Abismo
11 A oportunidade
Notas iniciais
Capítulo 11 – A oportunidade
Rachel não sabia o que fazer, já fazia quase duas semanas que vinha procurando um emprego e até agora não havia conseguido nada. O fato de estar grávida não ajudava muito, ninguém queria empregar uma gestante.
O máximo que conseguira fora uma proposta para ser garçonete em uma lanchonete, mas a tinha recusado. Ponderou que dali a algum tempo seria muito difícil passar o dia inteiro em pé em razão de sua barriga que vinha crescendo.
Entretanto sentia que, caso não conseguisse algo melhor, teria que aceitar aquele emprego mesmo. Não poderia demorar muito em se decidir, pois a vaga poderia ser preenchida e perderia a oportunidade.
Seu semestre na universidade já havia acabado e assistia um musical na televisão quando Kurt chegou da aula, ele ainda teria mais algumas provas antes das férias.
POV Rachel
– Oi Rach, como passou o dia? – perguntou me dando um beijo na testa — E nosso menino como está?
– Passamos bem, Kurt. E você?
– Bem também. Hoje tivemos uma prova prática bastante complicada com a Cassandra. – disse cansado – Ainda bem que tirei uma nota razoável e passei. Foi a última cadeira com ela. – disse jogando as mão para o ar comemorando.
– Que ótimo, Kurt. Menos uma preocupação para você, então. – disse feliz, o abraçando.
– Sim, graças a Deus não vou ter mais que aguentar aquela mulher insuportável.
– Bom, após essa notícia maravilhosa eu sinto que o que vou te falar não será tão boa assim...
– O que houve, Rachel? Algum problema com o bebê? – questionou preocupado.
– Não, está tudo bem com ele. – respondi, tranquilizando-o – Sabe o que é? Já tem um tempo que estou procurando um emprego, você sabe... – ele concordou – e eu não estou conseguindo achar nada, Kurt.
– Eu sei, R. As coisas realmente não são fáceis, mas você não pode desistir. – falou me consolando.
– Sim, e você sabe também que daqui a dois meses exatos eu completo meus 21 anos e não vou receber mais minha pensão.
Ele anuiu com a cabeça.
– Só que agora, K, eu não posso mais pensar só em mim. Tem meu bebê a caminho e tenho que me preocupar com ele também. E eu tomei uma decisão, mas queria te comunicar e pedir sua opinião antes de qualquer atitude.
– Claro, o que é? O que você decidir com certeza eu irei te apoiar.
– É que minha decisão também te atinge diretamente.
– Ai, fala logo, mulher, tá me deixando nervoso. – disse em ânsias com todo o suspense que fazia.
– Kurt, eu vou vender esse apartamento em que moramos e vou comprar outro mais barato, em um bairro mais afastado. – disse num rompante e ele me olhou assustado – Mas eu quero, sem sombra de dúvidas a sua opinião sobre isso, porque essa mudança também te afeta.
– Rachel, é claro que eu concordo. Eu só me surpreendi — falou – Mas eu já esperava que você fosse fazer isso. E eu te digo, é o melhor que você tem a fazer. Você tem que pensar no bem estar de seu bebê agora e por mais que esse apartamento seja ótimo, espaçoso, enorme, elegante, maravilhoso e com ótima localização, você não pode se prender a apenas esses fatos. E eu te apoio totalmente na sua decisão.
– Que bom que você pensa assim, Kurt. – abracei meu amigo, emocionada. Os hormônios da gravidez não andavam ajudando muito ultimamente.
– Só espero que tenha um quarto para mim também no novo apartamento, porque você não vai se livrar de mim tão cedo. – falou dramático.
– Claro que sim, eu nunca conseguiria viver sem você por perto. – o abracei ainda mais apertado.
A decisão estava tomada, no outro dia procuraria os advogados para que eles me auxiliassem a por meu apartamento a venda.
Cheguei cedo ao escritório de Will e Emma na manhã seguinte, tinha pressa em resolver as coisas.
– Bom dia, meu nome é Rachel Berry e eu gostaria de falar com a Dra. Pillsbury ou com o Dr. Shuester. – falei quando me dirigi à secretária.
– Bom dia, Srta. Berry. O Dr. Shuester teve de sair para uma audiência no tribunal, mas acho que a Dra. Pillsbury poderá atendê-la. Aguarde só um instante que irei verificar. – disse solícita.
Sentei em uma das confortáveis cadeiras da sala de espera enquanto via a secretária falar com Emma pelo telefone.
– A Srta. pode passar, a Dra. está lhe esperando. – falou me encaminhando para a sala de Emma.
