Abismo
6 Tentando esquecer
Notas iniciais
Capítulo 06 – Tentando esquecer
Eram nove horas da noite e Rachel estava pronta se mirando no espelho de seu quarto, tinha ficado de encontrar seus amigos dali a meia hora na boate combinada. Estava com seus cabelos escuros e ondulados caídos sedosamente por suas costas. Havia feito uma maquiagem que acentuava a cor de seus olhos. Colocou um vestido azul que adorava, ele ficava acima dos joelhos e moldavam perfeitamente as curvas de seu corpo. Por fim, calçou um scarpin que lhe dava um pouco mais de altura.
Como Kurt estava na casa de Blaine optou em ir de táxi, pois não gostava de dirigir quando bebia, e hoje a noite prometia. Não pretendia se controlar muito, queria mais era esquecer o sofrimento e a dor que tomaram conta de seu ser nos últimos dias.
Ficou aguardando o táxi que havia pedido na portaria de seu prédio, enquanto conversava com o porteiro, um senhor com quem simpatizava e sempre era muito amável. Quando o carro chegou deu o endereço da boate ao taxista.
– É a primeira vez que a senhora vai a esta boate? – perguntou a ela, puxando assunto.
– Sim, é a primeira vez. – respondeu simplesmente, não gostava muito de dar conversas aos taxistas em NY, nem sempre você encontrava pessoas confiáveis.
– A senhora vai gostar muito do lugar. – prosseguiu ele – É muito bonito e bem movimentado, é um local para todos os gostos e as bebidas são ótimas.
– Você já foi lá? – não se conteve e acabou perguntando.
– Sim, eu e meu namorado já fomos umas três vezes desde que foi inaugurada e cada noite parece melhor que a outra.
Rachel trocou mais algumas palavras com o rapaz e acabaram por prosseguir em silêncio até o local. Ao chegar pagou a corrida e desceu.
Já ficou admirada logo na entrada, as luzes davam um ar de sensualidade ao local, com certeza a noite seria muito boa.
Dentro da boate procurava seus amigos, o que estava sendo uma tarefa meio difícil, uma vez que havia esquecido de colocar suas lentes antes de sair de casa e não enxergava muito bem de longe.
Percorreu um pouco o local e se surpreendeu quando alguém lhe puxou pelo braço. Virou-se assustada e se deparou com Marley rindo de sua cara de susto.
– Isso não teve graça, Marley. – falou alto para que pudesse ser escutada acima do barulho da música.
– Ah, teve sim. Você precisava ver sua cara. Parecia que estavam tentando roubar sua bolsa. – ela disse, ainda rindo.
– Tá bom, não vou nem discutir com você, sua boba. Onde estão os meninos, já chegaram?
– Sim, venha. Estamos em uma mesa mais ali para aquele canto. – falou já a puxando em direção ao local.
– Rach, até que um dia você chegou. Por que tanta demora? – Kurt perguntou dramático como sempre.
– Chamei um táxi e ele demorou a chegar. – argumentou.
– Nossa, você está um espetáculo, minha amiga. – Blaine elogiou – Vai arrancar suspiros esta noite.
– Obrigada, Blaine, mas acho que você está exagerando um pouquinho. – falei rindo do comentário que ele fez.
– Ele não está exagerando não, você está realmente um arraso e te garanto que se eu gostasse de meninas você hoje não escaparia de mim. – Kurt disse, arrancando risadas de todos.
– Então? O que vamos beber? – Rachel perguntou, já animada.
– Vamos pedir a primeira rodada de coquetéis. – Marley disse já sinalizando para um dos garçons.
– Enquanto a bebida não chega vou ao banheiro retocar minha maquiagem e volto em seguida. – Rachel falou já saindo.
POV Rachel
Fui ao banheiro retocar o batom, como tinha dito aos meus amigos e na volta para a mesa passei perto do bar. Olhei distraída para quem estava ali, sem realmente prestar atenção em ninguém especificamente, quando meu olhar foi puxado como um imã ao rosto mais bonito que eu já havia visto.
Ela era loira, com os cabelos pelo ombro. Parecia um anjo. Fiquei encantada olhando para ela por alguns instantes, sem nem ao menos reparar com quem ela estava conversando.
Acordei de meu transe e voltei para minha mesa, onde encontrei meus amigos em uma conversa animada e, mesmo estando com aquela face em minha mente, passei a interagir com eles e logo passei a rir das histórias engraçadas que íamos lembrando.
