Abandono
12 Alma
Notas iniciais
Ainda na noite anterior, Félix ficou velando o sono do Carneirinho. Não conseguiria dormir pensando que corria o risco de acordar e descobrir que ele havia partido. Então ficou ali, olhando para ele, desejando que pudesse voltar no tempo e jamais ter feito nenhum contato, com nenhum diretor de resort.
Tendo Niko em seus braços, Félix podia pensar que nada mais importava. Mas a verdade é que importava sim, porque apenas uma noite não bastaria. Ele queria e precisava ter aquilo por todas as noites, pelo resto da vida, e ele faria o que fosse necessário. Só não sabia mais o que.
Tudo que podia fazer para convencê-lo, ele fez. Demonstrou seu amor e seu desejo de todas as maneiras imagináveis. Não havia nada que pudesse dar além de sua palavra. Não havia nada com o que contar além da confiança de Niko. Tendo esgotado todos os seus argumentos, a única coisa que lhe vinha à mente, como algo que pudesse ajudar, era justamente aquele que complicou tudo: Ricardo.
Vai que a criatura anda cercando o Niko e enchendo a cabecinha dele de besteiras e mentiras. - Félix levava em conta essa possibilidade, uma vez que conhecia bem o tipo de pessoa que era Ricardo, pois reconhecia nele o homem que ele próprio já foi um dia. E, justamente por isso, acreditava que dificilmente o Lobo iria ajudá-lo. Ou iria? Então por que não fazer uma tentativa? E se? — Será que o que eu fiz naquela cabana não serviu para nada? Deve ter servido! — Félix contava com isso. Ou com alguma coisa que ele não sabia definir, mas que podemos chamar de sorte, talvez.
Quando o dia começou a clarear, ele se determinou a procurar aquela pessoa, por mais inútil que pudesse parecer. Ficar ali parado, esperando uma sentença de Niko, ele não queria. Seu plano era sair antes que todos acordassem e ir até o resort. A conversa com Ricardo, dependendo do que ele dissesse, lhe daria alguma idéia. Ele acreditou nisso.
Levantou-se deixando o Carneirinho na cama dormindo, foi até o quarto de hóspedes, tomou banho e se arrumou. Deu uma olhada em seu pai e depois em Jayminho, confirmando que ambos dormiam bem. Entrou no quarto de Fabrício e se aproximou da caminha para beijá-lo. Ao fazer um carinho nos finos cabelos loiros, o menino despertou.
– Papi! — disse ainda sonolento esticando os bracinhos, pedindo colo. Félix não resistiu, o pegou e sentou com ele na poltrona, embalando-o.
– Sabe, baby, não é a primeira vez que seu papi não tem um plano e nem sabe direito que fazer. Mas se eu ficar parado, já perdi. Então eu vou...
– Vamos brincar! — Fabrício mesmo ainda um pouco sonolento e agarrado no pescoço do pai, teve sua atenção despertada por um brinquedo no chão do quarto.
– Mas eu devo ter salgado... — Félix não conseguia dizer não à Fabrício; a genética, certamente, explica isso. — ... tá bom, vamos. Mas só um pouquinho. Porque você... — Ele colocou o menino no chão e sentou-se junto à ele. – Você vai para a escola e eu... vou pegar um lobo à unha!
– Papi vai que?
– Vou caçar um lobo... um lobo mau, meu amor. Mas é um lobo de mentira sabe... se faz de lobo mas no fundo aquilo ali é um cachorrinho chihuahua.
Os dois brincaram por alguns minutos até Adriana entrar no quarto. Félix então deixou Fabrício com ela e disse que ia sair, sem dar detalhes do que ia fazer.
Antes de partir, contudo, passou no quarto onde Niko dormia profundamente, deitado de bruços, ressonando baixinho e com o rosto virado para o lado de fora da cama, bem próximo à beirada. No rosto dele havia um sorriso sereno. Talvez fosse resultado de um sonho bom ou ainda reflexo da noite anterior. Felix se ajoelhou no chão e ficou bem perto dele. Em sua mente, as imagens da noite passada o faziam ferver por dentro. Mas não era só isso que o atraía para ele como um imã, era muito mais. Era uma alma que se sentia ligada à outra. Ele não via sentido nenhum em se separar dele por um erro, pois o que eles tinham era muito maior. Como de hábito, se perdeu no tempo admirando cada detalhe daquele rosto que ele adora. Depois disse baixinho para não acordá-lo:
– Eu só sou o que eu sou hoje porque eu tenho você, Niko. Você é meu tudo, você é minha vida. — Fez um leve carinho nos cabelos cacheados. — Como é que alguém substitui a própria vida? Hein? Me fala. Você é insubstituível, Carneirinho. Você precisa acreditar em mim. Não me deixa sem você... — Félix se despediu, depositando um beijo suave na testa dele, levantou e se foi.
Saiu dali direto para o carro. Não conseguia parar de pensar em Niko. Até quando ligou o veículo demorou a sair porque se perdeu lembrando os momentos de paixão que tiveram dentro da garagem. Respirou fundo, passou a mão na cabeça, como que tentando espantar as lembranças, e o sono, e arrancou.
Foi em direção à estrada que leva até o resort. Vários avisos chamavam a atenção dos motoristas para obras no local. A estrada parecia perigosa mas Félix estava atento. Mesmo sonolento dirigia sem problemas, já que a adrenalina o mantinha acordado.
As lembranças da noite anterior por vezes o distraíam, mas quando deu por si, já estava lá. Chegou bem mais cedo que deveria. Na recepção principal foi informado de que não havia ninguém na administração naquele horário. Nem as secretárias, muito menos qualquer diretor.
