Abismo
17 Diagnóstico
Notas iniciais
Capítulo 17 – O Diagnóstico.
Logo após a chegada de Marley e Kitty, foi a vez de Kurt e Blaine adentrarem o quarto com feições preocupadas.
– Rach, cadê nosso principezinho? – perguntou Kurt não cabendo em preocupação.
– Ele está fazendo alguns exames, K.
– Mas o que ele tem? – foi a vez de Blaine se manifestar.
– O médico preferiu fazer uns exames antes de dar um diagnóstico. – disse.
– Vai ficar tudo bem, não se preocupe, Rach. – falou Kurt a abraçando.
Com o carinho recebido pelos amigos Rachel permitiu que algumas lágrimas escorressem por seu rosto. Seu bebezinho ficaria bem, não seria nada grave, tudo se resolveria. Mesmo com esses pensamentos não conseguia afastar um mau pressentimento que vinha lhe tomando conta. Isso a estava deixando extremamente preocupada, embora tentasse não transparecer.
Após se afastar de Rachel, Kurt passou a analisar as demais pessoas que estavam no quarto, parando seu olhar na loira que estava abraçada a Kitty. Não a conhecia e estranhou sua presença ali, ainda mais por parecer tão íntima da amiga. Ela lembrava alguém, mas não conseguia saber quem.
Quando ia questionar a Rachel quem era aquela mulher, uma Santana descontrolada, seguida por uma Brittany que tentava segurá-la, entrou porta a dentro.
– Donde esta el niño, donde esta mi corazón? – perguntou em espanhol, demostrando todo seu nervosismo.
– Calma, San. Ele está fazendo alguns exames e já vão trazê-lo de volta. – tentou acalmá-lo Rachel.
Santana deu um abraço caloroso em Rachel, mas logo a soltou para que Brittany pudesse repetir o mesmo gesto. Tirou os olhos de Rachel para cumprimentar os demais que estavam no quarto, quando enxergou a loira que lhe lançava um olhar maroto.
– Quiiiinn!!! – falou lançando-se em seus braços – O que você faz aqui? Madre de Díos, você não vinha só na semana que vem?
– Sim, San. É que resolvi vir antes e fazer uma surpresa, mas quem teve uma tremenda surpresa fui eu. – disse olhando para Rachel, pedindo sua permissão com o olhar para falar.
Enquanto Rachel anuía com um leve movimento de cabeça, era a vez de Brittany abraçar Quinn.
– Nós não víamos a hora de ter você aqui de novo, Q. Você faz muita falta. – falou com os olhos marejados, tirando momentaneamente o foco da pergunta de Santana.
Kurt permanecia olhando intrigado para a loira. Tinha alguma coisa ali que não estava se encaixando, mas ele logo descobriria o que era. Aquele rosto não era estranho.
Ao perceber que Kurt não desviava os olhos de Quinn, Kitty deu-se conta que não os havia apresentado. Diante da situação até tinha se esquecido dos bons modos.
– Que falta de educação a minha. – disse – Quinn, eu não te apresentei aos meninos. Kurt, Blaine, esta é minha irmã Quinn.
– É um prazer finalmente conhecê-la, Quinn. – disse Blaine dando um beijo em seu rosto.
– Digo o mesmo. As meninas sempre falam muito de vocês.
– Até que um dia conhecemos a famosa Quinn. – disse Kurt lhe dando um abraço, surpreendendo Quinn.
– Obrigada, Kurt.
– Tá purpurina, pode soltar a Quinn agora. – falou Santana com a cara fechada.
– Já começou a latina ciumenta. – debochou Quinn, recebendo um leve empurrão de San.
Rachel permanecia calada, um pouco mais afastada só observando a cena. Pelo jeito não teria mesmo como escapar de tudo. Quinn dividia os mesmos amigos que ela e trabalhariam no mesmo ambiente, com certeza ainda teriam de conviver muito. Não sabia o porquê, mas tinha a impressão de aquela convivência não seria tão difícil.
Sempre teve medo da possibilidade de reencontrá-la, medo da reação que pudesse ter, mas principalmente, medo que ela viesse a tentar lhe tirar Ben. Seu filho era seu mundo e não aguentaria ficar longe dele. Todavia, pelo pouco que conhecera de Quinn pessoalmente e do muito que ouvira de Kitty e de seus amigos, tinha certeza que ela não faria isso, o que a deixava mais tranquila.
– Rachel, você está bem? – disse Quinn afagando meu braço – Você parece distante.
– Estava só pensando... Estou agoniada com essa demora.
– Não fique assim, é que são procedimentos mais extensos mesmo, pelo que a enfermeira nos explicou.
– Sim, eu sei. Mas eu não consigo ficar sem me preocupar.
– Eu também estou preocupada, Rach. – falou ainda com a mão em meu braço.
Kurt ainda observava tudo de longe sem conseguir compreender a interação das duas, afinal nunca tinham se visto até então, ou tinham? Aquela sensação de que conhecia a loira não saía de sua cabeça.
