Abandono
11 Tesão
Notas iniciais
Antes de começarem o relacionamento, em uma conversa no restaurante de São Paulo:
– Bobo, você nunca é péssimo com ninguém.
– Ai, Niko... Aguarde. Um dia, eu vou ser péssimo com você também.
...
Data atual. Cinco semanas depois da festa.
Após deixar todos no aposento mais afastado, do outro lado da casa, Félix rapidamente caminhou até a suíte do casal. Ele estava desesperado. E o desespero já o levou a cometer loucuras na vida. Ele teve receio de si mesmo, de que loucura pudesse cometer dessa vez. Calma Félix. Se acalma.– Ele repetia mentalmente, embora calma era a última coisa que ele conseguia ter naquele momento.
Félix tinha raiva. Raiva daquela situação e raiva de si mesmo por tê-la causado. Raiva por ter trazido tanta tristeza para a pessoa que ele mais queria ver feliz no mundo. Raiva porque Niko não acreditava nele. Mas teria mais raiva ainda se não tentasse, até o último segundo, evitar a partida daquele sem o qual ele não queria viver.
Ele tinha ciúmes. Embora não acreditasse que tivesse sido traído, alias ele tinha certeza disso. Mas ele tinha ciúmes só de imaginar o companheiro sentado em uma mesa de restaurante jantando com outro homem.
Ele também tinha medo. Medo de ser deixado. Medo de que Niko fosse embora levando as crianças, levando sua alegria, seus sonhos, seus planos de futuro e seu coração.
Quando Félix chegou no quarto, encontrou Niko fechando uma mala de roupas que já estava completamente cheia. O Carneirinho se assustou com a entrada repentina de Félix, que abruptamente abriu a porta.
– Félix, o que... o que você quer? — Cabisbaixo e em tom de desânimo, Niko perguntou como se já não conhecesse tão óbvia resposta.
– Você já tomou sua decisão, não é? Você vai mesmo embora... Então há coisas que precisamos esclarecer!
Niko suspirou. — Só fala baixo, Félix. Não quero que nos ouçam.
– Estão todos no quarto do meu pai.
Félix se mostrava nervoso, agitava os braços, rodopiava as mãos e se expressava em voz alta, lembrando a antiga pessoa que ele era antes da época em que se conheceram. Começou falando sobre a sociedade nos restaurantes. Quando casaram eles se tornaram sócios e cada um tem metade da empresa. Agora, como ficariam as coisas?
– Você quer comprar a minha parte, quer ficar com os restaurantes só para você?
– Eu achei que continuaríamos sócios. Essa empresa é dos nossos filhos também, Félix.
– Eu? Seu sócio? Você quer uma pessoa como eu de sócio? Alguém que tentou seduzir o diretor de um resort, para conseguir que ele desse um pouco de atenção à uma proposta de negócio?
A chance então surgiu para Niko dizer o que pensava sobre isso. Ele havia chegado à essa conclusão há poucos dias, enquanto ponderava sobre qual a melhor atitude à tomar em relação à separação. Só não disse nada porque não queria misturar as coisas. Não queria que Félix pensasse que ele estava cedendo e aceitando a traição. Mas, para Niko, aqueles eram dois diferentes assuntos. E ele, como de hábito, foi sincero.
– Félix, eu já te perdoei por isso, aliás, perdoar não é a questão. Eu já entendi.
– Perdoou? Como assim, Niko, você me entendeu... entendeu o que!?
– Sobre você dar em cima do... do tal Ricardo. — Era difícil pra Niko até falar esse nome. – Olha Félix, eu te entendo. Sobre você se insinuar, para chamar a atenção dele... Você cedeu à um velho hábito do passado. Você estava muito ansioso para que ele lesse a proposta.
Nessa questão Niko escutou o coração. Ele conhecia Félix, sabia de suas faltas, dificuldades e velhos hábitos. Observou de perto a mudança e o crescimento do companheiro. Era compreensível que este aprendizado ainda não estivesse completo, mas Niko admitia que ele estava no caminho certo.