Ele retornou para dentro do carro e ficou no estacionamento fazendo hora. Ligou o rádio, passava de estação em estação sem que nenhuma música lhe agradasse. De repente, o toque de um piano lhe chamou a atenção. Recostou a poltrona, decidiu relaxar, começou a ouvir a música:
Meus pés não tocam mais o chão
Meus olhos não veem a minha direção
Da minha boca saem coisas sem sentido
Você era meu farol e hoje estou perdido...
Tudo que Félix não precisava, e nem queria, era deixar que a emoção o dominasse e aquela letra mexeu com ele. Se arrepiou pensando no que aconteceria quando o dia chegasse ao fim: Niko iria mudar-se para o novo apartamento. Trocou de estação, com a intenção de escutar outra coisa.
Você é tudo, tudo. Tudo para mim
Eu desabo quando me calo
Você é meu abandono
é tudo o que eu tenho...
Mas não teve sorte. Parecia que as músicas falavam com ele e queriam fazê-lo chorar. Encostou a cabeça no volante do carro e apertou com força o botão do rádio deixando que a sorte trouxesse qualquer outra canção.
I don’t deserve you
I don't deserve a chance like this
I don't deserve a love that gives me everything
You're everything I want..
.
Já demorava para Félix perder a paciência, o que acabou acontecendo:
– Chega, para, já deu! Não quero ouvir mais nada!
Após apertar vários botões do rádio sem conseguir desligar, desistiu tirando a chave da ignição. Saiu do veiculo fechando a porta com força e esbravejando de raiva.
–Mas eu devo ter engarrafado as águas do Rio Jordão, e vendido durante o sermão da montanha por um preço abusivo, para merecer escutar isso logo agora! — Retornou para dentro do prédio do resort. Para seu desespero... lá continuava:
Entre os soluços do meu choro eu tento te explicar
Nos teus braços é o meu lugar...
Ele olhou para fora, o sol já estava quente e ele não queria, de maneira nenhuma, ficar onde não havia ar condicionado. Foi obrigado a continuar ouvindo...
Esqueci do meu orgulho pra você voltar
Permaneço sem amor, sem luz, sem ar...
Sem paciência caminhou até os elevadores e subiu de uma vez até o andar onde ficam os escritórios, decidiu esperar lá mesmo. Quando o elevador se abriu, ele chegou à recepção da diretoria. Todas as portas estavam fechadas e na mesa da secretária não havia ninguém. Entre as poltronas e sofás, que preenchiam o espaço finamente decorado, Féix escolheu um lugar e sentou-se. Ainda era possível escutar a música que saia das caixas de som do ambiente.
Meu ar, meu chão é você
Mesmo quando fecho os olhos, posso te ver...
Ele fechou os olhos e, obviamente, não pode evitar pensar em Niko. Sentia um aperto no peito devido à incerteza do que estava por acontecer ainda aquele dia. Decidiu concentrar-se em coisas boas. Então lembrou-se da noite anterior por alguns minutos e acabou cochilando.
...
Enquanto isso, depois que despertou, Niko tantava entender o que Adriana queria dizer com “ele se foi”.
– Como assim se foi? Se foi pra onde?
– Ele não falou, seu Niko. Só disse o que sempre diz desde que ficou sem celular, que vai ligar da rua pra saber se está tudo bem e qualquer emergência pra ligar pro senhor.
– Félix sem celular... isso sim é o apocalipse, Adriana!
– Apocalise! — Fabricio tentava repetir, com alegria ímpar, uma das palavras mais faladas por seu papi fazendo todos rirem, apesar da preocupação.
Juntamente com a babá, Niko ajudou as crianças com o café da manhã e, após as despedidas, os meninos saíram com ela para a escola.
Ele ficou sozinho, pensativo, sentado à mesa da cozinha. Serviu-se de um café. Enquanto tomava a bebida em pequenos goles, lembrou-se de acontecimentos passados, como a primeira noite dele com Félix, por exemplo.
"O Anjinho... ele foi um oásis na minha vida. Mas, se você me perguntar dele, eu vou pensar só no corpo... dele."
Naquela ocasião se sentiu incomodado à princípio, se comparou e não se sentia páreo no quesito “corpo” para disputar Félix com o antigo amante. Mas, logo em seguida, foi surpreendido por uma declaração que deixava bem claro que ele não era apenas um corpo e sim muito mais que isso. Só que, depois de um beijo, que há muito ambos desejavam, em menos de um minuto estavam na cama. Niko viu a confirmação de que, entre eles, havia não somente amizade e carinho. Era uma coisa de alma e também não apenas alma. Havia sim desejo, havia fogo nos olhos de Félix, e aquela noite e todas as que se seguiram provaram isso.
Ele se lembrou de muito do que foi dito nas discussões que tiveram nas últimas semanas...
"Niko. Você já se perguntou porque não confia em mim? Pergunte a si mesmo porque você acredita que eu não resistiria ao moreno alto, bonito e sensual!"
Se lembrou da noite anterior...
"Faz tempo que eu não quero só um corpo, Niko. Mas se quisesse, seria o seu."
Se lembrou de Félix parado na porta da cabana, como se estivesse tomando coragem e depois saindo de lá, sorridente e feliz, deixando Ricardo para trás semi-despido.
"Tesão! Eu não senti nada, nada por ele. Nunca. É uma questão de pele, de química. Tesão!"