Eu já estava me sentindo alta de tantas bebidas que havia tomado, não era acostumada a beber tanto. Estávamos rindo de algo que Blaine contava quando Marley levantou dizendo que ia ao banheiro e depois daria uma volta. Os que ficaram seguiram na conversa até que começou a tocar uma música que o Kurt adorava e ele arrastou Blaine para a pista de dança, me convidando para ir junto, mas eu neguei para não estragar o clima dos dois.
Fiquei olhando em volta tentando enxergar a minha loira do bar (“Credo, nem conheço a mulher e já estou chamando de minha” – pensei). Se minha visão ajudasse quem sabe eu conseguiria ver se ela ainda estava por ali.
Estava mergulhada em meus pensamentos e nem vi que alguém havia se aproximado de minha mesa, somente notei quando ouvi uma voz melodiosa dizer?
– Olá! Posso sentar aqui com você e oferecer-lhe uma bebida?
Olhei para a direção de onde vinha aquela voz e fiquei estática ao me deparar com a loira que eu havia visto antes. Ela estava parada em minha frente com dois drinques nas mãos e tinha um sorriso sedutor nos lábios. Meu coração deu um pulo no peito e senti um frio no estômago.
– C-claro. – consegui finalmente dizer e fiquei admirada com minha eloquência.
“Calma, Rachel. Não vai surtar agora, respira, respira. Por favor, não vá parecer uma idiota na frente dessa deusa”. – pensei em desespero.
A loira sentou do meu lado e ficou me olhando nos olhos, esperando que eu dissesse alguma coisa. A única coisa que eu pensei no momento foi que eu não deveria dizer meu verdadeiro nome, meu sobrenome era conhecido e havia muitos oportunistas tentando tirar alguma vantagem e como ainda não a conhecia resolvi que ainda não era a hora de me apresentar corretamente. Resolvi então me apresentar com meu segundo nome, o qual não usava quase nunca e que meus pais fizeram questão de colocar por serem fãs de Barbra Streisand.
– Meu nome é Barbra, como é o seu? – perguntei estendendo a mão para ela.
– Muito prazer, meu nome é Lucy. – falou segurando a mão que eu estendia para ela.
Senti uma onda elétrica percorrer todo o meu corpo e um calor que nunca havia sentido tomou conta de mim. Simplesmente não entendia como uma pessoa que eu havia acabado de conhecer podia causar sensações tão desconhecidas em mim com apenas um toque de mãos.
– Então? Você vem sempre aqui? – senti que ela também estava nervosa quando a ouvi proferir essas palavras.
– Sério que esta é a sua melhor cantada? – perguntei divertida, quebrando o gelo.
Ela riu do que eu disse, mostrando um sorriso lindo e dentes perfeito. Eu só conseguia pensar: Deus, que mulher linda.
– Mas, respondendo a sua pergunta, é a primeira vez que venho aqui, na verdade. E você?
– Sério que esta é sua melhor cantada? – falou divertida por eu ter feito a ela a mesma pergunta que eu havia ironizado a pouco, me fazendo rir.
– É, eu mereci essa.
– Sim, mereceu. Mas, respondendo a sua pergunta, – me imitou mais uma vez – essa é a segunda vez que venho.
– Mesmo?
– Sim, também vim na inauguração. O que você está achando do lugar?
– Até agora estou adorando. A decoração é muito bonita, a música é boa e os drinks são ótimos. Sem falar que as pessoas que frequentam o local também são lindas. – falei olhando em seus olhos.
– Eu que o diga. – ela responde dando um sorrisinho maroto em minha direção.
Ficamos nos encarando mais alguns minutos, até que ela puxou outros assuntos e seguimos com nossa conversa por mais algum tempo. Meus amigos haviam sumido e na verdade eu nem sentia falta deles naquele momento. Lucy era completamente envolvente e a conversa fluía sem qualquer esforço. Sua risada era música para meus ouvidos e eu já estava encantada por ela.
– E você faz o que da vida, Barbra. – ela me perguntou e no mesmo instante me retesei e meu semblante mudou pelas lembranças recentes que vieram a minha cabeça.
– Me desculpe, mas eu realmente prefiro não falar sobre isso hoje. Estou passando por um momento difícil na minha vida e só por hoje eu realmente gostaria de esquecer. – falei baixo, mas de forma que ela pudesse me ouvir.
– Por favor, não fique assim. – falou quando viu que eu havia ficado tristonha – Meu avô Benjamin sempre dizia que “Não há abismo nessa vida que não possa ser transposto”. E eu realmente acredito nisso, que nenhuma dificuldade seria colocada em nossas vidas se não tivéssemos forças para superá-la.
– Obrigada, Lucy. Você tem razão e pelo jeito seu avô era um homem sábio ao proferir essas palavras. – disse em tom de agradecimento.
