Aborrecido atrás do balcão

20 O artista do desastre


Em todos esses anos nessa indústria vital algumas coisas se clarificaram para mim, uma delas é que jogar limpo o tempo inteiro é psicologicamente impossível. Algumas vezes você tem que temperar a vida com um pouco de espírito de porco e eu não seria o desvio da regra.

Você é diferente dos outros é uma lorota, eu queria ser esse santo que a entrevista de emprego pedia, mas acho que ninguém realmente acredita em nada daquilo.

Sempre que eu pego uma mala sem alça no balcão eu por milissegundos penso em como aloprar esse dito cujo sem eu ser demitido e a fatiação geralmente é a oportunidade perfeita.

Essa manhã um parceiro meu atendeu um camarada que exige que o presunto seja fatiado na hora e ele fala um monte caso um não seja proferido.

Mas por acaso ele volta e decido tomar a frente já maquinando o que eu faria.

Ele pediu queijo: eu ofereço o melhor queijo e faço uma tremenda propaganda positiva, faço ele confiar em e tudo isso com sorriso no rosto deixando tudo verídico.

Pediu manteiga: Faço o possível para nada escapar da embalagem e garanto que fique apresentável até para propaganda.

Eu costumo dar chance para cliente chato quando ele pede com educação, mas esse não foi o caso. O clássico dos falastrões: eu pago o teu salário e tu vai fazer o que eu quiser.

Gatilho puxado, hora de trabalhar.

Fui até a câmara fria e procurei o presunto mais peba que parecia com o que ele pediu, tinha um ali perto de vencer, mas acho que seria muito cruel. Ele queria 1 quilo bem fininho e fui mais ou menos por ai que trabalhei.

Fatiei 300 gramas tão fino que estava perto de se desfazer e o resto fiz que nem a cara.

Uma fatia normal tinha 28 gramas, as outras 700 eu fatiei na faixa dos 35 gramas.

Ai foi só montar e pesar na marca que ele tinha pedido e correr para o abraço.

Nessa brincadeira ainda vendi 1 quilo de linguiça pra ele.

Todos sairam felizes e só vão perceber depois que chegarem em casa com suas lajotas novinhas.

Sinceramente não ligo pra mais nada.

Isso foi só um exemplo de outras que eu já fiz o que me rendeu essa alcunha:

O artista do desastre.