranhamente renovador. E estava tão bom, que seu despertador só começou a acordá-lo no terceiro toque, 45 minutos depois da hora que deveria levantar.

Com muito esforço, abandonou seus lençóis e foi se preparar para encontrar McCoy. Arrastou-se pelo quarto em direção ao banheiro, na intensão de tomar um banho rápido. A ducha quente do chuveiro caia sobre seu corpo como numa massagem, dando-lhe a consciência do relaxamento que se espalhara por todos os seus músculos. Respirou profundamente o vapor morno que inundava o banheiro, sorrindo para si mesmo.

Quando foi a última vez que se sentiu leve daquela maneira? Já nem se lembrava mais. Era como acordar de um pesadelo e dar-se conta de que, no fim, fora só um pesadelo.

Relutante, saiu do banho, caminhando de volta para seu quarto com uma calma atípica de quem estava atrasado. Nesse mesmo ritmo colocou seu uniforme de capitão, e até fez um esforço para comer algumas torradas antes de sair, apesar de não conseguir passar da terceira. “Um passo de cada vez, bonitão.” Pensou, ligeiramente enjoado com o seu projeto de café da manhã. Só então tomou consciência da hora, e reparando estar mais de uma hora e meia atrasado, saiu apressado pelos corredores.

Durante todo o percurso até a enfermaria, não havia um tripulante que não cumprimentasse seu capitão. Alguns apenas murmuravam um “capitão” e acenavam discretamente com a cabeça, outros exageravam com continências e um “capitão” muito mais firme. As mulheres, principalmente as mais jovens, exibiam seus melhores sorrisos ao cumprimenta-lo. Um grupo de cadetes da engenharia até perguntou como ele estava, preocupado com sua saúde depois da dispensa médica de um dia que recebera. Kirk respondia a todos com um sorriso simpático, sentindo-se verdadeiramente contente com todo aquele apreço que sua tripulação parecia ter para com ele.

Isso era algo realmente importante para ele. Essas pessoas eram como sua família, e era também por eles que tinha de se esforçar para melhorar, e voltar a ser o capitão que eles tanto estimavam. E ele iria, lutaria para melhorar até se esvair a última gota de energia de suas células. Por incrível que parecesse, confiança e esperança não era o que faltava a James T. Kirk naquele dia.

Quando finalmente chegou a enfermaria, não viu McCoy. Andou pela sala principal, chegando até a entrada da sala de observação, e nem sinal do médico chefe. Ele devia parecer procurar por algo, pois logo foi abordado.

— Posso ajudar, capitão? — Era Asha, uma das médicas de McCoy. A denobulana* parara logo ao lado de Kirk com um PADD em uma das mãos, encarando-o interrogativamente. Jim virou-se para ela, ainda passando os olhos pela enfermaria a procura de seu amigo sulista.

— Na verdade sim, Dr.Asha. O Doutor McCoy está por aqui?

— Dr.McCoy saiu há apenas alguns minutos atrás, disse que iria tomar um café. É urgente, capitão? Posso chama-lo pelo comunicador, se o senhor quiser.

— Não, está tudo bem, eu espero. Informe-me quando ele chegar, por favor.

— Claro, senhor. Com licença — Ela curvou seus lábios em dos enormes sorrisos típicos de denobulanos, e após o cumprimentar com um aceno de cabeça retirou-se para o outro lado da enfermaria graciosamente.

Jim pensou em ir esperar McCoy na sala dele, mas descartou logo a ideia. Para ficar trancado numa sala completamente sozinho por sabe-se lá quanto tempo, ele preferia ficar por ali mesmo. Pelo menos ainda poderia observar a movimentação na enfermaria para se distrair, o que era melhor do que encarar paredes vazias.

Mas para seu azar, não havia quase ninguém por ali. Além de Asha, somente três enfermeiros transitavam pela extensa sala; duas mulheres, e um homem. Os quatro estavam mais ao fundo da sala, e pareciam conversar sobre algum assunto clínico particularmente interessante, todos com os PADDs nas mãos.

