Abandono
13 Amor
Notas iniciais
No início do relacionamento, em uma noite de grande paixão, os dois deitavam na cama ainda quente, devido ao sexo que se fizera ali. Abraçados, respirando um o hálito do outro e misturados no mesmo suor, seus corações batiam juntos, se recuperando do momento de êxtase experimentado. Com os corpos entrelaçados, colados e sem nenhum espaço entre eles, já não mais gemiam, mas sim sussurravam palavras de afeto. Félix ensaiava pronunciar a frase ideal que demonstrasse o quanto estava envolvido com Niko. Mas não conseguia. E ele sabia exatamente qual era a única coisa a ser dita, pois era o óbvio. Mas algo o travava.
Félix, desde sempre, temia entregar seu coração à alguém e depois ser deixado por essa pessoa. Desde sempre, ele tinha por hábito se proteger de qualquer coisa que pudesse fazê-lo sofrer. Quando finalmente decidiu se dar a oportunidade de viver um grande amor, ele ainda tinha medo. Então, nesses momentos de total intimidade, ele respirava, engolia, gaguejava... mas não dizia exatamente o que queria dizer. Por algumas vezes terminava fazendo uma piada.
Já o Carneirinho nunca teve dificuldades em declarar seu amor e, por diversas vezes, já o tinha feito; a singular frase “eu te amo” havia sido dita por ele inúmeras vezes. Só que, até ali, nunca tinha sido ouvida.
Visto que Niko já conhecia Félix como ninguém, naquele momento ele arriscou ajudá-lo. Sua intuição dizia que se Félix tinha algum problema, em declarar o amor que sentia, este se resumia no medo e Niko sabia exatamente que medo era aquele.
— Félix, deixa te dizer uma coisa. Não precisa ter medo.
— Medo? Não... é... Carneirinho, está tudo bem, eu não tenho...
Enquanto Félix buscava palavras, e antes que desse voltas e voltas como de hábito, Niko o interrompeu. Encostou a sua boca na dele, depositou ali um beijo suave e curto e logo continuou:
— Presta atenção no que eu vou te dizer: nós dois somos para sempre. Tenho certeza, tá?
“Para sempre... ele disse para sempre?” — Félix pensou que sim, que tinha que ser para sempre, era o que ele queria, e não havia outra hipótese. Mas, e se não fosse? Esse era seu medo. Iria sofrer. Não podia sequer imaginar ser machucado, ser deixado... “Como assim, é mesmo para sempre? Eu posso confiar nisso?”
— Como você sabe, Niko? Tem certeza... certeza como?
Niko nem titubeou. Ele tinha certeza sim, como quem sabe que o sol vai nascer no dia seguinte, como quem tem certeza de que está vivo; como um mais um fazem dois, ou, no caso de almas idênticas, dois fazem um só. O Carneirinho foi categórico:
— Porque eu te amo de verdade, Félix! Quando o amor é de verdade, ele não morre nunca. Pode acreditar nisso.
— Mas... mas Niko... mas eu sou tão... será que você vai me aguentar, não vai cansar de me aturar...
— Félix, ninguém é perfeito. Eu não sou e você também não. Mas quando a gente ama de verdade, a gente ama a pessoa do jeito que ela é! Por isso o amor não acaba. Eu te conheço melhor do que ninguém e sempre soube das suas qualidades, mas também de todos os seus defeitos e, mesmo assim, te amo com todo meu coração. Por isso eu tenho certeza: nós somos para sempre! A não ser que...
— A não ser que, o que?
— A não ser que você não me ame.
Como se fosse possível surpreender-se ainda mais com o Carneirinho, Félix constatava, de novo, que Niko o entendia bem demais. Parecia que ele o via por dentro, que lia sua mente e conhecia seu coração como o seu próprio. – “Como ele sabe o que eu sinto, como ele me conhece tanto?” — Então se emocionou e sentiu que aquela era a hora. Aquele era de fato seu amor, seu amor verdadeiro. E ele já tinha tido coragem de dar os primeiros passos, faltava apenas se jogar de vez. Faltava falar, admitir, assumir, colocar pra fora.
E ele sabia que daquele ponto não teria volta. Era como um convite irresistível para pular em um precipício que terminava em um lindo lago límpido e deleitoso. Era arriscado? Sim. Mas a sensação que o esperava lá em baixo prometia ser boa demais e ele ansiara por aquilo durante toda sua vida.
Assim sendo, decidiu confiar no que Niko afirmou e saltou. Mergulhou de cabeça, confiante, acreditando que jamais se machucaria e que seria um maravilhoso mergulho em águas plácidas, por vezes deliciosamente revoltas, que duraria para sempre.
Então Félix respirou fundo. E com seus olhos cravados nos olhos daquele pelo qual ele esperou tempo demais, ele disse.
— Eu te amo!
Disse pela primeira vez na vida com sinceridade e partindo direto do coração.
— Nicolas Corona, eu te amo. E te amo de verdade!
O amor, por fim, havia ficado maior que o medo... e venceu.
Félix colocou seu coração nas mãos de Niko confiando que ele era a melhor pessoa para cuida-lo.
Félix abandonou-se. Entregou-se e rendeu-se ao amor daquele homem.
…
Tempo atual. Cinco semanas depois da festa de inauguração do resort.
No restaurante, Niko acabava de recolher do chão os pedaços da louça, que deixou cair por conta do repentino mal estar que teve. Ao levantar-se para colocar os cacos no balcão, foi surpreendido pela presença de alguém.
Lá estava, em carne e osso, e músculos bem definidos, ele: Ricardo Lobato, o Lobo. Niko não estava esperando ninguém aquela hora, muito menos ele, logo ali.
— O que você quer aqui?
Visivelmente sem jeito, Ricardo demorava a encontrar palavras para explicar sua presença naquele lugar, o que deixava Niko ainda mais ansioso. Aquela visita surpresa não agradou nem um pouco.
