Abismo
3 E o abismo começa a se abrir...
Notas iniciais
Capítulo 03 – E o abismo começa a se abrir
03 meses antes...
Rachel morava em um apartamento luxuoso que se localizava em um prédio que ficava em frente ao Central Park. Tudo era decorado com extremo bom gosto e sofisticação, nunca havia lhe faltado nada na vida e seus pais sempre lhe proporcionaram tudo que o dinheiro podia comprar. Mesmo assim, nunca foi uma pessoa esnobe ou metida, sempre foi simples e humilde, tratava as pessoas de forma igual, sem qualquer distinção, como fora educada por seus pais.
Mesmo depois da morte dos seus pais continuou a viver com conforto, em razão da renda deixada por estes e que recebia mensalmente até completar 21 anos. Quando esta data chegasse, enfim, assumiria os negócios da família e aí sim estaria fazendo o que amava. Isso ao menos era o que achava que iria acontecer...
Já não aguentava mais seu tio Richard fazendo de tudo para que não recebesse ao menos a quantia mensal estipulada. Ele havia se mostrado um verdadeiro canalha após a morte de seus pais e seu caráter foi finalmente revelado. Era mesquinho, egoísta e muito ambicioso. Queria tudo que havia sido construído por seu irmão durante árduos anos de dedicação e esforços. A antipatia que a sobrinha suspeitava que ele pudesse ter por ela fora exposta quando a máscara que cobria seus escrúpulos finalmente caiu.
Rachel não aguentava mais aquilo e com certeza a primeira coisa que faria quando assumisse as rédeas da empresa do ramo hoteleiro dos Hotéis Gold Star seria afasta-lo da presidência. Como não era uma pessoa de má índole e não desejava o mal de seu tio, apesar de tudo que este fazia, iria colocá-lo na administração do hotel que ficava no Brasil, afinal quanto mais longe ele fosse melhor seria.
...
Faltavam exatos seis meses para seu aniversário, seis meses para que pudesse finalmente assumir suas responsabilidades frente ao legado deixado por seus pais e poder determinar os rumos que achava que eram os melhores aos Hotéis Gold Star.
Quando Rachel chega em casa exausta, após mais um dia puxado na universidade, e vê a luz da secretária eletrônica anunciando que tinha recados. O sinal luminoso pisca intermitentemente, mas decide que primeiro precisa de um banho, para tirar toda a fadiga acumulada em seus ombros durante o dia.
Verifica que Kurt ainda não chegou em casa e se dirige ao seu quarto. A melhor coisa que aconteceu em sua vida após a morte de seus pais foi Kurt ter ido morar com ela, ele cursava artes cênicas em NYADA, e sua vida deixou de ser tão solitária tendo ele junto a si. Blaine, o namorado dele também era figura constante em sua casa, tornando-se um bom e indispensável amigo para Rachel.
Além de Kurt e Blaine, Rachel possuía apenas mais uma amiga, Marley. Ela era uma garota meiga e sensível, uma amiga com a qual sabia poder contar sempre, assim como Kurt. Elas e Kurt se conheciam desde a época da escola e firmaram uma sólida amizade desde então, um trio inseparável e com uma cumplicidade invejável. Sem esses três para lhe ampararem e auxiliarem nas horas de dificuldade, Rachel não sabe o que seria de sua vida.
Entrou em seu espaçoso quarto que contava com uma enorme cama de casal, largou suas coisas e foi direto ao banheiro para preparar a banheira, deixando-a enchendo enquanto se despia. Cantarolava uma música e retomava mentalmente os conteúdos que haviam sido dados durante o dia em suas aulas. Por mais que estivesse cansada não conseguia se desfazer desse hábito.
Tomou um longo e relaxante banho e após se vestir dirigiu-se a sala para finalmente verificar os recados que haviam lhe deixado na secretária eletrônica.
– Boa noite, Kurt. – falou ao entrar no ambiente e ver seu amigo assistindo a um filme na televisão.
– Boa noite, Rachel. Como foi seu dia? – falou se virando para mim.
– Extremamente cansativo, estou com uma fadiga mental enorme. – falou sorrindo – As matérias de hoje foram extremamente teóricas e extensas. E você como passou?
– Bem, hoje tive aula com aquela Cassandra. Ô mulherzinha bem insuportável, parece que percebe que eu não gosto dela e fica pegando no meu pé o tempo inteiro. – Kurt falava com indignação, não era segredo que ele alimentava uma antipatia pela professora.
– Kurt, eu já te disse para você dar uma maneirada e disfarçar essa antipatia que tem por ela. Você sabe que ela tem influência dentro de NYADA e pode vir a te prejudicar.
