Notas iniciais
Saudade sau.da.de (s.f.) 1. Sentimento provocado pela distância de algo ou alguém, pela ausência de uma pessoa, coisa e local, ou ocasionado pela vontade de reviver experiências, situações ou momentos já passados.

Félix não esperava encontrar Niko dentro daquele quarto praticamente abraçando sua camisa. Uma mistura de surpresa, dúvida e alegria tomou conta dele. Ele sente saudades de mim! Ele quer voltar.– Foi a primeira coisa que pensou. Trancou a porta, retirou a chave colocando-a no bolso, caminhou na direção dele sem dizer nada, até que ficaram bem próximos.

Niko, por sua vez, estava sem ação, não esperava ser pego naquele quarto, praticamente denunciando que sim, que sente falta do outro. Sua intenção não era essa. Embora as emoções o tivessem levado até ali e o coração quisesse ficar, a razão, ultimamente, vinha sendo mais habilidosa em convencê-lo sobre como agir.

– As crianças chegaram? Eu vou vê-las.

– Calma, Ca... elas estão com Adriana.

Félix tentava se colocar na frente dele, falava olhando pra ele, sorrindo, sereno e feliz. Niko tentava se desvencilhar, olhava para o chão para os lados, não tinha coragem de encará-lo. Estava sem graça e tentava forçar um olhar grave.

– Você não ia levá-las pra jantar?

– Sim ué, nós fomos até o Gian, mas você não estava então elas quiseram vir pra casa.

– Devem estar morrendo de fome. Eu vou até lá.

Niko disfarçava, sorriu timidamente e tentou passar por Félix na direção da porta. Mas este o impediu, segurando em seu braço.

– Niko, o que você faz aqui?

– Eu... eu vim cedo pra casa. Estou muito cansado... deixa eu ir.

Enquanto a boca falava uma coisa, o corpo dizia ao contrário, Niko não fazia força nenhuma para se soltar da mão de Félix, que o segurava. Porém, por mais maleável e indolente que parecesse, dentro dele um turbilhão de pensamentos e emoções travavam uma batalha feroz. Preciso sair desse quarto.– Era a mensagem que lhe sinalizava a consciência.

Félix estava um pouco em dúvida sobre como agir. A mente lógica dizia para que não fizesse nada, que poderia piorar tudo e era melhor deixar Niko à vontade. Mas já fazia tempo que Félix havia deixado de ser puramente racional e tinha aprendido a dar permissão às emoções para que o comandassem. Silenciou a razão e foi de encontro ao que seu coração exigia, se aproximou do rosto do Carneirinho e quase encostou a sua boca nele.

– Sentiu saudades de mim? Não diga que não...

– Eu só estava passando aí fora e vi uma luz aqui dentro... eu só vim apagar... eu já estava saindo...

Enquanto Niko se enrolava nas palavras, buscando uma explicação, Félix se deixou levar completamente por todas as sensações que o queimavam por dentro e pela enorme vontade de tocá-lo. Então aproximou-se mais ainda, moveu-se para a lateral do rosto dele, inspirou seu aroma e colou seus lábios na orelha dele. Nesse momento, tudo o mais deixou de importar de tal maneira que nem lembrou que devia chama-lo pelo nome, e não pelo apelido, e aí...

– Carneirinho... – ele sussurrou sensualmente.

Bastou isso para algo estalar dentro de Niko, que moveu afastando-se.

– Não, Félix. Para.

Niko soltou-se. Virou na outra direção e caminhou apertando o passo. Mas Félix foi mais rápido e o alcançou, enlaçando-o pela cintura, prendendo-o em um abraço forte, colocando seu rosto no vão entre o ombro e a cabeça dele.

– Niko... não vá embora.

– Eu tenho que ir, Félix.

– Não, você não tem que ir!

