Abandono
3 Traição
Notas iniciais
Do mesmo modo que Niko tirou o celular do bolso daquele paletó, ele colocou de volta. E sentou-se na cadeira da mesa que havia ali. Não conseguiu ficar de pé, não conseguiu pensar direito, mal conseguiu respirar. Quem é Lobo, que espera pelo Félix na cabana 12? – Ele apenas fazia essa pergunta a si mesmo incontáveis vezes por segundo.
Félix retornou do banheiro, começou a vestir o paletó e Niko avisou:
– Seu celular, estava vibrando.
Ele pegou o celular, leu as mensagens e olhou para o chão, para cima, para o lado, menos para Niko. Recolocou o aparelho no bolso e falou, olhando no relógio, que tinha que ir pois estava atrasado.
Niko levantou-se e, partindo de um impulso irrefreável, foi na direção do companheiro e fez o que seu corpo e seu coração o obrigaram a fazer: abraçou Félix com força, em silêncio, apenas um abraço forte, como se pudesse fundir os corpos deles dois em um só e nunca mais se separar. Félix retribuiu o abraço, também com força, parecia compartilhar da mesma vontade, de tornar-se um com ele e nunca mais sair dali.
Continuaram abraçados enquanto o seguinte diálogo aconteceu:
– Félix, você se arrumou desse jeito para um encontro de negócios?
– Sim, Niko, como nos velhos tempos. Félix Khoury, o Magnífico.
– E onde é essa reunião?
– Onde é? Bom... é... é naquele resort novo.
Resort novo, Ricardo, Ricardo Lobato... Lobo! — Niko levou menos de cinco segundos para fazer essa associação.
Engoliu em seco e apertou Félix com mais força ainda. No entanto, Félix começou a soltá-lo e, tentando parecer engraçado, apenas tentando porque ele não conseguia disfarçar que algo o incomodava, disse:
– Carneirinho, vou ficar mais amassado que um travesseiro se a gente continuar se agarrando assim.
– Sim, claro, Félix. Me desculpe. – Niko arrumou a gravata dele, ajeitou-lhe o colarinho e alisou seu paletó.
Obervando a maneira carinhosa que Niko o arrumava, como sempre fazia desde que se conheceram, Félix se sentiu impelido a tirar aquele paletó, despir-se e tirar as roupas dele também; e ficariam ali os dois, e ele desistiria do que iria fazer aquele dia. Pelas barbas do Profeta, será que estou agindo por uma causa perdida? E porque eu quis colocar esse terno? Félix, será que você não vai estragar tudo? – Ele pensava consigo mesmo. E antes que não conseguisse mais sair dali, reuniu toda a coragem do mundo para se despedir de Niko.
– Amo muito você, senhor Nicolas Khoury. – Disse após dar-lhe um selinho.
– Eu também te amo, senhor Félix Corona. – O Carneirinho repetiu o gesto, colando seus lábios no dele.
– Vem comigo ate o carro?
– Vou ficar te olhado daqui Félix, o salão já deve estar cheio de gente.
– Então... já vou, tá?
Niko queria pedir-lhe que não, que não fosse. Queria agarrá-lo novamente, segurá-lo, prende-lo ali se pudesse. Eu não quero que ele vá. – Pensou. Mas, simplesmente disse:
– Sim, Félix. – Segurando o rosto do seu amor entre as mãos e fazendo carinho em sua orelha, com muito custo, mas muito custo mesmo, Niko lhe disse a última palavra: — Vai.
Eles se beijaram rapidamente e Félix se foi. Se foi sem perceber que, logo após esse último beijo, aquele par de olhos verdes, que nada conseguiam esconder, estavam molhados. Talvez se ele tivesse visto, não teria ido embora.
Parado na porta do escritório, Niko viu Félix sair e, pela parede envidraçada do restaurante, o viu lá fora entrando no carro e partindo. Os olhos, então marejados, derramaram algumas lágrimas, mas Niko se conteve.
