Abismo
15 A volta
Notas iniciais
Capítulo 15 – A volta
Nas festas daquele fim de ano, Quinn não conseguiu retornar, como prometera a Ben. Tanto ela quanto o menino ficaram muito tristes. Ao menos sempre se falavam por telefone quando ele ia visitar Kitty e pedia que ligasse. Aquela voz infantil conseguia lhe transmitir uma alegria inexplicável. Era algo quase palpável.
Alguns meses já haviam se passado e estava contando os dias para encerrar o que tinha que fazer em Londres e delegar funções ao novo diretor-executivo contratado. Fazia algum tempo que o vinha treinando e ele estava quase apto para tomar as rédeas sozinho.
Suas coisas já estavam todas preparadas para a volta, tamanha era sua ansiedade. Sentia falta de NY, mas acima de tudo sentia falta de sua família e amigos. Em alguns dias estaria em casa.
...
Rachel estava a seis meses de completar 25 anos e estava cada vez mais descrente de que conseguiria cumprir com as exigências de seus pais. Havia praticamente desistido de recuperar seu legado, mas isso não a preocupava mais.
Teve apenas dois namorados desde que ganhara Ben, mas não pretendia seguir os namoros a diante e os dois sumiram de sua vida da noite para o dia. Num dia estava tudo bem e no outro lhe diziam que queriam um tempo e nunca mais apareciam. Mas para Rachel pouco importava, não havia conseguido se afeiçoar a nenhum deles e aqueles namoros com certeza não durariam.
Desde que fora trabalhar nos Hotéis Fabray se tornou uma pessoa independente e que vivia a suas expensas, não dependia da ajuda de ninguém. Tinha um ótimo cargo e um bom salário. Poderia até se mudar para um apartamento melhor, mas por enquanto ainda estava economizando para que não precisasse financiar nenhum valor quando da compra.
Kurt já não morava mais com ela e Ben. Ele e Blaine haviam se casado há um ano e moravam mais perto do centro da cidade, em um local bem movimentado. Marley e Kitty ainda namoravam. Ela ainda possuía seu apartamento, apesar de passar mais tempo no da loirinha.
As coisas no trabalho continuavam agitadas como sempre, mas tendiam a dar uma acalmada com o retorno de Quinn, que estava próximo. Estava curiosa para conhecê-la, pois já fazia mais de três anos e meio que trabalhava na empresa e até agora os desencontros que houve não permitiram que se conhecessem. Ben tinha adoração por ela e vivia falando na tia Quinnie e reclamando de saudades. Rachel não entendia a ligação do menino com aquela mulher que ele havia visto apenas uma vez e falado tantas outras por telefone.
...
Era segunda-feira e havia combinado com Kitty que naquela semana colocariam tudo em ordem para esperar Quinn na semana seguinte.
Ben havia passado todo o final de semana indisposto e Rachel não conseguia ficar sem se preocupar. Seu filho sempre fora uma criança agitada e ultimamente andava pálido e abatido, reclamando de dores no corpo e cansaço. Isso a estava preocupando e ligaria logo pela manhã para o médico a fim de marcar uma consulta para o menino.
Chegou com Ben na empresa e deixou-o na creche, como fazia diariamente. Explicou para a encarregada que ele não havia se sentindo bem no fim de semana e recomendou que qualquer coisa ligasse para seu celular.
Subiu direto para sua sala e organizou alguns papéis pendentes que havia em cima de sua mesa. Quando estava terminando Lauren telefonou dizendo que Kitty precisava falar com ela e logo se dirigiu para a sala onde era esperada.
POV Rachel
Fui até a sala de Kitty assim que terminei de despachar alguns documentos importantes. Passei por Lauren e a cumprimentei entrando logo na sala.
Ao abrir a porta percebi que Kitty não estava sozinha e me questionei porque Lauren não tinha me avisado. Havia uma mulher loira sentada na cadeira em frente à sua mesa e Kitty tinha um sorriso enorme estampado no rosto.
Dirigiu o rosto em minha direção quando percebeu minha presença e me fez um sinal para que eu entrasse.
– Rachel, que bom você não demorou. – falou entusiasmada – Deixa eu apresentar vocês. Rachel, esta é minha irmã Quinn. Quinn, esta é meu braço direito e amiga Rachel.