Félix o soltou do abraço e o virou de frente pra si. Os dois pararam se olhando. Há semanas que não se fitavam diretamente daquela maneira. Mesmo que por poucos segundos, pareceu uma eternidade. Félix não resistiu e tentou beijá-lo mas os lábios mal se tocaram... Niko foi mais rápido e livrou-se dele totalmente, evitando o contato.

– Não, Felix, Não!

– Como não? Você veio até aqui, eu sei que sente saudades.

Niko simplesmente virou-se de costas. Se houvesse um troféu, para aquela pessoa que mais consegue resistir aos desejos e apelos do corpo em uma situação dessas, certamente Niko ganharia, além de medalhas e menção honrosa.

Félix ficava cada vez mais atordoado, era como se tivesse algo que quisesse tanto nas mãos e, quando tentava segurar, escapava por entre seus dedos.

– Niko... eu... eu estou morrendo... morrendo de saudades de você!

O Carneirinho começou a andar em direção à porta, lentamente, enquanto Félix falava, muito emotivo:

– Saudades, Niko! Eu durmo e acordo pensando em você, eu sinto saudade da sua voz, das nossas conversas... Sinto saudades do seu sorriso, das nossas brincadeiras, do seu jeito de olhar pra mim. Sinto falta até da maneira como você despenteia meu cabelo ou me repreende quando faço algo errado!

Quando Niko alcançou a maçaneta e girou, se deu conta que a porta estava trancada. Ele não disse nada, apenas abaixou a cabeça e, de costas, continuou ouvindo Félix, que prosseguia:

– Sinto falta do seu corpo, do seu gosto... Sinto falta de te tocar... – Félix fez uma pausa e caminhou até ele, e só então continuou quando já estava bem próximo. – Niko, eu sinto falta de estar em você e ter você em mim. Eu te quero tanto...

O Carneirinho virou-se, parecia com raiva. Ou fingia ter raiva. Mas a mágoa que carregava certamente lhe conferia um ar agressivo, incomum para uma pessoa que costumava transbordar doçura pelos olhos. Félix assustou-se, nunca o viu assim.

– Você sente falta de sexo, não é, Félix? É isso que você quer?

– Você sabe que não sinto falta só disso, Niko... Mas disso também. Você não?

Niko prosseguiu fazendo questão de demonstrar o quanto estava ferido.

– Porque você não procura o bonitão sarado? Aquele que malhava todos os dias só pra você! Vai lá!

Félix deu um passo para trás, ajeitou a sobrancelha. Um pouco da paciência foi embora, uma vez que ficava cada vez maior a frustração por ver Niko aborrecido e escapando dele .

– Engraçado Niko, sabe o que eu percebi? Quem fala o tempo todo no corpo dele é você. Não eu.

– Félix! Não queira inverter as coisas! — Niko levantou a voz.

– É verdade! Você fala na aparência dele mais do que eu já falei! Acho que você que reparou nele. Quem disse que ele é um gato, tem corpo perfeito e é sensual? Não foi eu...

– Vai dizer que você não achou!? Não é de homens do tipo dele que você sempre correu atrás?

– Me poupa Niko, quem falou que ia até o banheiro e foi pro lado oposto e acabou esbarrando nele na festa? Quem? O Rei Davi? A Rainha de Sabá? Não! Você!

– Não faça esse jogo comigo. Félix!

– Não estou fazendo nenhum jogo, criatura! Eu falei alguma mentira!? Me diga, onde menti!?

– E me diga se você não pensou em ir até lá e aceitar a proposta dele, me diga se você não achou que ia ser bom... confessa que você pensava que ia ser ótimo!

O Carneirinho parecia realmente nervoso e falava alto. Félix desistiu da discussão.

– Niko... fala baixo, porque meu pai está aí do lado.

– Eu sei que seu pai está no quarto ao lado, se não fosse isso eu já tinha gritado com você pra abrir essa porta e me deixar sair!