— Quem te disse que podia vir no meu restaurante?
Bem neste momento, o celular de Niko tocou, ele olhou o aparelho e percebeu que era uma ligação de casa. Pediu licença e atendeu. Era Adriana. O Carneirinho saiu de manhã tão desconcertado, por causa da conversa sobre a falta de sono e alimentação de Félix, que esqueceu de dar instruções à ela sobre o caminhão que iria chegar. Mas ela já havia ligado antes e já sabia do que se tratava. Agora chamava para avisar que estava tudo pronto.
— Já terminaram!? Que rápidos! O caminhão já foi? Ótimo. Notícias do Félix? Ah, ligou há meia hora... Não disse onde estava!? Ai, minha Santa Vigem... Tá bom. Me avisa quando ele chegar aí… E Adriana, faz com as crianças o que combinamos, ok? Obrigado.
Desde que teve um pressentimento ruim, e deixou a travessa de porcelana cair, Niko sentia um aperto no peito. Quando desligou o telefone sentiu-se pior, pois soube que Felix não havia ainda retornado à casa. Mas agora ele tinha outro assunto para cuidar: o Lobo que estava bem ali na sua frente.
Ricardo trazia uma pasta preta nas mãos, de onde retirou algumas folhas de papel, e abanava as mesmas com alegria se aproximando do balcão.
— Niko, eu tenho uma ótima noticia. Você não faz ideia, mas vai gostar, tenho certeza.
Na estrada perto dali, também acontecia algo que o Carneirinho não tinha a mínima noção.
...
Angra dos Reis tem crescido muito nos últimos anos, devido ao desenvolvimento da indústria petroleira. Não é incomum esbarrar em obras de urbanização por toda a cidade. Naquele dia, ao longo da estrada que corta a região, os antigos postes de iluminação estavam sendo trocados por outros bem mais modernos.
Infelizmente, um imprevisto aconteceu e causou um lamentável acidente, no exato momento em que o carro de Félix passava pelo trecho em construção. Um poste escapou do cabo de aço que o prendia e caiu na pista. No meio do trânsito.
Félix viu a enorme estrutura caindo, como que em câmera lenta, bem na direção de seu carro. Viu alguns veículos se chocando uns com os outros ou saindo da estrada na tentativa de evitar a iminente tragédia. Ele desviou de dois ou três carros e pisou no freio com toda a força que foi capaz. Escutou um grande estrondo. E então tudo ficou escuro.
O episódio não durou mais do que alguns segundos. Porém, foi o suficiente para que, como em um filme acelerado, cenas da sua vida passassem bem diante dos seus olhos. A infância e a adolescência marcadas pela rejeição do pai e pelo excesso de mimos da mãe... a raiva e o ciúmes que sentia da irmã... o casamento sem amor e o nascimento do filho... a sexualidade vivida às escondidas... a caçamba, o superfaturamento de contratos, golpes, tentativas de assassinato, sequestro... a presidência do hospital, a queda e, com ela, o aprendizado, a aceitação de si mesmo e a descoberta de novos sentimentos. Enfim a nova vida, os novos filhos e o amor. O amor próprio, o amor de Niko e o amor do pai. Todas as lembranças vieram em sequência e com enorme rapidez, enquanto pisava firme no freio e olhava aquele enorme poste caindo em sua direção.
Quando o carro parou, ali estava ele inerte, em choque e de olhos fechados. Havia passado a noite em claro, não se alimentou bem, estava sob um forte estresse emocional, passou horas naquele resort à toa e agora acontecia isso. Estava tonto, sonolento, cansado e fraco. Fraco fisicamente e emocionalmente.
Os operários, que trabalhavam por ali, imediatamente correram até os veículos para ajudar os motoristas como podiam, e verificar se estavam todos bem. Um deles gritou pedindo que chamassem uma ambulância, enquanto observava os carros que se chocaram.
Uma pessoa se aproximou da janela do carro de Félix e perguntou se ele estava bem. Não obteve resposta. Félix não tinha vontade nem forças para falar.
Consigo mesmo ele pensava em como havia chegado até ali. Como que, depois de tantas reviravoltas em sua vida, ele era finalmente feliz e agora passava por tanta coisa ruim. Tudo dava errado, como antigamente. Pensou que se não tivesse saído para ir até o resort, a essa hora estaria em casa. Ao mesmo tempo, se deu conta que preferia não ver nenhum caminhão de mudança levando os móveis dos meninos embora. Na verdade, o que gostaria mesmo era de nunca ter conhecido Ricardo. Nada disso teria acontecido e, a uma hora dessas, já teria pego as crianças na escola e estariam todos em casa, não sem antes terem passado no restaurante para dar um beijo em Niko.
— Carneirinho... – Disse baixinho, em um estado de semiconsciência que misturava sono, exaustão e desalento.
...
Enquanto isso, no restaurante, o Carneirinho de Félix lidava com a última pessoa que esperava encontrar; e quase não o reconheceu, já que Ricardo não trajava um de seus famosos ternos de griffe. Estava, de fato, um pouco diferente de como Niko lembrava que ele era. Vestia roupas mais despojadas, o cabelo estava mudado e carregava um outro semblante. O ar de arrogância havia desaparecido, mostrava-se mais simpático, relaxado e até mesmo, porque não dizer, solto e com alguns trejeitos que não exibia antes. Porém, Niko o recebeu com cara de poucos amigos; aliás, de nem um pouco amigo.
— Você disse que vou gostar do que você tem ai? Era o que faltava...
Niko não estava nada receptivo. Acabara de sentir-se mal e estava agoniado, com uma sensação que ele não sabia explicar. Pensava em Félix, olhava para o telefone como se a qualquer minuto fosse tocar e seria ele. Niko sabia que aquele era um pensamento absurdo pois Félix estava sem celular. De onde vinha essa sensação de que o companheiro o estaria chamando ou precisando dele? A ansiedade era grande, Niko não tinha paciência nenhuma para lidar com Ricardo.