A mulher levantou e virou em minha direção. Quando meus olhos se fixaram em seu rosto eu senti que o mundo girou e o chão se abria sob meus pés. Só consegui dizer ao mesmo tempo que ela.
– Lucy?
– Barbra?
Ali estava a loira que tanto atormentara meus sonhos. A mulher que eu tanto ansiara encontrar. A mãe do meu filho.
– Vocês se conhecem? – questionou Kitty com uma voz que parecia vir de quilômetros de distância.
Ela me olhava tão espantada quanto eu a olhava. Não conseguia decifrar outra coisa em suas feições que não fosse surpresa. Kitty tinha cara de quem estava começando a entender muita coisa, mas não falou mais nada.
Meu telefone celular tocou, nos despertando daquele torpor. Olhei para o visor e vi que era da creche.
– Me desculpem, tenho que atender, é da creche. – falei já atendendo, mesmo sem sair da sala – Alô!... Sim, sou eu Joanna. Como assim? Ele não está se sentindo bem? Já estou indo aí.
Desliguei o telefone totalmente perdida.
– Kitty, me desculpe, mas eu tenho que sair. O Ben está com febre e estão me chamando da creche. – falei preocupada.
– O que ele tem? – Quinn me perguntou e fiquei apenas olhando para ela, que insistiu – Ele está bem?
– Ele passou indisposto no fim de semana e... Me desculpem eu tenho que ir... – falei já saindo da sala.
Peguei minha bolsa ao passar por meu escritório e entrei no elevador que estava parado no andar. Agradeci por haver mais de um, pois o outro recém estava subindo.
A descida pareceu durar uma eternidade. Ao chegar ao segundo piso, onde ficava a creche, saí quase correndo em direção à sala que Ben estava. Entrei no local e o vi sentado no colo da professora, com os olhinhos fechados e o rosto avermelhado.
Fui até ela e sentei na cadeira do lado, pegando-o no colo, afagando seus cabelos loiros.
– Filho, o quê você está sentindo? – perguntei preocupada.
Enquanto ele abria os olhinhos Quinn irrompeu na sala com Kitty logo atrás. Ela se aproximou de nós vagarosamente, Ben a enxergou lançando um fraco sorriso em sua direção.
– Tia Quinnie! Você veio me ver? – perguntou fracamente.
– Vim sim, meu anjinho. – falou se agachando em minha frente e afagando os cabelos de nosso filho.
– Eu não estou me sentindo bem, Mami. – falou me olhando.
– Eu sei, meu bebê. A Mami vai chamar um táxi e vai levar você no médico pra você ficar bom logo, está bem? – falei e ele apenas concordou com a cabeça. Maldita hora em que o carro foi para a oficina.
– Não precisa chamar táxi, eu vou levar vocês. – disse Quinn.
– Não tem necessidade, não quero te incomodar.
– Não vai ser incômodo nenhum, me deixe ajudar. – Ela insistiu e acabei anuindo.
Kitty só olhava a situação sem esboçar qualquer comentário.
– Kitty, não tem problema se eu sair?
– Rachel, nem precisa me perguntar isso. Vá levar meu afilhado ao médico de uma vez e me liguem assim que tiverem qualquer novidade. – falou, incisiva.
Quinn pegou Ben dos meus braços e se dirigiu ao estacionamento até seu carro, murmurando algo em seu ouvido. Sentei no banco traseiro com Ben no colo e ela conduziu até o hospital em completo silêncio. Eu sentia sua cabeça funcionando. Era inevitável, teria de contar toda a verdade para ela.
POV Quinn
Cheguei uma semana antes do combinado a NY, a fim de fazer uma surpresa a todos. Deixei minhas coisas em meu apartamento e me dirigi para a empresa. Estava doida para ver a reação de Kitty quando me visse.
Lauren estava sentada a sua mesa, digitando no computador quando cheguei. Ela levou um susto tão grande que pensei que fosse desmaiar. Levantou de sua mesa e me deu um abraço.
– Kitty está sozinha? – perguntei.
– Sim, está. Ela vai ter um troço quando te vir.
– Vou entrar de surpresa, não precisa me anunciar. – falei com uma cara sapeca.