Lembrou-se de tantas coisas que passaram juntos... de como se aproximaram, de como Félix tinha medo de se entregar ao amor e de como ele sempre acreditou que Félix era um homem bom quando o próprio se achava um monstro.
"Que espécie de homem você acredita que eu sou!?"
Adriana retornou à casa e Niko ainda estava sentado no mesmo lugar, com uma xícara de café frio nas mãos. Imerso em lembranças ele juntava fatos, revia impressões e emoções. Parecia em transe quando ela o despertou mas levantou-se decidido.
– Se o Félix chegar diga que estou lá no escritório, Adriana. Eu preciso fazer uma compra. Eu vou mais tarde hoje pro restaurante. — Ele encheu um copo com água e partiu em direção ao outro cômodo.
Niko tinha uma vaga ideia do que fazer, desde que despertou pela manhã. No entanto, ainda não sabia exatamente como proceder. No escritório sentou-se na cadeira onde Félix trabalhava todos os dias. Na mesa, pequenos porta retratos exibiam fotos dos filhos e da mãe. No meio deles havia um, bem maior que os outros, que continha uma foto dele, de Niko. Então se recordou de quando o deu de presente para Félix, logo após a mudança, quando terminaram de arrumar o escritório.
– Para mim? — Félix abriu o embrulho com o contentamento de uma criança, rasgando o papel de presente com avidez.
– É pra te fazer companhia enquanto você trabalha.
– Carneirinho... você está lindo nessa foto!
– Foi você quem tirou, lembra? Eu estava olhando pra você, por isso estou... bonitinho.
– Está lindo! Você é bonito demais, Niko!
– Gostou do presente?
– Amei! Só não sei se vou conseguir me concentrar no trabalho com você assim... nessa foto me olhando desse jeito.
– Tem mais uma coisa. — Niko retirou a foto do porta retratos e, com uma caneta especial, escreveu nela: “Eu te amo, Félix. Para sempre seu Carneirinho, Nicolas”. Então inseriu a fotografia no lugar e colocou o porta retratos sobre a mesa. Félix leu a dedicatória e o olhou encantado.
–Para sempre meu? Jura?
– Juro. Só seu. Para sempre.
– Não há nada nesse mundo que eu quisesse tanto, Niko! Alguém como você, só meu e para sempre. E agora eu tenho. Eu sou, definitivamente, o homem mais feliz de todos.
Enquanto dizia isso, Félix levantou-se da mesa e o enlaçou pela cintura. O beijou apaixonadamente na boca e logo em seu pescoço. Em seguida, sussurrou em seu ouvido:
– Tira essa roupa.
Então caminhou lentamente até a porta do escritório e a trancou. Permaneceu de costas enquanto se despiu. Virou-se e Niko já estava nú, à sua espera.
–Sabe Carneirinho, adorei o presente porque eu vou dar um duro danado aqui nesse escritório.
–Tenho certeza disso.
–Você também vai trabalhar duro, como sempre.
Félix sentou-se na mesa e fez sinal para ele se aproximar. O enlaçou na altura da cintura com suas pernas, apertando bem forte e trazendo-o mais para perto. Niko, de pé e de frente pra ele, com seu sexo roçando entre as pernas do parceiro, entendeu o que ele queria e sorriu.
–Me faz ainda mais feliz, meu Carneirinho! — Félix demandou enquanto segurou o rosto dele com ambas as mãos, puxou de encontro ao seu e logo lhe devorou a boca com um beijo voluptuoso...
...
De volta à realidade, Niko tomou de uma vez só o copo de água gelada que havia levado consigo. Não era difícil para ele perder a noção do tempo, deixando-se levar pelas lembranças. No entanto olhou no relógio e a hora passava, precisava ser mais rápido. Ligou o computador de mesa, que Félix usava quase que exclusivamente para o trabalho, e a primeira coisa que viu foi a imagem que surgiu na tela: uma selfie que eles fizeram no dia da inauguração do restaurante de Angra. Niko lembrou-se da senha que Félix informou durante a discussão na praia: aniversario de Jonathan. Digitou e entrou. O papel de parede era uma linda foto da família.
Procurou e achou na internet o telefone de uma loja no centro comercial de Angra. Precisava comprar uma coisa mas queria ter certeza de que tinham em estoque antes de ir até lá, pois não podia perder muito tempo.
Enquanto falava com o vendedor, Niko explorava as pastas organizadas na tela e viu que eram todas relacionadas à empresa, com exceção de duas. Uma delas chamava-se “fotos” e a outra chamava-se “vídeos”. Tentou abrir a pasta de vídeos mas era preciso uma senha, de seis caracteres. Ele pôs-se a digitar a data de aniversário de todas as pessoas da família e não conseguia acertar. Então digitou datas de eventos importantes como a primeira noite, o pedido de casamento, o casamento... e nada.
Em meio às tentativas, falava ao telefone:
–Você tem? Que ótimo. Eu passo aí antes do almoço, guarda um pra mim por favor? Eu sou o dono do restaurante japonês que fica em frente... Do outro lado da avenida... Isso, esse mesmo! Combinado então. Muito obrigado. Bom dia.
Depois que desligou, ele voltou sua atenção para a pasta de fotos. Lá encontrou algumas imagens dele e de Félix, dos meninos e dos familiares de ambos. Não eram muitas. Eram fotos antigas dos primeiros meses de namoro: os primeiros eventos que foram juntos, os primeiros passeios com as crianças, a primeira vez que Félix encontrou a família dele... E, no meio de todas elas, uma foto que nem imaginava que ainda estivesse guardada chamou sua atenção: o arranjo de flores que Félix levou para ele quando dormiram juntos pela primeira vez. Niko tirou a foto com o celular no dia seguinte depois que o parceiro partiu. Provavelmente Félix enviou a foto para ele mesmo, em uma das vezes que mexeu em seu celular, o ajudando com algum problema, e guardou. Niko sempre deixou que Félix cuidasse dessas coisas de celulares, computadores e fotos digitais. Cada vez que mexia nelas se surpreendia com a quantidade de imagens que Félix guardava deles dois e da família.