– Rachel, que prazer em revê-la. Você está bem? A que devo a honra da visita, já não a via há mais de três meses. – Emma me recepcionou animada.
– É um prazer revê-la também, Emma. – falei – Na verdade eu estou precisando da ajuda de vocês para que me orientem numa questão.
– Claro que sim, eu te disse que poderia nos procurar caso precisasse de alguma coisa.
– Bom Emma, o assunto é meio delicado...
Quando eu disse isso ela me olhou com olhos inquisidores. Decidi então dar prosseguimento.
– Na verdade eu estou grávida...
– Mas que ótimo, Rachel. – ela disse feliz – não sabia que você estava namorando. Quer dizer que logo vamos conseguir contornar a situação do testamento.
– Huuumm, na verdade não. – mais uma vez aqueles expressivos olhos me questionavam – Eu engravidei por acidente, mas não quero entrar em detalhes sobre a situação. – falei envergonhada. Como eu ia dizer que tinha engravidado de uma pessoa que eu nem conhecia direito e que eu não vim a conhecer porque eu tinha fugido dela.
– Tudo bem, eu respeito a sua intimidade e se você não quiser falar sobre isso não tem problema.
– Obrigada. – falei agradecida – Prosseguindo então, é que eu tenho procurado emprego e não tenho conseguido. O único que consegui é de garçonete e é bem puxado, porque é turno integral em uma lanchonete bem movimentada e teria que ficar em pé o dia inteiro atendendo os clientes e ainda não decidi se vou aceitá-lo ou não, porque daqui a pouco estarei com a barriga maior e seria muito puxado. Em função de não estar conseguindo emprego eu estou querendo vender meu apartamento e comprar um mais barato e menor em um bairro mais afastado. Porque mesmo que eu consiga um trabalho não vou conseguir mantê-lo, ainda mais depois que o bebê nascer, quando os gastos aumentarão ainda mais.
– Entendo, e acredito que sua decisão é a mais coerente para o momento.
– Eu queria que vocês me orientassem e me indicassem um corretor de confiança para fazer a venda de forma segura.
– Claro que pode contar, nós temos um amigo que pode providenciar isso para você sem qualquer problemas e já providenciar um bom apartamento para que você compre também.
– Que ótimo, Emma. Vou entrar em contato com ele imediatamente.
– Rachel, como eu te disse da outra vez nós temos determinações expressas de não lhe fornecer qualquer tipo de ajuda, mas como eu também disse Will e eu ficaríamos muito mal de não te ajudarmos em alguma situação difícil. Nós te conhecemos desde criança e só queremos o seu bem. Seus pais também queriam o seu bem, mas acho que foram meio precipitados nos termos do testamento. Achavam que estavam agindo da melhor forma possível e que tudo se resolveria.
– Sim, eu sei.
– Bom, você disse que não está conseguindo emprego, não é?
– Infelizmente, não. – falei cabisbaixa.
– Eu não posso te oferecer um emprego aqui no escritório, porque aí ficaria visível que estamos te ajudando. – falou ela – Mas nós conhecemos os proprietários dos Hotéis Fabray e sabemos que uma das presidentes está precisando de uma assistente, pois sua irmã que atuava junto dela teve que ir para a Europa gerenciar alguns hotéis que possuem lá.
Meus olhos já brilhavam esperançosos diante daquela notícia.
– Eu posso ligar e falar direto com Kitty e recomendar você, afinal você tem uma excelente carta de recomendações dos Hotéis Golden Star.
– Você faria isso por mim, Emma? Eu ficarei eternamente grata a você por isso.
– Claro que sim, Rachel. – falou já levantando o telefone e pedindo que sua secretária ligasse para Kitty Fabray.
Após, encerrar a ligação ela me informou que havia marcado uma entrevista para mim naquela tarde, pois tinham pressa em fazer a contratação. Saí do escritório de Emma com esperanças e fui para casa me arrumar para a entrevista.
Na hora marcada já estava no local aguardando ser atendida.
– Pode passar agora, a Srta. Fabray está lhe esperando. – disse a secretária.
Entrei na sala que ela me indicava e me deparei com uma garota loira sentada atrás de uma mesa. Ela aparentava ser jovem, não devia ter mais que minha idade. Ela levantou os olhos dos papéis que examinava e se dirigiu a mim.
– Boa tarde, Srta, Berry. Meu nome é Kitty Fabray. – falou estendo a mão em minha direção.
– Boa tarde. É um prazer conhece-la Srta. Fabray. – respondi polidamente, apertando sua mão.