Algum tempo depois a enfermeira trouxe Ben de volta ao quarto. O menino estava bastante cansado em função dos exames realizados e foi logo colocado na cama por Rachel. Seus amigos foram para perto para distraí-lo enquanto ela e Quinn falavam com a enfermeira.
– O Dr. Marcus pediu para avisá-la que os exames estarão prontos em meia hora e que estará lhe esperando no consultório dele. – falou olhando para Rachel.
– Tudo bem, obrigada. – disse à enfermeira que saiu logo em seguida.
– Posso ir com você, Rachel? – questionou Quinn.
– Claro que sim. – respondeu, indo em direção a Ben – Como você está se sentindo, filhotinho da Mami?
– Tô cansadinho, Mami. Quando a gente vai poder ir para casa?
– Logo, logo. Dorme um pouquinho, bebê. A Mami e a Quinn vão falar com o médico daqui a pouco e voltamos logo. Você pode ficar um pouquinho com seus tios?
– Sim, Mami. – falou, concordando com a cabecinha.
Quinn afagava a cabecinha de Ben, não queria sair de perto dele nunca mais. Rachel se afastou da cama sendo seguida por Kurt, Marley e Blaine.
– Rach, não estou entendo essa interação sua com a irmã da Kitty. Por que ela vai te acompanhar ao consultório do Dr. Marcus? – questionou Kurt com feições interrogativas.
– Aconteceram tantas coisas hoje que nem eu mesma estou acreditando... – falava baixo para que só os amigos escutassem – Bom vamos do começo... Vocês lembram o que contei para vocês no dia seguinte que fomos naquela boate e que acabei engravidando?
– Claro que sim, como íamos nos esquecer?
– Bom é que hoje eu tive uma enorme surpresa com relação a isso.
– Tudo bem, mas onde a Quinn entra nessa história? – Marley perguntou.
– Sabe a Lucy? – perguntou olhando para Quinn pelo canto de olho.
– A loira mis...te...ri...o...sa... – falou Kurt pausadamente já olhando direto para Quinn, como se estivesse entendo tudo.
– Sim. Pois então... A Lucy e a Quinn são a mesma pessoa. – concluiu.
– A QUINN É A OUTRA MÃE DO BEN??? – disse alto sem nem ao menos perceber seu tom.
Com o quase grito de Kurt os demais se viraram para eles e passaram a alternar olhares surpresos e interrogativos entre Rachel e Quinn.
– Você é minha mamãe também, tia Quinnie? – ouviram a vozinha de Ben perguntar em meio aquele silêncio interrogativo que havia se formado.
Quinn olhou apavorada para Rachel, não sabia o que dizer para a criança, se já era a hora de dizer toda a verdade para Ben.
– Vamos lá para fora, pessoal. Vamos deixar elas conversarem com Ben. – Kitty falou despertando todos do choque.
Todos seguiram Kitty para fora do quarto, deixando os três sozinhos. Ben tinha os olhos vidrados em Quinn, que por sua vez ainda olhava para Rachel sem saber o que dizer.
– Ben, filho... – começou Rachel meio incerta – Você gosta da Quinn, certo?
O menino concordou com a cabeça.
– A Mami e a Quinn se conheceram antes de você nascer... – olhou para Quinn, ainda sem saber direito o que dizer para a criança.
Ben ainda esperava pacientemente que sua mãe continuasse. Frente a insegurança de Rachel, Quinn decidiu continuar.
– Então... eu e sua Mami nos conhecemos e namoramos antes de você nascer. – tentava explicar de uma forma singela para que a criança entendesse — Aí eu tive que ir embora e eu não sabia que você tinha ficado na barriga dela. Mas agora quando eu voltei eu encontrei a sua Mami de novo e ela me contou que você é meu filho também e eu fiquei muito feliz com isso.
Ele ficou em silêncio tentando entender tudo o que lhe fora dito.
– E como eu fui parar na barriga da Mami? – perguntou inocentemente.
As duas perderam a cor e se olharam sem saber o que responder, até que Rachel resolveu contornar.
– Você ainda é muito pequeno para entender. Quando você for maior nós te explicamos.
Aquela resposta pareceu ser suficiente para o pequeno, que voltou seu olhar para Quinn.
– Você é minha mamãe também? – repetiu a pergunta.
– Você quer que eu seja sua mamãe? – Quinn perguntou de volta e viu os olhinhos de Ben brilhando.
– Quero sim. – falou sorrindo.
Quinn não aguentou a emoção daquele momento e abraçou o menino que se aconchegou em seu pescoço.
– Eu vou poder te chamar de Mamãe?
Rachel que observava a cena com os olhos marejados não aguentou e deixou as lágrimas caírem, como já estava acontecendo com Quinn.
– Claro que pode, meu anjinho. Vou ficar muito feliz se você me chamar assim.
Ficaram abraçados por mais uns instantes até que uma leve batida na porta anunciou Santana, que entrou no quarto e abraçou Quinn.