Então tentou mais uma vez abrir a pasta de videos. Uma senha. Seis caracteres. Nenhuma data serviu. Seria uma palavra?– Lembrou dos nomes das pessoas da familia e nenhum tinha seis letras, com exceção dos sobrenomes Khoury e Corona. Digitou um de cada vez e não era nenhum deles. Até os nomes Paloma, Maciel, Márcia e inclusive Jaques ele tentou e certamente não acertou. Curiosíssimo para abrir aquela pasta, Niko não se deu por vencido, Pensou, pensou... tentou algumas combinações de nomes, letras e números... nada serviu.
Até que uma idéia o fez gelar. Recordou do nome “Lobato” e sentiu até medo. Seria essa a senha da tal pasta? Se fosse, ele acreditava que não ia gostar nada do que iria encontrar ali dentro. Mas precisava saber. Muniu-se de coragem e digitou letra após letra: L... o... b... a... t... o.
…
Enquanto isso, no resort, Félix acordava e voltava a pegar no sono repetidamente, sentado naquele sofá. Tirava pequenos cochilos e logo acordava assustado. Não podia dormir alí, alías não podia dormir. Tinha que conversar com Ricardo, não havia mais nada o que fazer. As músicas continuavam a lhe torturar, todas lhe lembravam Niko de alguma maneira. Ele voltou a cochilar quando um dos elevadores se abriu.
–Senhor? Está tudo bem? – A secretária da diretoria acabara de chegar e encontrou Félix adormecido.
Ele levantou em um pulo e explicou que esperava pelo doutor Lobato. Ela informou que não sabia a que horas ele chegaria. Félix disse que ia esperá-lo e pôs-se a andar de um lado para o outro. Qualquer um podia ver o quanto ele estava ansioso e parecia cansado.
– Sente-se, ele talvez demore.
– Obrigado, mas não. Não posso correr o risco de dormir aqui de novo e aquela criatura passar correndo e escapar.
Félix caminhava sem parar enlouquecendo a secretária, enquanto ele mesmo se enlouquecia com a trilha sonora que preenchia o ambiente. Quando se encostou na vidraça da enorme janela com vista pra o mar, se permitiu fechar os olhos, sabia que não dormiria em pé. Porém, ao invés de relaxar, um tal Roberto Carlos começou a cantar em seu ouvido:
Fecho os olhos pra não ver passar o tempo
Sinto falta de você
Anjo bom, amor perfeito no meu peito
Sem você não sei viver
Ele revirou os olhos, abaixou a cabeça. — Será que até o DJ dessa rádio tem algo contra mim? — Ele não tinha outra opção. Tinha que ficar ali esperando Ricardo, ouvindo aquelas músicas, pensando em Niko e evitando se emocionar. Ele ao menos tentava não se amocionar...
Eu não vou saber me acostumar
Sem sua mão pra me acalmar
Sem seu olhar pra me entender
Sem seu carinho, amor, sem você
... mas não estava sendo fácil para Félix.
…
Não estava sendo fácil para Niko tampouco. Sentado na mesa do escritório, olhando para a tela do computador, ele havia acabado de digitar o nome “Lobato”. Tomou coragem e apertou a tecla enter. Mas, aquela palavra também não era a senha. Respirou fundo, aliviado. Ao mesmo tempo continuava mais intrigado do que nunca. – O que será que tem aqui de tão importante pra ter uma senha tão difícil?
O Carneirinho já pensava em desistir quando olhou mais uma vez a foto que estava aberta na tela, a do arranjo de flores da primeira noite. Nenhum era tão especial quanto aquele, embora tivesse ganho muitos. Félix lhe presenteava com muitas flores, desde arranjos mais elaborados e buquês menores até uma singela rosa. Se Niko colocasse juntas, todas as flores que ganhou de Félix nesses dois anos e meio... — Dava pra encher um caminhão.– Ele pensou e sorriu.
De repente se lembrou de uma conversa, que teve com Félix quando ganhou dele uma braçada de dálias amarelas.
– Eu pesquisei antes comprar, Carneirinho. Elas significam amor correspondido e união recíproca.
Emocionado, não conseguia falar muito. Olhava embevecido para um Félix novo, que finalmente deixava o medo para trás e afirmava, mais uma vez e com outras palavras, que ele não era dispensável.
– Sabe o que isso quer dizer? Que estamos assim ó... – Félix entrelaçou os dedos de sua mão com os dele e apertou forte. – Juntos. Unidos. Fechados um com o outro. Somos um casal.
Niko não sabia nem o que dizer, só queria beijá-lo e o beijou não cabendo em si de felicidade. Aquela era a primeira vez que Félix demostrava que tinham um compromisso verdadeiro e sério.
Para não fugir do hábito, naquela ocasião Félix fez uma brincadeira sobre o assunto, sobre eles serem um casal de fato. Niko então lembrou-se do que Félix disse em meio à piadas. E pensou enquanto digitava: – Será que é isso? Esse Félix...