Ele não pensou duas vezes, talvez nem uma vez. Entrou novamente no escritório, trocou de roupa, chamou seu assistente avisando que se ausentaria e foi até aquele resort, atras do que era seu. Niko voaria até lá se pudesse mas teve mesmo que ir dirigindo.
Quando chegou, passou direto pela recepção principal, como se fosse um hóspede. Era o que faltava, eu ter que explicar pra recepcionista o que eu vim fazer aqui. – Cruzou algumas portas, passou por um longo corredor cheio de elevadores, lojas de souvenirs, cafeteria... cruzou outra porta envidraçada e saiu em uma área verde enorme. Havia um lago de um lado, um bar do outro, um lindo jardim florido no meio, um caminho que levava ao que parecia ser uma vila de pequenos chalés, um outro por onde passava um carrinho de golfe... Ele lia as placas indicativas e nenhuma dizia “cabana”.
Niko estava perdido, não sabia onde ir e, pior de tudo, nem sabia o que ia fazer e muito menos se era a coisa certa estar ali. Mas agia como se comandando por algo maior dentro dele, algo que vai alem da razão. Niko sempre foi pura emoção e seguindo essa emoçao é que decidiu ir em frente.
De repente, uma moça que vestia um uniforme de camareira passou por ele e trocaram olhares. A moça parecia simpática e acessível, Niko decidiu perguntar:
– Com licença, querida. Bom dia. Você poderia me dizer, onde ficam as cabanas? O que são essas cabanas?
– Ah, sim senhor, são os apartamentos na área da piscina, não sei porque chamam de cabana, deve ser coisa de rico. Eles tem uma vista linda pro mar, só o senhor vendo, parece que a gente está flutuando na água e...
– Tá bom querida, deve ser lindo mesmo, mas... mas onde fica essa piscina?
– A piscina que tem as cabanas? É a maior de todas, o senhor não sabe? Peraí, o senhor não é hóspede?
A menina olhou desconfiada para Niko, mas como dificilmente uma pessoa em sã consciência pensaria que ele fosse uma pessoa ruim, um intruso ou um bandido, ela simpatizou com ele. Além do mais, Niko estava aflito, tinha os olhos vermelhos e parecia estar quase chorando. Ela se prontificou a ajudar.
– Vem, me segue que eu levo o senhor, aqui é enorme! São não sei quantos metros quadrados, não sei quantos quartos, sei lá quantos apartamentos... coisa de rico mesmo...olha, nunca vi igual...
Lá foi ela tagarelando e Niko, ansioso, a seguia.
Depois de passar por um belíssimo caminho arborizado e florido, a enorme piscina surgiu e, ao lado dela, uma fila de apartamentos geminados. Eram as tais cabanas. A camareira, que falava mais palavras por minuto que um locutor de rádio, continuava descrevendo para Niko como eram lindas por dentro, a vista do mar que tinham, o tamanho das camas, as flores frescas que as decoravam, os lençóis de algodão egípcio...
– Meu gerente falou que os casais em lua de mel vão quase todos se hospedar aí, porque são os apartamentos mais bonitos, bom mesmo pra uma noite romântica. Se o senhor casar, já sabe.
– Eu já sou casado.
Nesse momento Niko viu Felix de pé, parado lá na frente de uma das portas, de óculos escuros, mão no bolso da calça, pensativo, imóvel e olhando em direção à piscina.
O carneirinho agradeceu à moça, disse que ficaria ali mesmo porque esperava surpreender um amigo. Ela o deixou sozinho e ele se aproximou mais um pouco do local, com cuidado, escondendo-se de modo que não fosse visto.
Félix permaneceu lá de pé e inerte alguns segundos ainda. De repente, retirou o óculos, ajeitou a sobrancelha, respirou fundo, deu meia volta, bateu na porta, abriu e entrou.
Niko pensou em ir até lá, pensou em ir embora, pensou em ligar para Félix, pensou em muita coisa mas apenas se aproximou mais ainda da entrada daquela cabana e sentou-se na primeira cadeira que viu, em uma das mesas da piscina, sob um guarda-sol. A piscina estava praticamente vazia, se havia meia dúzia de hóspedes por ali era muito. O sol estava bastante forte, Niko olhou no relógio e marcava 12:25.
