Abismo
54 Dias de terror - parte 2
Notas iniciais
Capítulo 54 — Dias de terror – parte 2
Todos estavam exaustos, não dormiam direito desde que ligaram avisando que Quinn havia sido encontrada desacordada no estacionamento do shopping e que Rachel estava desaparecida. Distribuíram-se nos quartos da casa, ninguém queria deixá-la naquele momento, a loira precisaria do conforto dos amigos.
Quinn entrou em seu quarto e o cheiro de Rachel tomou conta de seus sentidos. Ali, sozinha, no refúgio das duas deixou seus muros desabarem, jogou-se sobre a cama, abraçou o travesseiro da esposa e deu vasão às lágrimas. Nunca imaginou que pudesse sofrer tanto na vida, mas aquela incerteza de como ela estaria a destruía por dentro.
A única coisa que lhe tranquilizava era o fato de Patrick ser amigo de Puck e estar bastante empenhado no caso do sumiço de Rachel. O próprio amigo não saia de perto do detetive, acompanhando-o até mesmo na delegacia, com esperança de descobrirem algo.
Chorou até suas forças se esvaírem e acabou adormecendo, vencida pelo cansaço. Seu sono estava totalmente agitado. Debatia-se na cama e chamava por Rachel. Em seu sonho a morena pedia socorro, mas não conseguia encontra-la, desesperando-se. Acordou assustada, com o rosto banhado em lágrimas. Tremia pelo nervosismo que o sonho lhe acendera.
Olhou o relógio e recém eram duas da madrugada. Sem conseguir se controlar resolveu tomar um banho para tentar relaxar. Tirou a roupa que ainda vestia e se mirou no espelho, logo enxergando a mancha arroxeada em seu ombro deixada por Rachel no momento que tiveram juntas na sala desta.
Sentiu mais uma vez os olhos arderem, pelas lembranças que vinham sem freios em sua mente. Ligou o chuveiro e entrou embaixo sem pensar duas vezes, mal conseguia sentir a água fria que escorria por seu corpo. Ficou por um tempo ali sob a água e quando as lágrimas secaram resolveu sair do banho e colocar uma roupa confortável.
Vestiu-se e foi até a cozinha tomar um copo de água. Todas suas ações faziam-na lembrar-se de Rachel e questionar como ela estaria e se ao menos estavam lhe fornecendo o mínimo. Isso doía como se estivessem cravando uma faca diretamente em seu coração.
Soltou o copo na pia e virou-se distraída com seus pensamentos, não havia reparado na latina que a observava de forma preocupada da porta. Seus olhos transmitiam conforto e sem pensar duas vezes Quinn se jogou em seus braços, estava precisando de carinho e não ia recusar o que a amiga estava oferecendo.
– Será que ela está bem, San? – sussurrou apoiada na amiga.
– Espero sinceramente que esteja, Quinnie. A Rach é mais forte do que parece.
– Eu sei que é, mas eu preferiria que eu estivesse no lugar dela. Não sei o que farei se fizerem algum mal a ela.
– Ninguém vai fazer nada com ela. Ninguém ousaria mexer com a minha Hobbit, sem sofrer as consequências da minha fúria. – falou brava e Quinn não pode deixar de sorrir diante daquela declaração inusitada da outra.
...
Seu corpo doía por inteiro. Já fazia muito tempo que estava sentada amarrada naquela mesma posição. Estava com fome e com sede. Tinha algum tempo que nenhum daqueles homens entrava no local onde estava. Começava a achar que tinha sido abandonada ali para morrer.
Sua mente voou para seus filhos e pela notícia da morte da esposa. Seus olhos mais uma vez encheram-se de lágrimas, mas evitou chorar. Não podia gastar as poucas energias que lhe restavam.
Tentou desesperadamente se soltar, mas estava bem presa pelas fitas que rodeavam seus braços e pernas. Seu rosto ainda doía e a boca latejava, em razão do corte que ganhou junto com a bofetada. Decidiu gritar mais uma vez por socorro, pelo menos saberia se estava sozinha ou não. Não demorou muito e o grandalhão que lhe batera entrou na sala esbravejando.
– Já não mandaram você calar a boca. – gritou.
– Por favor, eu estou com cede. – suplicou. Nunca achou que teria que implorar por algo vital.
O homem saiu e voltou com uma garrafa contendo um pouco de água e encostou junto a sua boca. Sorveu sofregamente o máximo que conseguiu e que lhe foi permitido. Mas assim como Karofsky inclinou a garrafa em sua direção ele a afastou, saindo pela porta da mesma forma que entrara.
