Notas iniciais
separação se.pa.ra.ção s.f. 1. Ato ou efeito de separar; 2. Ato de deixar de estar junto; 3. Partição, divisão, desunião; 4. Quebra de uma união íntima; 5. Ruptura do casamento; 6. Afastamento.

– “Separar”. Ele disse mesmo separar?

Em poucos segundos a cabeça de Félix ferveu, ele processou o significado daquela palavra e tudo que ela significava: não mais conviver com seus filhos e perder o grande e único amor da sua vida. Enfim, acabava ali a sua família. Seu antigo pesadelo, o de ser abandonado, era mais real do que nunca. Chorar foi inevitável.

– Não diga isso, Niko. Por favor... não!

Niko não viu as lágrimas no rosto de Félix. Sem coragem de olhar para ele, o Carneirinho permanecia de cabeça baixa mas parecia irredutível:

– Infelizmente, é o que eu vou fazer. Eu vou entrar, dá licença.

Niko caminhou com rapidez até o quarto e Félix o seguiu. Quando chegou lá procurou uma mala, disse que levaria o necessário e que, outro dia, voltaria para pegar o resto. Ele iria embora o mais rápido possível, para a pousada cujos donos são amigos deles, até se organizar e encontrar um outro lugar, que poderia ser em Angra, ou até em São Paulo novamente. Levaria as crianças e Adriana agora, com ele. Ele falava sem olhar para Félix enquanto recolhia objetos pessoais jogando dentro de sacolas e espalhava malas pelo chão, onde começava a colocar suas roupas.

– Não posso te mandar embora, aqui é a casa do seu pai, então saio eu.

– É a nossa casa, Niko, e você não pode acabar assim com a nossa família, desse jeito...

– Quem acabou com a família não fui eu!

– Você não pode estar falando sério... Levar as crianças e Adriana para uma pousada... De jeito nenhum! Eu não vou deixar!

– Félix, você vai me desculpar, mas para onde eu for, os meninos vão.

Félix entrou em pânico. Em poucos segundos tudo escapava de suas mãos, não apenas Niko, mas Jayminho e, o pior: Fabrício. Félix amava os dois meninos de igual maneira, e do mesmo jeito que amava Jonathan. Mas Fabrício havia se tornado especial. Era a criança que ele via crescer na sua frente, cada dia uma surpresa nova: as primeiras palavras, os primeiros passos, as descobertas... dar banho, comida, brincar... tudo isso era um prazer enorme para Félix, que nunca imaginava que viveria o céu na Terra fazendo coisas tão simples. E ele vivia no céu com aquele menino que lhe dava um amor do tipo que ele jamais havia conhecido. Não conviveu muito com Jonathan quando ele era criança. Com Fabrício recuperava tudo o que não viveu com o filho mais velho. E cada vez que o menino lhe sorria e lhe chamava de “Papi” cada cicatriz, de cada ferida que ele sofreu ao longo da vida, desaparecia e ele era preenchido cada vez mais de amor.

Agora, a maior ferida de todas estava se abrindo. Félix chorava descontroladamente e implorava para que Niko não fosse embora.

– O que eu fiz, que foi errado, eu admito, eu te peço que entenda. Nós podemos superar, eu sei que sim. Eu te amo!

­- Félix, sai daqui.

– Eu não entendo como você não acredita em mim... como? Você acha que eu seria capaz? Como você não entende, com tudo que há entre nós, como você pode acreditar que te traí?

– Félix, sai daqui, você está tornando as coisas mais difíceis!

– Você não acredita em mim, então Niko, por favor... me perdoa!

– Sai daqui, Félix!

Com um último grito, e um quase empurrão, Niko expulsou Félix do quarto, trancou a porta e continuou juntando suas coisas com rapidez. Ele tinha raiva, então jogava dentro da mala roupas, sapatos e objetos desordenadamente. Lá fora do quarto, Félix batia na porta enquanto chorava, implorando para que Niko não o deixasse, que pudesse entrar, que conversassem mais... mas foi em vão. Félix talvez só não tenha derrubado aquela porta porque seu pai estava em outro quarto naquela casa, ele então evitava gritar mais, evitava um escândalo maior, mas não sabia o que fazer e sentia-se sufocado. Pensava em mil coisas que dizer, mas tudo seria a repetição do mesmo. Estava arrependido e desesperado, mas também magoado porque ele acreditava que Niko o entenderia, e confiaria nele.

