Abandono
6 Explicação
Notas iniciais
Deitados na cama um do lado do outro, poucos minutos após o sexo, em uma das noites do primeiro mês de namoro:
– Félix?
– Hum?
– Você está feliz?
– O que você acha?
– Eu digo, feliz comigo, com o que a gente faz, do jeito que a gente...
Félix virou-se de maneira que pudesse olhá-lo nos olhos.
– Nikooo... se o que acabou de acontecer aqui nessa cama, não foi entre duas pessoas felizes... eu então ainda não sei o que é felicidade.
– É que as vezes eu penso, se eu sou o que você queria, se eu sou mesmo seu tipo....
– Carneirinho, presta atenção. Para mim, o que há entre nós é perfeito. Você é o primeiro homem com o qual eu fiz amor. E cada dia que passa eu tenho mais certeza que você será o último.
...
Sentado ali no gramado olhando para Niko, Félix não sabia porque se lembrara daquela noite. Talvez porque a dúvida que pairava no par de olhos verdes que o fitava fosse quase a mesma.
Exatamente como naquela noite, Félix tomou a decisão de ser o mais sincero possível, mesmo que isso acabasse tornando as coisas piores.
– O Ricardo deu em cima de mim, se insinuou, jogou indiretas, diretas, mandava mensagens... Eu devo ter tomado banho na banheira de Salomé para que, logo a pessoa responsável por fechar o contrato de negócios mais importante da minha vida, fosse me fazer uma proposta indecente.
– Tá bom, Félix... só que, quando um não quer, dois não...
– Niko... O fato é que, eu admito, a culpa foi minha. Pronto, falei.
– A culpa foi sua?
– Eu dei em cima dele primeiro, enrolei ele, tentei manipulá-lo e quando ele descobriu...
Félix se assustou com a expressão que se formou na fisionomia de Niko ao ouvir tal confissão. Mas agora ele precisava ir em frente e contar tudo. Se agarrava na certeza de que Niko ia entender e acreditar. Se não acreditasse, que o perdoasse.
Ele contou que seu primeiro contato com Ricardo foi há três meses. Mas tudo começou cerca de um ano antes, quando ele descobriu que aquela rede de resorts estava construindo um enorme empreendimento em Angra.
Félix conhece a empresa, já se hospedou anteriormente em um resort deles. Sabia que contratariam prestadores de serviços, lojas e restaurantes, para operar dentro do complexo. Colocar uma unidade do restaurante deles lá era um excelente negócio.
Teriam exclusividade no delivery de comida japonesa para todas as unidades que incluem prédios, vilas, chalés e cabanas... além de fornecer para o hotel e centro de convenções. Félix passou os meses seguintes elaborando a proposta perfeita de parceria entre eles e aquela empresa. E havia mais:
– Estão construindo mais três no Brasil, reformando um na Argentina e tem um quase pronto no Uruguai. Minha proposta inclui um sistema de franquia para que eles tenham a mesma marca, o Gian, nesses outros cinco.
Com maior faturamento, eles poderiam contratar e treinar bons profissionais como sushimen, garçons, alguém para comprar peixe... Era isso o mais importante para Félix: Niko ia trabalhar menos.
– Você não teria mais que acordar de madrugada para disputar salmão no mercado, nem sair de casa cedo pra cortar cabeça de peixe, muito menos ficar o final de semana inteiro em pé servindo mesa. O negócio ia expandir, de uma maneira diferente.
E Félix acreditava que tudo ia dar certo. Ele passou horas e horas no computador durante meses em pesquisas e cálculos. E outras tantas horas tentando fazer contato com o pessoal responsável pela unidade de Angra, para apresentar sua proposta.
– Um dia, há quatro meses atrás, eu finalmente consegui descobrir que a pessoa chave era o Ricardo Lobato. Ele é filho do principal acionista desse grupo, um espanhol milionário. Ele cresceu aqui e hoje cuida dos resorts que eles tem nas Américas. É um cara ambicioso, fútil, frio, calculista, arrogante... Não mede esforços para conseguir o que quer, é sedutor, vaidoso, fala o que pensa... E se acha! Um dia caiu a ficha, de que ele lembra um velho conhecido nosso.
- Você sabe bastante sobre ele, não? O seu amigo Lobo.
– Niko... ouve primeiro, tá bom? Nós conversamos bastante sim, e ele me contou muito sobre ele; já eu não contei muito sobre mim no início, talvez tenha sido um erro.