Félix pegou a chave no bolso, passou na frente dele e começou a abrir a porta. Decidiu encerrar a conversa que não levava à lugar nenhum. Porém, faltava dizer ainda uma coisa pois algo sinalizou na cabeça de Félix.

– Niko, eu vou abrir a porta. Mas será que antes você pode me olhar, olhar aqui nos meus olhos?

O Carneirinho relutou, demonstrava impaciência batendo o pé no chão, mas acabou olhando para ele.

– Só uma coisinha, Niko. Você já se perguntou porque não confia em mim?

Niko não falou nada. Sua sobrancelha franziu-se ligeiramente, como em uma suave interrogação. Ficou mudo. Apenas continuou olhando-o. Félix continuou:

– Pois deveria. Deveria se perguntar.

Então abriu a porta com violência e fez sinal para que Niko saísse. Dizendo:

– Vai, e pergunta a si mesmo porque você acredita que eu não resistiria ao moreno alto, bonito e sensual! — Félix falou as duas últimas palavras fazendo com as mãos um sinal de aspas.

Niko saiu. Félix respirou fundo alguns segundos e foi na mesma direção que ele. Foi até as crianças e deu boa noite dizendo que iria dormir cedo.

– Janta com a gente! — Jayminho pediu.

– Estou sem fome, filho. Preciso ficar lá perto do seu avô esses dias, tá? Se você precisar de qualquer coisa, pode ir me chamar.

Deu um beijo em cada uma das crianças e começou a deixar a cozinha. Félix não percebeu mas Fabrício seguiu caminhando atrás dele. Niko o chamou.

– Vem pra cá Fabrício, seu papi vai dormir. Vem comer, vem filho.

Somente quando escutou Niko é que Félix olhou para trás e viu que o menino o seguia, carregando um urso de pelúcia e sorrindo.

–Vô dormi também. Vô com ocê, papi.

Félix abaixou-se ajoelhando na frente dele e o abraçou.

– Oh, meu amor... — Não conseguiu dizer nada além disso por um tempo. Sentia como se um bolo enorme, do tamanho do mundo inteiro, estivesse em sua garganta tornando aquela a tarefa mais difícil que já tinha desempenhado em sua vida: controlar o choro, que com força queria arrebatá-lo, e sorrir de volta para o menino como se tudo estivesse bem.

– Fabrício... vai papá, vai. Deve tá booomm, hein! É comidinha que seu pai faz, você não gosta? — O menino olhava para ele sorrindo e balançava a cabeça afirmativamente. — É uma delícia, né? Então, criaturinha... vai com ele vai. Outra hora você vem com papi, tá?

Ele beijou o filho e ficou observando-o caminhar até Niko, que estava de costas virado para a pia da cozinha. Félix retirou-se em direção ao quarto sem ver que Niko disfarçava o choro e enxugava as lágrimas que caiam.

Félix se sentia derrotado, vencido pela situação. Ele não via saída e já não tinha mais esperanças. Niko sempre disse que não suportava traição e realmente acreditava que havia acontecido. Félix não vislumbrava mais nenhuma chance de que o convenceria do contrário e entendia que, mesmo que Niko o perdoasse, aquilo ficaria marcado neles, e a relação deles não seria mais a mesma. Nem Félix queria ser perdoado, queria que Niko conseguisse entender seu comportamento, quanto a fingir interesse em Ricardo, e queria convencê-lo de que não encostou um dedo sequer no diretor do resort. Com exceção, como ele disse, de um ou outro aperto de mão.

Sentindo-se emocionalmente exausto e fisicamente cansado, ele foi ter com o pai. Como todas as noites, foi ajudá-lo a se preparar para dormir. Quando César já estava deitado, depois que ajeitou a colcha por cima dele, Félix simplesmente sentou-se no chão, ao lado da cama, perto do pai.

– Félix, eu sei que você não está bem.