– Está bem, qualquer coisa me avisa para eu chamar socorro. – falou rindo.
Abri a porta lentamente sem que ela percebesse minha presença e fechei da mesma forma. Discretamente fui andando pela sala sem que ela me visse, estava concentrada em uns papéis.
Quando estava a apenas uns passos de sua mesa não aguentei e falei:
– Quanta concentração, irmãzinha.
Ela levou um susto e me olhou surpresa.
– QUINNIEEE! O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI? – gritou enquanto eu ria. Levantou-se e correu em minha direção.
– Surpresaaa. – falei entanto lhe dava um abraço de urso.
– Que bom que você voltou. Não aguentava mais ficar tanto tempo longe de você. – falou emocionada.
– Eu também não via a hora de voltar. Meu lugar é aqui. Na agitação de NY, perto da minha família e bem longe daqueles londrinos chatos. – falei rindo.
Ela riu do meu comentário e seguimos matando a saudade. Depois de conversarmos mais um pouco ela ligou para Lauren e pediu que chamasse Rachel até sua sala. Não demorou muito e ela entrou. Kitty imediatamente passou a nos apresentar e quando me virei para cumprimentá-la vi a última pessoa que eu esperava.
– Lucy?
– Barbra?
Não conseguia falar nada. Milhares de coisas vinham em minha cabeça: isso é impossível; nossa que coincidência; como ela está linda. Nenhum pensamento com coerência era formulado em minha mente. Só ouvi Kitty perguntando.
– Vocês se conhecem?
O telefone de Rachel tocou e ela atendeu preocupada, dizendo que era da creche, que Ben estava com febre. Fui tomada por uma preocupação e perguntei se ele estava bem. Ela não respondeu imediatamente, ficou parada me encarando. Eu insisti e me disse que ele tinha passado indisposto. Pediu licença e saiu rápido da sala.
Fiquei uns instantes sem reação. Ben me veio à cabeça, várias coisas pareciam querer se encaixar. Nossa afinidade, nossa semelhança física, o sentimento inexplicável que tive no instante em que o vi.
– Meu Deus!! Não pode ser! – exclamei para mim mesma.
– Ele é seu filho, não é? – Kitty perguntou sem rodeios, para meu espanto.
– E-e-eu não sei, mas tudo indica que sim. – falei hesitante.
– Droga, eu sempre suspeitei. Mas nunca tive indícios para comprovar minha teoria. Eu também me apaixonei por este garoto no momento em que coloquei os olhos nele na maternidade. Sempre disse que ele me lembrava alguém... Agora vejo que era você quem eu via nele cada vez que o olhava. – falou como se tivesse feito uma grande descoberta.
– Eu vou atrás dela. – falei saindo da sala. Kitty logo saiu em meu encalço.
Quando entrei na sala que Ben estava, Rachel já tinha ele no colo e tentava descobrir o que ele sentia. Me aproximei devagar e ele lançou um sorriso ao me ver. Agachei-me em sua frente e acariciei seus cabelos.
Ao ouvir aquela voz infantil tão fraquinha ao falar comigo meu coração se encheu de preocupação e de alegria ao mesmo tempo. Só o pensamento que vinha em minha cabeça era: “Meu filho!”.
Ele se virou para Rachel dizendo que não se sentia bem, vi nos olhos dela a mesma preocupação que explodiu em meu peito. No momento em que ela disse que pegaria um taxi para levá-lo ao hospital eu disse que a levaria, não podia deixar Ben sair daquele jeito e ficar sem notícias. Eu queria estar junto, queria cuidar dele, queria protegê-lo.
Peguei-o do colo de Rachel e fui em direção à garagem enquanto dizia em seu ouvido que tudo ficaria bem, que agora eu estava ali e não ia deixá-lo mais.
O caminho até o hospital foi feito em silêncio. Minha cabeça fervilhava. Desejava insanamente que Rachel confirmasse que Ben era meu filho, apesar de eu ter quase certeza de que era.
Chegamos à recepção do Hospital Presbyterian e Rachel passou todas as informações necessárias à recepcionista, pedindo para ser atendida pelo Dr. Marcus. Fomos então encaminhadas ao consultório do médico, que estava terminando de atender um paciente e ficamos a espera.
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