Desorientado, ele caminhou pelo corredor e, quando deu por si, estava dentro do quarto de Fabrício. Embora estivesse em um estado de desespero, foi quando teve uma ideia para, quem sabe, ganhar tempo. O importante era não deixar que Niko saísse daquela casa. Então respirou fundo, tentou acalmar-se o mais que pode, voltou até o quarto deles e disse colado à porta:

– Niko, você não pode levar os meninos assim, para uma pousada... e as coisas deles? Eles tem escola, tem rotina... Pensa bem, por favor não faça isso.

Lá dentro, o Carneirinho parou o que estava fazendo, levou as mãos à cabeça. Ele estava abalado emocionalmente, queria correr dali, queria não ter que olhar para Félix, tinha medo do que faria se ficasse, precisava ir embora. Mas admitia que Félix tinha razão. Na raiva ele estava agindo sem pensar e se deu conta que, sair assim com as crianças, não seria bom para elas. Niko, que até ali fazia um esforço enorme para não chorar, e estava conseguindo porque a raiva era maior que tudo, começou a soluçar. Estava em um beco sem saída. Sozinho ele não iria e, com as crianças, não era uma boa ideia.

Félix continuou falando, do outro lado da porta:

– Você quer se separar... ok. Mas não faça isso assim. Essa casa é enorme! Fica aqui, até... até a gente acertar essa... separação. Eu te peço, Niko, não faça nada no impulso. Pensa nos meninos... não leve eles assim. Eu te imploro!

Niko então abriu a porta, sentou-se na cama, sentia-se perdido, sem poder fazer o que queria, se via tentado a aceitar a proposta. Deixou que Félix entrasse, disse que se permanecesse na casa seria pelas crianças e por um tempo até se organizar e encontrar uma casa ou apartamento para mudar-se, que ele não ia desistir da separação. Félix propôs deixá-lo com aquela suíte, que é mais próxima dos quartos dos meninos. Ele se mudaria para uma outra ao lado do quarto do pai, que ficava mais afastado, e faria de tudo para deixar Niko ter o espaço dele, prometeu que evitaria conviver com ele.

Félix propôs ficar com as crianças de dia, como já o fazia, e de noite quando Niko chegasse tarde. Nos dias em que ele chegasse antes do jantar, Félix o deixaria à vontade na casa, sem a sua presença. Diriam a Jayminho que o pai estava trabalhando em algo importante e, por isso, passaria mais tempo no escritório. E que precisava estar mais perto de César, por isso ia ficar quase sempre do outro lado da casa. Niko passaria o sábado e o domingo, até o almoço, com os meninos; Félix as tarde e noites já que, no final de semana, Niko trabalha muito no restaurante e chega sempre tarde. O Carneirinho concordou após expor algumas condições, que foram todas acatadas por Félix.

Ambos concordavam que qualquer atitude tomada de cabeça quente, podia causar algum estresse nos meninos. Então, em nome das crianças, os dois tentaram agir da maneira mais racional possível e conversaram amigavelmente sobre a situação da separação.

– Vamos fazer isso, até você decidir para onde vai, com calma... até as crianças se acostumarem com a gente assim... separados.

Tudo estava resolvido, mas o assunto traição insistia em voltar à conversa. Niko fazia questão de deixar claro que estava profundamente magoado e não queria conviver com Félix. E reforçava a razão de haver tomado essa atitude de separar-se.

– Saiba que eu vou ficar pelas crianças, só por elas. Vai ser difícil demais pra mim, Félix. Cada vez que eu te olho, eu imagino vocês naquela cabana, imagino ele te tocando, você com ele...

– Niko, sinceramente... Eu nunca cheguei perto dele, se nos tocamos alguma vez foi um aperto de mão!

– Eu ouço você falando isso... e com tudo o que eu vi, com o que você disse, que se encontrava com ele, que flertava... eu me sinto um idiota! Um bobo que você quer enganar.

Agora que o desespero de ver Niko saindo de casa foi adiado, Félix se dava conta da falta de confiança que o Carneirinho tinha nele e, por mais que tivesse errado, ele não contava com isso. Por mais que ele admitisse seu erro, ele contava que Niko acreditaria nele. E Niko não acreditava. Félix estava por um fio para perder a paciência, movido pela culpa, que o corroía, mas também pela percepção de que aquela confiança, que ele dava como garantida, não o era tanto assim.

– Criatura! E você realmente acha que eu transaria com aquele homem pelo corpo dele? Ou que eu sentia alguma coisa por ele? Você jura que acredita nisso?