Félix explicou que depois de muito tentar e insistir, conseguiu marcar uma reunião com Ricardo, que só chega nos novos resorts quando tudo já está quase pronto. É ele quem contrata serviços, funcionários e tem a certeza de que tudo está dentro do padrão de qualidade da empresa. Logo que aquele resort passa a operar completamente, ele vai embora para outro resort, em outra cidade.
Para a reunião, Félix foi disposto a fechar o negócio, tinha confiança que sua proposta era excelente. No entanto, quando chegou lá, ouviu de Ricardo que ele já havia recebido tantas ofertas que não sabia se teria tempo para analisar a dele. Félix ficou decepcionado.
– Eu confiava no meu projeto. Eu acredito que venceria qualquer concorrência! Eu devo ter tocado tambor durante o Sermão da Montanha para ele dizer que nem teria tempo de analisar minha proposta.
No entanto, Félix contou que percebeu, desde o início da reunião, a maneira como Ricardo o olhava, a linguagem corporal, tudo denunciava o interesse do diretor por ele.
– Ele disse que tinha uma pergunta. Olhou a minha aliança e perguntou se minha esposa era ciumenta. E eu... é... bom, eu disse apenas que não tinha esposa.
– Você não disse que tinha um companheiro?
– Eu disse que não tinha esposa, só isso. Deixei ele pensar que eu era hetero, ou ficar na dúvida... Eu estava me comportando como antigamente, quando eu era administrador do San Magno, digamos que segurei a franga... não rodopiei as mãos...
Félix contou que não queria correr nenhum risco da proposta não ser aceita. Isso incluía esbarrar em algum tipo de preconceito da parte de alguém. Por isso adotou uma postura mais contida naquele dia.
Niko parecia não acreditar no que ouvia. Ele olhava para Félix surpreso.
– Antes que você me pergunte porque não falei que tenho um companheiro, eu já vou dizer. Eu vi ali uma chance de conseguir que ele desse atenção ao meu projeto. Em outras palavras, eu decidi usar a sedução, como forma de chamar a atenção dele.
– Félix, sabe... eu não sei nem se quero ouvir mas nada...
Niko se sentiu mal, aquele não parecia o Félix com o qual ele estava casado há mais de um ano. Ele teve vontade de se levantar, mas talvez naquele momento seu corpo nem teria forças, ele permaneceu sentado, espantado e com medo do que Félix ainda ia contar. Mas Niko não sabia esconder as emoções e os olhos daquele carneirinho já começavam a se encher de água.
– Niko... isso não significa que eu me interessei por ele, que eu pretendia levá-lo pra cama, não é nada disso!
Félix contou que, durante uma semana, tentou fazer novo contato com Ricardo. Quando finalmente conseguiu, o convidou para um drink.
– Conversamos, só conversamos. Mas ele se insinuou pra mim e eu... eu dei corda. Ao final da conversa ele disse que ia olhar minha proposta. Ponto pra mim! Quer dizer, para o velho Félix Khoury pois quem conseguiu foi ele, ao seu modo.
Nos dias que se seguiram, quem ligou convidando para um drink, café, almoço... foi Ricardo, sempre dizendo que queria falar sobre negócios, mas quando Félix chegava lá, o assunto era sempre pessoal.
– Ele contava sobre a vida dele, flertava comigo... eu ouvia, dava atenção. Mas ele só falava na proposta quando eu me insinuava pra ele. Nessas horas ele dizia que eu não parecia ser tão hetero, que devia experimentar coisas novas...
Assim, Ricardo foi ficando cada vez mais direto em suas cantadas, embora Félix acreditasse que o fato dele achar que ele não fosse gay, o impediria de ir mais longe. Além do que, Félix sabia que Ricardo não ficaria para sempre em Angra, apenas menos de três meses.
– Eu fui levando ele em banho maria, como se diz, fui cozinhando em fogo brando. Uma hora, ele ia ter que realmente falar de negócios, porque o tempo dele aqui estava acabando, aquele jogo de gato e rato não ia durar muito. Estava ficando cada vez mais difícil dizer não à um convite pra jantar, recusar um contato mais... digamos... íntimo. Ele começou a insistir, mandava certas mensagens que olha... enfim...
Félix disse que quando ia desistir, Ricardo deu provas que realmente estava se interessando pela proposta de negócio. O diretor do resort foi, secretamente, até o Gian para comprovar a qualidade do atendimento e da comida, quis avaliar o restaurante e esse era um bom sinal.
– Eu enrolava ele, mas não sabia que era ele quem estava me enrolando. Quando ele falou que foi até lá, eu finalmente achei que a coisa ia desencantar, sinceramente. Isso foi numa conversa que tivemos na sexta-feira antes daquela festa que você foi comigo. Ele até falou que um garçom do Gian mostrou quem era o dono, foi assim que ele já sabia quem era você.