— Vindo de você, acho difícil gostar de qualquer coisa.
— Olha, Niko... eu... eu vim à negócios.
— Negócios? Sei bem que tipo de negócio você faz. Você é um tremendo cara de pau, pra aparecer aqui, isso sim!
Ricardo estava visivelmente sem jeito, o que não combinava em nada com a pessoa que ele era antes. Aparentando estar bastante constrangido, ele se aproximou do balcão.
— Bem... naquele dia... lá no resort... o Félix me disse que qualquer coisa sobre o restaurante era pra te procurar, que ele não ia mais tratar comigo. Então... eu vim.
— Ele disse isso? Mas o administrador aqui não sou eu.
— Pois é... Mas é compreensível. Ele estava cansado das minhas investidas.
— Escuta aqui, doutor Lobato, o senhor não tem vergonha não? De falar assim... das suas investidas pra cima do Félix na minha frente!?
Ricardo ficou totalmente sem graça. Por alguma razão ele não era mais aquele sujeito prepotente e imperioso de antes. Ele admitiu que estava envergonhado de estar ali de cara com o companheiro do homem que ele tentou, até por intermédio de uma chantagem, levar para cama. Mesmo assim, quando ele se aproximou de Niko, não pode evitar olhá-lo de cima à baixo...
— Sabe que, olhando pra você, eu compreendo porque o Félix não quis nada comigo.
... o que deixou Niko sem graça. Mas o carneirinho não se intimidou.
— Olha... seu... foi o Félix que mandou você me procurar? Deixa eu adivinhar, você veio aqui me dizer que não houve nada entre vocês. Acertei? Félix sumiu desde cedo... ele não devia...
— Não! Imagina... não. Faz um mês que não falo com o Félix. Tentei algumas vezes, mas... Ele mudou de número, não foi? Já estava de saco cheio de mim, aposto.
Niko o olhava desconfiado. Porém Ricardo parecia mesmo diferente e isso o intrigava. O diretor do resort parecia ter um quê de semelhança com alguém que Niko conhece muito bem. Alguém que mudou na sua frente ao longo de alguns meses. Ele não podia deixar de associar um com o outro. Da mesma forma que Félix mudou bastante, aquele homem, que soou arrogante no primeiro encontro, não parecia existir mais. De fato, ele aparentava estar sendo sincero. Estava bem mais humilde e tentava ser amigável.
— Niko... você deve ter raiva de mim, e eu te dou toda razão. Hoje eu percebo o quanto eu agi errado. Aquela conversa com o Félix mexeu comigo, me ajudou muito... Decidi seguir o conselho dele, sabe?
— Que conselho? Desculpe, mas... do que você está falando? .
— Ué, você sabe! Da nossa conversa na cabana.
Rapidamente Niko lembrou-se. Félix sempre afirmava que tinha ido ao encontro de Ricardo, naquele quarto de hotel, não para nada além de uma conversa. Félix repetiu várias vezes que foi até lá para conversar. Mas Niko flagrou Ricardo semi desnudo saindo daquele quarto, leu todas as mensagens atrevidas no celular de Félix e enfiou na cabeça que conversar foi tudo que eles não fizeram. Nunca na verdade se falou sobre o conteúdo da suposta conversa, apenas a visão do que parecia uma óbvia traição de Félix fez com que eles brigassem.
— Para seu governo, eu e o Félix estamos separados. Justamente por causa dessa... dessa tal conversa aí. — E Niko disse a palavra “conversa” fazendo um sinal de aspas com os dedos.
Ricardo arregalou os olhos e ficou realmente surpreso e disse que sentia muito. Falou que, de acordo com tudo que Félix lhe contou sobre o companheiro, acreditava que os dois não se separariam nunca.
— Puxa, eu... acho que só posso me desculpar. Eu vim aqui falar com você mas juro, não imaginava nada disso.
— Pois nos separamos! Desde aquele dia que eu vi... vi vocês...enfim, ele me falou que você esperava ele para...
Niko engoliu em seco e não conseguiu dizer mais nada. Passou a mão na cabeça, estava extremamente preocupado e inquieto. Pensava em Félix, queria apenas saber se ele estava bem. Para piorar as coisas, lá estava o pivô de toda a briga e separação do casal puxando assunto.
— Senhor Lobato, vamos logo ao que interessa. Hoje meu tempo está mais curto do que nunca! Me fala o que você quer. Você veio por causa do restaurante? Quer encomendar algo especial, é isso? Reservar um jantar para sua empresa... o que é?
— Eu vim mesmo a negócios, Niko. Preciso conversar rapidamente com você. Mas... vejo que tem outro assunto mais urgente. Me deixa te contar uma história?
— Mas... ele quer contar uma história?!— O Carneirinho pensou, jurando que aquele não era seu dia de sorte. Ficou indeciso, coçou a cabeça e considerou se queria mesmo ouvir aquele homem. Olhou no relógio, estava aflito e impaciente. Olhou para os pedaços de porcelana quebrada e estes lhe lembraram do pressentimento que tivera. A falta de noticias de Félix se tornara angustiante porém nada podia fazer. Já que Ricardo estava ali... disse para ele sentar e que falasse logo o que tinha a dizer. — Melhor saber logo o que ele quer e me livrar desse lobo fura-olho.
Ricardo voltou a guardar os papeis na pasta que tinha nas mãos, sentou-se em uma das cadeiras do balcão e começou a falar.
— Niko, eu já vi que você não sabe de nada do que realmente aconteceu.
Niko não sabia mesmo de muita coisa, inclusive que o pressentimento ruim, que o tomou há poucos minutos atrás, tinha uma razão de ser.
...
