Abandono
8 Solidão
Notas iniciais
Horas depois de deixar Félix chorando no quarto, Niko retornou à casa e não o viu mais. Brincou com as crianças e jantou com elas. Se distraiu, mesmo que por um curto espaço de tempo, da dor, da raiva e da mágoa que sentia. Mas era impossível não pensar no outro pai dos meninos, já que estes falavam nele o tempo todo. E isso o fazia reviver todo o acontecido. Ele queria acreditar que aquela separação daria certo mas era difícil. Fabrício e Jayminho caminhavam entre a cozinha e o escritório, onde Félix permaneceu a maior parte da noite, levando e trazendo notícias sobre o que cada um fazia. Em nome das crianças, Niko aceitou aquela situação, mas ainda não se sentia separado de Félix.
No entanto, após colocar os dois meninos na cama e rumar para o quarto, ele se deu conta de que as coisas tinham mesmo mudado. Quando lá chegou, constatou que tudo que ele havia retirado do lugar, quando tentou fazer as malas, tinha sido recolocado por Félix. Suas roupas, sapatos e objetos pessoais estavam todos no closet novamente, cada coisa em seu devido lugar. O quarto parecia tristemente vazio e maior. Na cama faltava um travesseiro, uma das mesinhas de cabeceira estava vazia, o porta retrato com a foto do casamento havia sido levado do topo da cômoda.
O closet, que era ocupado na maior parte pelas roupas de Félix, estava cheio... de espaços vazios. No banheiro a pia parecia enorme, sem os perfumes e outros objetos do parceiro, sobrava espaço. Quando Niko notou que, agora, havia apenas uma escova de dentes, apenas a sua, sentiu-se mal e chorou. Naquele momento sim, se dava conta de que havia se separado de fato.
Lembrou-se dos diversos momentos de paixão, carinho e amizade que compartilhou com o outro ali naquele espaço de quarto e banheiro, onde a felicidade sobrava. A cumplicidade e a intimidade que existia entre eles eram ímpares, Niko nunca havia experimentado igual, nunca havia se sentido tão completo. Foi dificil tomar banho sozinho, preparar-se para dormir e deitar naquela cama enorme, vazia e fria. Ele relembrou de quando passou por outra separação e se deu conta de que, dessa vez, era bem pior. Niko sentia-se infinitamente mais machucado e, ao mesmo tempo, sentia muito mais a falta do outro. Ele se perguntou, mesmo que já soubesse a resposta, porque dessa vez estava sendo tão mais custoso ficar só. Abraçou o travesseiro com força, em uma tentativa de abafar o choro alto que lhe saía do peito.
Do outro lado da porta do quarto, também chorando e escutando tudo, estava Félix. Sabia que Niko não abriria a porta e decidiu não bater, naquele momento se dava por feliz de tê-lo dentro de casa. Porém, ouvi-lo chorar sem nada poder fazer era tortura, era quase a pior das punições. No entanto, ele sentia-se merecedor de cada minuto que passava ali, sendo devastado pela aflição e pelo remorso que o atormentavam e o castigavam de maneira lancinante. Quando finalmente Niko silenciou-se, Félix voltou a caminhar pela casa até sentar-se cansado no sofá da sala. Não tinha ânimo para ligar a TV ou qualquer coisa que fosse, pois nos últimos dias descobriu que qualquer música ou filme romântico o faziam chorar. Ficou no escuro, sozinho com seus pensamentos. Sem coragem de encarar seu próprio quarto vazio, adormeceu ali mais uma vez quando quase já era dia.
Aquele acabou se tornando um hábito: dormir no sofá da sala. E Niko era sempre o primeiro que chegava antes de todos e o via deitado ali. Não o chamava, mas sim o observava por vários minutos. Talvez incrédulo com o que tinha acontecido, olhava para Félix em busca de uma explicação, ou talvez fosse apenas saudade e vontade de olhar para ele.