Quase todas as macas estavam vazias, com exceção de duas. Uma delas estava cercada pelas cortinas brancas que cercavam os leitos, o que fazia Kirk supor que seu ocupante ainda estivesse dormindo, ou simplesmente não quisesse ser incomodado. Na outra a situação era inversa; as cortinas estavam completamente abertas, e uma tripulante, ainda com o uniforme azul de ciências, parecia estar entediada de mais para se manter parada. Kirk pensou em fazer um favor para ela, e para si mesmo, e resolveu socializar um pouco.

— É uma baita crise de alergia essa sua, cadete — O capitão disse, quando já estava quase ao lado da biobed da tripulante. Ela virou o rosto para ele, sobressaltada. De alguma forma não havia notado a presença de Jim, e seus olhos verdes dobraram de tamanho quando percebeu se tratar do capitão da nave falando com ela. Atrapalhou-se ao fazer uma continência para seu oficial superior, o que só arrancou um sorriso de Kirk. Arrancar essas reações das pessoas era uma das coisas mais divertidas de ser capitão.

— Relaxe, não precisa ser tão formal, eu não sou um ditador malzão. Na verdade, sou tão legal quanto pareço ser. — Ele tranquilizou-a, mas não pareceu fazer muito efeito, ela ainda parecia tensa com a sua presença. Kirk tentou lembrar o nome dela, mas ele não lhe vinha à mente. Sabia que era uma das novas cadetes que embarcaram no início da missão de cinco anos, e como todos designados a usarem aquele distinto vestido azul, era um prodígio da ciência. Ela tinha cabelos ruivos que caiam em ondas sobre os ombros, até um pouco antes do meio das costas. Tinha o rosto em formato de lua salpicado de sardas, traços amigáveis e um belo par de olhos verdes, grandes e expressivos. Era bem bonita, aquela cadete, e com certeza Jim sabia o nome dela, só precisava de um alguns minutos para se lembrar.

— Então, como conseguiu essa alergia? Spock anda obrigando seus cadetes a fazerem experimentos estranhos? — Jim indicou as marcas avermelhadas nos braços, pernas e pescoço da cadete, e ela olhou para si mesma, aparentemente esquecendo porque estava ali.

— Ah, não. — Ela se lembrou, voltando o olhar para seu capitão — Eu estava apenas estudando algumas amostras da flora do planeta, mas uma delas se comportou de maneira anormal quando fui dissecá-la, e quando percebi ela estava liberando um gás que se espalhou por toda a sala. Todos ficaram bem — Ela se apressou em dizer, notando um início de preocupação na face de Jim — Os gases não era realmente tóxico, pelo menos não pra todos. Aparentemente eu tenho alergia a algum componente da fórmula, o que me fez ter essa reação — Ela completou, com um ar meio muxoxo enquanto coçava discretamente uma das marcas avermelhas nos braços.

— Entendo como se sente, essas coisas inusitadas sempre acontecem comigo também. — Kirk confessou, num súbito momento de franqueza. A cadete pareceu interessada, e ele aproveitou o momento para narrar um cômico episódio de sua vida onde tivera uma terrível alergia a um dos pratos servidos num jantar diplomático em Talax** com mais de 400 convidados.

McCoy chegou alguns poucos minutos depois, no exato instante em que Kirk contava sobre o momento em que vomitava todo que tinha comido ao lado da cadeira do embaixador Talaxiano***, levando a cadete ruiva a tampar a boca para conter um riso histérico. O médico chegou por trás de seu capitão, metendo-se descaradamente no meio da conversa.

— Oh, eu lembro muito bem desse dia. Os Talaxianos tem o maior orgulho de sua culinária, o que fez esse “incidente” quase terminar como um desastre diplomático. Por sorte ele tem o melhor médico chefe de toda a Frota Estelar para salvar a sua bunda. — Ele sorriu cinicamente, continuando antes que seu capitão pudesse dizer qualquer outra coisa. — E eu odeio interromper, mas temos coisas a fazer, você se lembra?

— Eu tenho é o médico chefe com o maior ego da Frota, isso sim — Jim resmungou, e a cadete deu um risinho, mas McCoy pareceu ignorar. Ele fez um último esforço para lembrar o nome da ruiva, mas sua memória não parecia com a mínima vontade de cooperar, então desistiu.

— Melhoras, cadete — ele disse amigavelmente, com um rápido aceno de cabeça. Ela respondeu um “obrigado, capitão” tímido, e logo em seguida Kirk se retirou para a sala de McCoy junto com o médico.

