Abandono
4 Flagrante
Notas iniciais
Ainda que ele tivesse cometido delitos em cada um dos mais de mil capítulos da Bíblia, Félix não sentia-se merecedor de passar por aquela situação.
Ele custou a acreditar que era o seu Carneirinho parado ali. Retirou os óculos escuros para ter certeza. Olhou bem com a esperança de que estivesse enganado, mas não estava. Era ele mesmo encarando-o. Niko estava lá, no exato momento em que ele saía de um quarto de hotel, onde havia passado cerca de meia hora acompanhado de outro homem.
Félix percebeu que Niko desviou o olhar para algo atrás dele, se virou e viu Ricardo, sem camisa, calça desabotoada, despenteado. Virou-se de novo na direção do Carneirinho e este já não se encontrava mais lá, apenas pode vê-lo correndo na direção do caminho florido que levava até ali e desaparecendo por dentro daquele jardim.
– Niko! – Gritou enquanto saiu correndo atrás dele. Félix desviava de mesas, cadeiras, hóspedes que passavam, funcionários do hotel... precisava alcançá-lo, precisava entender como ele veio parar ali, o que sabia, o que pensava, no que iria acreditar. Ele o via cada vez mais longe, escapando do seu alcance, escapando da sua vista. Félix corria para alcançá-lo, precisava explicar o inexplicável, não queria nem pensar que ele pudesse estar escapando da sua vida.
Quanto à Niko, sua reação foi impensada. Foi um ímpeto e, de certa maneira, uma fuga. Sentiu-se traído e humilhado. Sentia vergonha e, sobretudo, sentia dor, uma dor imensa. O “castelo de cristal” em que vivia acabara de se despedaçar, de uma só vez; e ele sentiu como se todos os cacos de vidro tivessem caído em cima dele sem piedade, machucando, cortando seu corpo e partindo seu coração.
Sair dali era tudo que Niko queria, então correu. Correu como se pudesse fugir daquela realidade. Isso é um pesadelo, só pode ser um sonho ruim. – Mas ele estava acordado, então fugia. E cada vez que ouvia Félix chamando seu nome, corria o mais rápido que suas pernas, um tanto bambas, conseguiam. Só parou quando alcançou seu carro. Estava nervoso, as mãos tremiam, então teve dificuldades para encontrar a chave e foi tempo suficiente para Félix alcançá-lo.
– Niko, não é o que você está pensando.
– Conta outra Félix, essa piada não teve graça.
Ele tinha o chaveiro nas mãos, continuava procurando a chave mas as lágrimas que teimavam em cair dos seus olhos dificultavam-lhe a visão.
Félix estava pálido, ainda não havia se recuperado do susto. Dentro dele a vergonha, a culpa, o arrependimento e o medo lutavam para ver qual deles iria ocupar o maior espaço. Mas o sentimento que ganhava era a agonia, uma enorme agonia por ter magoado Niko e deixa-lo naquele estado.
– Carneirinho, vamos conversar, por favor! Me ouve, não sai assim.
Niko não disse nada, se concentrou e conseguiu abrir a porta do carro. Só que Félix a fechou de volta e tentou abraçar o companheiro:
– Niko, não vai desse jeito. Se acalma, vem cá, você está tremendo...
– Me larga! Eu vou entrar no meu carro e vou embora agora. Se você tentar me impedir, eu vou fazer um escândalo aqui!
– Por favor, Niko! Não dirija assim tão nervoso.
Foi inútil Félix protestar e pedir que ele o deixasse dirigir seu carro, que fossem os dois em um carro só. Niko entrou, fechou a porta e ligou o motor. Como se pudesse impedir o veículo de partir, Félix bateu na janela lateral e no para-brisas implorando para que ele não fosse, e perguntando para onde ele ia. Niko nada respondeu, arrancou e se foi.
Félix correu como nunca até o seu carro, saiu em disparada pela estrada até que viu Niko indo na direção de casa. O seguiu de perto e chegaram praticamente juntos.