– Eu sei, eu sei, Rach. Mas é mais forte do que eu, quando eu enxergo aquela mulher eu só consigo sentir um desprezo por ela e não consigo disfarçar. Para te falar a verdade eu nem sei de onde surgiu essa ojeriza que sinto por ela.
– Só vi essa mulher umas três vezes e ela me transmitiu uma aura negativa todas essas vezes, e olha que não troquei mais do que cumprimentos com ela.
– Para você ver, essa mulher exala energia negativa e antipatia onde passa, quase ninguém na turma gosta dela.
– É, mas tenta maneirar e não entra na pilha dos outros. – falou apreensiva, preocupada que seu amigo não fosse prejudicado.
Kurt fica com expressão pensativa que só se esvai de seu rosto quando a campainha toca e ele esboça um sorriso.
– Deixa que eu atendo, deve ser o Blaine. – fala levantando do sofá e se dirigindo à porta.
– Você chegou a verificar os recados deixados na secretária eletrônica, Kurt? – perguntou também se levantando e dirigindo-se ao telefone.
– Não, não cheguei a ver. – fala antes de alcançar a porta e abri-la.
Rachel dirige-se então ao telefone e passa a ouvir os recados. A maioria eram propagandas e pessoas oferecendo serviços. Porém parou para ouvir com atenção quando ouviu o recado do escritório dos advogados de seus pais.
– “Senhorita Berry, aqui é do escritório Shuester e Pillsbury Advogados e estamos entrando em contato a fim de informá-la que a senhorita será esperada amanhã pela parte da tarde pelos Doutores Will e Emma para que instruções do testamento deixado por seus pais lhe sejam repassadas. Obrigada pela atenção e aguardaremos sua presença. Tenha um bom dia”.
Rachel olhou surpresa para Kurt e Blaine que haviam entrado na sala e ouvido o recado.
– O que será que eles querem com você? Que instruções serão essas? – perguntou Kurt tão surpreso quanto Rachel.
– Não sei, Kurt. Para falar a verdade não entendi nada também. – falou Rachel enquanto se aproximava de Blaine dando-lhe um abraço para cumprimentá-lo.
– Mas você não passaria a ter posse absoluta de tudo deixado por seus pais quando completasse 21 anos? – questionou Blaine, pensativo.
– Pois é, também achei isso. Para falar a verdade agora fiquei preocupada, nunca me foi informado que haveriam novas instruções antes de eu tomar conta de tudo.
– Bom, não adianta sofrer por antecipação. Devem ser só formalidades e burocracias a serem seguidas. – Kurt disse a fim de acabar com o ar de preocupação que havia se instalado no local.
– É verdade, não vou sofrer por antecipação mesmo, amanhã as coisas se resolverão tranquilamente. – disse esperançosa.
– O que vocês acham de vermos um filme e pedirmos comida japonesa? – Blaine propôs.
– Uma ótima ideia. – concordaram e acabaram a noite naquele em clima de descontração.
No dia seguinte Rachel se dirigiu a Columbia para mais uma manhã de aulas, faltaria às da tarde para comparecer no escritório dos advogados. Estava ansiosa com o que teria que lhe ser comunicado e mal consegui prestar atenção no que os professores diziam.
A manhã se arrastou de forma lenta, mais do que o normal. Quando o relógio marcou duas e meia da tarde Rachel já estava em frente ao prédio onde se localizava o escritório Shuester e Pillsbury Advogados.
Will havia sido amigo de seus pais e eles tinham extrema confiança nele e em sua esposa Emma, que era a outra sócia do escritório. Rachel sempre os achou um casal bastante simpático quando os encontrava em reuniões sociais ou até mesmo quando iam a algum jantar em sua casa. Mantinha uma relação de amizade com eles, mas não com laços tão profundos. Confiava neles e sabia que não fariam nada que seus pais não pedissem.
Entrou no escritório e foi direto falar com a secretária.
– Olá, boa tarde. Meu nome é Rachel Berry e Will e Emma estão me esperando.
– Boa tarde, senhorita Berry. Aguarde só um momento que vou anunciá-la. – falou pegando o telefone – Dr. Shuester, a senhorita Berry já está aqui, posso mandá-la entrar?... Os doutores lhe aguardam, pode entrar. – informou enquanto dirigia Rachel à sala e abria a porta para que entrasse.
POV Rachel
Por mais que eu tivesse esperanças de que não era nada de mais o que iam me falar não podia conter o frio na barriga que me acompanhava desde que me dirigi à porta que a secretária segurava aberta para que eu entrasse.