— E só pra constar, meu ego nem é tão grande. Caso contrário não caberia nessa nave junto com o seu — O doutor disse com um sorriso torto, assim que a porta de sua sala se fechou atrás deles. Kirk riu. — É claro, Bones. Seu senso de humor está esplêndido nessa manhã. — Ele se sentou na cadeira em frente à mesa de McCoy ainda sorrindo, enquanto seu amigo fazia o mesmo do outro lado.

— Como poderia estar de outra forma? Passei metade da noite cuidados dos pacientes que você me fez dispensar ontem, o que significa que dormi bem mais tarde do que deveria, e fui acordado duas horas antes do combinado por um Vulcan que não sabia esperar — O médico bufou, apesar de não estar tão irritado como fazia parecer. E apesar de seu esforço, Kirk também sabia disso.

— Você falou com Spock, então?

— Passei as últimas 3 horas fazendo isso.

— Nossa, não sabia que vocês tinham tanta coisa para falar.

— Nem eu. — McCoy moveu os lábios numa careta meio cômica, depois cruzou os braços, um pouco mais sério. – Conversamos melhor sobre como conduzir o seu “tratamento”, e acabamos entrando num consenso. — Jim ergueu as sobrancelhas, mas McCoy não deu chance para uma possível réplica engraçadinha de seu capitão, e apenas continuou.

— Eu não vou participar diretamente das sessões com vocês, mas serei informado de tudo que for feito durante elas. Além disso, Spock me mandará relatórios semanais sobre sua condição, e de acordo com eles eu controlarei sua medicação. Ele lhe explicará melhor como tudo será direcionado quando terminar seu intensivão de cinco dias, enquanto isso vamos cuidar da parte que me diz respeito. — McCoy pegou o PADD que estava sobre sua mesa, pronto para anotar as respostas de Kirk. — Como você está se sentindo hoje?

— Menos miserável do que tenho me sentindo nos últimos dias. Bem menos, na verdade. — Kirk foi sincero, se sentir “bem” era de mais para sua condição, apesar dela estar melhor do que todos os últimos dias que tivera a bordo a Enterprise. McCoy levantou uma sobrancelha pra ele.

— Como foi o seu sono?

— Foi bom, consegui dormir a noite toda sem acordar nenhuma vez.

— Teve sonhos?

— Nenhum.

— Teve dificuldade para acordar?

— Talvez um pouco. Demorei para ouvir o despertador, mas acho que for porque não dormia direito a muito tempo.

— Hm — O médico resmungou, voltando os olhos para seu PADD enquanto digitava algo. — Está sentindo algum tipo de moleza, sonolência, letargia ou apatia, algum tipo de torpor? — Perguntou, levantando os olhos para observar seu capitão.

Kirk pensou um pouco, ajeitando-se em sua cadeira.

— Acho que não, mas não tenho certeza. Sinto-me relaxado, mas não a ponto da sonolência. E não me acho entorpecido, minha cabeça só está um pouco... Leve. E talvez eu esteja me sentindo confiante, quase otimista.

McCoy estudou-o por alguns minutos, voltando-se para seu PADD logo depois. Kirk pensou sobre aquelas perguntas por alguns segundos, e uma dúvida surgiu em sua cabeça.

— Espera, porque você está me perguntando tudo isso? Essa minha mudança de humor tem alguma coisa a ver com a medicação que você me deu ontem? — Ele perguntou, cruzando as pernas em sua cadeira. McCoy terminou de digitar em seu PADD, deixando-o de lado na mesa antes de cruzar os braços, recostando-se em sua cadeira.

— Tem, obviamente. O que eu te dei ontem era na verdade um composto de sedativo e antidepressivo, mas é bem levinho, não surte. Baseado nessas suas respostas de agora que eu vou te passar o ansiolítico. — O médico levantou de sua cadeira, encaminhando-se para a estante que ficava logo atrás de sua mesa.

— Porra Bones, você poderia ter me dito. — Kirk soou verdadeiramente ofendido em sua cadeira, o som de “antidepressivo” não parecendo agradável a seus ouvidos. McCoy apenas bufou para ele de onde estava.

