Notas iniciais
arrependimento ar.re.pen.di.men.to sm 1. Ato de arrepender-se; 2. Pesar sincero de algum ato ou omissão. 3. Contrição. 4. Mudança de deliberação. 5. Desistência de coisa feita ou empreendida.

– Tá feliz?

– Nossa Félix, eu nunca pensei na minha vida, que iria morar em uma casa com uma praia praticamente no quintal!

– Você merece mais que isso.

– E você ainda disse que Príncipe Encantado não existe. Quando acaba, me trouxe pra morar num castelo.

– Sabe porque? Escolhe qualquer uma dessas estrelas, agora imagina a distância daqui até ela.

– É uma distância enorme.

– Não é maior que meu amor por você, Carneirinho!

– Félix! Você tá virando um romântico...

– Na verdade eu sempre fui Niko, só não tinha pra quem dizer essas coisas. Agora eu tenho você.

Deitado na areia da praia, já quase de madrugada, Félix se recordava da primeira noite em que ele e o Carneirinho estiveram naquele mesmo local, após a mudança para Angra. Os dois não cabiam em si de felicidade. Depois de acomodar o pai, as crianças e a babá, e ter certeza de que todos dormiam, Félix levou Niko até lá carregando uma garrafa de champagne e duas taças. Brindaram, beberam e fizeram amor. Entraram no mar com as taças e caminharam uma boa distância, até que as deixaram afundar na água. Foi ideia de Niko. Segundo ele, as taças de cristal ficariam lá, inteiras e juntas para sempre, assim como eles ficariam juntos naquela casa, também para sempre. Selaram um compromisso de uma vida toda e, quem sabe, até além.

Agora Félix estava deitado ali pela primeira vez sem Niko. As lembranças lhe faziam companhia e seu celular fazia companhia às taças lá no fundo do mar. Porque ele não confia em mim? Já que ele não confia, será que me perdoa? – Cogitava enquanto levantou-se e retornou à casa.

...

Antes, após a discussão na praia, Niko trancou-se no quarto e chorou por um bom tempo. Félix, sentado no chão, encostado na porta do lado de fora, chorou também e pediu várias vezes que ele o deixasse entrar para que conversassem, mas foi em vão. O Carneirinho só abriu a porta quando ouviu as crianças chegando em casa.

– Félix, eu te peço pra manter as aparências na frente dos meninos, por favor. A gente conversa outra hora. – Falou sério sem olhar para baixo, passando por cima de Félix, que permanecia no chão.

Niko ajudou os filhos com o banho, brincou com eles no quarto, preparou um lanche e serviu na mesa da cozinha. A todo minuto eles perguntavam por Félix, principalmente Fabrício que, naquela idade, não se contentava com uma simples resposta do tipo “seu pai está trabalhando no escritório”. O menino saiu da mesa e foi até lá bater suas mãozinhas na porta:

– Papi, lanche! Vem, Papi!

Félix não teve alternativa além de abrir a porta, pegá-lo no colo e rumar para a cozinha. Chegando lá descobriu que Niko já havia saído.

– Papai já foi, precisou voltar correndo pro restaurante. Pediu pra eu dar um beijo no maninho. – Jayminho não parecia fazer ideia de nada que se passava. Mas não era nenhum bebê para não perceber a fisionomia diferente dos pais. Deu um beijo no irmão menor e saiu dizendo que, naquele dia, não precisava da ajuda de Félix para os trabalhos, porque sabia onde achar tudo na internet, e foi para o quarto. Naquela idade ele passava mais tempo lá do que em qualquer outro lugar da casa.

– Ficamos só nós, baby Carneirinho.

Félix abraçou o pequeno e pediu que Adriana ajudasse a enfermeira com o lanche de seu pai. Queria ficar com o filho, era o único naquele momento que demonstrava querer a companhia dele. Fabrício estava cada dia mais agarrado em Félix, literalmente. O abraçava forte, beijava, pedia colo... nos últimos dois anos passava mais tempo com ele do que com Niko.

– Papi manífico, quero bincá!

O tempo passou rápido enquanto Félix se distraiu com o menino, ajudou o pai a jantar, deu a refeição às crianças e depois os colocou devidamente em suas camas. O relógio só parecia não andar quando todos já dormiam e Niko ainda não havia chegado. Sentado na mesa da cozinha, Félix esperava escutar o barulho do carro dele. Quando Niko chegou, ele correu em sua direção e se encontraram no mesmo local das famosas despedidas matutinas.

– Niko, me escuta.

– Eu te disse pra não falar comigo. Nem pensa em tocar em mim, Félix.

– Nós precisamos conversar!