Invariavelmente era Fabrício quem acabava acordando Félix. Não tinha ninguém que segurasse o menino e o impedisse de gritar “Papi, papi!” quando o encontrava dormindo na sala. Antes que ele despertasse, Niko se afastava. Félix abria os olhos e encontrava apenas o Carneirinho menor. Sorrindo, abraçava o menino e, mesmo que por poucos segundos, conseguia esquecer todos os problemas e aflições.
— Meu amor, bom dia!
— Te amo, papi! — Fabrício fazia questão de repetir, como se adivinhasse o que aquele pai mais precisava ouvir.
Niko ouvia tudo com uma mistura de emoções. Sentia que o menino era tanto filho de um quanto do outro. E sabia que aquele pequeno coraçãozinho ia sofrer separando-se de um dos pais.
Na hora do café, Félix cumprimentava Niko e Adriana com um “bom dia” educado, mas não comia com a família. Comparecia à mesa apenas para despedir-se dos meninos antes que saissem para a escola e ia ajudar César com a rotina da manhã. Passava o dia cuidando do pai, da administração da empresa e das crianças quando estavam em casa sem Niko.
Não comprou um celular novo. Não sentia vontade de falar com quase ninguém. Pensou em ligar para Márcia e contar tudo, pedir conselhos, mas tinha vergonha. Como alguém, que quis tanto um amor de verdade na vida, pode ter cometido tamanha burrada e agora colocar tudo à perder? Não sentia nem ânimo ao pensar que teria de repetir os fatos, contar os detalhes de uma historia que ele queria esquecer. Ao telefone comum falava com o filho mais velho e com a mãe. Dava desculpas diferentes sobre porque não tinha ainda um outro celular e mentia quando perguntavam se estava tudo bem entre ele e Niko.
Encontrou um antigo relógio de pulso que possuía alarme, passou a usar para não mais perder a hora. Porque na cama do quarto de hóspedes, ele pouco ficava. Quando tinha um tempo livre, geralmente após o almoço, Félix ia até a suite onde apenas Niko dormia agora, e só ali naquela cama conseguia tirar um sono reparador, mesmo que fosse curto. Abraçar o travesseiro de seu Carneirinho por uma hora, pelo menos, era um meio de recarregar as energias e recuperar-se das noites mal dormidas.
As tardes com os meninos eram sua segunda fonte de combustível pois se distraía com eles. Mas ao mesmo tempo os observava e pensava que, em breve, estariam separados. Fazia um esforço incomensurável para não chorar na frente dos filhos.
Nas manhãs de sábado e domingo, quando Niko passava com eles na piscina, Félix ficava dentro da sala, em um local onde não podia ser visto, mas de onde podia observá-los através do vidro da janela e aí sim chorava, sentia-se do lado de fora daquela familia.
E assim passaram os dias. Com a única ponte entre eles sendo as crianças, e a única comunicação os rápidos olhares que trocavam quando um flagrava o outro olhando em sua direção.
...
Por fim, pasaram-se três semanas. Três semanas de isolamento, afastamento e solidão para ambos. Três semanas de uma rotina agoniante, de dias tristes e noites embaladas pelo choro. Ambos sentiam que essa situação não ia perdurar para sempre. Algo precisava ser feito, uma decisão maior precisava e seria tomada. Da parte de Félix, o medo ficava cada vez maior de que Niko o procurasse para dizer que achou um lugar para mudar-se.
Em um dia de domingo, o quarto domingo após a festa no resort, Niko decidiu ir cedo para casa. Se sentia cansado mais do que o habitual. O stress emocional, por fim, afetou sua saúde física e o Carneirinho decidiu que precisva descansar um pouco mais. Saiu do restaurante antes do anoitecer e dirigiu lentamente para casa.