Félix o alcançou na área interna, o espaço entre a garagem e a saída da cozinha, cenário das muitas despedidas românticas pela manhã: Fica mais um pouquinho... Vai ficar pensando em mim?... Me dá mais um beijo... Você tem mesmo que ir agora?... Promete que chega mais cedo hoje... – Cada dia era um pedido diferente, mas todos traduziam a vontade de Félix em ficar mais tempo com o Carneirinho. Ali naquele espaço, praticamente todos os dias, por mais de um ano desde que moravam naquela casa, ele o agarrava pela cintura, puxava pela mão... tudo na intenção de adiar a despedida. Agora ele o alcançava pelo braço no sentido contrário, entrando em casa.
– Niko, espera! Não é nada disso que você está pensando!
– Não acredito! Você tem a coragem de repetir isso!? Tão clichê! E brega, sabia? Acabou seu estoque de piadas? – Enquanto falava, Niko sacudia o braço, até que se soltou e voltou a caminhar, mas Félix o segurou de novo.
– Você precisa me ouvir, Niko!
– Você flertou com ele na festa! Vai negar?
Félix ficou mudo e não respondeu nada. A verdade é que sim, ele flertou com Ricardo na festa. Nem imaginava que Niko havia percebido. O que dizer agora? Ele abaixou a cabeça e respirou fundo, como se buscasse explicação, como se pudesse ganhar tempo. Por essa ele não esperava.
– Vai negar, Félix?
– Não.
– Pelo menos você admite.
– Só que não é bem o que você pensa.
– E agora eu vi, ninguém me contou, eu vi você saindo daquele quarto! E o seu acompanhante... daquele jeito! Era uma reunião de negócios? Que tipo de negócio, hein?
Felix ficou mudo novamente, ele não sabia o que responder. Não tinha argumentos. Ele ajeitou a sobrancelha, estava visivelmente nervoso. O que Niko viu era quase que inexplicável. E aquela era apenas a ponta de um iceberg imenso, o fio de um novelo enorme que era a explicação de tudo.
Sim, ele tinha uma explicação e era uma longa história. Uma história da qual ele se envergonhava, não imaginava que precisaria contar para seu Carneirinho. Tinha medo até de piorar as coisas. Então tudo que ele podia fazer era negar, negar o que era quase óbvio. A sua única esperança era que Niko confiasse nele, independente do que tivesse visto.
– Se eu te disser que nada aconteceu, que você pensa que é uma coisa mas é outra, você vai acreditar em mim?
– Você quer que eu finja que não vi nada? Félix... sinceramente!
– Responde!
Niko se soltou mais uma vez dele e saiu em disparada, cruzou a área da cozinha, a sala, a porta envidraçada, passou pela piscina, pelo jardim e Félix seguia atrás dele, ainda esperando uma resposta:
– Para Niko, onde você vai, criatura? Me responde!
– Você quer que seu pai, a enfermeira e a Adriana escutem a gente?
Niko só parou na faixa de areia da praia. Buscava o ar, tentava se acalmar como se possível fosse. Pelo menos já não chorava mais desde que chegou em casa. Agora o que ele tinha chamava-se raiva, ou desgosto; provavelmente as duas coisas juntas.
– Há quanto tempo isso vem rolando, Félix? Há quanto tempo vocês tem um caso?
– Eu não tenho nenhum caso com ele, Niko, eu juro! Você esta cego de ciúmes e está tirando conclusões. Você realmente não confia em mim?
– Você ainda tem a cara de pau de dizer isso? Eu vi Félix! Você flertou com ele na festa, eu não falei nada, achei que tinha visto coisas, a bicha aqui é mesmo burra, né? Agora você diz que vai pra uma reunião de negócios, no entanto a tal reunião acontece em uma cabana romântica! E você vai todo arrumado e usando seu melhor perfume, me poupe!
– Como que você foi ate lá, Niko? Eu não entendi como que você...
– Foi bom você lembrar disso, deixa ver seu celular!
Niko queria ver o celular de Félix. Como se não bastasse tudo o que ele já viu até agora, ele queria ver o celular. O Carneirinho pensou que deviam haver mensagens anteriores àquela que ele leu mais cedo. Félix não tinha alternativa. Não entregar-lhe o telefone era o mesmo que admitir que havia algo que não pudesse ser visto. Ele chegou a desejar que uma enorme onda atingisse aquela praia naquele segundo e danificasse o aparelho. Só assim Niko nunca mais veria o que havia ali. Mas o mar em Angra é muito calmo, aquela era uma possibilidade remota, praticamente inexistente. Félix questionava-se: Qual dos meus pecados é o responsável por eu ter que deixar ele ver esse celular?