— Que diferencia faria? Eu iria te contar hoje, de qualquer forma. São apenas nomes, Jim, não se prenda a eles. — O moreno voltou para sua mesa com uma maleta preta um pouco menor que uma pasta nas mãos. Ele parou ao lado da cadeira de Kirk, colocando-a em cima de sua mesa, abrindo-a logo em seguida. Dentro dela havia um hypospray e duas caixas quadradas cinza chumbo, com não mais do que 10 centímetros de largura, e talvez metade disso de altura.

— Esse é o composto — McCoy apontou para a caixa da direita, que tinha um “2” escrito com uma caneta vermelha de ponta grossa em sua parte de cima. — Você deve tomá-lo sempre antes de dormir, uma ampola inteira. Dependendo de como andar suas sessões com Spock eu diminuirei a dose. — Kirk inclinou-se para frente, a fim de ver melhor.

— Uma ampola inteira? Isso não é muito? — Perguntou, pegando a caixa a qual o médico se referia. Abriu-a, analisando as várias ampolas de medicação lá dentro.

— Não, Jim. Eu fiz essas ampolas especificamente para o seu caso, então elas tem uma dose diferenciada. Aqui, repare– Ele pegou uma ampola da mão do loiro, levantando-a contra a luz, de forma que ficasse nítido o seu conteúdo — Elas não estão cheias, longe disso. E essas doses são até baixas para os padrões dessa medicação. — Kirk balançou a cabeça, murmurando uma confirmação enquanto observava o líquido encher a ampola até um pouco menos da metade, apenas. O médico devolveu a medicação que segurava para sua respectiva caixa na mão de seu amigo, voltando a sua explicação.

— Continuando, esses são os ansiolíticos — O médico apontou para a outra caixa, atraindo o olhar de Jim. Como a outra, essa caixa também tinha um número escrito com caneta, sendo nessa um ”1”. — Essa dose é um pouco maior, e você deve tomar sempre depois do café da manhã. — McCoy abriu a caixa para mostrar as ampolas a Jim, essas cheias até um pouco acima da metade. Ele pegou uma delas e o hypo, voltando-se para o capitão — Você já comeu alguma coisa hoje?

— Já.

— Então vou aproveitar e já aplicar para você. — Kirk deu de ombros, não muito feliz, mas sem poder fazer nada a respeito. Teria de tomá-las, e uma forma ou de outra mesmo. McCoy preparou o hypospray, aproveitando para dar instruções a Jim de como aplicá-lo em si mesmo. Não era difícil, levando em conta que esse hypo poderia ser aplicado intramuscular. Depois da breve explicação veio uma rápida picada no bíceps de Jim, e a medicação já estava feita.

— Tome — O médico guardou o hypospray de volta na maleta, entregando-a a Jim. — Lembre-se de tomar as medicações no horário certo. Semana que vem você vai voltar aqui para vermos como ela está funcionando e, se precisar, acertarmos a dose.

Kirk concordou com um aceno e pegou a maleta, já se levantando de sua cadeira quando McCoy o chamou mais uma vez.

— Jim, eu sei que você não gosta nem um pouco da ideia de tomar esses remédios, eu também não gostei dela no início, mas eles o ajudarão a segurar essa barra por enquanto. Prometo retirá-los assim que der, mas no momento não há nada que eu possa fazer. — McCoy encolheu os ombros, apoiando-se em sua mesa. Kirk sentiu o incentivo e o pesar em sua voz ao mesmo tempo, e isso trouxe um sorriso a seus lábios.

— Pode deixar, Bones. E obrigado pelo que você está fazendo por mim. — O médico sorriu de volta, um caloroso sorriso que apenas melhores amigos podem dar. — Não me agradeça, Jim, apenas melhore. Agora vá que já passou da hora de você estar na ponte, e daqui a pouco o duende verde liga pra cá te procurando.

— Ok, ok. — Disse o capitão, ainda sorrindo. Ele deixou a sala de McCoy logo em seguida, passando em seus aposentos para guardar a maleta de medicação antes de correr – ou o mais próximo disso que um capitão de uma nave estelar pode fazer sem parecer ridículo – até a ponte.

As portas se abriram com aquele ruído costumeiro, e logo os ouvidos de Jim eram preenchidos com um “Capitão na ponte” na voz e sotaque carregado de Chekov enquanto caminhava até sua cadeira de capitão. O Tenente que a ocupava já havia se levantado antes de qualquer palavra de seu superior, e já se virava para cumprimentá-lo com um aceno.