Naquele dia, Ricardo também disse que ia viajar. Já estava na hora dele partir para o novo resort e que, por isso, não iria na inauguração. E completou dizendo que, quando voltasse, eles fariam uma última reunião porque faltava acertar um último detalhe.
– Pelas barbas de Moisés! Eu fiquei aliviado. Só que, mal sabia eu que a tempestade se aproximava, e eu estava bem no olho do furacão.
Então aconteceu a festa que eles compareceram. Félix não queria ir, mas o convite foi enviado em nome de Niko, que insistiu para que fossem. Como Félix acreditava que Ricardo não ia... eles foram.
– Eu tomei um susto quando ele apareceu do nada e se apresentou pra você. Eu não tive outra opção e me apresentei. Depois você foi ao toalete e eu vi quando ele foi atrás e te abordou. Tive um pressentimento horrível.
Naquela noite, Félix custou a dormir. Ficou preocupado com a reação de Ricardo, assustado com o atrevimento dele em falar com Niko. Se lembrou quando, no San Magno, Jaques tentou seduzi-lo para conseguir o cargo de cirurgião chefe. Ele percebeu que estava fazendo com Ricardo a mesma coisa. Se deu conta que aquilo foi errado. Ele se sentiu mal e arrependido.
No dia seguinte, Ricardo deixou uma mensagem no celular de Félix.
_ Gato, porque você não me falou que era gay? Isso facilitaria as coisas. Te espero amanhã, o mais cedo possível no meu escritório. Bjs.
Félix compareceu ao encontro. Não tinha opção. Também não preparou nada que dizer. Quem falou mais foi Ricardo, e o que ele disse assustou o ex-diretor do San Magno.
_____ Início do Flashback
– Félix, você sabe quantos fornecedores aceitam fechar comigo contratos superfaturados e depois me repassam a diferença? Quase todos. Sabe quantos prestadores de serviço me oferecem uma grana por fora pra vencer uma concorrência? Vários. E eu aceito, obvio, não sou trouxa. Mas esse não é o tipo de negócio que me dá prazer fechar. Eu prefiro os que me oferecem outra coisa, como você. Prefiro, mais do que dinheiro.
– Espera lá, eu não te ofereci nada.
– Ah, não? Você não tentou me seduzir para que eu aceitasse sua proposta? Sabe Félix, muitos fazem isso, homens, mulheres e eu amo. Me excita. Se eu tenho várias propostas parecidas, vou fechar com quem me dá mais vantagem, você não acha isso o mais inteligente?
Ricardo era o tipo de pessoa que usava o cargo que ocupava para tirar vantagens pessoais. Não administrava somente em benéfico da empresa, mas em seu próprio beneficio, principalmente. Félix estava praticamente na frente de um espelho e, dessa vez, do outro lado da mesa do diretor.
– Eu sei que minha proposta é a melhor que você recebeu, tenho certeza, não preciso te oferecer nada em troca de um contrato.
– Sabe porque meu apelido é Lobo, Félix?
– Por causa do seu nome, Lobato, é óbvio.
– Não só por isso. Lobos são sorrateiros, desleais, tem enorme capacidade de caçar, matar e depois sumir. Essa gente toda que se oferece pra mim achando que vai tirar vantagem, eu como, eu devoro. Assim sou eu. E digamos que eu te elegi como caça.
– Eu... sua caça? Mas eu devo ter...
– Lobos são inteligentes o bastante para avaliar custos e benefícios nas caçadas. Eu avaliei seu projeto, e é excelente. E depois avaliei você e pensei que você era hetero... ou estava dentro do armário, já que você me ligou e me chamou para um drink e se insinuou pra mim. Sabe Félix, Lobos podem se contentar com galinhas, cabritinhos... mas o que mais gostamos são os animais de grande porte, são mais difíceis de abater. Então pensei que você era um desafio, gostei disso, pensei “vou tirar esse cara do armário”. Mas, se você não saísse, tudo bem, eu entendo. Eu estava até gostando de você, eu entenderia. Eu ia tentar, mas respeitar se você terminasse não indo até o fim. Daí um dia eu descobri uma coisa porque eu, fique sabendo, sou um dos caras mais inteligentes que há nesse mundo!
Na noite anterior, quando refletiu e se arrependeu ao lembrar do que passou nas mãos de Jaques, Félix teve pena de Ricardo, pois ele podia sair magoado, da maneira que ele mesmo saiu no passado. Mas já era tarde, ele já tinha jogado com Ricardo e agora acatava a consequência: o diretor do resort estava fulo da vida. Além disso, Félix lembrava do próprio passado, das coisas erradas que ele mesmo fez, pois via em Ricardo muito do antigo diretor do San Magno. Ele permaneceu calado, ouvindo.