Lá na estrada, dentro do carro, Félix permanecia na mesma posição. Parado e perplexo. Sentia que havia chegado no limite de suas forças. Aquele breve momento, quando a sua vida inteira passou diante de seus olhos, trouxe de volta lembranças do seu passado amargo, do longo caminho que percorreu em sua vida de equívocos e mentiras até chegar ali em Angra, onde era feliz como nunca imaginava ser possível. E agora tudo acabaria, por culpa dele mesmo. Será que ele merecia isso?
Lembrou-se de cada golpe, cada crime, cada erro e cada traição que cometeu. Ainda após tudo que ele fez, a vida foi generosa com ele. Ganhou o amor de seu pai, que tanto quis desde criança, confirmou que Jonathan era seu filho legítimo e foi presenteado com dois novos filhos que ele amava. Além de tudo isso, conquistou o melhor amigo, companheiro, esposo e amante que ele podia imaginar. Ele tinha consciência de que havia feito muita coisa ruim e tinha ganho muita coisa boa.
Cogitou que, de repente, pudesse haver algum engano nisso, quem sabe? Mesmo reconhecendo seus erros e arrependendo-se, será que havia algo em débito?
Então um pensamento passou por sua cabeça: — Talvez eu não tenha pago pelo que fiz, então agora estou pagando por algo que eu não fiz.
E a memória daquele dia, quando encontrou-se com Ricardo na romântica cabana do resort e foi flagrado por Niko, se fez presente. Félix lembrou-se de cada detalhe daqueles minutos que causaram uma verdadeira reviravolta na vida perfeita que ele tinha até um mês atrás.
—_____ Início do Flashback
Félix apostava que ter uma conversa franca e séria com Ricardo era a única solução para toda aquela situação, que envolvia uma chantagem. Ele tinha esperança que tudo pudesse terminar bem. Queria se explicar para o diretor do resort, quem sabe seu projeto ainda tinha chances de ser aprovado. Além disso, algo dentro dele dizia que Ricardo precisava de ajuda, e ele era a pessoa certa para fazer isso.
Então chegou na cabana reservada na hora marcada para o encontro. Mas demorou a entrar. Parou do lado de fora com um certo receio. Ele não queria fazer nada errado e estava apreensivo. Tinha medo. Medo de que, dentro dele, ainda existisse o antigo Félix e esse pudesse ressurgir e colocar tudo a perder. Félix tinha muito à perder. Tinha uma família e tinha Niko, o amor da sua vida.
Parado ali, olhando para a piscina, ele pensava mais uma vez no que iria fazer, no que iria falar. Na sua cabeça ele estaria agindo, quem sabe, por uma causa perdida. Mas nada restava à fazer. Não cederia à chantagem. Jamais se prestaria à isso. Conversaria à noite com Niko explicando tudo e confiava na qualidade do restaurante para sobreviver à qualquer boato inventado por Ricardo em represália.
Mas então ele tinha medo de que? De não resistir? Talvez. Pois o velho Félix, provavelmente, não pensaria duas vezes. Mas ele se lembrou da principal razão do porque começou isso tudo: Niko. Desejava que o companheiro trabalhasse menos, para que eles ficassem mais tempo juntos. Ficar com Niko era tudo que ele queria. Não havia Lobo nenhum que chegasse aos pés do seu Carneirinho. Ele estava seguro disso. Então ele respirou fundo, bateu na porta da cabana e entrou.
Quando Ricardo o viu ficou animado e começou a se despir, retirando a camisa. O moreno era realmente bonito e sensual. Se não fosse diretor de Resort podia estar na capa de qualquer revista ou, quem sabe, nas telas do cinema. Sem dúvida Félix percebia isso, não era cego. O homem era mais bonito que Jaques e Anjinho juntos, de rosto e de corpo.
Ele retirou o cinto, enquanto provocava com gestos e palavras, e movia-se sensualmente, como se estivesse dançando. Félix apenas o observava e pediu que ele sentasse na poltrona que havia ali.
— É assim que você quer gato? Adorei a ideia. Vem, vem sentar no seu lobo.
Félix pediu que Ricardo parasse de chama-lo de gato. E que, dali por diante, não o chamaria mais de Lobo e sim apenas pelo nome.
— Ricardo, deixa eu me apresentar. Esse aqui na sua frente é Félix Khoury. Mas um outro Félix, um que você não conheceu. O Félix que foi Diretor do San Magno por mais de dez anos e chegou até à Presidência daquele hospital.
Ricardo não parecia dar muita importância ao que Félix falava. Levava aquilo na brincadeira e tinha a intenção, e os olhos, fixos em outra coisa.
— Adorei, Félix. Você está um tesão com essa roupa. Adorei seu terno, embora seja da coleção retrasada... Eu tenho todas as coleções dessa marca...
— Eu imagino que sim. Te conheço muito bem, melhor do que você pensa.
Como quem já não conseguia mais esperar, Ricardo levantou-se da cadeira. Sem camisa, ele começou a abrir a calça e se aproximou de Félix como se fosse tocá-lo.
— Você parece nervoso, vem cá que eu te ajudo a relaxar.
Félix esquivou-se e revirou os olhos. Ricardo ficou confuso mas, mesmo assim, insinuava-se. Começou a tirar a calça aproximando-se mais ainda do antigo presidente do San Magno, que adotou sua antiga postura e, em um tom de voz mais grave, foi incisivo:
— Não. Criatura, fica sentado lá, tá? Eu vim aqui falar de mim, e de você. E você vai ouvir.
— Espera aí, você veio aqui pra falar? Acho que não foi isso que combinamos, Félix.
— Criatura, me ouve! Você me perguntou se eu já fiz sexo por sexo. É claro que eu já fiz. Aliás, fiz só isso por anos! Agora, deixa eu te fazer uma perguntinha: você já fez amor? Já fez? Aposto que não.