Pela primeira vez, desde que voltou da caminhada na praia, Niko olhou diretamente para Félix enquanto se levantava da cama dizendo:

– Ele acreditou, não acreditou? O Lobo acreditou, você deve ter sido bem convincente.

– Porque eu sei fingir! – Félix não se conteve e gritou, seguiu falando alto e forte: – Eu fingi durante anos ser um bom irmão para a Paloma! Eu fingi durante anos que eu era um bom marido para Edith! Eu fingi durante anos que era hetero pro meu pai! Eu fingi! Que merda, Niko! Eu fingi! Que parte disso você não entende?

Niko estava ferido, estava com raiva. Mesmo que impensadamente, o que ele diria agora seria para ferir o outro também. E demostrando acreditar que o velho Félix do passado ainda pudesse estar presente no Félix de hoje, disparou:

– Será que você não está fingindo agora, quando diz que nada aconteceu entre você e ele, hein?

Félix sentiu-se derrotado. Nenhum de seus argumentos eram capazes de vencer a barreira criada pela desconfiança entre ele e Niko. Ele sentou-se na beirada da cama e lamentou-se.

– Você sempre dizia que eu era um homem bom, quando eu me achava um monstro. Agora que eu errei, mas reconheci meu erro e tentei consertar, justamente agora, você não me entende e não me dá um voto de confiança?

Niko olhava pra ele e, tinha que admitir, sentia pena; sentia algo que o impelia à ir até ele, segurá-lo nos braços e dizer que estava tudo bem. Niko lutava contra isso. Ao mesmo tempo que estava magoado pela traição, que acreditava tinha sido consumada, mesmo com tudo que Félix havia feito, mesmo com todos os sinais, ele se esforçava para ter mais raiva e não se deixar levar pela piedade. Eu não posso ceder, eu não quero, eu não mereço ser traído. — O Carneirinho estava machucado demais, tinha as suas próprias dores para lidar e decidiu concentrar-se nelas. A certeza de ter sido enganado, por vezes, podia ser maior que qualquer outra coisa e o movia na decisão de ser duro com Félix. Caminhou na direção da porta do quarto e fez um esforço enorme para falar o mais friamente possível:

– Estamos combinados então, quanto a conviver nessa casa por algumas semanas. Eu vou sair agora e volto depois que as crianças chegarem. Você tem tempo suficiente para levar suas coisas pro outro quarto.

Niko então abriu a porta e disse sem olhar para trás: — Eu só quero que você saiba de uma coisa, Félix. Eu não vou mudar de idéia, eu vou me separar de você.

Ele teve tempo de ouvir a última coisa que Félix disse:

– Você vai conseguir viver sem mim?

Niko saiu sem responder.

Após chorar mais um pouco, Félix começou a retirar suas coisas daquele aposento e levar para o quarto de hóspedes. Quando acreditava já ter retirado tudo, ele deu uma última olhada no ambiente. Lembrou-se de alguns momentos passados ali, das conversas, das brincadeiras, dos cuidados um com o outro, das crianças fazendo bagunça e, com certeza, do sexo. Sexo na cama, na poltrona, no banheiro, no chão... Félix tinha sido mais feliz ali, dentro daquela suíte, em um ano e meio, do que foi ao longo de toda sua vida anteriormente.

Antes de sair, notou o porta retrato com a imagem deles no casamento e decidiu levar consigo. Não conseguiu segurar as lágrimas que caíram quando fechou a porta dizendo baixinho:

– Como eu vou viver sem você, Carneirinho?

“Quando eu tenho que chorar, é você quem eu tenho que procurar. Quando eu preciso de alguém, é você que me acolhe, que me dá carinho.”

Ele caminhou até seu novo aposento pensando nessas palavras. Agora ele não tinha mais aquele que secava suas lágrimas, lhe acolhia e lhe dava carinho. Ele agora havia sido abandonado.

...

continua...

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Notas finais
Queria fazer uma nota de uma música que me lembrei quando escrevia este capítulo pois tem tudo a ver com o sentimento do Félix. Se quiserem ouvir, procurem por ALL OUT OF LOVE - Air Supply Adoro músicas antigas. Veja no Vagalume a tradução. Escutei ela o tempo todo enquanto escrevia o próximo capitulo e chorei rios de lagrimas............. :-( Até o próximo. A fic terá cerca de 14 capitulos, criaturas. OBRIGADO por todos os comentários no Facebook, Whatsapp e aqui, também as mensagens privadas. Vocês são demais. O amor Feliko é algo que não tem explicação, apenas existe.