Abismo
55 Dias de terror - parte 3
Notas iniciais
Capítulo 55 – Dias de terror – parte 3
– Vem, anjinho, vamos deitar. Já está tarde. – falou afastando levemente o filho que já estava mais calmo.
– Posso dormir com você hoje de novo? – perguntou com olhos suplicantes.
– Claro que sim, filho. Eu já ia pedir para você me fazer companhia. – falou acariciando o rosto do filho, limpando o rastro das lágrimas que correram por ali.
Aquilo pareceu tranquilizar e alegrar um pouco Ben, que visivelmente estava sofrendo com aquilo tudo que ficara sabendo, e afinal ele era só uma criança.
Quinn foi até o quarto de Sarah e Sophia, colocando-as para dormir. Santana e os outros haviam feito um bom trabalho cansando-as. Assim que a mãe às beijou e desejou boa noite, se afastando em direção à porta, as duas já estavam dormindo. Por sorte ainda eram muito pequenas e não percebiam o que acontecia em volta, diferente de Ben, que já vinha a algum tempo observando tudo.
Ao entrar em seu quarto se deparou com Ben deitado em sua cama, aninhado a Kitty, que afagava seus cabelos. O menino tinha um ar cansado, o que não combinava com uma criança. Seu filho estava sofrendo, e mais uma vez amaldiçoou Hudson pelo mal que estava lhe causando.
Foi direto ao banheiro para se recompor e se preparar para tentar dormir, o que vinha sendo praticamente impossível naquelas 72h sem Rachel. Não entendia como alguém podia sumir sem ao menos ter sido deixado uma pista sequer.
Voltou para o quarto sob o olhar atento de Kitty, que ainda afagava os cabelos de Ben já adormecido. A irmã lhe analisava tentando decifrar como se sentia. Suas feições demonstravam preocupação.
– Como você está?
– Bem. – Quinn respondeu simplesmente.
– Quero saber como você está de verdade? – insistiu a menor.
– Destruída. Perdida. Sem chão. – declarou novamente com os olhos cheios de lágrimas.
– Eu não vou dizer para você ser forte, Quinnie. No seu lugar eu acho que não estaria conseguindo agir como você. Já estaria louca.
– Por dentro eu estou um turbilhão de emoções, Kitty. Mas eu tenho que pensar nos meus filhos também. Tenho que ser forte para eles. – disse agarrada à irmã, já chorando.
Ficaram um tempo abraçadas e quando Quinn se acalmou a irmã a acomodou na cama ao lado de Ben e saiu do quarto ao vê-la puxar o filho para si e fechar os olhos.
...
Rachel estava deitada encolhida contra a parede. Tinha mais períodos inconscientes do que acordada. Noção de tempo havia perdido totalmente. Acordou com alguém chutando suas pernas. Falavam alguma coisa, mas não conseguia distinguir o que era. Só conseguia enxergar um vulto se movendo e gesticulando em sua frente. Só sentiu quando pegaram-na pelos braços arrastaram-na para a cadeira que ainda estava no quarto.
Conseguiu focar um pouco da visão e viu que era um homem alto e magro, diferente dos outros dois carrascos. Tal qual os outros este também lhe tratava com brutalidade. Concentrou-se a fim de conseguir ouvir o que dizia, só havia conseguido até agora perceber alguns xingamentos.
– Você pensa que está aqui para descansar? – rugia – Isso aqui não é um spa, não.
Ainda permanecia naquele estado de semiconsciência. Sentia seu corpo se embalando, tentando equilibrar-se.
– Á-água, p-por f-favor... – implorou num sussurro.
– Você acha que eu sou do serviço de quarto? Está muito enganada, por mim você pode morrer à mingua.
Um lampejo de lucidez passou por Rachel e ela reconheceu aquela voz. Não podia ser ele. Como uma pessoa que confiara tanto no passado podia acabar se tornando uma pessoa tão cruel ao ponto de lhe fazer isso.
– F-Finn... – sussurrou surpresa – Por quê? – foi só o que teve forças para dizer.
– Porque eu te odeio. – falou malevolamente – Sempre te odiei. Só estava com você por dinheiro. E se não tivesse feito a burrada de seguir meu coração era para estar casado com você, no lugar daquela outra nojenta e desfrutando de sua fortuna.
Rachel só conseguiu fazer uma careta de dor ao ouvi-lo se referir a sua Quinn. Ele havia matado o amor de sua vida.
