Abismo

4 A ficha caiu


Notas iniciais
E aí, gurizada. Boa leitura!

Capítulo 04 – A ficha caiu

Rachel chegou a seu apartamento a ponto de explodir, mal fechou a porta e as lágrimas brotaram de seus olhos de forma convulsiva. Parecia que recém estava realmente percebendo o que seus pais haviam feito e não entendia o por quê.

Arrastou-se até o sofá, pois não tinha mais forças e ali mesmo se deitou, chorando até pegar no sono.

Quando Kurt chegou em casa não entendeu porque estava tudo escuro, Rachel geralmente chegava antes dele e já deixava algumas luzes acesas. Ligou a luz da sala e se surpreendeu ao vê-la deitada em um dos sofás dormindo toda encolhida. Se dirigiu até o local e de forma delicada tocou em seu ombro tentando acordá-la.

– Rachel, acorde. Rachel. – disse sacudindo-a levemente.

Ela abriu os olhos vagarosamente e Kurt pode ver que os mesmos estavam vermelhos, ela com certeza havia chorado.

– O que houve, Rach?

Diante daquela pergunta não conseguiu se controlar e lágrimas voltaram a rolar por seu rosto, soluçando descontroladamente.

– E-e-eles não po-podi-am t-ter fei-to i-isso comigo. – e mais lágrimas escapavam de seus olhos.

– O que fizeram com você, Rachel? Quem fez algo com você? – Kurt perguntava já preocupado, mas Rachel não conseguia responde, diante do choro que a assolava – Vou ligar para Marley, fica só um pouquinho aqui. — falou se afastando.

Voltou em alguns instantes com um copo de água na mão e um comprimido de calmante.

– Toma isso aqui, é bem fraquinho, é só para você ficar um pouco mais calma e relaxar para poder me contar o que houve. Marley já está chegando, ela já estava vindo para cá quando liguei.

POV Rachel

Peguei o comprimido e o copo de água que ele me estendia e tomei sem questionar. Ele me levou até meu quarto, me deitou em minha cama e ficou sentado do meu lado, fazendo cafuné em minha cabeça e logo peguei no sono novamente, só que dessa vez era só escuridão, não havia nada conturbando meus sonhos.

Quando acordei vi que meus amigos estavam comigo, cada um deitado de um lado de minha cama, fazendo vigília enquanto eu dormia. Observavam-me com semblantes preocupados. Só tive forças para estender os braços e receber um abraço caloroso dos dois.

– Você está se sentindo melhor, Rach? – Marley perguntou preocupada.

– Não tem como estar melhor na situação em que me encontro, Marls. – falei num sussurro.

– O que houve, R? – Kurt indagou mais uma vez – Foi alguma coisa na reunião que você tinha com os advogados?

Só aquela pergunta fez com que tudo voltasse como um raio em minha cabeça, meus olhos marejaram novamente, mas tentei impedir que as lágrimas caíssem mais uma vez para que eu pudesse explicar a situação para eles.

Respirei fundo e comecei a contar para eles tudo o que tinha acontecido na reunião que tive com Will e Emma.

– Sim, Kurt. A reunião era com o intuito de que fosse revelada a segunda parte do testamento dos meus pais e posso garantir que neste momento eles não foram nenhum pouco bondosos comigo.

– Como assim? – meus amigos indagaram ao mesmo tempo.

– Resumindo toda a situação minha pensão vai ser cortada quando eu completar 21 anos e eu não vou receber as empresas até fazer 25 anos. – eles me olharam surpresos – Mas não se surpreendam ainda, as coisas ainda ficam piores...

– Como piores? – perguntaram novamente em uníssono.

– Eu somente receberei as empresas aos 25 anos se eu casar e tiver um filho ou filha, até lá eu não poderei receber qualquer auxílio vindo dos Hotéis Gold Star. — falei resignada.

– Mas como eles puderam fazer isso com você? Seus pais a amavam demais, não entendo essa atitude tomada por eles. – Marley disse de uma vez só.

– Não sei, Marls. Eu sei que eles me amavam e com certeza eles fizeram isso acreditando que seria para o meu bem.

– No mínimo eles acharam que você ainda estaria namorando o idiota do meu “irmão” e que estariam apenas facilitando a situação. – Kurt diz de forma revoltada.

– Pode ser, mas mesmo assim eles não podiam ter feito isso, não havia como adivinhar se eu estaria com o Finn ou não até hoje. Nem eu mesma, na época em que eles morreram, diria que hoje nós não estaríamos juntos e que ele teria me deixado por outra com quem casou e já teve filho. – comentei desiludida – Não consigo entender as intenções deles, mas vocês me conhecem, pelo meu histórico amoroso eu vou fazer 30 anos e ainda vou estar solteira e sem filhos.

– Rachel, você não pode pensar assim agora. Tem que ser otimista e nós vamos achar uma solução. Por exemplo, por que você não casa com o Kurt?

Eu e Kurt olhamos na mesma hora para ela como se não estivéssemos acreditando naquela ideia dela.