Agradeceu mentalmente por não ter sido agredida novamente. Se sentia fraca e ainda tonta pela dor no rosto, devia estar com uma marca enorme. Não sabia há quanto tempo estava ali. Fechou novamente os olhos e naquela escuridão só surgia a imagem do rosto alvo e sorridente de Quinn. Daria qualquer coisa para tê-la de volta. Doía demais saber que havia perdido sua Quinnie.
...
Santana praticamente arrastou Quinn de volta para o seu quarto, ela definitivamente precisava descansar. Passaram por um dos policiais que estava fazendo plantão na casa, pela possibilidade dos sequestradores entrarem em contato, e este informou que não haviam novidade. Entraram no quarto e a latina a conduziu até a cama, saindo em seguida. Logo que deitou ouviu uma pequena batida na porta e Ben entrou.
– Mamãe, estou com medo. – falou choroso – Posso dormir aqui com você?
– Claro, anjinho. – disse abrindo os braços para que o filho se deitasse e se acomodasse em seus braços.
– Mamãe? – chamou baixinho.
– Oi.
– Quando a Mami volta? – perguntou olhando direto nos olhos de Quinn.
– Não sei, anjinho. Não sei. – respondeu fechando os olhos. Não conseguia encarar o filho sem se emocionar.
Trouxe-o ainda mais para perto de si e apertou o abraço. Aquele contato a reconfortava e dava esperanças de que logo Rachel estaria de volta junto a eles.
Sentindo a cadência da respiração do filho acabou adormecendo, somente acordando quando ele se remexeu para trocar de posição. Olhou o relógio e viu que já eram seis e meia da manhã. Decidiu levantar e tomar um banho para arejar as ideias, não adiantava ficar sentada sofrendo, tinha que fazer algo de útil por sua Rachel.
Ao terminar de se vestir olhou mais uma vez para o filho e viu que dormia tranquilamente. Desceu para o andar inferior e se deparou com Puck já em pé conversando com Patrick. Suas caras não eram as melhores.
– Alguma novidade? – foi logo perguntando esperançosa.
– Nós encontramos o furgão utilizado no sequestro. Ele estava abandonado perto do Central Park em um local praticamente sem câmeras. O bandido sabia o que estava fazendo. – declarou Patrick.
– E encontraram alguma pista? – questionou ansiosa.
– Infelizmente não. Esses caras são mesmo profissionais. A única coisa que encontramos foi um fio de cabelo da Rachel, que só comprovou que ela realmente esteve naquele veículo. – lamentou o detetive.
– E como fica agora, Patrick? – começou a se desesperar frente a falta de novidades.
– Nossa equipe está dando tudo de si, Quinn. Não vamos desistir. Seus telefones já foram grampeados, para o caso deles entrarem em contato. E estamos interceptando todas as suas correspondências.
Frente aquela notícia, Quinn se sentiu desanimada. Não sabia mais de onde tirar forças, estava totalmente quebrada e seus filhos logo começariam a perceber que as coisas não estavam bem. Não tinha ideia do que fazer. Vendo seu olhar perdido Puck se aproximou e abraçou a amiga.
– Nós vamos encontra-la, Quinnie. Eu prometo.
...
Rachel acordou com um safanão em seu braço, nem notara que havia dormido. Estava cada vez mais tonta. Não tinha noção de tempo, mas achava que estava ali a mais de 24 horas. Sentia-se fraca e debilitada. Ainda não haviam lhe dado nada para comer e bebeu um pouco de água apenas uma vez.
– Acorda, preguiçosa. – Azimio batia em seu braço com certa força – O chefe mandou te trazer um pão e um pouco de água.
Dizendo isso ele a livrou das fitas que prendiam seus pés e depois suas mãos. Estava fraca e mal conseguia erguer sua cabeça. Vendo que ela não se movia deu-lhe um tapa no ombro fazendo com que seu corpo fosse para a frente e caísse no chão de pedra. Só sentiu a dor do impacto de seu rosto contra o chão duro. O homem gargalhou diante daquela cena, demonstrando o prazer doentio que aquilo lhe causava.
Ainda rindo largou a fatia de pão e o copo de água na cadeira onde até então Rachel estivera sentada e saiu, trancando a porta atrás de si. Lutava para não ficar mais uma vez inconsciente. Arrastou-se lentamente até a cadeira e sofregamente esticou a mão até o pedaço de comida largado ali. Comeu-o devagar para não passar mal, apesar da fome sobre-humana que sentia. Terminando o pão pegou a água e da mesma forma sorveu-a lentamente.
Arrastou-se até o fundo da sala e acomodou-se contra a parede. Seu corpo doía cada vez mais e seu rosto estava ainda pior depois da queda. Sem ter mais forças voltou a ser engolfada pela escuridão.