Ricardo achava que Felix fosse apenas gemer dentro daquele quarto, no entanto, para seu desprazer, ele estava ali falando alto e dominando a situação. E entrando em um assunto no qual Ricardo não queria tocar. Ele não gostou nada daquela atitude, não era bem o que ele esperava de Félix.
— Fazer amor? Do que você está falando? Não me diga que você se arrumou desse jeito pra vir aqui bater papo...Vem cá vem, vem bater outra coisa...
O diretor estava prestes a descobrir que não sabia mesmo com quem estava lidando e Félix estava decidido a confirmar isso para ele. Desde que o conheceu, Félix notou que os dois eram muito parecidos. Portanto, não era difícil imaginar o que ia na cabeça e no coração daquele que se intitulava Lobo.
— Me arrumei para te mostrar quem eu fui. E você vai ouvir sim! Eu já fui igual à você, Ricardo. Um dia eu caí e fiquei sem ter onde morar, sem emprego... Terminei vendendo hot dog na rua com uma flor na cabeça! Olha bem pra mim, eu também andava vestido com roupas caríssimas, não imaginava vestir nada que não fosse de marca. Dava um valor extremo ao dinheiro. Eu também superfaturei contratos na empresa da minha própria família! Só nunca troquei nada por sexo, como você se acostumou a fazer. Mas fiz coisa bem pior. Pelas barbas do profeta, você não imagina o quanto pior!
Félix ficou visivelmente nervoso e, como quem quer fazer o outro entender a gravidade da situação, ele prosseguiu em voz ainda mais alta:
— Você se acha ruim? Você não viu nada! Você se acha péssimo? Pois eu sou, aliás, eu fui, maligno! Você é o lobo que devora animais de todos os tipos e tamanhos? Pois eu sou um homem que mandou atropelar, sequestrar, tentou matar e jogou a própria sobrinha recém-nascida em uma caçamba de lixo! Agora senta e me ouve!
Ricardo tentou, algumas vezes, interromper o discurso inflamado de Félix mas desistiu após escutar coisas que realmente o surpreenderam. E ficou calado, sentado e ouvindo o antigo presidente do San Magno detalhar tudo que os dois tinham em comum, além de um resumo de alguns dos seus piores atos. Félix inclusive fez um breve relato do seu relacionamento com o pai, pois sabia que Ricardo não se dava bem com a família, conforme ele havia contado em uma das conversas que tiveram nos meses anteriores.
— Então se eu, que fiz tudo isso, hoje tenho a vida que tenho e até meu pai me aceitou... você também pode mudar e ser mais feliz. E mude antes que seja tarde! Porque depois que você cair, quem te garante que você vai ter a sorte que eu tive? Porque eu tive sorte! Tive a sorte de poder contar com duas pessoas que fizeram a diferença na minha vida. E você?
Ricardo desdenhou de tudo que escutou. Disse que tinha dinheiro, que teria cada vez mais e que, com dinheiro, teria tudo que precisava. Que nunca descobririam os contratos fraudados e que nem nunca teria problemas com suas conquistas sexuais, suas caças, como ele gostava de chamar. Disse que estava feliz com a vida que levava. Félix sabia muito bem que Ricardo enganava a si próprio, pois inclusive ele havia mentido muito para si mesmo.
— Ah... Eu também acreditava que tendo dinheiro todos os meus problemas estariam resolvidos.
— Pois eu tenho dinheiro! Não sei como, Félix, você dando tantos golpes não tinha nada guardado quando precisou.
— Mas sabe, Ricardo, eu aprendi que dinheiro não é tudo. Há muita coisa que não se compra com dinheiro, em especial algo que eu sei que você quer muito. E você não tem. E essa tua aparente felicidade e soberba é só uma capa. Sei que, no fundo, você é uma pessoa triste.
— Sabe... sabe como? Você não sabe nada...
— Eu já fui igual a você, Ricardo! Sei exatamente o que você mais quer.
— Félix, basta! Você acha que me conhece, me acha parecido com você... quanta besteira! Eu não fiz nada do que você fez. Não somos tão parecidos assim, até porque eu...
Félix o interrompeu e foi incisivo ao afirmar:
— Você quer um amor.
— Oi?
— Um amor de verdade.
— Amor?
— Sim. Amor! E isso não se compra com dinheiro.
Embora Félix tenha atingido em cheio o ponto fraco dele, Ricardo gargalhou. Como se pudesse disfarçar algo que era tão óbvio. Principalmente óbvio para Félix.
— Tenho certeza que é o que você quer, criatura! Você quer alguém que te ame. Admite... não faz a pêssega, meu bem.
Félix tinha mesmo tocado em uma questão que era importante para Ricardo embora ele não admitisse. Então o Lobo levantou novamente em uma última tentativa de sedução. Ele ainda não havia desistido e, agora, tinha outro objetivo que era mudar o rumo da conversa.
— Eu não acredito no amor, Félix. Sabe no que acredito? Acredito nisso aqui.
Ricardo se aproximou mais ainda de Félix e tentava provocá-lo exibindo seu corpo. Um belo corpo, por sinal. Mas já fazia tempo que aquilo não exercia em Félix o mesmo efeito.
— Desiste. Não vai rolar. E por diversos motivos. Mas o principal deles é que eu não quero. Simplesmente não estou à fim de fazer isso aqui, agora. Não com você.
Félix então falou sobre Niko. Contou como se conheceram e como ele foi importante na fase mais crucial de sua vida, o amparando e aconselhando. Disse que Niko o ensinou a não ficar preso ao passado e isso o incentivou à superar a rejeição e o desamor que sofreu desde a infância. Falou um pouco sobre seu equivocado casamento, casos eventuais e da resistência que teve em embarcar em um relacionamento sério, principalmente por causa do medo que tinha de amar e ser deixado.