Félix ficou mudo, não conseguia responder nada. Entre eles dois nunca houve conversas intimas sobre o relacionamento amoroso do filho. César já tratava Niko com educação e respeito, levava bem a presença das crianças e até havia engatado algumas conversas com Jayminho. Mais do que isso, pelo tempo que tinham de convivência, era talvez pedir muito. Félix permaneceu calado, apenas deitou a cabeça na beira da cama de César que, contrariando todas as expectativas, estendeu a mão e fez um carinho nos cabelos do filho.

Com o toque, Félix não se conteve e chorou como uma criança. Não precisavam palavras. César nem sabia o que acontecia mas percebia que era algo grave. Aquele Félix que ele via nas últimas semanas não era nem de longe o mesmo que o convenceu a mudar-se para aquela casa com seu companheiro, não era nem de longe o Félix sereno, feliz e realizado que César viu florescer na frente de seus olhos, desde a época em que teve o derrame até poucas semanas atrás. E César sabia muito bem quem causou a transformação no filho. Se agora ele estava arrasado, destruído e abatido, só podia ser pela mesma pessoa, embora por razões diferentes.

– Calma, Félix... calma. — Era tudo que ele conseguia dizer.

O carinho em seu cabelo cessou quando Félix já havia parado de chorar. Há vários dias que sentia falta de uma acolhida como aquela, ele não esperava que receberia logo de quem. Levantou a cabeça e viu que seu pai, idoso e doente, já dormia. Dali ele foi, quase que arrastando-se, direto para a cama do quarto que agora era seu, tirou a roupa e deitou. Sentia-se cansado para qualquer outra coisa.

A noite de domingo era sempre a pior para os dois estando separados. Pois era a noite anterior ao dia de folga, era quando sempre planejavam algo especial. Uma ida noturna à praia, um jantar romântico à beira da piscina, um passeio pelos arredores de Angra... era a noite quando mais se amavam e a véspera do dia que passavam juntos à dois. Esse era o terceiro domingo que passavam sozinhos, cada um em um canto da casa, sem amor, sem sexo, sem carinhos nem conversas.

Niko estava inquieto, quando chegou no quarto ficou um bom tempo pensando no que aconteceu no outro aposento, no que viu no laptop de Felix, nas palavras trocadas com ele, na proximidade dos corpos e todas as sensações que isso provocou, na camisa que abraçou instintivamente, no cheiro que ela tinha... Fez um esforço para não deixar que aquilo que estava sentindo se apoderasse dele. Decidiu tomar outro banho e, dessa vez, frio.

Depois que voltou a deitar, não dormiu logo. Não estava acostumado a dormir cedo aos domingos. Ficou lembrando das coisas que eles planejavam fazer juntos, como viagens, reformas na casa, abrir outra filial do restaurante e ate mesmo, quem sabe, adotar uma menininha quando Fabrício estivesse mais crescido... Félix adorava fazer planos e Niko adorava embarcar neles. E agora, nada mais fariam se fossem se separar. Todos os sonhos que sonharam juntos seriam esquecidos para sempre.

Niko iria abrir mão deles todos se levasse em frente a decisão que estava amadurecendo. Ao seu modo de ver, aquele momento, no quarto de Félix, mostrou para ele que se quisesse mesmo seguir com a separação, precisava sair de casa. Niko abraçou o travesseiro com força, como fazia todas as noites desde que dormia sozinho, e derramou ainda algumas lágrimas até pegar no sono.

Quanto a Félix, permanecia deitado e inerte, devido ao cansaço, tendo a angústia como companheira. Porém, mesmo que ainda fosse cedo, o sono acumulado por dias o vencia. Pensava nele, em Niko. Em cada detalhe que se lembrava do corpo e do rosto dele; imaginou que o tocava, abraçava, acariciava... fantasiou. E em meio à lembranças do que foi real e devaneios do que desejava fazer, adormeceu.

...