Ir para casa, de volta para sua família, principalmente cedo, sempre encheu seu coração de alegria. A familia perfeita que ele sempre quis ter estaria lá esperando por ele: o barulho da cozinha ou da televisão, o “oi pai” de Jayminho, os gritos de Adriana atras do menino, o filho menor que sorria ao revê-lo num doce “oi papai”. E, para coroar tudo isso, como a cereja no topo de um sundae perfeito: Félix, o seu Félix estaria ali lhe esperando. Raramente ele não ia recepcionar o Carneriinho na passagem que havia entre a cozinha e a garagem. Quase sempre com Fabricio no colo ou sozinho, se o menino já estivesse dormindo. Félix ficava atento e, ao perceber o carro de Niko se aproximando, lá ia ele receber com alegria a sua metade que faltava. Quando Felix ia sozinho ele não acendia nenhuma luz, ia quase no escuro. Assim, longe da vista de todos, na penumbra, eles trocavam carinhos como dois namorados escondidos no portao de casa.
Infelizmente para Niko, como nas últimas semanas, naquele dia não havia Félix lhe esperando. E, dessa vez, não havia realmente ninguém. A casa estava toda escura. A única luminosidade vinha do céu, a hora estava entre o pôr do sol e o anoitecer completo. Niko chamou pelas crianças e não ouviu resposta, chamou por Adriana que, finalmente, apareceu.
— Seu Niko, eu estava ouvindo uma gravação lá com o doutor César e nem vi a hora passar!
— Cadê todo mundo, Adriana?
— Seu Félix foi pegar Jayminho, na festa do coleguinha da escola, e levou Fabrício com ele. Saiu não tem nem dez minutos. Mas falou que depois ia levar as cianças pra jantar fora.... devem demorar...
Niko ficou triste mas, de certa maneira, achou que era uma oportunidade para descansar. Então tomou um banho e depois, meio sem ter o que fazer, começou a caminhar por entre os diferentes ambientes daquela casa. O Carneirinho nunca havia estado ali nenhuma vez sem Félix ou sem as crianças, curiosamente ele via coisas que nunca havia prestado atenção. Definitivamente aquela era uma casa enorme.
O silêncio era quebrado apenas pelo barulho que vinha do quarto de doutor César: as risadas dele e de Adriana, que escutavam um audiolivro. Curioso, Niko caminhou até lá e, quando se deu conta, estava na frente da porta do quarto de hóspedes que Félix estava usando. A porta estava entreaberta e uma luminosidade que vinha do interior chamou sua atenção. Niko empurrou a porta e viu que, em cima da cama, havia um laptop ligado. Provavelmente Félix saiu sem desligá-lo. Ele entrou, sentou-se na cama e observou o computador que exibia a proteção de tela, onde fotos da família, do casal e dos filhos desfilavam lentamente. Ele decidiui nao mexer. Olhou em volta e viu que os porta retratos que faltavam na sua suíte estavam todos lá. Não acendeu a luz do quarto mas sim a do banheiro e, entre outras coisas, viu os perfumes e a escova de dentes, que faltava perto da dele na outra pia. Lá estava tudo. Notou um pincel de barba, que Felix usava quase todos os dias, não resistiu e fez um carinho com ele em seu próprio rosto. Aquele cheiro lhe era tão familiar e fazia tanto tempo que não sentia... e lhe trazia tantas memórias que ele não se conteve e derramou algumas lágrimas.
Niko apagou a luz e voltou novamente a atenção ao computador em cima da cama, sentou-se lembrando da senha que Félix havia lhe dito no outro dia: aniversário de Fabricio. Provavelmente por total falta de tempo, ele nunca havia mexido naquele laptop. Algumas vezes Félix usou para mostrar-lhe fotos, e só. Haviam outros computadores na casa, inclusive um tablet que ambos compartilhavam, mas mexer naquele computador e ver o que tinha lá seria a primeira vez. Ele não resistiu e tocou no aparelho para digitar a senha. A proteção de tela deu lugar a uma imagem parada: uma foto dos dois se beijando, tirada na praia com a casa ao fundo, com um coração onde se lia “para sempre”. Niko emocionou-se e pensou se deveria continuar. Continuou. Digitou a senha e entrou.
O que ele viu mexeu profundamente com ele. Não que não esperasse, mas sim porque viria a confirmar o que ele já sabia, e a consciência disso tornava sua tomada de decisão mais dificil ainda: Félix realmente adora ele e os meninos.