Sentado naquela cadeira, o carneirinho refletiu sobre sua vida, como havia sido antes e depois de conhecer Félix. Lembrou-se de quando conheceu Eron e quando descobriu a traição dele com Amarilys. Refletiu pela milésima vez como Félix parecia ter “caído do céu” para ajudá-lo naquela época, e como ele descobriu com ele o verdadeiro significado da palavra “paixão” e depois “amor”.
Lembrou-se de como se conheceram, de como a amizade se formou entre eles, das noites em que o desejava mas ainda passava sozinho, de quando finalmente começaram a se relacionar, de tudo que foram descobrindo juntos, de como eram mais parecidos que que imaginavam, de como as coisas se ancaixavam perfeitamente entre eles — na cama e fora dela — e do dia em que Félix aceitou entrar para a sua família e propôs adotar os meninos.
Recordou-se de quando viu pela primeira vez a casa de praia e Félix lhe perguntou se ele gostaria de morar com ele ali como um casal. Ele respondeu que sim. Estavam sozinhos naquele dia e Félix entregou-lhe a chave dizendo: – Abre, Carneirinho. Seja bem vindo à nossa casa. — Ele abriu a porta emocionado e, antes mesmo que pudesse conhecer qualquer cômodo, eles transaram loucamente no sofá da sala, na mesa da cozinha e terminaram no quarto que viria a ser o deles até aquele dia.
Ele sorriu com a lembrança mas, não demorou muito, algumas lágrimas de tristeza, que há mais de dois anos haviam virado totais desconhecidas, vieram lhe fazer companhia ali, naquele momento.
Niko costumava dizer que era uma pessoa tranquila, um fofo. Mas que, se provocado, ele faria voar plumas. Que plumas, Niko? Nem plumas, nem paetês, nem nada. Niko não conseguia fazer nada. Enxugou as lágrimas, de certo, mas continuava parado, parecia entorpecido.
Sentiu-se incapaz de bater naquela porta, de enfrentar a situação e muito menos de fazer um escândalo. Talvez porque estivesse em choque ou, quem sabe, porque não conseguia acreditar que Félix o estivesse traindo. Algo dentro dele dizia que Félix não o trairia, de maneira nenhuma. Porque? Simplesmente porque Félix o amava, demais. Ele tinha certeza. Ele já havia tido provas disso, um número considerável de vezes.
Então começou a duvidar se era certo estar ali. Aliás, o que estou fazendo aqui sentado?– Refletiu. Naquele local onde ele estava, podia ser facilmente visto por quem abrisse a porta daquela cabana. O que Félix pensaria quando saisse e o visse ali? — Félix veio para uma reunião de negócios e eu o segui. Minha virgem Maria, ele vai me ver aqui, que vergonha!– Pensou aflito porém, logo raciocionou: Mas, espera, quem é que vem para uma renião de negócios em um quarto de hotel? Uma cabana destinada à casais em lua de mel?
Niko levantou-se de uma vez com o último pensamento, que o deixou enquieto e o impeliu a fazer alguma coisa, qualquer coisa. Olhou no relógio, e este marcava 12:53. — Vou bater lá. Félix que me desculpe, mas eu vou...
O Carneirinho não precisou bater na porta. Assim que ele ensaiou dar o primeiro passo em direção à ela, ela se abriu. Era Félix que, antes de sair, virou-se para dentro e gritou:
– Fui!
Félix saiu sorrindo mas de cabeça baixa e, antes de começar a caminhar, colocou os óculos escuros. Só então levantou a cabeça e olhou para frente, dando de cara com Niko lá em pé ao lado de uma das mesas da piscina.
Atrás de Félix, na porta da cabana, apareceu Ricardo, o diretor do resort, sem camisa, cinto aberto e calça social desabotoada, dizendo em voz alta:
– Tchau, gatão.
...
–-- continua ---
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