– Eu vou te matar. – Rachel conseguiu grunhir.
Ao terminar de falar levou mais um soco no rosto.
– Não, queridinha. Quem vai te matar sou eu, e serei muito bem recompensado por isso. – disse saindo e deixando mais uma vez a morena inconsciente.
...
Quatro dias e nada. Nenhuma notícia de Rachel ou de seus sequestradores. Haviam realmente arquitetado muito bem o plano de sequestro, sem deixar qualquer rastro a ser seguido.
Quinn não queria, mas estava começando a perder as esperanças. Sabia que não podia ter aquele tipo de sentimento. Que tinha que acreditar até o final. Mas ficar quatro dias sem qualquer tipo de pista estava fazendo com que todos esperassem pelo pior.
Ben andava tristonho, cabisbaixo e não queria brincar. Na maior parte do tempo ficava abraçado a Quinn, Judy ou Kitty. Parecia que eram as únicas que conseguiam reconforta-lo.
Até mesmo as gêmeas estavam pressentindo alguma coisa e queriam constantemente estar junto da mãe, que se esforçava ao máximo para manter o sorriso no rosto diante das filhas. Elas já haviam começado a perguntar por Rachel e o porquê dela não ter telefonado. Sarah até chegou a cogitar que sua Mami não as amasse mais.
Ver seus filhos daquele jeito deixava Quinn cada vez pior, mas a máscara continuava a cobrir seu rosto. A máscara que cobria todo o seu desespero de sequer cogitar na hipótese de perder Rachel e ter que dar a notícia aos filhos.
Puck estava mais uma vez na casa da loira acompanhado de Patrick, que monitorava as ligações recebidas. Ainda tinha esperanças, mesmo que poucas, que Finn ligasse exigindo um resgate. Pela experiência que tinha e o tempo transcorrido já estava começando a achar que aquela possibilidade fosse impossível.
Quinn observou o detetive se afastar de onde estava para atender a um telefonema. Fixou os olhos em seu rosto e um medo começou a lhe tomar conta ao ver a expressão dele mudando conforme ouvia. Enquanto falava chegou a olhar em direção da loira, mas ao perceber que estava sendo observado desviou o rosto e ficou de costas.
Ao terminar a ligação ele mais uma vez olhou para Quinn com os olhos pesarosos e se dirigiu a Puck. A loira pressentia que coisa boa não viria dali. O amigo se aproximou e pediu que Marley levasse as crianças para brincar no quarto. Ben a princípio protestou, mas acabou cedendo e acompanhando a tia e as irmãs.
– O que aconteceu? Foi alguma coisa com a Rachel? Por favor, não mintam para mim. – Quinn implorava ao ver a cara do detetive e os olhos úmidos de Puck. Nunca tinha o visto assim.
– Quinn... – começou Patrick – É melhor você sentar.
– Por que eu tenho que sentar? O que houve? – entrou em desespero – ME FALA! – gritou.
– Nossa equipe encontrou o corpo de uma mulher jogado em uma caçamba de lixo em um beco perto do Central Park. E pelas descrições... – fez uma pausa ao ver a loira perder a cor do rosto, mas decidiu prosseguir. Não adiantava prolongar aquela situação – ... apesar de estar com o rosto desfigurado, pode ser a Rachel.
Quando ouviu aquelas palavras saírem da boca de Patrick ela sentiu as forças se esvaírem de seu corpo e desmaiou, sendo logo amparada por Puck. Judy caiu sentada no sofá, sendo logo abraçada por Kitty aos prantos. Aquilo não podia ser verdade.
...
Após amparar Quinn e levá-la para o quarto Puck se certificou que ela estava bem. Chamou o médico para examiná-la e após esse ministrar um calmante na veia para que ela dormisse por um tempo, saiu com Patrick.
Assim como os outros não conseguia acreditar que sua amiga estava morta. Tinha que se certificar de perto se aquilo era verdade. Vinha acompanhando as investigações de perto. Quase não dormia e andava sentindo falta de descarregar suas energias, como regularmente fazia em seus treinos de box.
Entrou na sala de autópsia junto com Patrick. Este estava se mostrando um bom amigo e conseguiu uma autorização para que pudesse lhe acompanhar naquela área restrita. O detetive estava participando ferrenhamente das investigações e sempre mantinha Puck atualizado do que descobriam, o que infelizmente não foi muito.