— Foi mal pelo atraso, Tenente Fields. Você será compensado no próximo turno.

— Não foi nada, Capitão. O senhor está se sentindo melhor hoje? — Kirk piscou, por um momento esquecendo o que fora dito a sua tripulação sobre sua falta no dia anterior. Ele coçou a parte de trás do pescoço, sorrindo. — Estou bem, agradeço pela preocupação. — Fields retribuiu seu sorriso, e logo em seguida deixou a ponte.

Jim acomodou-se confortavelmente em sua cadeira, suspirando levemente. Antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, seu primeiro oficial surgiu ao seu lado.

— O senhor esteve com o doutor antes do turno, capitão?

— Bom dia para você também, Sr.Spock — Disse, olhando para Spock com uma mágoa fingida. Obviamente não estava magoado, só fazia isso para ver Spock olhar para ela daquela maneira engraçada, como estava fazendo agora. Ele inclinava a cabeça para o lado, ao mesmo tempo em que franzia o cenho, ambos de forma mínima e quase imperceptível. Normalmente isso era seguido de um discurso sobre a inutilidade lógica daquela expressão humana levando em consideração que o conceito de dia e noite não se aplicava a uma nave estelar, mas dessa vez o Vulcan só se manteve em silêncio enquanto encarava seu capitão.

— Bom dia, capitão — Ele disse, repentinamente depois de alguns segundos.

— Agora sim — Kirk sorriu, adorando dobrar seu primeiro oficial daquela maneira. Tinha esquecido como era divertido. — Eu falei com Bones, acabei de voltar de lá. Ele já me encheu de Hypos e disse que vou melhorar agora, não se preocupe.

— Isso é aceitável. — Ele ficou olhando para Jim por mais alguns segundos, como se ainda não estivesse terminado de falar. O Vulcan parecia estar pensando no que dizer, e talvez em como dizer, levando em conta que eles estavam no meio da ponte e o resto da tripulação não poderia saber do que realmente eles estavam falando.

— O senhor gostaria dos relatórios do último dia agora, capitão? — Disse, por fim.

— Ah, claro. — Não era isso que esperava, mas tudo bem. O melhor a fazer era realmente não tocar nesses assuntos na ponte, mesmo que ele estivesse se remoendo de curiosidade para saber como será seu tratamento.

A partir daí Spock passara a próxima hora inteira falando sobre os experimentos que o pessoal de ciência havia começado, o status de desenvolvimento dos projetos que já haviam tido inicio e a previsão para próximos. Jim a teve a impressão deles estarem um pouco sobrecarregados, mas não era de se estranhar que estivesse tão atarefados quando a missão era quase exclusivamente científica.

Spock também atualizou para quatro dias e meio o tempo que eles ainda precisavam ficar em órbita para a finalização de todos os experimentos. Feito isso, o Vuncan encerrou seu relatorio e voltou a sua estação.

Depois disso o dia correu tão normalmente quanto possível para o capitão, que teve que ler e assinar todos os relatórios acumulados do dia anterior. Apesar dessa ser a parte mais entendiante de se ser um capitao, Jim se manteve com um humor aceitável, beirando o bom, ate o fim do dia. Ele não sabia até que ponto os remédios de McCoy tinham influência sob seu estado emocional, e isso era levemente perturbador, porém ao fazer um esforço para ignorar esse fato tudo parecia bem.

E assim ficou durante os próximos quatro dias. Jim fez sua parte evitando qualquer situação potencialmente estressante; não desceu ao planeta mais nenhuma vez, evitou a engenharia e qualquer parte da nave que lhe lembrasse o incidente ( embora isso tenha lhe rendido vários atrasos e situações constrangedoras onde quase se perdia em sua própria nave) e focou-se na inofensiva e entendiante parte burocrática que, estranhamente, não lhe irritava mais como costumava fazer. Na verdade, ele notou que quase nada o irritava durante esses dias. Era como se todas as coisas fossem aceitáveis, ou simplesmente não fizessem diferença. Jim fez uma nota mental de comentar isso com Bones em sua próxima visita.