– Você foi impulsivo, pra variar... — Disse sorrindo — Bom, desde aquela época, essa foi a primeira vez que você se viu em uma situação assim... enfim... Todos nós cometemos erros. Você errou e reconheceu isso.
O rosto de Félix mudou. A aparência de alguém angustiado alterou para a de uma pessoa perplexa e, finalmente, alegre. Niko havia entendido o que ele fez?
– Sim Niko, eu agi sem pensar, eu não sei o que me deu! Eu me arrependi depois quando a coisa foi escalando... Eu tive medo de você ficar sabendo, tive vergonha de mentir para você... e para ele. Eu me senti igual ao Jaques, me dei conta que estava errado! Você entende?
Ao mesmo tempo que Félix parecia aliviado, uma certa confusão pairava sobre sua cabeça. Enquanto eles conversavam, Niko continuava arrumando as coisas, agora enchia a segunda mala de roupas, e o que ele falava não combinava com o que estava fazendo.
– Félix, você percebeu seu erro sozinho. Se arrependeu. Você aprendeu uma lição e esse erro você não comete mais. — Niko exibia o mesmo olhar compreensivo e sorriso angelical que tanto encantam Félix. O Carneirinho, que há muito tempo não o olhava assim, continuou: — É muito bom quando isso acontece. E quero te dizer que, de certa maneira, fiquei orgulhoso de você. Por ter percebido que agiu errado e se arrependido sem que ninguém te dissesse nada.
– Você acredita em mim, então? — Félix era puro contentamento, parecia uma criança prestes a pular de alegria. – Você acredita, que não dei em cima dele porque me senti atraído ou porque gostei dele? Finalmente! Niko, eu fingi interesse nele... você entende, não é? — Félix se aproximou, como se fosse tocá-lo. — Porque não para de fazer essa mala...
Com um passo para trás, Niko evitou a aproximação.
– Eu entendi que você se deixou levar, Félix... e agiu impensadamente. Buscou uma aproximação com ele para que ele te desse atenção... no início. Mas... mas depois... olha... Não quero falar mais sobre isso. — A fisionomia de Niko, mais uma vez, era a de alguém bastante contrariado. Ele voltou sua atenção para a mala e continuou arrumando suas coisas, deixando Félix confuso.
– Espera criatura, espera. Acho que esses dias todos que passei chorando e angustiado fizeram o impensável em mim! Alguns dos meus neurônios deixaram de funcionar. Eu não estou entendendo nada!
Niko repetiu praticamente tudo o que havia dito. Que entendia a maneira infeliz que Félix usou para se aproximar de Ricardo e já tinha superado, pois atribuía isso ao fato de Félix ainda estar em um processo de aprendizagem e aquilo foi uma recaída, que já havia sido contornada. Mas que continuava decidido a separar-se porque acreditava na traição. Niko acreditava que Félix, em algum momento, sentiu-se atraído por Ricardo e, por isso, foi até a cabana.
Foi como um balde de água fria, a repentina felicidade não durou mais do que alguns segundos e a tensão voltou com muito mais força. Félix estava furioso.
– Então você vai insistir nessa separação!? E ainda me quer de sócio no Gian? Me diga aqui uma coisa, Niko, essa sociedade será entre nós três?
– Que três?
– Eu, você e a terceira pessoa, o terceiro membro... membro da nossa sociedade. Esse... esse cara aí com quem você vem se encontrando esses dias! Quem é ele? É o Ricardo?
Niko foi pego de surpresa. Félix falou de todos os dias que ele chegou de madrugada, mencionou também o domingo quando Niko saiu de casa pela manhã e apareceu bem mais tarde no trabalho.
– Até almoço especial de domingo você ganhou e sumiu... demorou um século até chegar no restaurante!
– Félix, não é nada disso que você esta pensando!
– Há, há, há! Conta outra que essa é velha.