– Ei, não me olhem assim, é uma situação que há de se pensar. – Marley defendeu sua sugestão.

– Não, Marley. Eu nunca faria isso com o Kurt ou qualquer outra pessoa por obrigação. E outra, você bem sabe que ele e o Blaine vêm falando em casamento há bastante tempo, eu não tenho o direito de interferir nos planos de ninguém.

– Rach, você sabe que eu faria isso por você, não sabe? – Kurt falou olhando em meus olhos e aquilo me emocionou, porque dava para ver ali que ele realmente faria se fosse preciso.

– Sim, K, eu sei que você faria e é por isso que eu te amo. Mas eu não posso fazer isso com você. Ninguém tem que ficar casado comigo por cinco anos por obrigação, isso seria muito injusto e egoísta de minha parte.

– Mas Rachel, você vai perder tudo se não cumprir o estipulado. – E os dois pares de olhos azuis me olharam entristecidos quando Kurt disse isso.

– Não importa! – exclamei com os olhos marejados – Se eu não conseguir eu posso trabalhar, eu vou me virar, de fome não irei morrer. Vou terminar esse semestre da faculdade e trancar minha matrícula, assim que eu puder eu termino os dois semestres que vão ficar faltando.

– Enquanto isso nós vamos te ajudar no que for preciso. – Marley afirmou, confirmando mais uma vez que sempre poderia contar com aqueles dois.

Eles ficaram comigo por mais umas horas tentando me distrair. Conversamos, vimos um filme, cozinhamos e por fim fomos dormir, pois no dia seguinte recém seria quarta-feira e todos tínhamos nossos compromissos. Marley optou por dormir no quarto de hóspedes porque já era tarde e para não nos deixar sozinhos naquela noite.

No resto dos dias tentei ocupar ao máximo minha cabeça com os conteúdos da universidade, mas era impossível, aquele problemão que me foi jogado nos ombros voltava com tudo e meu coração mais uma vez voltava a doer e eu me questionava: “por que meus pais fizeram isso comigo?”.

O que eu sentia era uma dor inexplicável e várias dúvidas e incertezas passavam em minha cabeça. “Será que eles confiavam em mim? Será que eles realmente me amavam?”.

Passei as noites em claro, não conseguia dormir direito e quando dormia tinha pesadelos com meus pais e com meu tio Richard, onde riam de mim e diziam que eu ia ficar sem nada. Acordava sobressaltada e não conseguia mais pegar no sono.

Não tinha fome alguma, só comia o que Marley ou Kurt me colocavam boca abaixo. Eles me vigiavam constantemente, mas quando eu estava sozinha, na privacidade de meu quarto eu dava vasão às lágrimas. Chorava até dormir, o que geralmente era a madrugada inteira já quase amanhecendo o dia.

Quando sábado chegou meus amigos não conseguiam mais me ver daquele jeito, na verdade nem eu me aguentava mais, já estava cansada de sofrer. Kurt, Blaine e Marley entraram lado a lado na sala, onde eu olhava para a televisão sem ao menos prestar atenção e foram logo falando:

– Hoje à noite nós vamos sair, vamos naquela boate nova que abriu. – Marley disse.

– Bom passeio para vocês, se divirtam. – eu disse desanimada.

– Não tem de “bom passeio para vocês”, quando eu digo “nós” eu estou incluindo você no pacote e não tem como recusar, já está decidido. – Kurt falou enfático, com Blaine concordando logo atrás.

– Rachel, nós sabemos que o que você está passando não é fácil, mas você tem que reagir, seguir em frente. – Marley falou sentando ao meu lado – cadê aquela garota corajosa que nós conhecemos, aquela garota que nos disse que se não recebesse a herança iria trabalhar, porque de fome não iria morrer?

Olhei para ela já com vontade de chorar, mas não o iria fazer. Seria forte, meus amigos tinham razão. Eu era uma mulher forte e conseguiria vencer essa crise que assolou minha vida. Não daria o gostinho de Richard rir de minha cara e de me chamar de fracassada. Lutaria e venceria.

– Vocês têm razão, mais uma vez. – falei sorrindo – Vamos sair hoje à noite, então. Vou me divertir e tratar de seguir minha vida de cabeça erguida, sendo ou não proprietária de uma rede de hotéis.

– Isso mesmo, R. Tens que ser forte e lutar pelo que você quer, a vida nem sempre é fácil, mas eu tenho certeza que essa fase vai ser superada e tudo ficará bem. – disse Blaine, que até agora tinha se mantido a maior parte do tempo quieto.

– Em qual boate vamos ir mesmo? – perguntei mais animada.

– Noche en Caribe, abriu tem uns dois meses, toca músicas latinas e servem drinques estilizados. Uns colegas lá do jornal foram e me disseram que é muito boa, não tem como não se divertir. – Marley contou com um enorme sorriso no rosto, pelo jeito ela estava com bastantes expectativas em conhecer aquela boate.

– Ótimo, então a noite promete e vamos nos divertir muito. – falei rindo e sendo acompanhada por meus amigo.

Por agora optei por desviar do abismo que me cercava.