Esses quatro dias haviam criado uma frágil estabilidade para Jim, e isso abriu espaço para que um otimismo perigoso surgisse. O capitão realmente achava que iria melhorar, mesmo não tendo começado com o “tratamento” propriamente dito. Se os remédios já haviam apresentado resultados sozinhos, estaria praticamente curado com algumas sessões...não é?

Mas otimismo infundado pede seu preço, e a decepção pode ser mais cruel do que se imagina. Kirk foi lembrado disso mais cedo do que esperava.

Depois de quatro dias de tranquilidade passados, já era hora de deixar a orbita de Betazed IV. A Frota já havia enviado uma dúzia de novas missões, e Kirk já havia aceitado pelo menos metade, o que significava que não tinham tempo a perder. A equipe de ciências já havia coletado todas as amostras e dados que precisava, e mesmo que alguns experimentos ainda não tivessem terminado, nada impedida sua continuidade fora da órbita do novo planeta.

O turno havia começado há menos de meia hora, e o capitão encontrava-se confortavelmente sentado em sua cadeira, apreciando a sensação de “estar de estomago cheio” depois de seu primeiro café da manhã bem sucedido em semanas. Ele havia dado a ordem para a Enterprise deixar o planeta há exatos cinco minutos, e agora eles movimentavam-se pelo espaço em dobra seis, em direção ao destino de sua próxima missão, que ficava a apenas alguns setores ao lado.

— Capitão, estou captando um pedido de socorro. — Uhura quebrou o silêncio de sua estação. – Ele vem da nave cargueira ECS Berggrem. Parece que eles estão sendo atacados por um grupo de saqueadores Nausicaanos****.

Kirk franziu as sobrancelhas, subitamente tenso. Ele olhou para a estação de ciências a procura de Spock, encontrando o tenente Marek lá em vez do Vulcan. Lembrou-se que seu primeiro oficial estava nos laboratórios coordenando as pesquisas naquele dia, e isso só fez a tensão piorar. A insegurança bateu como um martelo em sua cabeça, fazendo-o engolir em seco. Respirou fundo.

— Tenente, passe as coordenadas para a navegação e responda ao pedido dizendo que estamos a caminho. Sr.Sulu, mude o curso para lá, dobra 8.

— Sim, senhor — Sulu respondeu de sua estação, fazendo os ajustes necessários. — Chegaremos em cerca de sete minutos.

— Tenente Uhura, a mensagem especificava quantas naves eram?

— Quatro, senhor.

Kirk mordeu o lábio, aflito. Olhou para o comunicador no braço de sua cadeira, o pensamento de chamar Spock para a ponte estava pinicando seu cérebro. Chegou a pousar seu dedo sobre o botão do comunicador, mais tirou-o logo em seguida. Ele era James T.Kirk, iria conseguir sozinho. Estava medicado, não iria ter um ataque. Respirou fundo novamente.

— Chekov, anuncie alerta amarelo. Sulu, suba os escudos. Uhura, tente abrir um canal de saudação para as naves inimigas, vamos ver se eles estão dispostos a se render antes de qualquer coisa. — Ele não sabia como, mas sua voz deixou seus lábios com a antiga firmeza do capitão Kirk, apesar de suas mãos estarem começando a tremer.

Todas as estações confirmaram suas ordens, Kirk ajeitou-se em sua cadeira esperando a chegada as coordenadas indicadas. A luz piscou brevemente em amarelo, anunciando o alarme em toda a nave.

— Capitão, as naves Nausicaanas estão negando nossa saudação.

— Parece que eles querem fogo. Mas continue tentando, tenente. Deixem o banco de phaisers sobre alerta, e preparem-se para travar a mira nas naves inimigas. — O capitão terminou suas ordens e apertou os dedos no braço de sua cadeira, setindo o suor frio escorrer pelo canto de seu rosto.

— Saindo de dobra em cinco, quatro... — Sulu anunciava, fazendo Jim sentir seu café da manha revirar em seu estômago. — Três, dois, um.

As estrelas que antes passavam como riscos luminosos no painel principal da ponte agora se tornaram estaticas com a saída de dobra, relevando à cena da batalha a frente deles. A ECS Berggrem estava cercada por quatro naves menores que a rodeavam velozmente, atacando sem piedade. O cargueiro ja estava com o casco avariado em varios pontos, sem poder revidar aos ataques, pois cargueiros não eram equipados para combates.