– Félix, eu visitei o Gian, te falei. O que não te falei é que quando eu fui lá, vi algo que me chamou a atenção. Um cara bonito, olhos tão lindos que dava pra ver de longe, delicado, gentil. Eu não sou de me interessar por ninguém, eu sou do mundo, sou livre, eu quero é mais. Mas sei lá, gostei dele. Tinha certeza que era gay. Chamei um garçom e perguntei quem era. Eu te contei, lembra? Que um garçom me mostrou o dono. Bom, fui lá no dia seguinte e no outro. Vi como ele trata as pessoas, como todos gostam dele. No fundo eu queria, sabe, conhecer alguém assim e me aquietar, mas não acho que alguém como ele ia gostar de mim. Mas, depois de uns dias, tomei coragem e me sentei no balcão, para vê-lo de perto, e fiquei hipnotizado com o jeito dele, a voz... até que um detalhe me chamou a atenção: uma aliança, igual outra que já eu já tinha visto antes. Uma rápida busca na internet e não foi difícil descobrir...
– Que ele é casado, é meu companheiro, criamos dois filhos e somos sócios nos restaurantes. – Félix admitiu.
– Pois é... então eu, o lobo, mandei o convite para a festa no nome do seu companheiro, o Niko, e menti dizendo que ia viajar. Queria ver sua cara quando eu te pegasse com ele.
– Então tá. Me pegou. Você provavelmente está chateado comigo, me chamou aqui por quê?
– Eu me perguntei: ora, ora se Félix é gay, está jogando comigo, me fazendo de palhaço, ou será que está realmente a fim de mim e quis esconder que tem um companheiro. Provavelmente é apenas sexo, uma aventura, uma tarde de prazer com um cara moreno e saradão como eu e, de quebra, um contrato fechado. Agora eu te pergunto, o que é Felix?
– Olha aqui, Ricardo! Em nenhum momento eu pensei em fazer uma troca do tipo onde a gente transa e você assina o contrato, jamais! Eu... eu apenas... Pelas contas do Rosário, eu não sei como te explicar isso eu só...
– Você não pensou em uma troca? Pois eu pensei. Sexo, Félix. Puro sexo. Eu sempre preferi isso ao invés de dinheiro extra pra fechar um contrato.
– Oi? Será que eu fiz pole dance na cruz, para ouvir isso?
– Porque esse espanto? Você nunca fez sexo por sexo? Aposto que sim. E olha bem pra mim, todo esse material aqui... vai ser ótimo. Eu sei que você quer... confessa, gato.
– E se eu não quiser?
– Além da propaganda negativa que vou fazer do seu restaurante para todo mundo, todos meus contatos aqui em Angra, vou lá conversar com o Niko. Você tem um companheiro daquele e vem aqui se insinuar pra mim... Pois saiba que fiquei com pena daquele pobre loirinho.
__________ Fim do flashback
Félix contou a conversa que teve com Ricardo para o Carneirinho.
– E é isso Niko, eu devo ter cometido todos aqueles pecados bíblicos que eu falo... Ele disse que não importa se eu estava a fim dele ou era só sexo. Fosse o que fosse, a condição para fechar o contrato era uma transada. Fora as ameaças... praticamente me ameaçou com o apocalipse! Quando acaba, estou vivendo o apocalipse com toda essa situação que criei entre nós.
Niko continuava sentado, pernas dobradas, cabeça baixa entre as mãos, sem conseguir encará-lo.
– Então foi isso. E você foi lá.
– Ele me deu até sexta-feira para que eu fosse. Depois ele ia viajar.
– Ok, Félix, já entendi. E foi apenas sexo.
– Niko... não tire conclusões, eu não fiz nada.
Félix percebeu que a conversa estava indo para onde ele menos queria, Niko não parecia acreditar nele e Félix já imaginava porque. O Carneirinho adotara uma diferente postura, agora olhava diretamente para ele.
– Nós nunca falamos sobre isso, mas não é o que você tentou fazer com o Eron? Trocar sexo pelo silêncio dele?
– Não acredito, Niko... Não acredito que você está trazendo de volta algo do passado, de quando eu estava fora de mim, era totalmente analfabeto em matéria de muitas coisas!