Adentrou na sala branca que fedia a éter e olhou para um homem de meia idade vestindo uma roupa branca, adequada ao local. Varreu o local com os olhos e parou a vista em uma mesa que tinha um corpo tapado por um pano branco. Ficou fixado naquele local, prevendo o que viria a seguir. Não pode deixar de sentir o pânico tomando conta do seu corpo, afinal poderia ser uma de suas grandes amigas que estava ali. Ela, como todos os amigos, eram sua família, pois havia ficado órfão muito jovem, não tendo mais ninguém.
– Olá, Patrick. – falou o homem – Quem é o seu acompanhante?
– Boa tarde, Alfred. Este é Noah Puckerman, amigo de Rachel Berry. – informou – Consegui uma autorização para ele me acompanhar até aqui.
– É um prazer apesar das circunstâncias, Sr. Noah. — cumprimentou.
– Pode me chamar de Puck, por favor. – falou esticando a mão para cumprimentá-lo.
– Nós viemos saber do corpo da mulher que foi encontrado. – falou Patrick.
– A sim. Me acompanhem. – falou se dirigindo à mesa onde estava o corpo – É uma mulher branca, cabelos escuros, e aparentemente tem entre 20 e 30 anos. O rosto está completamente desfigurado então fica mais difícil de precisar. É até bom que Puck esteja aqui para ver se há algum traço que reconheça o corpo como sendo de Rachel, sem termos que precisar esperar o exame datiloscópico ou o de DNA.
– Você está de acordo em fazer isso? – perguntou Patrick, receoso com a reação que o amigo pudesse ter. Aquilo não era fácil para ninguém.
– Claro. Apesar de não ser fácil eu faço isso. Não posso submeter a Quinn a mais esta circunstância difícil.
Com aquelas palavras o legista passou a erguer lentamente o pano que cobria o cadáver. Descobriu o rosto e Puck fechou os olhos lentamente, nunca estivera frente a uma circunstância daquelas, e sabendo que podia ser sua amiga ali tornava ainda mais difícil.
Tomou coragem e encarou aquele rosto desfigurado. Seus olhos encheram-se de lágrimas com a cena que via e desviou o rosto. Como alguém podia fazer aquilo com outra pessoa.
– É ela? – perguntou simplesmente, Patrick.
– Eu não sei. O rosto está muito desfigurado. – declarou.
Ouvindo aquilo Alfred passou a retirar o pano de cima do restante do corpo desnudo. Haviam marcas roxas para todo o lado, mas uma perfuração perto do coração lhe chamou atenção. Vendo que tinha os olhos fixos naquele lugar o médico declarou.
– Ela foi muito espancada e torturada antes de ser morta com um tiro que atingiu seu coração.
Aquilo era demais até para o grandalhão, que deixou finalmente as lágrimas escorrerem livres por seu rosto. Mesmo com os olhos nublados e tendo quase a certeza que era Rachel deitada naquela mesa, prosseguiu analisando-a.
O corpo e a altura eram compatíveis com ela. Olhava atentamente para ver se havia algum indício que não era sua amiga. Seus olhos fixaram-se num pequeno ponto no tornozelo daquela mulher, suspirando pesadamente antes de declarar.
– Não é ela. – os dois homens o olharam espantados – Não é a Rachel.
– Como você tem tanta certeza? – perguntou Patrick.
– Pela tatuagem. Rachel não tinha tatuagens.
– Noah, não quero tirar suas esperanças, mas esta tatuagem é bem recente, ainda está cicatrizando. Pode muito bem ser ela.
– Não é ela. – falou veemente – A Rachel detesta tatuagens. Ela vive implicando comigo por causa de uma que tenho desde a adolescência. Sempre diz que sou um péssimo exemplo para os filhos dela e que se eles algum dia fizerem uma a culpa vai ser minha e ela vai me caçar até o fim do mundo. – declarou agora sorrindo.
– Bom, se você tem tanta certeza vamos prosseguir nas buscas. – disse Patrick.
– Vou fazer os exames de DNA e papiloscópico para ter certeza. – quando Puck o olhou somente complementou – Procedimento padrão.
Saiu daquela sala com o corpo pesando uma tonelada, por causa da tensão que sofrera. Imediatamente pegou o celular e discou o número da casa das Berry-Fabray. No segundo toque Kitty atendeu e Puck nem se identificou, apenas despejou.
– Não era ela. Não era ela.
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