– É a mesma coisa que você disse pra mim quando te peguei com o Ricardo. Sendo que eu, agora, não te devo satisfação nenhuma!
Os ânimos ficavam cada vez mais exaltados. Félix se sentiu a criatura mais inteligente da face da Terra por ter deixado os meninos com Adriana no aposento mais afastado dali, o quarto do seu pai, porque ele sentia vontade gritar.
E Niko já falava mais alto que o normal. Ele não escondeu a ponta de satisfação que sentiu, quando percebeu o quanto Félix estava mordido de ciúmes com aquilo tudo. Mas não o responderia pois não achava que Félix tinha direito de cobrar nada.
– Que história é essa de pensar que eu estive com o seu amigo Lobo? Está com ciúmes... dele? Não de mim, claro. É ciúmes dele, só pode...
– Sinceramente Niko, você se esqueceu que o Ricardo me disse que gostou de você? Gostou até demais quando te viu no Gian. — Definitivamente agora Félix gritava. — E te segurou lá na festa que eu vi! Aliás... você disse que ia ao banheiro e foi lá para o outro lado... onde ele estava!
– Você está insinuando que eu tenho um caso com o Ricardo? — Niko exclamou em descrédito, cerrando os punhos de raiva.
Félix disse que Ricardo prometeu procurá-lo e acreditava que isso pudesse ter acontecido, mas que tinha certeza que Niko não o havia traído. Acreditava que ele podia ter saído para um jantar, um bar e foi ao almoço de domingo mas sabia que Niko não o trairia de jeito nenhum.
– Se você tivesse me traído... Se! Se tivesse, ainda assim eu te perdoava. Onde quer que você tenha ido... — Félix batia uma mão na outra, demonstrando que não se importava nem um pouco. — o que quer que você tenha feito, seja lá com quem você se encontrou, não estou nem aí! Porque ficar sem você, eu não quero. Mas...
Niko o interrompeu:
– Não acredito! Você está dizendo isso só porque quer meu perdão!
– Ah. não... mas não mesmo! Estou dizendo porque é a verdade. E quer saber, eu não quero seu perdão, quero que você acredite em mim. Como eu acredito em você. Enquanto você acredita que eu te traí, eu não acredito que você me trairia. Eu sei o que você sente por mim! O que há entre nós você não vai achar igual, nem parecido! Seja com lobos, lacraias... seja com que bicho for!
– Você é tão seguro de si, não é, Félix Khoury? Você é o mais inteligente, o magnífico, o melhor de todos. Félix, você se acha!
– Eu me acho mesmo, criatura! Me acho! E sabe qual é o seu problema? — Félix caminhou na direção dele com tamanho ímpeto, que fez Niko dar passos para trás, até encostar na parede, enquanto prosseguia aos berros:
– O seu problema, Niko, é que você não se acha! Pronto, falei!
Ali encostado na parede com Félix gritando no seu rosto, Niko sentiu-se mal. Aquelas palavras o atingiram em cheio, tinham um fundo de verdade, Niko sabia que sim. Na festa, quando percebeu os olhares de Ricardo para o companheiro, ele se incomodou pois achou o moreno bonito demais, com um corpo sarado e perfeito. Niko se comparou à ele e sentiu-se inseguro, daí teve ciúmes. Na hora lembrou-se de Jaques, de Anjinho... os tipos pelos quais Félix se interessou no passado.
Quando Ricardo o abordou naquele dia, ele achou que fosse uma brincadeira. Depois admitiu para si mesmo que ficou surpreso e lisonjeado, quando soube que Ricardo visitou o Gian repetidamente tentando aproximar-se dele.
Niko nunca foi um modelo de segurança, no que se refere ao corpo. Em um mundo onde a aparência física é extremamente valorizada, Niko por vezes se achava fora do padrão. Padrão que institui o que é ou não é um corpo desejável e cobiçado. Padrão que separa os “anjinhos” dos “carneirinhos”.