Essa sensação só aumentou quando enxerguei meu tio Richard já sentado em uma cadeira junto à mesa de Will. Fui tomada por um pressentimento ruim. Afinal, o que ele estaria fazendo ali?
Will e Emma me olharam tentando manter seu ar profissional, mas eu conseguia ver preocupação em seus olhos. Respirei fundo e me aproximei da mesa cumprimentando a todos e sentando na cadeira que me fora indicada.
– Bom, vamos dar início então. – Will falou diante de meu olhar interrogativo – Nós os chamamos aqui a fim de lhes dar conhecimento da outra parte do testamento deixado por Leroy e Hiram Berry.
– Como assim “outra parte do testamento”? – perguntei sem entender o que ele queria dizer com aquilo
– Seus pais dividiram o testamento em duas partes, Rachel. – Emma me informou – A primeira parte foi revelada quando do falecimento deles e a segunda foi determinado que somente deveria ser aberta e informada aos interessados quando faltassem exatos seis meses para que você completasse 21 anos.
Olhei para Richard para ver se conseguia detectar em sua fisionomia se ele sabia de alguma coisa, mas estava com as feições indecifráveis.
– Vamos dar início então? – questionou Will nos olhando.
Somente afirmei com a cabeça, a ansiedade tomava conta de mim fazendo com que não conseguisse proferir sequer uma palavra. Pressentimentos nada bons tomavam conta do meu corpo.
– Iniciaremos agora a leitura da segunda parte do testamento deixado por Leroy Berry e Hiram Berry, o qual foi devidamente registrado nos cartórios competentes e firmados pelas testemunhas necessárias.
“Como disposições de última vontade fica aqui registrado que nossa filha Rachel Barbra Berry terá a ajuda de custo concedida até que completasse 21 anos cancelada quando atingir esta idade, sendo vedado o repasse de qualquer quantia da empresa a ela até que ela se case e tenha um filho(a). Tal estipulação vem como forma de dar prosseguimento a linhagem Berry e com o intuito de que a empresa nominada como Hotéis Gold Star seja mantida no seio da família. Fica estipulado ainda que o tempo limite para o cumprimento das especificações aqui determinadas seja quando atingir a idade de 25 anos, sendo que deverá permanecer casada pelo tempo mínimo de cinco anos. A empresa lhe será transferida de forma transitória até o limite final estipulado e passará a ser sua de forma permanente imediatamente após o cumprimento integral do aqui exigido. Caso as determinações aqui constantes não sejam cumpridas até a data limítrofe a empresa será repassada em sua integralidade para Richard Berry, irmão de Leroy Berry”.
A esta altura Rachel já não conseguia respirar direito e tinha os olhos arregalados. Como seus pais puderam fazer uma coisa dessas com ela? Olhou para seu tio e viu que ele tinha um brilho no olhar e ali percebeu que ele faria qualquer coisa para que ela não conseguisse cumprir com o que fora estipulado por seus pais.
– Não sei se vocês têm alguma dúvida. – Emma nos questionou diante de nosso silêncio.
– De minha parte não há dúvida nenhuma. – falou Richard com um meio sorriso no rosto.
– E você, Rachel? – perguntou olhando diretamente para mim.
Somente tive forças para abanar a cabeça fracamente de um lado para o outro indicando que havia entendido tudo que havia sido proferido.
– Então encerramos aqui nossa reunião e qualquer dúvida é só entrarem em contato conosco. – disse Emma já se despedindo de Richard que também cumprimentou Will e logo saiu.
Eu ia saindo logo atrás, completamente aturdida, a ficha ainda não havia caído completamente, quando ouvi Emma me chamar.
– Rachel, espere um minuto, por favor.
Parei onde estava e olhei par ela.
– A única coisa que seus pais autorizaram que lhe déssemos foi uma carta de recomendações para que você buscasse um emprego enquanto as coisas não se resolvem. Te adianto ainda que você poderá ficar com o apartamento e seu carro, pois eles estão em seu nome e você pode fazer o que quiser com eles.
Vendo minha impotência ela continuou:
– Olha, seus pais nos proibiram a te dar qualquer tipo de ajuda, mas queremos que saiba que o que pode contar comigo e com o Will caso precise de alguma coisa. – falou de modo carinhoso.
– Obrigada, Emma. – foi a única coisa que consegui dizer.
Peguei a carta de recomendação que ela me estendia e me retirei do local sem saber o que seria da minha vida dali para a frente.
Um abismo havia se aberto sob meus pés.
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