— É preciso vencer os medos, meu bem. Eu aposto que, por dentro, você é uma pessoa boa. Você se faz de durão, de pegador mas no fundo deve morrer de vontade de ter alguém com quem contar. Alguém pra te abraçar, te fazer carinho, que seja seu amigo e seu amante ao mesmo tempo. Alguém que te aceite como você é, com todos seus defeitos. Alguém que seja um companheiro, que te ature. Alguém que te ame de verdade. Pra formar um casal assim como eu e meu companheiro formamos.
Mesmo relutante e fingindo desdém, balançando a cabeça e rindo, Ricardo ouviu tudo. No fundo ele estava interessadíssimo, mas fazia um esforço tremendo para não demonstrar.
— Ok, Félix. Resumindo... você acha que eu quero um príncipe encantado. Só rindo mesmo. Ou um chapeuzinho vermelho que vai, por milagre, gostar de um lobo mau como eu.
— Se você acha que ninguém vai te querer, torne-se melhor! Dê uma chance à você mesmo de conhecer uma pessoa bacana e se relacionar de verdade com ela.
— Mas quem disse que eu quero?
— Ai, mas será que eu usei os pergaminhos do mar morto como guardanapo pra você achar que pode mentir pra mim? Pensa que eu me esqueci que você disse que queria um cara como o Niko? Sabe Ricardo, um dia uma pessoa me falou que é preciso ter coragem para gostar e deixar que gostem da gente. Você se intitula Lobo, mas cadê essa coragem que os lobos tem? Sinceramente...
O grande lobo predador havia sido reduzido à um filhote de poodle. Mas não queria dar o braço a torcer, nem enfiar o rabo entre as pernas. Nervoso e acuado, tendo ouvido todas aquelas verdades, reagiu como estava acostumado: esbravejou, bateu o pé e fez ameaças. Disse que tudo aquilo era uma besteira e que havia perdido tempo ouvindo aquele papo furado. Jurou que, já que Félix não tinha cumprido com o combinado, ele iria fazer de tudo pra destruir a reputação do restaurante japonês e contaria para Niko que Félix havia tentado seduzi-lo.
Félix respirou fundo, passou o dedo na sobrancelha e riu. Decidiu encerrar a conversa. Ele sabia que tinha atingido Ricardo em cheio. Cabia agora ao diretor do resort dar ouvidos à ele, ou não.
— Tá bom, criatura... vai, faz isso. Inclusive se, por um acaso, você colocar a mão na consciência e admitir que minha proposta é boa... pode procurar o Niko e tratar com ele.
— Você está me incentivando a procurar seu companheiro? Você não tem ciúmes?
— Lógico que sim. Mas eu confio nele.
— Confia? E se eu der em cima dele?
— Experimenta. Ele vai te fazer rolar – Félix riu.
— Você não tem medo que eu conte pra ele sobre nós, que você veio me encontrar aqui?
— Eu mesmo vou contar tudo pra ele ainda hoje. E se você mentir, ele não vai acreditar em você. Ele me conhece melhor do que ninguém. Ele sabe o quanto é importante para mim e que eu jamais o trairia.
Percebendo que nada mais havia a fazer, Félix decidiu ir embora. Seja o que for que Ricardo fizesse dali em diante não importava. Félix estava feliz. Feliz porque acreditava ter feito a coisa certa. Não caiu em nenhuma tentação, aliás nem se sentiu tentado à nada. Não fez nenhuma bobagem e acreditava que o que disse à Ricardo pudesse, de alguma maneira, ajudá-lo à mudar de vida.
A vergonha que sentira antes, por ter se comportado como Jaques, havia dissipado. Ele sentiu um certo orgulho de si mesmo. Félix acreditava que, no final das contas, acabou agindo por uma boa causa e isso o redimia.
Ele abriu a porta se preparando para sair.
— Fui!
Ricardo ainda o seguiu rindo e provocando.
—Tchau, gatão!
Félix colocou os óculos escuros, levantou a cabeça e deu de cara com Niko bem ali, de frente para a entrada daquela cabana, vendo o tal Lobo sem camisa e de calça aberta. Seu pior pesadelo havia começado.
—_____ Fim do Flashback
E assim, ao lembrar-se do que aconteceu naquele dia, Félix se convencia de que, se não havia sido punido pelo que fez no passado, estava sendo punido por algo que não fez agora. Ele reconhecia seu erro, o de ter tentado usar a sedução como ferramenta para chamar a atenção para seu projeto, mas assim como Niko o compreendeu, ele também entendia que havia sido um erro, uma recaída. Mas traição, de fato, ele não havia cometido. Mais do que nunca ele tinha certeza que não era capaz. Que Niko significava tanto para ele que ele jamais o trairia até porque ele não sentia vontade, não tinha tesão por outra pessoa.
Félix sofria com o arrependimento por ter se aproximado de Ricardo e se sentia mal por toda a tristeza que havia causado à Niko. Porém, mais do que tudo, Félix sentia-se magoado por Niko não haver acreditado nele. Conforme ele acabara de recordar, ele disse ao Lobo que ninguém o conhecia melhor que o Carneirinho. Félix confiava que Niko acreditaria nele, que duvidaria sempre de qualquer indício de traição. E isso não aconteceu.
— Senhor, está tudo bem? Sente alguma coisa? Pode se mexer?
Félix foi tirado de suas lembranças e reflexões por alguém que bateu na janela do seu carro. Era um outro operário da construção que estava curioso para saber do seu estado.
...
Enquanto isso, no Gian, Ricardo contava para Niko sobre sua vida. Falou sobre as propinas, e os favores sexuais, que estava acostumado a receber em troca de fechar contratos com fornecedores e prestadores de serviço, nos resorts que faziam parte da empresa multinacional de seu pai, com o qual nunca se deu bem pois este não acatava a sexualidade do filho. Até ele mesmo não se aceitava muito bem. Disse que nunca foi feliz na vida pessoal e sentimental, gostava de seduzir e abandonar, mas no fim das contas era ele quem se sentia abandonado.