...
Já faziam 48 horas que Rachel estava desaparecida e pelas informações que os investigadores lhes deram a partir desse período ficaria ainda mais difícil de localizá-la, pois com o tempo as pistas ficavam ainda mais difíceis de ser localizadas.
Santana, Brittany, Blaine e Ashley se encarregaram de cuidar das crianças e mantê-las afastadas de todo aquele tumulto que se instaurara na casa. Puck continuava grudado a Patrick, sempre os colocando a par das novidades. Judy e Kitty amparavam Quinn, que estava cada vez mais desolada, apesar de tentar ser forte na frente dos filhos. Marley e Kurt estavam atendendo o que era necessário e sempre estavam na volta da loira.
Geórgia, Lauren, Will e Emma sempre que podiam davam uma passada até a casa das meninas e ligavam a todo instante para saber se não havia novidades sobre Rachel, sempre ficando frustrados com as respostas negativas.
Kurt também estava desolado com a situação, afinal Finn era filho de sua madrasta, nem o considerava mais como irmão. O pouco de respeito que sobrara quando este abandonou Rachel esvaiu-se por completo. A mãe de Finn havia passado mal com a notícia e estava internada em observação, sob efeito de fortes calmantes e sob o olhar atendo do marido.
Quinn estava sentada no sofá, de cabeça baixa, aconchegada ao peito de sua mãe. Estava mais uma vez sob o efeito de um fraco calmante que o médico recomendara. Só conseguia pensar se Rachel estaria bem ou não.
– Eu nunca na vida sequer sonharia que um dia eu passaria por uma situação como essa. – murmurou.
– Ninguém cogita essas situações para sua vida, Quinnie. – consolou a mãe – São coisas imprevisíveis.
– Não sei o que será de mim se eu chegar a perde-la, mãe. – choramingou.
– Filha, agora está sendo difícil para você principalmente. Mas você tem que se lembrar dos filhos de vocês. – ponderou – A Rachel gostaria que você fosse forte nesse momento por eles.
– Eu estou tentando, mas é tão difícil. Não sei o que seria de mim sem vocês aqui comigo nesse momento.
– Nós somos uma família, você mesmo já cansou de dizer isso. E família não é só para as horas boas. Nesses momentos é que você percebe quem realmente gosta de vocês e se importa com seu bem estar.
Judy afagava os cabelos da loira, que tinha os olhos fechados, quando viu a pequena figura loira de seu neto entrando sorrateiramente na sala. Ele olhava para os lados, tentando identificar quem eram aquelas pessoas que transitavam pela sala e monitoravam painéis. Ao avistar a mãe e a avó sentadas no sofá correu naquela direção e sentou-se ao lado de Quinn que no mesmo instante abriu os olhos e surpreendeu-se por ver o filho ali.
– Mamãe, me conta o que está acontecendo, por favor. – suplicou – Cadê a minha Mami?
O garoto era realmente esperto, era óbvio que ele perceberia que havia algo errado, já era um menino grande e mais inteligente que a média.
– Anjinho, a Mamãe vai te contar, mas você não pode falar nada para as meninas. Tudo bem? – falou receosa abraçando o filho.
– Pode deixar, Mamãe. – falou sério, compenetrado como um adulto.
– Aconteceu uma coisa ruim...
– Com a minha Mami? – interrompeu a mãe, ansioso.
– Sim, anjinho. Com a Mami. – falou devagar e o garoto começou a chorar – Amor, olha para a Mamãe. – disse levantando o rosto do filho – Vai ficar tudo bem, ok?
– O que aconteceu com a minha Mami? Eu quero a minha Mami, Mamãe? Por que ela não está aqui? – atropelou as frases ainda chorando.
– Eu e a Mami estávamos saindo do shopping aquele dia e uns homens maus pararam a gente e levaram a sua mãe. Mas o tio Puck é amigo do tio Patrick, você lembra dele aqui ontem? – o menino assentiu enquanto chorava mais ainda – Então... o tio Patrick trabalha na polícia e eles estão procurando a Mami e enquanto não acharem ela eles não vão desistir.
– Mamãe, será que a minha Mami está bem? – soluçava.
– Está sim, anjinho. Logo, logo ela estará aqui conosco. – tentou tranquilizar o filho.
O coração de Quinn, que já estava partido, ficou ainda mais ao ver o sofrimento do filho. Mas aquilo lhe trouxe uma força desconhecida, para acalentar ao próprio filho e esquecer por um momento a dor que sentia. Aquilo fez com que uma chama surgisse em seu peito: tinham que encontrar Rachel.
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