Uma dieta aqui, um casaco ali, táticas variadas usadas na tentativa de se sentir melhor, faziam parte da vida de Niko. Não que isso o impedisse de viver sua vida amorosa e sexual de modo pleno. Mas, na hora da comparação, Niko não se sentia páreo para um cara como Ricardo. Soma-se à isso uma bela dose de ciúmes, e pronto: o estrago é total.
Félix sabia que havia atingindo o cerne da questão.
– Você fez aquilo que eu te pedi, Niko? Você se perguntou porque não confia em mim?
Niko não disse nada, permaneceu em silêncio. Talvez ele soubesse a resposta mas era preciso ouvir com todas as letras. Félix encurtou mais ainda a distância entre eles antes de começar a falar.
– Insegurança! Você pensa que eu transaria com um homem porque é fisicamente muito atraente, mas isso ao seu modo de ver. Ao seu modo de ver! Quem falou que ele é um gostosão foi você, não eu. Porque ele é atlético, sarado... e daí? E dai? Você acha que é isso que me atrai? Você acredita que é aquele tipo que eu quero? Mas é... é o apocalipse! Para mim você que é atraente, você é lindo, é você quem me excita!
Félix aproveitou que Niko estava praticamente encostado na parede e se aproximou quase encostando seu corpo no dele.
– É você quem eu desejo, não ele!
Niko deu o último passo que podia para trás e estava preso ali, não tinha para onde ir, então reagiu com certo ímpeto, empurrado Félix para longe.
– Para Félix! Você acha que pode mentir pra mim, como mentiu pra ele?
– Pelas barbas do profeta! Olha o que você acabou de dizer! Criatura, então você sabe que eu menti pra ele! Você tem consciência que eu mentia pra ele quando cantava ele. Você acabou de admitir isso, Niko... — Félix voltou a se aproximar.
– Mas você foi até lá! Eu vi! — Niko o empurrou de novo. — Você foi, sabendo o que ele queria!
– Mas não pra transar com ele. — Félix se aproximou novamente e, dessa vez, colocou suas mãos nos braços dele.
Mais uma vez, Niko rejeitou o toque. Balançou os braços com violência para se livrar das mãos de Félix. Em seguida o empurrou novamente para que se afastasse e, dessa vez, com muito mais força. Félix não desistia e, a cada empurrão que recebia, se aproximava novamente. E eles seguiram nesse jogo de empurra e aproximação enquanto continuavam a gritar um com o outro.
– Félix eu vi você saindo de lá sorridente e feliz!
– Porque eu não fiz nada errado! Eu tive medo de ser um canalha! De trair você porque você não merece e porque eu te amo! Eu não ia fazer isso com a gente, mas tive medo... de ainda ser aquele cara vazio, mas não sou! Fiquei feliz, de verdade...
– Quem me garante que você não soube separar amor de sexo? Hein? Você mesmo disse que pensou em ceder porque durante anos sempre fez só sexo!
– Antes de te conhecer, Niko. Quando eu tirei o Anjnho da cadeia, já naquela época, dentro do flat dele, eu não quis... eu não estava a fim! Eu já queria você.
– E a chantagem, você não cedeu para evitar que ele fizesse o que prometia? — Niko empurrou Félix com tanta força que ele quase caiu.
Félix voltou a se aproximar gritando mais que nunca, não tinha mais paciência nenhuma.
– Eu quero que ele se dane com aquela chantagem! Eu ia te contar tudo naquele dia! Mas eu devo ter sido dançarina de cabaré em Jerusalém pra você achar que eu me deitaria com alguém... por causa... de uma chantagem!
Esgotado e gritando à plenos pulmões, como se quisesse fazer com que aquilo que ele falava entrasse na cabeça de Niko de qualquer jeito, Félix voltou a ficar perto dele após mais um empurrão que recebeu.
– Eu não quis com o Jaques, quando ele quis, porque eu vi que ele faria por interesse! Que espécie de homem você acredita que eu sou!?