O segundo que a tripulação levou para assimilar esses fatos foi cortado com duas das naves inimigas mudando a mira de suas armas para a propria Enterprise, levando a nave inteira a balancar com o impacto dos phasers. No segundo seguinte a luz vermelha e o sinal sonoro estridente do alarme preenchiam a ponte com a euforia caótica de um combate, enquanto os poucos oficiais que haviam sido jogados de suas cadeiras procuravam o caminho de volta a seus lugares. Kirk ainda estava em sua cadeira de capitão, agarrado a ela quase como se sua vida dependesse disso.

— Fogo, Fogo! — Disse, sem sentir ou saber como as palavras deixaram sua boca. Sulu e Chekov ativaram os phaisers e a Enterprise começara a responder fogo com fogo, ao mesmo tempo em que vários oficiais começavam a reportar os danos e pedir por ordens.

Kirk sentia-se em meio ao caos, todos falavam ao mesmo tempo e seus tímpanos já começavam a zunir, havia uma pressão absurda em sua cabeça e um bolo enorme na garganta. Fechou os olhos com força, implorando para que aquilo parasse.“Não posso desmaiar, não posso desmaiar, não posso desmaiar...”.

Ele não ouviu o som agudo da porta da ponte se abrindo, não ouviu a voz grave reportando-se a ponte num tom anormalmente apressado e muito menos sentiu a aproximação repentina no lado de sua cadeira. A única coisa que sentiu foi uma mão infernalmente quente fechando-se em torno da parte nua de seu pulso, fazendo o local formigar quase instantaneamente.

Abriu os olhos azuis, já sabendo de quem se tratava. Spock estava ali, tocando sua pele com toda a mão nua, tranquilizando-o de uma forma que Jim nunca achou que fosse possível. Era como se ele dissipasse todo o pânico que se entremeava pela sua mente somente com o toque suave de seus dedos, como se abrisse uma comporta em seu cérebro por onde escoasse todo aquele medo. A sensação era muito parecida com o que sentira em Betazed VI, quando Spock o trouxe de volta de seu estado de choque com a fusão. Não foi preciso nenhuma palavra, apenas aquele toque foi suficiente para tirar Kirk da beira do abismo e traze-lo de volta a zona segura, onde sua cabeça conseguia funcionar.

Suas pernas ainda tremiam, ainda havia um bolo em sua garganta e provavelmente seu coração estava batendo a níveis assustadores, mas ele tinha discernimento o suficiente para ser o capitão que a Enterprise precisava. Kirk lançou um olhar cúmplice ao Vulcan, num agradecimento mudo, para então voltar a despejar ordens pela ponte.

Menos de quinze minutos depois, as naves Nausicaanas mandavam um pedido de rendição.

Notas finais
* Os denobulanos são uma raça humanoide muito fofa que vem de um planeta chamado Denobula. São pertencentes à Federação, mas antes disso já trabalhavam com os humanos ajudando nas áreas da ciência e medicina. Eles são famosos por ter um sorriso enorme rs Pra quem quiser uma ajudinha pra imaginá-los http://www.ussventure.eng.br/LCARS-Terminal_net_arquivos/fed/racas/Denobulan08-smile.jpg ** Talax, como é previsível, é o planeta dos Talaxianos :3 *** Os Talaxianos são outro povinho agradável de se conviver e amiguinho da Federação. http://www.ussventure.eng.br/LCARS-Terminal_net_arquivos/fed/racas/talax-02.jpg **** Os Nausicaanos não são muito agradáveis. São uma raça humanoide originária do planeta Nausicaa, no quadrante Beta. São conhecidos por seu porte físico grande, maneiras rudes e mal humor. Não são muito bonitos também, como você pode perceber. http://www.ussventure.eng.br/LCARS-Terminal_net_arquivos/fed/racas/Nausicanos/Nausicaan01.jpg Well, só falta um mês pro meu TCC acabar, junto com a minha faculdade rs Isso significa que vou ter mais tempo pra me dedicar a essa história, que significa que não vou (ou pelo menos não deveria rs) demorar mais tanto pra postar os capítulos AEAEAEAE