O Carneirinho disse que já sabia de quase tudo aquilo e que não entendia que importância tinha para ele. Mas Ricardo insistiu em contar dizendo que Niko precisava saber que tipo de pessoa ele havia sido. Porque agora era outra.
Ricardo admitiu, envergonhado, que tentou chantagear Félix para levá-lo para cama. Contou sobre a conversa que teve com ele na cabana em todos os detalhes e, inclusive, como se comportou tentando seduzi-lo de todas as maneiras. Fez questão de mostrar para Niko que isso explicava o fato dele estar sem camisa e de calça aberta, quando os dois foram flagrados naquele momento.
Por fim o diretor do resort assumiu que tudo que Félix falou mexeu com ele, embora não quisesse reconhecer à princípio, e que a história de vida de Félix serviu como exemplo para que ele avaliasse a própria vida nos dias que se seguiram. Inspirado nela, Ricardo decidiu se aceitar, se assumir e mudar. Concluiu dizendo que não se lembrava de se sentir tão bem há muito tempo.
— Então é isso. Eu estou me sentindo ótimo! E devo isso ao Félix. Uma coisa que ele me falou me marcou muito. Ele disse que eu nunca ia ser feliz se ficasse aprisionado no meu passado. Então decidi também esquecer o que meu pai me fez sofrer, toda a rejeição... decidi deixar para trás hábitos errados e seguir em frente, viver uma nova vida. – Ricardo falava rodopiando as mãos, coisa que, antigamente, evitava fazer. — Decidi ser quem eu sou, e se alguém não gostar, deixa não gostar!
Após o esforço enorme que fez para não voar no pescoço de Ricardo, enquanto ele contava sobre como tentou seduzir Félix dentro do quarto de hotel, o Carneirinho até começou a sorrir e acabou emocionando-se com os detalhes sobre a tal conversa. E ele sabia que Ricardo estava falando a verdade. Niko espantou-se com a incrível semelhança que havia entre ele e seu companheiro. E orgulhou-se da maneira como Félix lidou com a situação naquele quarto de hotel.
Ricardo não parava de falar. Sentiu-se bem conversando com Niko. Não tinha muitos amigos e poucos sabiam das novidades que aconteciam na sua vida. Contou até que conheceu uma pessoa na semana anterior e acreditava estar apaixonado. Niko ficou feliz por ele.
— Olha, eu vou fazer um café pra nós, você aceita? E aí me conta, quero saber sobre esse bofe. Assim eu me distraio.
Niko continuava com a sensação de que Félix o chamava e aquilo o estava deixando louco. Mas a alegria, em saber que ele ajudou o Lobo a mudar de vida, amenizava a situação.
...
Lá na estada, o carro de Félix era rodeado por mais algumas pessoas que o observavam atentamente. Como ele não se mexia nem falava nada, todos entreolhavam-se preocupados.
— Deve estar mal. – Alguém disse.
— Pode ter perdido a consciência. – Especulou um outro.
Félix não sentia vontade de falar. Parado ali, tudo que lhe restava eram as lembranças. Já havia refletido sobre o passado, recordado o encontro com Ricardo... Seu coração estava ainda acelerado, bem como sua respiração. Seu peito doía, por ter batido contra o volante. E sua cabeça latejava, por ter se chocado contra o vidro.
Daí levou a mão até a testa e lembrou-se de quando recebeu uma outra pancada naquele mesmo local, pouco tempo atrás, e então sorriu. Sorriu largamente. As pessoas o olharam com ainda mais atenção. Félix sorria mas mantinha os olhos fechados e não dizia palavra.
Um homem, encostado no veículo, o observava preocupado e aconselhou:
— Não se mexa! Fique aí mesmo. Já chamamos uma ambulância.
Félix não pretendia se mexer. Por ora, a lembrança que o fazia sorrir lhe distraiu. E também transformou-se em um alento que o confortou. Ele se concentrou naquela memória em uma tentativa de acalmar-se. Foi algo que havia acontecido poucos meses antes:
Niko sempre ligava dizendo que estava à caminho de casa quando saía do restaurante à noite. Um dia, já era bem tarde e Félix decidiu esperá-lo na garagem, para fazer uma brincadeira, dar-lhe um susto. Escondeu-se no escuro, onde não podia ser visto. Deixou que o carro de Niko entrasse, esperou ele desligar e sair do veículo. Então, sem nenhum aviso, agarrou-o por trás, abraçando-o forte e colando os lábios em seu ouvido.
— Isso são horas de chegar? — Disse antes de distribuir diversos beijos em sua nuca e pescoço.
— Félix! Que susto!
— Estava morrendo de saudades, Carneirinho!
— Estou vendo, ou melhor, sentindo o tamanho da sua saudade.
— É uma saudade imensa, enorme...
— Você se arriscou, sabia? Eu podia achar que era um ladrão, te dava um golpe e te fazia rolar.
— Adoooroo quando você me pega e me dá um golpe!
— Se eu não estivesse tão cansado, amor... eu faria isso agora.
Ainda que cheio de segundas e terceiras intenções, Félix percebeu o quanto o companheiro estava exausto, então o soltou, pegou a mão dele e começou a puxá-lo em direção ao interior da casa.
— Eu sei. Vem, carneirinho cansadinho, vou te dar um banho, te fazer uma massagem... Vou cuidar de você.
Niko se deixou levar por ele. Mas, ao sair da garagem e entrar em casa, onde havia luz, assustou-se com o que viu:
— Félix, o que é isso na sua cabeça!?
— Ah... pois é. Lembra do taco de beisebol?