Com a mão estendida na direção dele, Niko exigia:
– Me dá isso, Félix! Vocês trocavam mensagens, aposto. Se eram mensagens de negócios, eu vou ver e ficará tudo esclarecido.
– Niko por favor! Olha, você tem razão... você viu tudo o que viu, você tem razão em pensar que é uma coisa, mas não é. Você viu sim eu flertar com ele. Você me viu saindo daquele quarto e ele sem camisa, parece mesmo que a gente... enfim... mas você precisa me escutar! Eu ia conversar com você hoje sobre isso! Eu te juro! Te juro por todas as contas do Rosário!
– Você, jura? Você ia conversar comigo, Félix? Me contar o que vocês fizeram, ou o que tem feito? Me dá esse celular!
– Não Niko. Você não vai ver antes da gente conversar. Tudo que tem aqui são mensagens dele pra mim, só vai piorar a situação. Você precisa me ouvir antes! Escuta aqui Niko, você não confia em mim?
– Eu sempre confiei em você! Você sabe disso! Mas como você explica o que eu vi? O celular, Félix, e a senha!
Após uns segundos de resistência, Félix entregou para ele o celular com extrema aflição. Ele sabia que, se Niko lesse aquelas mensagens, apenas ia piorar tudo. Nenhum de seus pesadelos na vida tinha sido tão ruim como aquele momento. Talvez quando, na frente da família, a história sobre a caçamba veio à tona ele tivesse se sentido de maneira semelhante.
Porém, quando entregou o celular para Niko foi muito pior. Pior porque naquela ocasião, quando todos souberam a verdade sobre Paulinha, ele deixava cair a máscara, que usara a vida inteira. Ainda tomado pelo ódio e rancor, ele despejou tudo que sentia pela irmã e pelo pai mas sentiu-se aliviado, porque à partir daquele momento não fingiria mais. Ele tirou um peso das costas naquele dia e começou a olhar de frente para seus traumas, carências e erros.
Dessa vez era diferente. Ele podia estar perdendo o amor da sua vida e a convivência com a sua família. Ele podia estar prestes a ser abandonado.
– Félix, se você não deixar eu ver o que tem aqui, nem precisa me dizer mais nada. Me dá a senha.
Como se pudesse adiar aquele momento, Felix começou a dar voltas e voltas. Falou que, caso ele quisesse ver seu laptop pessoal, a senha era o aniversário de Fabrício, no computador do escritório era o aniversário de Jonathan.
– Aquele tablet você sabe, é o aniversário do Jayminho.
– Félix! Para! Eu só quero a do seu celular!
Negar aquela informação seria o mesmo que admitir. Ele lembrou-se que sempre apagava as mensagens que recebia daquele homem, mas ele não tinha certeza de ter apagado todas as que recebeu nos minutos que antecederam à sua chegada ao resort. E Niko estava prestes a vê-las. Mais do que nunca, Félix estaria contando com apenas uma coisa: a confiança de Niko.
– Eu vou te dizer. Mas só te peço para acreditar que não houve nada. Confia em mim. — Félix abaixou a cabeça, não teve como negar. — A senha é o seu aniversário. Mês e dia do seu aniversário.
Foi Niko digitar aquele número e abrir a caixa de mensagens, não precisou muito para que as lágrimas começassem a cair dos olhos, de ambos. Mesmo que por razões diferentes.
O Carneirinho porque encontrou as cinco últimas mensagens que ainda estavam lá e tinham sido enviadas pelo tal Lobo naquela manhã:
_ Você vem mesmo né, gato? Mal posso esperar. Bjs.
_ Estou malhando todos os dias só pra você, só pensa!
_ Quando eu reservar a cabana, te aviso. Você vai adorar.
_ Já estou pronto pra você, gato. Cabana 12. Te espero. Beijo.
_ Vou fazer tão gostoso que vou te levar às nuvens.
Niko abaixou a cabeça e começou a chorar copiosamente. Entre soluços, ele perguntou:
– Vocês se falavam no whats também? Trocavam fotos? Trocavam...
– Não Niko, pelo amor de Deus! Ele me enchia dessas mensagens... mas eu nem respondia. E você vai entender se você deixar eu explicar!