E gritou o mais alto que se lembrava de haver gritado na vida:
– Chega, Niko! Chega!
Niko não só o empurrou, de forma mais agressiva, como avançou desferindo socos nos braços e peito de Félix, que não se protegia, deixava ele bater. Não havia dor maior do que a que ele havia sentido nos últimos dias. Aqueles socos, que nem tão forte eram, não significavam nada. Nem podiam se comparar com a dor que, ele sabia, o Carneirinho estava sentindo, e ele se culpava por isso.
– Pode bater Niko, eu mereço. Eu não podia ter te causado tanta tristeza. Você não merece sofrer tanto e eu... eu por fim acabei sendo péssimo como eu disse que seria com você. — Félix aos poucos deixava que a emoçao tomasse conta dele de novo e falava de maneira sentida.
– Por que Félix, porquê? — Demostrando raiva ainda, o Carneirinho parecia descontrolado. Como era de se esperar, em meio à fúria ele começou a chorar.
– Eu não fiz nada! Me desculpe por ter começado isso tudo! Mas eu não... eu não te traí!
– Eu vi, Félix! Eu vi aquele.. cara sem blusa... — Niko continuava batendo nele. — De calça aberta...
– Niko! Que merda! Você não entende o que me impediu de transar com ele? Além do amor e respeito que tenho por você... você esqueceu uma outra coisa...
O Carneirinho batia ainda, mas com menor intensidade. A emoção, talvez o esgotamento, o estavam vencendo. Félix continuou falando:
– Tesão! Eu não senti nada, nada por ele. Nunca. É uma questão de pele, de química. Tesão!
Niko foi espaçando os golpes, cada vez com menos força, até que finalmente parou. Fechou os olhos, colocou as mãos na cabeça e, por fim, respirou fundo encolhendo os braços na altura do peito. Se recolheu em si mesmo, em seus sentimentos e percepções. Pensava no quanto fazia sentido o que Félix acabara de falar. Como era a relação deles até hoje na cama? Quem era aquele homem que ele sempre chamou de bom e que demostrava, além de um imenso amor por ele, e pela família, um desespero enorme pela iminente ameaça de abandono? Quem estava ali na sua frente era mesmo o velho Félix? Se não... era o seu Félix, aquele que havia se entregue à ele como à ninguém mais até hoje. Porque mentiria?
Mas, e o que ele viu? As mensagens e o homem no quarto de hotel sem camisa, descabelado e de calça aberta... O que teria mais peso: o que sua mente racional enxergou, ou o que dizia sua emoção, seu coração? Niko chorava, um choro fraco e sentido.
Félix prosseguiu: — Quando eu imagino você me tocando... ou penso no teu corpo, Niko... eu fico louco, eu... eu nunca senti isso na vida. Eu não sinto por outra pessoa! Eu só senti com você e quero, preciso continuar sentindo.
Depois de minutos aos berros em uma tentativa de se fazer acreditar, Félix acalmou-se. Suas últimas palavras saíram como um lamento:
– O que foi que eu fiz, ou não fiz, para você não acreditar em mim? Que pecado idiota que eu cometi é o responsável por isso?
Ele olhava Niko chorando e foi inevitável não fazer o mesmo.
Félix podia pensar uma ou duas vezes antes de fazer o que fez, mas na verdade nem pensou. Não importava se ia receber outro empurrão ou mais socos, um tapa que fosse não ia impedi-lo: agarrou Niko em um arroubo, com determinação, envolvendo-o nos braços. A princípio foi rejeitado. Niko balançou-se, tentou se livrar, mas Félix o segurou como se dependesse dele para viver, e ele dependia dele para viver. Como deixar ir embora alguém sem o qual não se viveria? Niko é mais forte, mas Félix reuniu todas as forças do mundo enquanto o agarrava entre seus braços. Ele o apertou com toda garra, toda a adrenalina de quem precisa salvar a própria vida. Estava determinado a não deixa-lo sair dali. E não deixou.