E acertou a senha finalmente! Chegou a pular na cadeira. Teve acesso à pasta e abriu cheio de expectativa, enfim ia matar a curiosidade. Haviam lá apenas três vídeos. Clicou no primeiro e este logo começou a ser exibido, em tela cheia no computador, deixando o Carneirinho de cabelo em pé.
– Minha Virgem Maria! — Surpreendeu-se. Levou a mão ao rosto, estava boquiaberto.
Não assistiu tudo. Fechou aquele e abriu logo o segundo, que lhe deu outro susto. Assistiu um trecho e, finalmente, abriu o terceiro e último vídeo.
–Mas... mas Félix... Quem salgou a Santa Ceia fui eu!
Niko alcançou o copo com água em busca de um gole, mas já havia bebido tudo. Engoliu em seco e se abanou com uma folha de papel. Mas foi aí que, enquanto buscava o ar e se recuperava do susto, teve uma ideia. E Falou alto com a certeza de quem tomou a decisão certa:
–Eu sou assim, quando eu decido, eu decido!
A hora passava rápido, precisava mesmo correr. Na internet procurou outro telefone. Ligou para tratar da sua segunda compra do dia.
– Eu pago o quanto for! Sim, você entendeu bem, é isso mesmo que eu quero. Tem que ser pra hoje, querida... é, para hoje! Isso... o mais rápido possível... Obrigado. Eu aguardo.
Enquanto ele foi colocado na espera, pensou em abrir mais uma vez um dos vídeos. Mas olhou no relógio e decidiu fechar logo a pasta inteira. A atendente voltou ao telefone para informar o valor do que ele estava encomendando.
– Nossa! Tudo isso? Mas... quer saber, eu confirmo. Vai ser exatamente como eu pedi? Ok. Quero sim... Mas é pra hoje, né? Confirmadíssimo? ... Muito bom! E a que horas?... Está ótimo... Vou pagar à vista... Sim, meu anjo, à vista... Débito. Conta pessoal. O numero é...
Niko acertou a encomenda. Então concluiu que precisava sair dali rápido. Desligou aquele computador e foi se arrumar. Estava atrasado para o restaurante e ainda iria ao centro comercial. Já havia passado tempo demais entre lembranças, fotografias e... vídeos. Antes de sair de casa foi falar com Adriana.
– Notícias do Félix?
– Nada seu Niko. Ele saiu sem se alimentar ... isso não é bom. E pela cara dele não dormiu de novo. Mas isso já é normal pro seu Felix...
– Como assim, Adriana, normal?
– Ihh... deixa pra lá...
– Como deixa pra lá? Agora que já começou a falar...
– Ai, seu Niko... acho que ele não vai gostar nadinha se eu contar pro senhor.
A babá então o deixou saber que Félix, desde o dia que se mudou para o quarto de hóspedes, não se alimentava direito e não dormia quase nada. Sabia que ele passava as noites em claro porque ela escutava barulho, se levantava e lá estava ele na sala ou na área externa. E que quando ia até o quarto de hóspedes pela manhã, para arrumar a cama, ela nunca estava desfeita.
– Se ele dormiu lá duas noites foi muito.
– Ninguém fica sem dormir Adriana... ele tem dormido no sofá, não?
– Muito pouco seu Niko, tenho certeza... vive bocejando! Ele só tira uns cochilos sabe, lá no... ihh... seu Niko, tou parecendo uma fofoqueira.
– Ai, Adriana! Fala logo anda! — Niko já não tinha paciência e batia os pés no chão.
– Assim, seu Niko, pela manhã, depois que a enfermeira do seu César chega aqui... ele vai dormir um pouco lá... lá no quarto de vocês. Todo dia.
Niko não se sentia, durante todo o tempo em que estiveram separados, totamente sozinho naquela cama. Havia algo lá, algo que lhe era familiar. Com o que Adriana lhe contou, a sensação que ele tinha fez sentido. Aquela cama nunca foi só dele no último mês. Ele agora entendeu porque, mesmo trocando os lençóis, aquele cheiro particular, que ele estava acostumado, permanecia. Era o cheiro de Félix misturado com o dele. Quando deitava à noite sentia-se acolhido, sentia-se em casa. A energia do outro estava ali presente e, dessa maneira, ele dormia bem, mesmo depois de chorar.
Se deu conta que Félix não teve a mesma sorte no quarto de hóspedes e que, provavelmente, não estava dormindo tão bem quanto ele. Ele apenas dormia de dia, entre um afazer e outro, tirando cochilos lá na cama da suite do casal.
Adriana percebeu que o patrão não fazia ideia mesmo de como o companheiro havia estado nessas semanas. Então decidiu abrir o jogo logo de uma vez:
– Ai, seu Niko, desculpe mas eu falei. Pronto. E já que tou falando isso, vou aproventar o embalo e contar outra coisa. Ele só está comendo a comida que o senhor faz. Só porque é feita pelo senhor, só pode. Porque apetite mesmo ele não tem não... ele vive dizendo que não tem fome. Recusa quase tudo que eu ofereço, e também não prepara nada pra ele. Mas se eu digo que foi o senhor que fez, aí ele quer.... Ele tá tão abatido, seu Niko... O senhor já viu como ele tá mais magro?
A novidade contada por Adriana fez Niko sentir um aperto no coração. Ele não imaginava nada disso. Acreditava que Félix certamente estava mal todos esses dias, como ele também, mas esteve tão mais concentrado na sua própria dor e raiva, que não se deu conta do quanto.