Niko não parecia nem escutar nada que Félix dizia, apenas chorava. Uma mão no rosto a outra segurando o celular de Félix.
Felix chorava também, se sentia mal por causar todo esse sofrimento à ele. Como as coisas chegaram a esse ponto? Eu sabia que corria esse risco, como fui deixar isso acontecer!? Onde você estava com a cabeça, Félix?– Ele refletia consigo mesmo, enquanto sentia uma dor enorme por ver Niko sofrendo tanto. Seguindo um impulso, como já fez outras vezes, Félix foi na direção dele para abraça-lo, mas este reagiu violentamente.
– Não me toca! — Niko se afastou dele, caminhando na direção da água.
– Não, carneirinho, não faz isso com a gente. Precisamos ter uma conversa longa, eu preciso te contar..
– Não fala comigo! Não consigo ouvir mais nada, Félix, por favor! Não há mais o que conversar. Já está tudo tão claro.
Félix não se conteve mais e acabou explodindo, o que não havia acontecido até então. Enquanto chorava ele falava cada vez mais alto, o que não precisava porque Niko não dizia nada, era apenas soluços e lágrimas.
– Olha aqui Niko, não esta nada claro. Eu sei que todas as evidências estão contra mim. Todas! Você me deu praticamente um flagrante. Eu pareço mais culpado que mordomo em histórias de mistério. Mais culpado que político que é pego cheio de dinheiro na cueca! Tem praticamente um letreiro luminoso na minha testa piscando “traidor, infiel”! OK! Mas! Mas... eu te digo que não fiz nada. Peço que você acredite em mim, mesmo com tudo que você viu, com tudo que você leu. Você confia? Hein, fala? Confia? Não, né?
Niko permanecia soluçando, enxugando as lágrimas do rosto, em silêncio. Não olhava para Félix, que continuou seu discurso inflamado:
– Também parece que não quer ouvir a historia toda. E, convenhamos, a história toda pode até piorar minha situação, porque sim, eu tenho culpa, confesso. Eu agi errado com esse Ricardo. Pronto, falei! Eu admito, Eu agi errado. Eu dei corda pra ele quando não deveria ter dado. E depois eu me enrolei na minha própria corda. Félix Khoury achou que tinha tudo sob controle, e o que aconteceu? Rolou pro buraco mais rápido que uma bola de sinuca! Eu admito que errei! Eu salguei... eu salguei sei lá o que e devo agora estar pagando por isso. Não tem jeito você não vai acreditar em mim.
Félix fez uma pausa, ele chorava. Ele era puro desespero e angústia. Enquanto isso, Niko era mágoa e decepção. Quantas vezes já estiveram ali naquele mesmo lugar assistindo ao por do sol e fazendo juras de amor eterno. Nenhum dos dois poderia nunca imaginar que, um dia, iriam ouvir as palavras que se seguiram:
– Carneirinho, você confia em mim? Mesmo que tudo indique que eu trai você, você acredita que não?
Niko ficou mudo. Não respondeu nada. Olhou pra ele apenas soluçando. Niko não tinha resposta. Ele viu, ele leu. Mesmo que seu coração dissesse para confiar em Félix, sua mente racional trazia de volta a lembrança de Ricardo sem camisa saindo de dentro daquele quarto, o flerte durante a festa, as mensagens no celular e o comportamento estranho de Félix antes da ida até o resort. Como Niko não disse nada, Félix atreveu-se:
– Então se eu te disser que sim, que eu transei com ele, mas que foi uma trepada sem importância, pois é você que eu amo. Foi só sexo, um delize. Você me perdoaria?
Aquela possibilidade atingiu Niko como um soco no estômago. Diante disso, ele juntou a raiva, decepção e tristeza que sentia e descontou no que tinha mais próximo no momento: o celular de Félix. Arremessou no mar o mais longe que conseguiu e virou-se caminhando em direção à casa.
Félix imediatamente seguiu atrás dele, chamando:
– Carneirinho...
Niko deteve-se e voltou-se na direção dele:
– Não fala comigo, não quero mais ouvir a sua voz! – Disse com o dedo em riste e concluiu falando pausadamente cada palavra:
– E não! Não. Me. Chame. de. carneirinho! Nunca mais.
Nada que Félix já tivesse ouvido na vida, até aquele momento, havia esmagado seu coração com tanta força.
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–-- continua ---
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