O embalou enquanto ele ainda derramou mais lágrimas e tentou se soltar algumas vezes mais. Foi preciso muita energia para contê-lo, mas Félix conseguiu. Até que os dois cessaram o choro, mas ofegavam. Estavam exaustos, doloridos e suados. Um respirava o hálito do outro, os rostos quase se tocando, perigosamente próximos para que outras sensações não começassem a surgir.
A distância que havia entre eles era porque Niko mantinha os dois braços dobrados, com as mãos tocando o queixo, e isso impedia que Félix chegasse mais perto. O Carneirinho tinha os olhos fechados, as lágrimas misturavam-se ao suor.
Após um tempo, quando Niko parou de tentar sair dali, Felix ainda o mantinha preso entre seus braços com força e, se pudesse, ficaria assim para sempre: prendendo-o, olhando pra ele, sentindo seu cheiro, evitando que ele partisse.
Entretanto... decidiu soltá-lo.
Mas não para deixá-lo ir.
E sim para prendê-lo de uma outra maneira.
Desceu suas mãos pelas costas dele, até chegar ao cós da calça que Niko usava. Com a pontas dos dedos fez o caminho das costas até a frente, por sob a blusa, circundando a cintura até o botão, roçando os dedos na pele dele. Parou ali, e falou segurando no botão daquela calça.
– Faz tempo que eu não quero só um corpo, Niko. Mas se quisesse, seria o seu. Se eu quisesse alguém só para sexo... — Félix aproximou-se e sussurrou — … alguém para uma trepada... pra meter, dar, chupar... só pra transar... ainda assim seria você.
Niko, que ainda mantinha os braços dobrados entre o peito dos dois, se arrepiou com o toque na cintura. Há quanto tempo sentia falta disso.
– Olha pra mim, Niko. Olha como estou. Eu te amo... — Félix falava colado ao pescoço dele, provocando-o com seu hálito quente, ainda segurando o cós de sua calça. – … e te quero.
Por alguns segundos que pareceram uma eternidade, os dois apenas respiravam pesadamente um próximo ao outro. Félix olhava para ele, que mantinha os olhos fechados.
Então o impreterível aconteceu. Talvez fosse o cansaço ou o esgotamento nervoso... talvez fosse o amor que Niko sentia por aquele homem que existia independente de qualquer explicação que fizesse sentido. Quem sabe era puro... tesão.
Fosse o que fosse, algo fez com que Niko baixasse os braços e fizesse a mesma coisa. Ele segurou o cós da calça que Félix vestia. Manteve as mãos ali, no botão, mas sem abrir. E respirou fundo.
Respirou como se preparasse para a queda, que era iminente e inevitável. Como em um passeio de montanha russa, ou naquele momento da corrida na rampa que antecede um voo de asa delta, não se pode voltar atrás. Não se tem como lutar contra, o jeito é se jogar, se entregar.
Bastava somente abrir os olhos. E ele o fez. Levantou o rosto e encarou Félix. Os dois se miraram talvez por um, dois segundos... foi o suficiente para que se puxassem para a cama, ambos desesperados por ter o outro. Era como se um quisesse pegar do outro aquilo que lhe era de direito e que lhe havia sido negado por tanto tempo. Agora eles tinham urgência, sede, fome.
Se despiram com pressa. Uma vez sem roupa, seus corpos se chocaram com violência e se agarraram com raiva. Raiva pelo tempo que passaram sem isso. Raiva por ter imposto e se submetido ao castigo da separação.
Os membros excitados se roçaram e suspiros febris escaparam da boca de ambos. Eles se olharam. Niko mordeu o lábio inferior, Félix sorriu maliciosamente.
As mãos, ávidas pelo toque, buscavam pegar em tudo, sentir todas as partes. As línguas e as bocas, sedentas, lambiam, chupavam e sentiam o gosto que há muito desejavam, provavam e degustavam os sabores dos quais sentiam falta.