– Fico tão feliz por você... É uma notícia maravilhosa e Ben é um excelente garoto. Não é mesmo, cariño? – dirigiu-se ao menino que concordou.
– Obrigada, San. Também estou muito feliz com essa surpresa.
– Bom, não foi por isso que vim aqui... A enfermeira veio avisar que o médico está esperando vocês, os exames já estão prontos. – anunciou – Podem ir tranquilas que fico aqui com Ben.
– Obrigada, Santana. – disse Rachel – A Mami volta daqui a pouco, ok bebê?
– Tá Mami.
POV Rachel
Meu coração batia acelerado enquanto me dirigia até o consultório do médico. Tinha uma preocupação crescente dentro de mim. A única coisa que me acalentava naquele momento era Quinn caminhando ao meu lado. Embora não estivéssemos nos tocando, a sua simples presença já me trazia segurança.
Aquela sensação era totalmente desconhecida para mim. Como podia me sentir segura com uma pessoa que até então era praticamente uma desconhecida para mim? Não entendia, mas aquela segurança era muito boa naquela hora.
Entramos no local onde o médico nos aguardava. Estava sentado atrás de uma escrivaninha e indicou para que sentássemos nas cadeiras que havia dispostas na frente desta. Seu semblante era preocupado enquanto olhava os exames que tinha em mãos, o que me fazia aguardar ansiosamente que falasse.
– Bom Rachel, como eu havia explicado antes, foi necessária a realização de vários exames a fim de se concluir o que causava aqueles sintomas no Ben.
– E então, doutor?
– Os resultados, infelizmente, detectaram um problema mais sério do que eu esperava.
Naquele momento o chão se abriu sob meus pés, aquele abismo que há muito vinha se fechando abriu-se novamente e eu estava prestes a cair dentro dele. Não suportaria que algo ruim acontecesse a meu filho. Aguentaria que qualquer coisa acontecesse comigo, mas não com ele que era apenas uma criança indefesa.
Senti Quinn se retesar na cadeira ao lado. Olhei em sua direção e ela tinha o rosto lívido. Lançou um olhar em minha direção e vi a minha preocupação estampada naquelas orbes verdes. Ela pegou minha mão, como forma de nos tranquilizarmos e pediu que Dr. Marcus prosseguisse, eu estava sem conseguir proferir nenhuma palavra.
– Inicialmente ficou constatado que o Ben está com uma pequena infecção na garganta como eu havia dito, por isso a febre. Mas o que me preocupou mais foi quando você disse que ele anda com dores no corpo, indisposto e se cansando rápido. – foi informando – Diante dessas informações eu requisitei que fosse feito um eletrocardiograma, entre outros exames. – fez uma pausa.
– E então, doutor? – era só o que conseguia dizer.
– Rachel, você vai ter que ser forte, ok? – falou preocupado enquanto me olhava – Foi detectada uma má formação em uma das válvulas cardíacas do Ben. Isso vem obstruindo o fluxo sanguíneo, o que causa as dores no corpo e o cansaço que ele vem sentindo. Com o crescimento a situação se agrava e a única alternativa que se tem é a realização de uma cirurgia para correção dessa disfunção.
Meu mundo caiu, não conseguia respirar, meu coração estava por sair pela boca.
– O procedimento é bastante delicado e precisa ser realizado o quanto antes para que a situação não se agrave ainda mais, Rachel. Os custos são elevados, mas é a única alternativa que se tem. O governo custeia esse tipo de cirurgia, mas a fila é longa e o período de espera é maior ainda, o que não é recomendado nessa situação.
– Ó meu Deus, eu não tenho tanto dinheiro assim guardado. Vou colocar meu apartamento à venda e vou ter que conseguir esse dinheiro o quanto antes. Não vou deixar meu filho esperando tanto tempo. Eu não posso perdê-lo, ele é tudo que tenho. – falei chorando compulsivamente.
– Nós não vamos esperar. Doutor, pode providenciar tudo que for necessário. Eu arcarei com todas as despesas. – falou Quinn que até então estava calada.
– Não, Quinn. Você não precisa fazer isso. Eu dou um jeito, eu vendo tudo que tenho.
– Rachel, me deixe fazer isso. Ben também é meu filho e eu também não posso perdê-lo. Sei que recém os fatos foram esclarecidos, mas eu já o amo mais que tudo no mundo. Eu vou fazer isso mesmo sem sua autorização. – falou enfática.
Dr. Marcus nos olhava sem entender o que acontecia, aguardava em silêncio enquanto terminávamos nossa discussão.
– Tudo bem. Eu vou aceitar sua ajuda, pelo meu filho... Pelo nosso filho. – falei por fim, não iria recusar ajuda naquela hora. – Pode providenciar o que for necessário, doutor.
Quando saímos da sala do médico não me aguentei, puxei Quinn pela mão e quando ela se virou para mim a abracei. Precisava de um conforto ao menos naquele momento.
– Vai ficar tudo bem. Nosso menino vai ficara bem. – sussurrou em meu ouvido enquanto me abraçava. Naquele momento eu sabia que tudo se resolveria.
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