Niko é bem mais forte emocionalmente. E não que ele houvesse se esquecido do quanto Félix é frágil e sensível. Só que, ao se esforçar para manter-se afastado do companheiro, ele não percebeu a extensão do sofrimento de Félix. Quem sabe, inconscientemente, ele procurou não saber, ou não iria resistir e cederia ao que ele não queria: perdoar uma traição.
Agora estava claro o quanto Félix se deixou abater por todos esses acontecimentos. Niko ficou mais preocupado ainda.
– Faz um favor pra mim, Adriana? Quando ele chegar, você pede pra ele me ligar. E caso ele ligue pra cá, pergunta onde ele está. Qualquer coisa que você souber, você me liga. Eu preciso ir pro restaurante. Tenha um bom dia.
Ele virou-se para caminhar em direção à saída, mas parou diante da pergunta dela:
– Seu Niko, e o que eu faço? É mesmo pra fazer a minha mala e a das crianças?
….
Na recepção da diretoria administrativa do resort, Félix aceitou um ou outro café que a copeira oferecia juntamente com pequenos biscoitos. Sair dali para comer alguma coisa era impensável. E se Ricardo chegasse e fosse embora? Não podia correr esse risco. E também, apesar de que tivesse fome, não tinha tanta vontade de comer.
De pé, ele admirava a vista pela enorme janela envidraçada: uma linda paisagem de mar e montanhas em diferentes tons de verde. Lindo e verde, como os olhos do Carneirinho.- Félix olhou no relógio e imaginou que, provavelmente, Niko já estivesse no restaurante. Sempre achou que seu companheiro trabalhava demais, No início era porque o restaurante era novo, depois era porque o movimento era muito grande, ultimamente eram os jantares fechados das empresas que se estabeleciam na região devido ao crescimento da indústria petroleira e do turismo na cidade. O que ele mais queria era que o negócio com o resort tivesse dado certo, para que Niko trabalhasse menos e pudesse ficar mais tempo com as crianças e, obviamente, com ele.
Olhando aquela paisagem, ele se lembrou de quando levou Niko pela primeira vez à casa de praia. Foi difícil convencê-lo a deixar as crianças em São Paulo e passar um final de semana prolongado longe delas. Até que Niko topou, e eles foram sem que o Carneirinho conhecesse as reais intenções de Félix para aquela ida até Angra dos Reis.
Quando chegaram, Félix mostrou primeiro o lado de fora da enorme residência: piscina, churrasqueira, cozinha na área externa, mesas, espreguiçadeiras, rede... Fora o lindo jardim repleto de palmeiras e o mar logo ali pertinho.
– Imagina, Carneirinho, as crianças aqui nessa piscina ou correndo na praia!
– Nossa Félix, Jayminho ia adorar! Fabrício ainda é pequeno...
– Mas ele vai crescer. Imagina ele maiorzinho correndo por aqui no meio de vários brinquedos espalhados por esse gramado.
"Imagina ele maiorzinho", disse Félix. Niko logo raciocinou: — Isso é no futuro. Félix está falando de futuro? — E então o Carneirinho desejou, com todas as suas forças, que Félix estivesse querendo dizer aquilo que ele mais queria ouvir. E ele estava.
– Niko, essa casa está no nome do meu pai... enfim...é... Eu pensei em trazer ele pra cá, a casa é enorme e vocês não vão nem se cruzar. Aqui perto tem uma escola...
Enquanto Félix falava Niko repetia mentalmente: sim, sim sim!
– ... a cidade está crescendo, há muitos hotéis novos sendo construídos. Acredito que um restaurante aqui seria um bom negócio...
Niko não se conteve e falou, já corcordando.
– Sim.
– Espera. eu quero te fazer uma pergunta... mas quero que você pense bem... é...
– Sim! — Niko não aguentava mais esperar. Ele diria sim para qualquer coisa que Félix propusesse.
Félix riu da ansiedade do Carneirinho mas também de si mesmo, ele finalmente tinha tomado coragem.
– Niko, você quer...
– Sim, Félix! Sim!– Ele sorria de orelha a orelha. Um sorriso franco e realizado. Seus olhos pareciam brilhar ainda mais. Félix segurou seu rosto com as duas mãos.
– Calma criaturinha, deixa eu perguntar! — Sorrindo também, lhe propôs finalmente: — Nicolas Corona, eu aceito entrar para a sua família. Você aceita entrar para a minha?
Niko não conseguia dizer sequer uma palavra mais. Emocionado, além de sorrir e balançar a cabeça em sinal de afirmação, apenas o beijou. Após o beijo, embora contente, Félix dmostrava uma certa apreensão.
– Eu só espero que o meu pai... bom... imagina só Papi Soberano, o grande doutor César, morando com um casal de homens... eu tenho medo... espero que ele não te magoe, não te ofenda...
– Félix, escuta. Vai ser bom, acredita em mim. Eu tenho certeza. Justamente por viver com a gente, ele vai perceber que a nossa família é igual a todas as outras. — Félix balançava a cabeça em descrédito, mas Niko estava seguro do que falava. — Um dia ele vai te entender, te aceitar... nos aceitar. Você vai ver. E não se preocupe comigo. Eu entendo e estarei preparado para qualquer coisa, tá?
– Ai, Niko... você não existe!
– Existo sim e estou morrendo de curiosidade pra ver a casa por dentro!
A pequena nuvem negra, que pairava sobre sua cabeça, sempre que pensava no posicionamento de seu pai em relação à sua sexualidade, Félix tratou de espantar. Decidiu confiar em Niko. Afinal, quem sempre soube, melhor do que ninguém, sobre coisas de sentimentos e coração? Pegou na mão dele e rumou alegre para a porta principal.