– Félix, não. Amanhã vou sair cedo, comprar peixe. É sábado, tem reserva pra almoço e jantar. Eu vou dormir.

Niko foi em direção ao quarto deles. Félix o seguiu.

– Então domingo! Pelas contas do Rosário você precisa me...

– Não Félix. Domingo vou trabalhar o dia todo também. E eu preciso pensar no que fazer da minha vida.

– No que fazer? Como assim?

Eles já estavam dentro do quarto e Niko continuava dando desculpas, repetindo porque não tinha tempo nos próximos dias. Félix continuava insistindo para que conversassem, que Niko não podia tomar nenhuma decisão sem antes ouvir tudo e falava cada vez mais alto.

– Félix! Fala baixo! Você não pensa nos meninos dormindo? E eu vou pro quarto de hóspedes.

– Penso sim Niko, e é em nome deles também que eu te peço para me ouvir! Em nome de tudo que já passamos até hoje, em nome de todos os momentos que tivemos em cima dessa cama aí, é que eu te digo que você vai ter que me ouvir sim, pronto falei! Arruma um tempo e me avisa, e que não demore até o apocalipse. Não, espera! Seguda-feira, o nosso dia, não é? Pois vai ser segunda-feira! E você pode ficar aqui que eu vou dormir em outro lugar.

Félix saiu, sem bater a porta, deixando um carneirinho que, em menos de cinco segundos, já estava em prantos novamente. Niko queria parecer forte, queria parecer aborrecido na frente do companheiro, mas por dentro estava destruído. Agora que Félix saiu ele podia chorar. Ia passar a noite sozinho pela primeira vez em mais de dois anos.

Mesmo antes de se mudarem para Angra, os dois já dormiam quase sempre juntos, desde a primeira noite. A maioria das vezes na casa de Niko. Félix praticamente se mudou para lá depois que decidiu fazer parte daquela família. Agora estavam cada um com a sua tristeza e sem o outro.

Não foi fácil também para Félix. Do quarto ele foi direto para a praia, onde caminhou um longo tempo, até que deitou naquele local, onde os dois sempre iam, e ficou lá em meio à recordações.

...

Já passava das duas da manhã quando ele retornou ao interior da casa. Foi até os quartos dos meninos e os observou dormindo. Andou por quase todos os ambientes e, mais de uma vez, parou na porta do quarto que dividia com Niko. Tentava ouvir se ele chorava. Enquanto caminhava, revivia em sua mente tudo o que aconteceu nos últimos três meses, desde o dia que conheceu Ricardo, o diretor do resort novo, até o momento do fatídico encontro na cabana. A intenção de Félix, ao conhecê-lo, era conseguir o melhor para sua família, ser motivo de orgulho para Niko e, claro, também para seu pai. Finalmente o ex-presidente do San Magno, ex- empresário malsucedido do ramo de silicone e ex-vendedor de hot dog faria um grande negócio. Mas se ele soubesse como essa história terminaria, ele certamente ia preferir nunca ter conhecido o tal senhor Lobato.

Vencido pelo cansaço, ele deitou-se no sofá da sala. O sono chegou, em meio à lágrimas,­ quando já estava quase amanhecendo. Menos de uma hora depois ele despertou e, ao abrir os olhos, deu de cara com Niko em pé lhe observando. Félix nem imaginava, mas Niko esteva ali olhando ele dormir por um bom tempo.

Porém, mal Félix abriu os olhos, Niko retirou-se. Félix levantou do sofá em um pulo só. Correu na direção da saída e, talvez porque tenha pernas mais longas que o Carneirinho, conseguiu alcança-lo, novamente ali, na área interna. O agarrou pelo braço e insistiu:

– Espera!

Totalmente mudo, Niko não se virou para olhá-lo. Mas não fez força para se soltar.

– Há um enorme mal entendido em tudo isso, Niko. Há uma parte dessa história da qual eu me envergonho, muito. Mas eu não sou tão culpado quanto pareço. Você precisa me ouvir e acreditar em mim.

– Félix, eu preciso de tempo, pra pensar, pra decidir.

Félix ainda o segurava pelo braço, decidiu puxá-lo mais para perto e falou próximo ao seu rosto:

– Decidir o que, se você não sabe de nada ainda, criaturinha?

– Será que eu já não sei o suficiente Félix?

Só então Niko virou-se para encará-lo e tinha os olhos cheios de lágrimas. Mas não era só isso. Sua face, vermelha pelo choro, era um retrato de tudo que havia dentro: dor, mágoa e até uma certa raiva. Tudo estava estampado ali no rosto angelical do Carneirinho que ele tanto ama.