Não demorou muito e um deles estava dentro do outro, após uma penetração sem muitas gentilezas. Não importava qual deles. Seus corpos formavam um só. Não se sabia onde um terminava e o outro começava. Se mordiam, se arranhavam e se chocavam. Estocadas profundas eram acompanhadas por gemidos entrecortados. O orgasmo veio após uma série de movimentos rápidos e intensos. Nenhuma palavra foi trocada, apenas um ouviu do outro um grito estremecido de prazer. No entanto, antes de explodirem e se deixarem levar, as mãos se procuraram, entrelaçando os dedos, e eles gozaram juntos segurando com força um no outro.
Após o clímax eles permaneceram unidos em um abraço, recobrando os sentidos e recuperando o fôlego. Até que se separaram e deitaram cada um em seu lado da cama. Por um bom tempo, nada foi dito. Félix tinha medo de falar qualquer coisa ou tomar uma atitude e ser rejeitado. Ao mesmo tempo esperava um sinal de Niko, uma aproximação que fosse. Ao invés disso, alguém apenas quebrou o silêncio.
– Félix, quero te contar onde eu estive esses dias.
– Niko, eu não quero saber.
– Félix... eu preciso te falar, eu...
Félix levantou rápido, sentando-se na cama, e foi enfático:
– Não Niko, escuta. Eu já disse que não me importo. E eu sei, sei que você não fez nada.
– Félix, olha, me ouve...
– Não! Niko, não.
Félix realmente não queria ouvir o que Niko tinha a contar. De fato ele não acreditava em nenhuma traição ou, quem sabe, não quisesse saber mesmo para não sofrer. Àquela altura não importava mais. O que Félix queria não era ouvir, mas ainda queria falar. E ele tinha um pedido a fazer.
Então declarou-se, como em uma última súplica, falando com velocidade tudo que vinha na sua cabeça para um Carneirinho que assistia a tudo, em silêncio.
– Niko, me ouve você. Por favor. Olha, eu vou ficar doente sem você, sem isso que aconteceu agora, sem ouvir a sua risada quando eu faço uma piada, sem ouvir sua voz aqui, no meu ouvido antes de dormir, dividindo o mesmo travesseiro comigo. Eu não quero, eu não posso ficar sem você!
– Félix...
O medo de que Niko o mandasse embora, de volta para o quarto de hóspedes, era tão grande que ele não queria deixa-lo pronunciar uma só palavra. Se o Carneirinho fizesse aquilo, o mandasse sair dali, significaria que tudo estava realmente acabado entre eles.
Pois o que aconteceu naquela cama, era de se esperar. Toda a ansiedade que viviam, a tensão e o clima quente da conversa não podia terminar mesmo de maneira diferente: em sexo. Ele sabia que aquilo não significava que Niko acreditasse nele e que estava tudo bem. E aquilo não bastava para Félix. Ele precisava de mais. Seu único plano e estratégia era passar o quanto mais tempo pudesse naquele lugar.
– Eu não sei o que você ia dizer, não sei se vai me pedir para sair daqui, não sei. No momento, eu só quero... eu... — Engoliu em seco com o mesmo nervosismo da primeira noite, ele não queria, não podia, receber um não como resposta. Mas arriscou:
– Eu posso dormir aqui hoje?
– Félix... eu..
– Se essa é nossa última noite juntos, deixa eu amar você? Deixa eu te amar de todos os jeitos possíveis, eu quero guardar isso pra sempre, Niko. Eu quero te dar prazer, quero te ver gozar, quero te ouvir gemer, eu amo quando você diz meu nome. Eu não quero me esquecer disso nunca!
– Félix... — Niko não conseguia responder nem que sim nem que não. Principalmente porque Félix não lhe deixava falar. Félix se aproximou dele, que ainda estava deitado.