– Sim, meu avô era uma pessoa muito especial. Sempre tinha as palavras certas na hora certa. A família era seu maior orgulho, ele era muito protetor. Realmente, ele era uma pessoa muito bondosa, nos deixou só bons exemplos. – disse com um sorriso nostálgico no rosto.
De repente ela ficou em pé e eu achei que ela ia embora, eu devia ter entediado ela com aquela minha conversa. Me surpreendi quando ela me estendeu a mão e disse:
– Vamos dançar?
– Claro, vamos sim. – eu disse na mesma hora já me levantando.
Dançamos algumas músicas ainda conversando e cada vez mais nos aproximávamos. Nossos corpos estavam quase juntos e de vez em quando nos encostávamos logo nos afastando de novo.
Quando começou a tocar uma música latina mais sensual não resisti e cheguei mais perto de Lucy, mas ainda deixei um pequeno espaço entre nós, deixando que ela tomasse a iniciativa.
Passei a dançar de forma provocativa e em dado momento fiquei de costas para ela rebolando quase contra o seu corpo. Faltavam poucos centímetros para que nossos corpos ficassem perfeitamente encaixados.
Eu não era assim, mas o álcool estava tendo grande influência nas minhas atitudes, não estava conseguindo me controlar. Eu desejava Lucy.
POV Quinn
Quando começamos a dançar na pista eu passei a me segurar para não agarrar Barbra ali mesmo. Não entendia as reações que ela estava causando em mim. Com certeza os drinques que eu havia bebido até agora estavam fazendo efeito.
No momento em que ela começou a dançar sensualmente e ficou de costas para mim, com poucos centímetros de distância, rebolando de forma enlouquecedora, não me aguentei e acabei com o espaço que nos separava.
Agarrei-a pela cintura e encaixei meu quadril ao dela acompanhando seu ritmo cadenciado. Afastei os cabelos de seu pescoço e passei a distribuir beijos ali, sentindo que ela se arrepiava a cada toque. Não suportei mais a vontade que eu tinha de beijar aqueles lábios carnudos e a virei para mim, olhando bem no fundo dos seus olhos fui aproximando meu rosto do dela e quando vi que ela não iria se afastar colei meus lábios nos dela, beijando-a calmamente. Após alguns instantes forcei a passagem de minha língua em sua boca, o que ela concedeu sem resistência e correspondeu sem pudores. Nossas línguas começaram em um movimento sensual, me causando sensações que eu nunca havia sentido em apenas um beijo.
Levei minha mão em sua nuca, aprofundando ainda mais aquele contato. Percorria todos os cantos de sua boca e ela fazia o mesmo comigo. Seu corpo continuava movimentando-se lentamente no ritmo da música que agora tocava e eu sentia minha excitação cada vez mais crescente.
Não conseguia mais segurar o desejo e sentia que minha ereção era cada vez mais evidente. Em conta disso tentei me afastar um pouco, mas ela se agarrou a mim juntando ainda mais nossos corpos, como se isso fosse possível.
Em um dado momento ela parou de me beijar e me perguntou curiosa.
– O que você tem aí na calça, Lucy. Tem alguma coisa em seu bolso?
Naquele momento vi que não tinha como escapar e teria que lhe falar sobre minha peculiaridade.
– Eu... hum... Não tenho nada no bolso. Preciso te falar uma coisa. – falei nervosa, com medo que ela me repelisse.
Ela me olhou com olhos inquisidores, aguardando minha explicação.
– Eu não sou uma mulher como as outras. – falei baixo, para que só ela escutasse.
– Como assim? – falou, ainda sem entender.
– Eu... eu sou hermafrodita. – disse de um só fôlego.
Barbra me olhou surpresa, mas logo aquele olhar foi trocado por um sorriso safado.
– Então quer dizer que você tem um brinquedinho aí e pelo jeito ele está querendo sair para brincar comigo?
Me surpreendi com o comentário dela e acho que transpareci no olhar, porque em seguida ela remendou.
– Ai desculpa, acho que bebi demais e não estou mais falando com coerência. Eu não sou assim...
– Não tem problema. – respondi me aproximando dela novamente – Eu também já bebi além da conta, então posso te dizer que ele realmente quer sair para brincar contigo.
Ela me olhou com desejo e avançou mais uma vez contra meus lábios, me dando um beijo cheio de volúpia, pressionando ainda mais seu quadril contra o meu.
– O que você acha de sairmos daqui? – ela falou levando sua mão abaixo de minha cintura e massageando de forma discreta meu pênis por cima da calça.
Não pensei duas vezes, peguei-a pela mão e fui em direção à porta de saída.
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