Pouco antes dos primeiros raios de sol riscarem o céu, Félix sentiu um par de mãos macias, porém decididas, acariciar-lhe as coxas. Logo, uma boca quente e úmida beijava seu pênis até engoli-lo por completo e fazer com que enrijecesse dentro dela. Ele estava acordando de maneira espetacular, se contorcia de prazer e murmurava entre gemidos:

– Carneirinho... você veio, você acredita em mim... Niko...

Sabendo o que esperava encontrar debaixo do lençol, ele removeu o tecido ávido por ver as duas esferas de cor verde brilhante, que o estariam fitando acompanhadas do mais lindo sorriso, que misturava candura e lascívia. Contudo, não havia ninguém. Ele despertava de um sonho, estava sozinho. Sentiu-se tão desapontado e frustrado que nem teve ânimo de continuar por conta própria. Lembrou-se do mar gelado de Angra naquela época do ano, colocou uma sunga, pegou uma camiseta e foi direto para a praia dar um mergulho enquanto o dia clareava.

A tensão sexual da noite anterior também teve seu efeito em Niko. Ele ainda dormia quando sentiu Félix o abraçar por trás, beijar seu pescoço e, com uma das mãos, alcançar seu membro e começar a masturbá-lo. Acordou gemendo, como quem atinge o clímax. Confuso, com um sonho que parecia tão real, virou-se para o outro lado da cama para se dar conta de que não havia ninguém. Estava sozinho.

Como faltava ainda cerca de uma hora para que as crianças acordassem, ele teve a mesma ideia que Félix e se encaminhou para a praia. Foi uma surpresa encontrá-lo lá, deitado na areia. Niko sentou-se ao lado dele e o observou por algum tempo, até Félix abrir os olhos e se dar conta da presença do Carneirinho.

– Tivemos a mesma ideia, Félix.

– Por que será?

Depois de um tempo em silêncio Niko resolveu falar. Contou para Félix que ia aproveitar o dia de folga para visitar alguns condomínios na região. Tinha dinheiro de sobra para comprar um apartamento por ali, desde que a casa de São Paulo tinha sido vendida. Disse que havia decidido permanecer em Angra, por que não queria afastar os meninos dele. Os dois estavam sentados lado a lado, olhavam para a frente, para o mar. Niko não via que as lágrimas desciam pelo rosto de Félix e continuava falando.

– Você vai ser para sempre pai deles. Se eles estão aqui hoje, é por sua causa. Fabrício não estaria aqui se não fosse você, que convenceu Amarilys a ser a barriga solidária, depois deu a ideia do DNA e ainda resgatou ele das mãos dela... enfim... Félix, ele é tanto seu filho quanto meu, desde sempre.

Só então Niko percebeu o quanto Félix estava emocionado, quando ele falou.

– Ele é tão pequeno Niko. Um dia, se você conhecer outra pessoa, é esse homem que ele vai chamar de pai, não eu.

Niko sentiu a dor dele, era muito difícil ignora-la. Mas se havia decidido separar-se, para seguir em frente precisava se afastar de Félix. Não conseguiria nunca se ficasse naquela casa, se ficasse perto dele. Naquele momento estava prestes a abraçá-lo, mas não podia. Seu lado racional, que crescia a cada dia mais, não achava justo. Sentia saudades do “castelo de cristal” no qual vivia antes. Lembrou das taças de cristal que estavam lá no fundo do mar, olhou para Félix e viu que ele ainda chorava. Não obstante, lembrou das mensagens no celular dele, de Ricardo saindo daquela cabana sem camisa... isso foi o incentivo que faltava, reuniu as forças que nem ele sabia que tinha, e levantou-se.

– Eu tenho que ir. Vou chamar os meninos pra escola.

Félix ficou de pé e segurou uma das mãos do Carneirinho, que não ofereceu resistência, e pediu:

– Posso te fazer uma pergunta?

– Claro.