– Se essa é nossa última noite juntos, não me nega isso, Niko! Deixa te fazer feliz, deixa eu ser seu, deixa eu ter você! Quero fazer amor com você até o último minuto. Niko... não me nega... isso. — Aproveitando a proximidade, Félix não esperou por resposta e começou a beijá-lo e acariciá-lo onde sabia, seria irresistível.
Niko se entregou, se rendeu, cedeu, sucumbiu aos beijos e carícias por todo seu corpo. Félix se declarava ainda mais pra ele:
– Eu não posso ficar sem seu cheiro. — Dizia enquanto beijava seu pescoço... — Não tenho como viver sem seu gosto. — depois que provou do seu líquido... — Preciso do toque da sua pele. — enquanto acariciava-lhe o corpo todo explorando cada centímetro, cada pedacinho, como se estivesse desenhando um mapa mental para nunca mais esquecer-se.
Félix o amou de todas as maneiras, por toda a noite. Em meio ao desejo e a volúpia, ele misturava suas lágrimas com o suor dos dois. Porque ele chorou, algumas vezes, quando se lembrava que aquela seria sua última vez fazendo amor.
E, como diz na canção Hero (Henrique Iglesias)
Am I in too deep?
Have I lost my mind?
Well,I don't care you're here tonight.
I can be your hero baby.
I can kiss away the pain.
I will stand by you forever.
You can take my breath away.
Oh, I just wanna hold you.
I just wanna hold you.
déjame tocarte, quiero acariciarte
una vez más, mira que al final
lo que importa es que te quiero
Félix não se importava em exagerar nem em enlouquecer. Tudo que importava era que Niko estava ali com ele aquela noite. E ele queria, acima de tudo, ser o seu herói. Como sempre foi desde o início. Mesmo tendo errado, ele tentava com seus beijos afastar a dor que ele causou. Ele queria ficar do lado dele, lhe dando apoio para sempre. Ele queria apenas abraçá-lo e não deixá-lo ir.
Niko não disse nada pelo resto da noite. Não deu nenhuma pista se o perdoava ou se confiava nele. A única palavra que pronunciou foi “Félix”, entre gemidos ou em forma de gritos de prazer. Extasiado e exausto, de tanto sexo, ele adormeceu deitado no peito do seu amante.
Porém Félix não dormiu. Ficou naquela cama aconchegado nele a noite toda. Brincou com os cachos do cabelo loiro, aspirou seu aroma e sentia seu gosto na boca. Tentava absorver, memorizar, o mais que podia a sensação daquela pele macia e do corpo quente que abraçava.
Quando Niko trocava de posição ele se moldava à ele, vagarosamente, com medo de que ele despertasse. Félix queria ficar ali, aproveitar o mais que podia e, se aquela fosse a última vez, ele não queria perder nenhum detalhe.
...
Pela manhã Niko despertou de um sono profundo e pesado, virado para o lado de fora da cama. Se lembrou do ocorrido na noite anterior e onde terminou dormindo, exausto: em cima de Félix. Virou-se na cama e ele não estava lá. Será que voltou para o quarto de hóspedes? – Se vestiu e encontrou Adriana na cozinha já com os meninos na mesa. Abraçava os filhos enquanto perguntou:
– Adriana, você viu o Félix?
– Ih, seu Niko. Quando fui chamar Fabrício, seu Félix já estava brincado com ele lá no quartinho do menino.
Niko deu meia volta, ia começar a caminhar até o quarto de hóspedes. Adriana já sabia.
– Seu Niko... ele não tá lá não...
– Cadê ele?
– Ele se foi.
To make you feel my love (Adele)
I could hold you For a million years
Eu poderia abraçar você por um milhão de anos
To make you feel my love
Para fazer você sentir o meu amor
I know you Haven't made Your mind up yet
Eu sei que você ainda não se decidiu
But I would never Do you wrong
Mas eu nunca te faria nenhum mal
I've known it From the moment That we met
Eu soube desde o momento que nos conhecemos
No doubt in my mind Where you belong
Não há duvidas na minha mente sobre onde é o seu lugar
...
Continua
...
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