Nas ocasiões em que Félix o viu chorando assim, como quando Fabrício foi sequestrado, ele sentiu uma flecha atravessar seu peito, sentiu a dor de Niko em si mesmo. E dessa vez ele sentiu-se ainda pior, pois quem causava aquele sofrimento era ele próprio.

Aquilo o atingiu em cheio, seu peito doeu. E ele não conteve a emoção. Era a possibilidade de perdê-lo e era a agonia de vê-lo assim. Félix agiu, mais uma vez, por instinto: Abraçá-lo, protegê-lo, fazê-lo feliz.– Era só nisso que pensava. Então teve a única reação que seu corpo sempre teve em momentos como esse: puxou Niko ainda mais para si e com sua mão livre tentou tocar seu rosto, chamando-o:

– Carneirinho, eu te...

Niko rejeitou o toque e, não apenas isso, puxou seu braço com força soltando-se da mão de Félix.

– Não! Quando você me chama de carneirinho agora, eu me sinto tão bobo, tão idiota. Aliás, como você mesmo dizia no passado, o ingênuo, a bicha burra!

– Não fala isso, é uma coisa tão antiga!

– Pois é Félix, mas no final das contas acho que você estava certo. Depois desses dois anos a gente vê que você tinha mesmo razão! Eu não sou o seu tipo e você, você também não é o meu.

– Que bobagem, Niko, como assim não sou seu tipo?

– O meu tipo de homem é aquele que me ama o suficiente para não me trair!

Dito isto, e em lágrimas, Niko virou-se e caminhou a passos firmes na direção do seu carro. Félix ficou ali de pé, onde ficava todas as manhãs quando se despediam. Ainda gritou pedindo que Niko o deixasse levá-lo porque estava nervoso para dirigir e que segunda-feira iriam conversar sem falta. Pensou em ir atrás dele, mas Niko saiu mais decidido e mais veloz do que ele pudesse alcançar. As suas pernas não lhe obedeceram, naquele momento ele se sentia sem força nenhuma.

Enquanto Félix ficava de pé ali, chorando, Niko se foi na direção do mercado. Seu plano era tentar se concentrar ao máximo no trabalho para, quem sabe, conseguir esquecer aquilo tudo um pouco, descansar sua cabeça. Era muita coisa para ele processar, muitas emoções conflitantes. Ele também tinha consciência que, de certa forma, estava evitando conversar com Félix para adiar ao máximo uma tomada de decisão, coisa que ele duvidava se teria forças para fazer. Félix disse que agiu errado, que tinha culpa, que se envergonhava... não sei se quero saber. Mas eu preciso saber... que droga! – Novamente Niko fugia de uma conversa franca que pudesse piorar as coisas. Ele amava Félix, era fato. Mas até onde estava disposto a perdoar? Ele tinha medo da resposta que ele já tinha pronta, antes mesmo de ouvir toda a história.

Quanto à Félix, após ver Niko partir, caminhou para o quarto dos dois, tomou um banho e deitou-se na cama que tinha os aromas que lhe eram familiares, o cheiro do seu companheiro. Só assim conseguiu pegar no sono. Acordou com Adriana batendo na porta.

– Seu Félix, tá tudo bem? Seu Félix! As crianças, seu pai, tá todo mundo perguntando pelo senhor.

Ele perdeu a hora. Estava sem celular, sem despertador, sem cabeça, sem chão... sem seu carneirinho. Após o susto, rapidamente levantou-se, vestiu-se e foi passar o dia com eles. E teve que responder as perguntas de Adriana, Jayminho e até de César.

– Estou bem sim, Papi Soberano! Está tudo ótimo.

– Não Adriana, não vou comer. Porque não tenho fome. Hashtag simples assim.

– Que ideia maluca, Jayminho! Porque dormi um pouco mais tenho que ir pro hospital! Tira isso da cabeça, menino! Vai, vai pra piscina!

Até Jonathan ligou para o telefone da casa, porque Félix não atendia o celular.

– Não meu filho, o celular sumiu. É, parece que criou asas e voou, vai ver que caiu no mar. Sim, estou procurando! Enquanto isso liga nesse número tá? Ou manda e-mail. Eu? Não, não tenho nada. E você, como está seu namoro?

Ele fingia para todo mundo que estava tudo bem. Mas qualquer um percebia que havia algo errado, não tinha como não perceber. Félix estava mal-humorado e ansioso, um tanto parecido como ele era antigamente. Além de abatido.