Em uma das visitas de Paloma ao pai, Paulinha levou, como presente para Jayminho, um conjunto completo de material para a prática do típico esporte americano. Tudo ficou guardado até aquele dia, quando Félix resolveu jogar com os filhos mas, claro, não tinha prática nenhuma. Sem querer, Jayminho atingiu sua testa com o taco, causando uma luxação e um pequeno corte. A enfermeira de César o ajudou aplicando gelo no local e fazendo um curativo.
— Presente da Paulinha, Niko. O mundo dá mesmo voltas...
— Ai, Félix... tadinho.
— Ainda bem que acertou a cabeça de cima!
Niko não conseguiu deixar de rir, mas estava preocupado.
— Tá doendo muito, amor?
— A cabeça toda dói, Niko. Mas sabe que eu até gostei? Dizem que coisas assim sempre acontecem aos pais quando eles brincam com as crianças. Eu não tive essa chance com Jonathan. Mas graças a você, que me deu dois filhos, fui batizado finalmente.
Apesar de machucado, Félix sorria realmente feliz. E Niko olhava comovido para ele.
— Eu vou cuidar de você, Félix.
— Carneirinho, eu pedi primeiro, quem vai cuidar de alguém aqui sou eu.
— Você está machucado, eu não.
— Você está cansado, eu não.
E os dois caminharam até o quarto fingindo discutir quem iria cuidar de quem.
Já na cama, depois do banho e após ganhar uma massagem mais do que especial de Félix, Niko dava beijos na testa dele, enquanto o envolvia em seus braços.
— Tá melhor, amor?
— Ainda não, pode continuar beijando. E faz cafuné, Carneirinho.
Niko achava graça que Félix as vezes parecia uma criança dengosa, da qual ele adorava cuidar. Um garotinho carente que, num piscar de olhos, podia se transformar em um homem fogoso e sensual. Mas aquele era um desses momentos, quando o que Félix mais queria era aconchego e carinho. E assim, até que o companheiro pegasse no sono, Niko ficou ali afagando os cabelos negros enquanto beijava incontáveis vezes o local da pancada.
Félix também tinha prazer em cuidar de Niko. A verdade é um cuidava do outro. Eram verdadeiros companheiros. E essa cumplicidade, intimidade, brincadeiras e trocas de carinho era o que mais lhe fazia feliz. Foi disso que ele mais sentiu falta durante o mês que se passou. E a simples lembrança daquilo era o que lhe dava conforto naquele momento.
Aquela memória lhe era tão preciosa que o absorveu por completo. Félix quase que podia sentir Niko cuidando dele. Quase sentia aquelas mãos gentis afagando-lhe o cabelo e os lábios macios tocando sua testa. Ele permaneceu inerte, de olhos fechados e respirando fundo, imaginando que seu Carneirinho estivesse ali lhe dando carinho e apoio.
No entanto, outra pessoa se aproximou do carro com perguntas, batendo no vidro, querendo saber o que ele sentia, onde doía, se estava bem... E depois outra e mais outra, todos curiosos com o homem que não estava desacordado mas se recusava a abrir os olhos, permanecia calado e, apesar de tudo, sorria após o acontecido.
— Já chamaram a ambulância? — alguém perguntou em voz alta
— Não preciso de ambulância, preciso é do meu Carneirinho. — Félix pensou consigo mesmo.
…
O Carneirinho, de quem Félix tanto precisava, havia terminado de ouvir de Ricardo toda a verdade sobre o que aconteceu naquela fatídica tarde, quando seguiu o companheiro até a porta da cabana. Agora ouvia ele contar sobre o rapaz, com o qual começou a se relacionar, e as suas inúmeras idas ao Rio de Janeiro para encontrá-lo.
Niko tomava um animado café conversando sobre amor e relacionamento com seu mais novo amigo. Então uma música, que começava a tocar no baixo, porém audível, som ambiente do Gian, chamou sua atenção. Niko ouvia Ricardo mas a música o distraía. Alheio à tudo que acontecia a alguns quilômetros dali, ele pensava em Félix.
E lá na estrada, pensando também em amor e relacionamento, e em Niko, estava Félix. Amor era o sentimento que, por toda sua vida, ele mais ansiava conhecer. E finalmente ali estava ele amando e sendo amado. Será que ia acabar assim? Dois anos e meio não era tempo de menos para um amor tão demais?
Ele abriu os olhos, conseguiu esticar o braço e ligou o rádio. Começou a escutar a mesma canção que prendeu a atenção de Niko no restaurante e, finalmente, falou alguma coisa:
— Eu te amo tanto Carneirinho... porque você não confiou em mim?
Dear, Tell me only this
Querido, diga-me apenas isso
That I’ll have your heart for always
Que eu terei seu coração para sempre
And you, want me by your side
E que você me quer ao seu lado
Whispering the words, I'll always love you
Susurrando as palavras: "Eu vou sempre amar você"
And Forever, I will be your lover
E para sempre eu serei o seu amante
And I know, if you really care
E eu sei que se você realmente quiser
I will always, be there
Eu sempre estarei aí
Now, I need to tell you this
Agora, eu preciso te dizer isso
There's no other love, like your love
Não há outro amor, como o seu amor
And I, as long as I live
E eu, enquanto eu viver
I'll give you all the joy my heart and soul can give
Te darei toda a alegria que meu coração e alma podem dar
Let me hold you
Deixe-me abraça-lo
I need to have you near me
Eu preciso ter você perto de mim
And I feel with you in my arms
E eu sinto que com você em meus braços
This love will last forever
Esse amor vai durar para sempre
Because I'm Truly
Porque eu estou verdadeiramente
Truly in love with you
Verdadeiramente apaixonado por você
I'm Truly
Eu estou verdadeiramente
Head over heels with your love
Enlouquecido pelo seu amor
I need you
Eu preciso de você
And with your love I'm free
E com seu amor eu sou livre
And Truly You know you’re alright....... with me
E de verdade, você sabe, que você ficará bem.... comigo
...
continua
...
Fale com o autor