Félix entregou à ele a chave dizendo:
– Abre, Carneirinho. Seja bem vindo à nossa casa.
Niko abriu emocionado. Enquanto caminhava por entre os móveis da sala, Félix o observava pensando que finalmente encontrara o amor de verdade, sua outra metade. Finalmente ia dar à sua vida o rumo que ele queria e não o que seu pai determinava. Ao entrar naquela casa, ambos estavam realizando seus maiores sonhos: Niko teria a família completa que sempre desejou e Félix um amor recíproco e verdadeiro. Eram duas almas que se encontravam e se complementavam. Os corpos, assim como as almas, também se atraíam, Félix era atraído por ele como jamais fora por qualquer pessoa.
Ele se aproximou de Niko por trás, enfiou suas mãos dentro da camisa dele arranhando-lhe o peito, deu um longo beijo em seu pescoço e murmurou em seu ouvido:
–Carneirinho, vou te mostrar o resto da casa... mas antes... não quer conhecer o sofá, hein?
Niko sentiu o corpo arrepiar.
– Temos o resto da vida pra ver a casa Félix... não tenho pressa nenhuma.
– Depois do sofá, vou te mostrar a mesa da cozinha. – E a camisa do Carneirinho foi parar longe. – E depois vamos inaugurar o nosso quarto,
Não demorou muito e as almofadas, assim como as roupas dos dois, estavam no chão e Félix estava por cima dele naquele sofá beijando e mordendo seu pescoço, nuca, costas...
– Senhor? Senhor! Aceita?
A copeira outra vez se aproximava para servir alguma coisa e, com isso, Félix deixou de lado a lembrança, que provocava-lhe um efeito, de certo modo, constrangedor. Esticou o braço para pegar o copo com água que, para sorte dele, era bem gelada. Não ousou virar de frente para a copeira nem para ninguém, permaneceu ali encarando a janela até se recuperar do que sentiu, tentando se distrair com outros pensamentos. Para ele a hora demorava a passar.
...
Para Niko a hora corria, voava. Ao contrário do que Félix imaginava, o Carneirinho ainda não estava no restaurante. Se atrasou pois se perdeu em suas próprias lembranças, gastou tempo nas ligações telefônicas e se distraiu observando aquelas fotos e vídeos. Mas o tempo não foi perdido em vão. Ele saiu de casa decidido, com uma resolução tomada. No caminho para o trabalho, passou primeiro no centro comercial rapidamente e saiu de lá com duas sacolas. Voou até o restaurante e, quando chegou, o movimento da hora do almoço já havia começado. O sub chef o aguardava com uma boa notícia.
– Está tudo confirmado com a minha prima, o senhor pode ficar tranquilo que ela vem.
– Que ótimo, Gilson! Ela tem mesmo experiência, não tem?
– Tem, seu Niko. Ela já trabalhou nisso antes, como lhe falei. Depois que o almoço acalmar eu vou até a casa dela, trago ela pra cá e já mostro o serviço todo.
– Nossa, que bom! Que sorte! Porque hoje vai ser um dia cheio pra mim eu vou precisar sair cedo. Mais uma vez vou te deixar no comando, hein!
– Pode contar comigo, seu Niko.
…
Felix havia sentado e folheava a mesma revista pela décima vez quando a assistente de Ricardo chegou, enfim. Ela o surpreendeu com uma informação:
– Ele viajou na sexta-feira e esteve até ontem fora, no Rio. Vem aqui hoje, sim, mas falei com ele agora a pouco e ainda estava na estrada. Disse que vai passar em alguns lugares antes de vir aqui. Só deve chegar no fim do dia,
Ao saber que estava ali desde as primeiras horas da manhã e Ricardo não chegaria tão cedo, Félix ficou aborrecido. Mas algo que a assistente disse chamou sua atenção.
– Eu entendi direito? Ele não estava na cidade no domingo?
Ela disse que Ricardo passou o final de semana fora por motivos pessoais. Estava prestes a deixar Angra de vez e que seu trabalho por ali já finalizava. Haviam apenas poucas pendências, tanto que a diretora definitiva do resort já estava trabalhando lá.
– Gostaria de falar com ela? Há alguma coisa em que posso ajudá-lo?
– Não... e sim, você talvez possa me ajudar. É... será que você saberia dizer se... se ele esteve na cidade na terça e na quinta da semana passada?
– Na terça-feira não, ele foi cedo para o Rio de Janeiro e só voltou na quarta...
Felix a interrompeu. ele já havia descoberto o que queria saber. — Ta bom. Obrigado. Você já ajudou.
Ele agora tinha certeza que estava ali praticamente à toa. Ricardo não era o homem que havia se encontrado com Niko. Ele não estava em Angra na primeira noite que o Carneirinho chegou tarde em casa; e nem no domingo, quando ele saiu cedo para um almoço que durou horas.
Pelas moedas de Judas, o que estou fazendo aqui então? – De qualquer forma ele ainda podia esperar por Ricardo para pedir que ele procurasse Niko e dissesse que os dois nunca tiveram um caso, que não fizeram nada naquela cabana. Seria essa uma boa ideia? Félix já havia pensado nisso antes mas nunca achou conveniente. Se Niko não acreditou em mim, não vai acreditar nele. Ainda ia achar que estávamos de combinação. – Concluiu então que não lhe restava mais nada. A verdade é que Félix estava desorientado. Já não sabia o que poderia ajudar ou não. Mesmo que fosse pedir isso para Ricardo, não ia adiantar nada esperá-lo até tarde. Aquele dia já estaria perdido, aquela teórica e improvável solução não evitaria a partida de Niko.