– Emma me ligou diretamente indicando você para preencher a função de minha assistente pessoal. Mesmo assim eu gostaria de lhe fazer algumas considerações e perguntas. – informou ela.
– Pois não, responderei o que estiver ao meu alcance.
– Peço que responda todas as perguntas com sinceridade. Honestidade é uma coisa que presamos muito. – ela disse séria.
– Serei o mais honesta possível.
– Bom, comecemos então. Você tem algum curso superior.
– Faço Administração em Columbia, faltam apenas dois semestres para concluir o curso, mas por problemas pessoais tive de trancar a matrícula ao final desse semestre.
– Hum. Qual sua experiência no ramo hoteleiro?
– Bom, eu tenho uma carta de recomendações dos Hotéis Golden Star. – falei estendendo o papel para ela – Durante muitos anos ajudei nas atividades dos hotéis, tanto na parte administrativa quanto nas demais funções.
– Você não é muito jovem para ter tanta experiência assim?
– Como você mesmo pediu vou ser completamente honesta. Eu cresci dentro desses hotéis e acompanhei durante anos todos os trâmites necessários para sua gestão. Digamos que eu fui treinada para isso. E ser jovem não é um problema, pois a Srta. deve ter quase a minha idade e está aí na presidência de uma grande empresa.
– Certo, você tem razão. Mas por que você diz que era treinada para gerir aquela empresa?
– Porque meus pais eram os donos da rede Hotéis Golden Star. – falei, olhando diretamente para ela. Se era honestidade que ela queria, era honestidade que ia ter. Não tinha porque ocultar os fatos.
– Claro, como não associei o nome antes? Os Berry eram extremamente conhecidos em nosso ramo por sua seriedade e honestidade. – falou – Mas então se você é a filha deles suponha-se que também seja a herdeira. Por que você não está trabalhando na sua empresa?
– Bom, é uma longa história e digamos que estou realmente necessitada desse emprego. Mas como eu lhe disse, serei totalmente honesta com você, vou contar a história de forma reduzida.
Contei todos os fatos para Kitty e conforme eu narrava seus olhos arregalavam-se cada vez mais, como se não estivesse acreditando no que ouvia.
– Não acredito que eles fizeram isso com você? – falou quando terminei de contar os fatos desde que eles haviam morrido – Se isso fosse comigo eu nem sei como agiria. Acho que já teria surtado.
– Acredite, eu já surtei... Mas eu tenho que seguir em frente, não adianta ficar me lamentando.
– Aprecio sua garra e força de vontade. Você se mostrou uma pessoa apta para a função e espero que você aceite vir trabalhar comigo. – ela falou, me deixando completamente surpresa. Mas antes de lhe dar a resposta eu ainda teria que comunicar mais uma coisa.
– Será uma honra trabalhar com você, mas antes de aceitar a sua proposta eu tenho mais uma coisa para lhe falar e não sei se depois de ficar sabendo disso a proposta ainda estará de pé. – falei apreensiva.
– Pode falar, Rachel. Honestidade será a base de nosso relacionamento aqui na empresa.
– É que eu estou grávida. – falei baixando os olhos e esperando que ela retirasse a oferta de trabalhar para ela.
– Isso não é problema algum. – falou compreensiva – Aqui na empresa nós contamos com um programa de incentivo às famílias de nossos funcionários. Nós inclusive temos uma creche aqui no prédio mesmo, onde as crianças podem ficar em turno integral, caso os pais não tenham com quem deixá-las.
Meus olhos brilharam, isso era tudo o que eu precisava ouvir. Sentia uma felicidade que não conseguia conter.
– Então? Você vai aceitar trabalhar conosco? – perguntou me olhando com expectativa.
– Claro que sim, será uma honra. – falei com um sorriso que não cabia em meu rosto.
– Ótimo, você começa amanhã. Tenho pressa que você comesse porque estou atolada de coisas desde que Quinn teve que ir para Londres e pela notícia que ela me deu esses dias, a previsão que ela tinha de voltar ficou por tempo indeterminado. – falou sem conseguir esconder a tristeza em seus olhos.
– Sinto muito. – falei.
– Bom Rachel, não vou mais te prender aqui. Nos vemos amanhã às 8h então.
– Estarei aqui. Até amanhã, Srta. Fabray.
– Agora que você vai trabalhar comigo pode me chamar de Kitty, Rachel.
– Tudo bem, Kitty. Até amanhã. – falei deixando a sala em seguida.
Saí do prédio com um sorriso enorme no rosto. Parecia que as coisas estavam se ajeitando e meu abismo pessoal enfim começava a fechar.
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