A primeira coisa que ele notou foi o papel de parede: uma linda foto de Félix com Fabrício, com o desenho de uma única letra “F” de onde partiam os nomes de ambos. Niko lembrou-se de uma dessas conversas bobas e românticas que eles tiveram pouco tempo antes:
— Félix, estou com ciúmes, você e Fabricio tem a mesma incial, ninguém tem a mesma incial que eu.
— Carneirinho, Jayminho também não tem ninguém com a mesma inicial.
— Ah, é... Não, Félix, Jonathan e Jayme, tem a mesma inicial! Eu estou sobrando mesmo...
— Niko... você tem nome de príncipe: Nicolas! Não reclama, meu príncipe... Você tem “N” de namorado, noivo, namorido... “N” de Nunca vou te deixar... “N” de Não me deixe. Promete, meu príncipe, que você não me deixa nunca?
— Félix, nem precisa pedir... mas é claro que prometo!
Emocionado com a lembrança, o Carneirnho continuou explorando o laptop. A próxima coisa que viu: as pastas da área de trabalho. Com nomes de “filhos”, “familia”, “friends”, “festas” cada uma delas continha centenas de fotos e vídeos... Niko sabia que Félix havia tirado muitas fotos desde que se mudaram, mas não imaginava que fossem tantas. Uma das pastas se chamava “amor” ele abriu e encontrou diversas fotos e vídeos dos dois, uma infinidade de selfies e outras tantas. A sua maior surpresa foi a pasta que estava aberta, certamente era essa pasta que estava sendo usada quando Félix saiu e deixou o computador ligado em cima da cama. A pasta se chamava simplesmente “ele” e continha uma infinidade de fotos e vídeos dele, de Niko. Muitas que ele nem lembrava, ou não imaginava, que Félix havia tirado ou guardado e era essa pasta que ele estava vendo, antes de sair.
Niko ficou tocado, sabia que Félix o amava demais e que estava sentindo falta dele tanto quanto ele sentia. Ele se perguntou até onde o amor de Félix o havia impedido de traí-lo, até onde o amor dele por Félix o faria perdoá-lo. Ele se lembrou que, antes de se envolver com Félix, esteve a ponto de perdoar Eron pela traição e somente não o fez porque percebeu que Eron estava envolvido com Amarilys. Porque agora era diferente, se ele amava Félix muito mais do que já amou alguém? E se ele tinha certeza que Félix o amava, o que o impediria de perdoá-lo? Niko sabia a resposta. A questão não era perdoar Félix, a questão era que ele queria confiar, queria acreditar que o “vaso de cristal” não havia sido quebrado. E alguma coisa dentro dele não estava deixando que ele confiasse que aquele vaso ainda estava inteiro. Algo dentro dele não o deixava aceitar o erro de Félix como parte ainda do seu aprendizado, e algo dentro dele não o deixava acreditar que nada havia acontecido naquele quarto entre ele e Ricardo.
Niko ficou emocionalmente abalado, decidiu sair dali mesmo sabendo que Félix ia demorar a voltar. Levantou-se mas, quando estava quase na porta, algo o deteve. Viu, nas costas de uma cadeira, a blusa de Félix, que ele usava pela manhã. Então, o que Niko fez foi algo impensado, foi mais forte do que ele, mas ele não pôde resistir: pegou a camisa, abraçou, respirou o perfume que havia ali e se deixou levar por lembranças e sensações que aquele cheiro provocava nele. Aquele era o aroma do seu porto seguro, daquele que o protegia. Aquele cheiro lembrava familia, carinho, risadas, amor, paixão e prazer. Era sua própria vida, que ele praticamente abandonou há algumas semanas e agora tinha de novo ali, nas mãos, na forma de uma camisa.
E assim ele se perdeu no tempo, se perdeu nas memórias, se perdeu nas emoções. Não ouviu barulhos, não ouviu a porta se abrir, não percebeu a luz acender e somente se deu conta de que alguem o observava quando esse alguem falou:
— Niko...
O Carneirinho assustou-se, como se tivesse sido bruscamente despertado de um sonho. Sem saber o que dizer, sem graça, sem ação, disse apenas:
— Félix!
...
continua...
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