– O que você sentia por mim, acabou?

Niko olha bem nos olhos dele para responder:

– O amor, quando é de verdade Félix, não morre nunca.

Félix balançou a cabeça como se ouvisse uma língua estrangeira que ele não conhecia.

– Eu não entendo. Eu te amo e se você diz que ainda me ama, então porque temos que ficar separados?

Niko soltou a mão dele, embora continuasse olhando-o nos olhos.

– Porque é horrível te imaginar com outro. É horrível imaginar que você foi pra cama com ele e depois ia mentir pra mim, me fazer de bobo.

– Eu não fiz isso, Niko! Eu não faria isso!

– É horrível pensar que você deseje alguém que não seja eu porque algo falta em mim.

– Nada falta em você Niko! Não diga bobagens, criatura!

Niko saiu em disparada entrando em casa e deixando Félix gritando ali.

– Nada falta em você! Nada ! Nadaa! — Félix gritou na direção dele e falou baixo consigo mesmo: — Que droga Niko, sinceramente... nada falta em você nem sobra. Você é perfeito, Carneirinho...

A segunda-feira passou sem maiores contatos entre eles. Após o almoço, Niko saiu à tarde e visitou alguns condomínios. Mesmo que chorasse dentro do carro entre um local e outro, visitou casas e apartamentos, tantos quanto a tarde inteira permitiu.

A terça-feira também passou sem conflitos e sem conversas. Félix ficou apavorado pela manhã e à noite, temendo o momento em que Niko fosse chegar com a notícia da compra de um imóvel. Não havia nada que ele pudesse fazer, embora pensasse nisso o tempo todo, não imaginava nada, nenhuma ideia, nada que pudesse fazer para Niko mudar seus planos.

Durante as semanas que estiveram separados, Félix tentava, na medida do possível, continuar cuidando de Niko. Perguntava à Adriana como ela achava que ele estava, perguntava se ela tinha visto ele tomando as vitaminas, se comia direito, pedia que ela avisasse caso soubesse de qualquer coisa diferente com ele. E, à noite, Félix nunca ia dormir enquanto ele não chegasse.

Naquela noite, Niko não chegava nunca. Todos já dormiam e Félix esperava por ele na sala. Levantava, passava pela cozinha, ia até a garagem, voltava... estava aflito. Niko nunca havia demorado tanto. Antigamente se conectavam de todas as maneiras mas, agora, Félix estava sem celular. Por mais de uma vez ele mexeu no telefone fixo da casa para ver se funcionava. Niko não dava sinais, nada.

Félix desistiu de esperar e ligou para ele.

– Car... Niko, porque ainda não chegou em casa? Está tudo bem com você?

– Eu estou ótimo, Félix.

– Pelas contas do Rosário, você já viu a hora? Porque não ligou?

– Eu ligaria se você tivesse um celular, mas não quis ligar pro fixo e fazer barulho aí a essa hora.

– Porque será né, que estou sem celular? Ele foi dar um mergulho e não voltou...

– Félix...

– Tá bom. Deixa pra lá. Esquece.

– Eu preciso desligar. Eu vou levar um tempo ainda aqui... depois eu vou.

– Onde... onde você está, Niko?

– Félix... eu não tenho que te dar satisfações

– Como assim... como assim não tem que me dar satisfações... mas eu devo ter roubado as pulseiras de...

Niko o interrompeu, parecendo nervoso.

– Eu não tenho que te dar satisfações, Félix! Nós estamos separados.

Félix ficou mudo. Niko disse um “tchau” apressado e desligou.

...

continua

...

Notas finais
Mais uma palavrinha: Vazio (s.m.) - Sentimento indefinível e profundo de saudade angustiosa. É isso gente. Novamente só tenho a agradecer à todos que acompanham, todos que comentam, todos que estão gostando mesmo com todo o sofrimento dos dois. É o maior incentivo para continuar. Beijos mil