– O que você fez, se insinuar pra esse... esse Ricardo, não foi coisa do velho Félix Khoury? Você disse, naquele dia no escritório do restaurante, que poderia acabar fazendo coisas porque talvez ainda tivesse dentro de si o velho diretor do hospital, então... Nesses três últimos meses você fez coisas que o velho Félix fazia, porque não mais isso? Você não achou o cara um gato, corpo perfeito, barriga tanquinho, moreno alto, bonito e sensual? Pode falar, é obvio que sim. Então você deve ter pensado em unir o útil ao agradável. Hein? Não foi isso que você fez?
– Não, Niko. Não foi o que eu fiz!
– Não fez? Ai, Félix... você diz que não fez nada... mas foi até lá! Sabia o que ele queria, porque foi ate lá?
– Eu pensei... pensei uns dias, aí liguei pra ele e disse que aceitava, disse que iria na sexta-feira.
– Pensou e disse que aceitava?! Não acredito, Félix.
Niko levantou-se, toda a inquietação que sentia por dentro não o deixava ficar mais parado. A emoção transbordava e, à essa altura, o choro era iminente. Félix ficou de pé também, e continuou:
– Pensei! E me lembrei de épocas na minha vida quando fazia sexo mesmo sem gostar muito... ou fazia mecanicamente, por um prazer vazio. Pensei que se eu fizesse o que ele queria ia resolver tudo. Porque não, então? E pensei, pensei... até que entendi porque não. Então decidi ir lá sim, mas para uma conversa.
– Conversa? Todo bem vestido, perfumado... ansioso...
– Eu estava nervoso sim. Tive medo, de que o velho diretor de hospital pudesse ainda estar presente em mim e ser mais forte, do que o que eu sou hoje. Mas não foi.
– Você vai me dizer que não houve nada? Ele todo descabelado, sem blusa, calça aberta e vocês só conversaram?
– Você não acredita, não é?
– Félix, se põe no meu lugar.
– Pelas contas do Rosário Niko... Você acha que eu inventei toda essa historia pra te convencer? Ou que eu cedi à chantagem dele? Pior, que eu não resisti ao cara que tirou a roupa na minha frente e tem uma “barriga tanquinho”, como você falou? Ah... sinceramente, Niko!
Niko começou a caminhar para longe dele, em direção à praia, nesse momento já chorava. Félix o deteve, segurando-o pelo braço:
– Niko, eu sei que agi errado. Me perdoa! Eu te amo tanto.
– Você me ama. Mas isso te impediria de se sentir atraído pelo cara e ter uma tarde de prazer? — Ele virou-se para Félix encarando-o.
– O que me impediu foi outra coisa. E eu achei que você soubesse disso. E que ia acreditar em mim.
– Que outra coisa?
– Você não sabe? Você não sabe mesmo o que me impediu de transar com ele, Niko?
Enquanto Niko se soltava da mão dele, disse em meio à lágrimas;
– O que eu sei é o que eu vi. Você flertou com ele na festa, ele te mandava aquele tipo de mensagem, você foi até lá por livre e espontânea vontade, se encontrou com ele em um quarto romântico de hotel, onde eu vi a maneira que aquele encontro terminou. E agora você admitiu que deu em cima dele, que se insinuou... ficaram amigos, conversavam, tomavam drinks e cafés há semanas...
Félix começou a chorar não somente por perceber que Niko não acreditava nele, mas também por ver as lágrimas no rosto do outro e se dar conta de que as coisas caminhavam para o pior desfecho, aquele que ele temia.
– Você não sabe, não é? É pena, Niko. Por isso você não acredita em mim.
Niko não disse nada apenas se afastou caminhando em direção à praia. Félix caminhou atrás dele um pouco até Niko pedir que o deixasse sozinho, que precisava pensar. Então ele ficou ali observando o Carneirinho se afastando, indo cada vez mais longe até que não pode mais vê-lo. Ele se lembrou de quando casaram, e parte do que ele disse para Niko durante a cerimônia:
– Eu sempre quis um amor de verdade, agora que tenho não vou deixar nunca que esse amor acabe. Prometo fazer de você o homem mais feliz do mundo!
Sem forças para ficar de pé, Félix deitou-se no gramado, ficou ali olhando o céu através das folhas das palmeiras. Por dentro, sentia a agonia causada pelo arrependimento e pela frustração, por ter deixado as coisas chegarem à esse ponto. Não havia mais nada que pudesse ser feito. Apenas esperar e confiar. As últimas lágrimas caíram, fechou os olhos e cochilou.
Um bom tempo depois, algo se colocou entre ele e a luz do sol, fazendo uma sombra em seu rosto. Era Niko, de pé, observando-o. Félix despertou e rapidamente levantou.
Niko, de cabeça baixa, sem conseguir olhar para ele, disse:
– Eu vou me separar de você, Félix.
...
Continua
...
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