O final de semana custou a passar. Félix cuidou do pai, das crianças e trabalhou no escritório. À noite, quando todos já dormiam, ele deitava na sala e ligava a TV passando pelos canais sem prestar atenção a nada. Niko chegava tarde, olhava para ele e ia direto para o quarto. Félix caminhava na área externa e pelos ambientes da casa, caminhava algumas vezes até a porta do quarto deles, sem se atrever a bater, e só pegava no sono quando já era quase dia, novamente no sofá. Nas duas noites a insônia foi sua companheira e ele não quis dormir no quarto de hóspedes. Foi assim o sábado e o domingo. Pela primeira vez na vida Félix tinha insônia, fazia caminhadas e via televisão.

Durante o dia ele ia ao quarto algumas vezes tirar pequenos cochilos, abraçado ao travesseiro do Carneirinho.

Na segunda-feira as coisas foram diferentes. Pela manhã, uma mão pequena e suave acariciou seu rosto e fez com que ele acordasse.

– Papi, acorda! Vou na escola. Qué comê? – Fabrício sorria para ele lhe oferecendo um biscoito. Aquele pequeno sorriso tinha capacidade de tirar o sono e o cansaço de Félix.

O café da manhã já estava sendo servido na mesa da cozinha. Adriana organizava mochilas e lancheiras, preparando-se para sair com as crianças, enquanto Niko a orientava.

– Adriana, meu anjo, tudo certo então? Leva as crianças, depois passa na tinturaria, vai resolver suas coisas, almoça no shopping e depois vai no mercado. Daí já deu tempo pra você busca-las na escola e voltar.

– Pode deixar seu Niko, toda segunda-feira eu faço isso.

– E toda segunda-feira ele repete, depois o encanado sou eu. – Félix entrou na cozinha fazendo uma piada, e logo arrependeu-se mediante o silêncio que se instalou e a cara séria que Niko fez.

Adriana já havia percebido tudo. Com Félix dormindo no sofá e o modo como se tratavam não tinha como. Para um casal que vivia aos beijos e abraços, realmente algo muito sério estava acontecendo, pois nem se falavam. Jayminho então se aproximou de Félix:

– Pai, você está bem?

– Claro que sim, filho.

– Você tá estranho. Não falou mais aquelas coisas engraçadas da Bíblia e estava dormindo ali no sofá. E não tá rindo. Aliás... – O menino olhou na direção de Niko -... nenhum de vocês dois tá rindo nem se abraçando.

Félix ajoelhou na frente do menino para falar melhor com ele:

– Criaturinha, pelos cachos de Sansão, tá tudo bem, viu? Eu só estava deitado ali porque ando com muito sono, igual a Bela Adormecida. E eu devo ter cobrado pedágio na Via Sacra porque logo agora seu pai, que é o príncipe, não pode me beijar nem abraçar porque está um pouco gripado. Agora vai e presta atenção na aula, se você tirar nota baixa, vai ser o Apocalipse!

– Esse é o meu papi magnífico! – Jayminho riu e o abraçou. Adriana e Niko também riram.

Por mais que tentasse, o Carneirinho não conseguiu fingir indiferença ao modo como Félix lidou com a situação. Os olhares dos dois se cruzaram enquanto sorriam e, mesmo que momentaneamente, uma faísca de esperança se acendeu no peito de Félix ao ver naqueles olhos a mesma emoção de sempre. Félix jurava que Niko o amava ainda e, provavelmente, para sempre. Ele se agarrava na esperança que nada abalaria esse amor.

Assim, com as crianças e Adriana fora de casa e César sendo cuidado pela enfermeira, aquela era mais uma segunda-feira quando eles ficavam sozinhos.

– Podemos conversar agora?

Niko fez sinal de positivo com a cabeça. Félix sugeriu que eles fossem até a área externa e sentassem em algum lugar do gramado.

Chegando lá, Félix deu início à conversa.

– Niko, a história é longa. E eu já te aviso que você não vai gostar, mas eu te peço que escute até o fim. Quero que você saiba que a minha intenção era fazer algo bom, para nossa família. E que a última coisa que eu queria nesse mundo, e eu juro, juro mesmo, juro pelo que você quiser, juro pela minha própria vida, era magoar você. Eu espero que você me entenda e me perdoe.

Niko engoliu em seco.

Félix respirou fundo.

...

continua

...

Notas finais
Obrigado a todos que estão acompanhando. Obrigado por postarem no grupo Feliko do Facebook. Obrigado pelos comentários e pelas mensagens privadas. Ainda vou responder todas. Não demora muito e Félix contará a história dele com Ricardo e Niko vai reagir à ela. Félix vai contar a versão dele dos fatos. Será que Niko vai acreditar? Se ele não acreditar, será que ele perdoa? Ou irá abandona-lo?