Félix decidiu pegar a estrada de volta para casa. Antes porém, pediu a secretária que o deixasse usar o telefone. Ligou para Adriana, como sempre fazia, para saber como estavam as coisas. Ela falava alto e soava aflita.
– Seu Félix! Ainda bem que o senhor ligou! Cadê o senhor? Ligaram pra cá...
– Estou aqui, criatura! Aconteceu alguma coisa com o Niko? As crianças? Meu pai? Tá pegando fogo na casa?
– Tá todo mundo bem, seu Félix! É que seu Niko pediu pro senhor ligar pra ele. Mas acabaram de ligar pra cá dizendo que tão mandando um caminhão, queriam confirmar o endereço. Não sei o que eu faço...
– Deve ser uma entrega, uai! Recebe, qual o problema?
– Não seu Félix, falaram que é um caminhão que tá vindo.
– Adriana, me poupe! Deve ser suprimento pro Gian, então. Manda pra lá, dá o endereço,
– É pra cá. seu Félix... é um caminhão e foi seu Niko que pediu.
Niko pediu um caminhão? – Félix imaginou o pior – Seria um caminhão de mudança? Isso não fazia sentido nenhum pois os móveis eram todos da casa, já estavam lá quando se mudaram. Ou fazia sentido? O Carneirinho havia comprado os móveis dos quartos das crianças, a cama deles e os eletrodomésticos e utensílios modernos para equipar a cozinha... Espera. Niko vai levar essas coisas, então. Ele vai mesmo embora! – Félix concluiu e tentou falar da maneira mais normal que conseguia, embora a voz estivesse quase travada em sua garganta:
– Adriana... olha... sinceramente, não me perturba, tá... com isso de caminhão... não me interessa. Liga pro seu patrão e resolve com ele.
– Mas seu Félix, é que... o senhor precisa saber...
– Adriana, stop! Eu não tenho tempo pra isso agora.... não tá na hora de você... você pegar as crianças na escola? Tá esperando o que, criatura? Vai... vai logo!
Ele desligou o telefone com raiva e só não bateu o aparelho porque a secretária o olhava preocupada. Félix disfarçou, agradeceu e saiu dali. Caminhava em direção ao carro quando se lembrou que Adriana disse que Niko queria falar com ele.
– Falar o que? Que vai embora e vai levar os móveis novos... pode levar o que quiser. Ele não disse que ia deixar as coisas dos meninos lá, que eles viriam sempre ficar comigo? Carneirinho... perdeu a cabeça? Eu não acredito... sinceramente...
Félix estava triste e arrasado. Ligou o carro e pegou a estrada. Se sentia bem mais cansado que antes, o sono já era bem maior, suas pálpebras pesavam. Ele também não havia comido nada, com exceção de pequenos biscoitos, café e água. Dirigia com a maior atenção que podia. Olhou no relógio do carro e se deu conta que Niko já havia fechando o Gian para almoço. Pensou que talvez devesse ir até lá. A hora passava rápido. Logo seria noite, logo seria a hora de Niko ir-se com as crianças. Ele não sabia como iria suportar. A agonia foi chegando e lhe enchendo o peito, a vontade de chorar era enorme. Algumas lágrimas caíram, ele não teve como evitar. Sentia-se muito impotente. De manhã estava confiante e agora havia perdido tempo para nada.
Centenas de lembranças correram por sua mente. Niko, Niko Niko... como vou ficar sem você, Carneirinho?– O desespero bateu. Pensou em Jayminho e em Fabrício. Desejou que essa noite ele estivesse na cozinha brincando com eles enquanto Niko finalizava o jantar, era o que ele mais queria. Ver eles partirem seria horrível, começou a pensar se havia algum lugar que pudesse ir, ao invés da casa. Talvez o sofrimento seria menor se não estivesse presente quando eles fossem embora.
Não pode mais evitar e chorou o que estava prendendo desde cedo. E aí talvez tenham sido as lágrimas, que lhe embaçaram a visão, ou o sono, que diminuía seus reflexos, quem sabe o cansaço ou a falta de alimentação, que o deixou um pouco tonto... não se sabe ao certo mas, em uma fração de segundos, um carro saiu da estrada, um equipamento de construção voou longe, ouviu-se o som de uma freada brusca e algo pesado chocando-se contra o asfalto. Seu peito chocou-se contra o volante e sua testa contra o para-brisa.
…
Nesse mesmo momento, no restaurante, Niko se assustou com o nada. Uma perda súbita de ar, um suspiro involuntário e um arrepio que varreu o seu corpo todo o fizeram gelar. Ele deixou cair a travessa de porcelana que segurava, e ela se quebrou em vários pedaços atrás do balcão.
Ficou atônito com o que sentiu. Teve um mau pressentimento, uma agonia estranha e repentina.
O restaurante havia acabado de fechar após o almoço e ele estava sozinho. Como nos dias de menor movimento, só voltaria a reabrir na hora do jantar. Naquele dia todos receberam folga. Seu assistente, que costumava ficar, saiu para resolver alguns assuntos. Niko então abaixou-se para recolher os pedaços da louça quebrada. Quando se levantou, havia uma pessoa que acabara de entrar.
– Desculpe, estamos fechados, só reabrimos para o jantar... — Niko achou que aquele não era um total estranho mas não se lembrava de onde o conhecia,
– Eu percebi. Mas empurrei a porta e ela se abriu... Como vai, Niko?
Daí o Carneirinho se deu conta de quem era:
– O que... o que você quer aqui?
…
Continua
...
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