Abandono
2 Desconfiança
Notas iniciais
Toda segunda-feira, após as crianças saírem para a escola e a enfermeira de César chegar, os dois passavam o dia juntos. Praia ou piscina, compras ou compromissos, cama, sofá, rede da varanda... seja lá o que for que fizessem, eles sempre passavam o dia juntos, e grande parte do dia sozinhos. Todos os outros dias eram de trabalho e dedicação às crianças e à Cesar. Mas não as segundas-feiras, que era o dia do casal.
E não foi diferente no dia seguinte à festa no resort. Pela manhã assistiram um filme na sala agarradinhos no sofá e cuidaram de assuntos da casa. Depois Niko fez o almoço com a ajuda de Félix na cozinha. Voltaram para a cama após almoçar — não porque tivessem sono — levantaram, lancharam com as crianças, namoraram na praia assistindo ao por do sol e o dia terminou com o Carneirinho preparando o jantar da família enquanto Félix, sentado em uma das mesas da cozinha, ajudava Jayminho com o trabalho da escola e brincava com Fabrício ao mesmo tempo. Félix gostava de sentar ali porque dizia que, assim, a família ficava reunida e ele podia observar Niko cozinhando. Os dois trocavam olhares de cumplicidade o tempo todo. Tudo estava perfeito, como em um comercial de margarina.
Niko não quis estragar o dia maravilhoso, mas passou o tempo todo a analisar o parceiro. Não notava nenhuma diferença entre eles. Félix continuava apaixonado, tarado, carinhoso e cada vez mais doce e capaz de demonstrar amor por ele e pelas crianças. Então Niko não conseguiu tocar no assunto “Ricardo”.
Talvez não conseguisse por medo, medo de brigar, medo de descobrir o que não queria, medo de perder o companheiro. Acima de tudo, Niko dizia para si mesmo que aquilo que viu podia significar nada. E ele, quem sabe, estaria fazendo uma tempestade em um copo d’água. Para que iniciar uma conversa que traria aborrecimentos se a vida deles estava ótima?
Nos dias que se seguiram, a rotina da família foi a mesma. As crianças, retomavam o ano letivo e iam para a escola cedo. Algumas horas depois, Niko saía para o restaurante. Félix cuidava de César e pela manhã, ou ao final do dia, o levava até a praia onde conversavam como nunca haviam feito nos últimos quarenta anos.
Eles, Félix e Niko, trocavam constantes mensagens pelo celular quando estavam afastados, mensagens de amor e carinho, de desejo e tesão, Félix tirava fotos das crianças ao longo do dia e mandava para Niko matar a saudade e acompanhar o que eles faziam. Um sempre sabia onde o outro estava e fazendo o que. Félix às vezes aparecia de surpresa no restaurante para almoçar ou “trabalhar” no escritório. Niko às vezes aparecia de surpresa em casa, no meio da tarde para “conversar” ou resolver assuntos da família.
Nada havia mudado. Félix não estava nem mais nem menos carinhoso ou atencioso. As noites não eram nem mais nem menos fogosas ou amorosas. Félix era o companheiro, marido, parceiro dedicado que ele sempre quis. E Niko guardou o que viu na festa a semana toda, sem conseguir tocar no assunto. E talvez nunca mais tocasse, ou talvez sim. Ele vivia em altos e baixos mas aguardava um sinal, uma pista, uma mudança no comportamento de Félix ou na rotina do casal.
Na sexta-feira porém, um acontecimento veio mudar tudo.
Pouco antes da hora do almoço, Félix surgiu no restaurante. Estava elegantemente vestido como antigamente em seus áureos tempos de presidente do San Magno. Da cabeça aos pés não havia nada fora do lugar. O terno era um dos mais bem conservados, até porque era o mas novo que tinha, assim como a gravata e o sapato. Barba recém feita, perfume delicioso e o mesmo charme de sempre. Niko, ainda que acostumado com ele todo esse tempo, não pode deixar de suspirar. E surpreender-se. Afinal, fazia tempo que seu companheiro não andava assim.
Félix quando entrava no Gian ia direto até Niko, olhavam ao redor para se certificar que ninguém prestava atenção neles e trocavam um selinho. Ou fazia sinal para que ele fosse até o escritório e se encontravam lá. Assim foi dessa vez. Quando os dois entraram, Niko fechou a porta.
– Félix, que requinte todo é esse?
– Estou lindo?
– Você é lindo.
– Estou chique e elegante?
– Maravilhoso.
– Então o que você está esperando? Me beija, Carneirinho.
Trocaram um beijo apaixonado e, ao final deste, Félix parou por alguns instantes admirando-o. Como se já não soubesse de cór onde estavam todas as linhas daquele rosto; como se já não conhecesse, melhor que a palma de sua mão, todos os detalhes daquela face.
– Que foi?
– Nada, não posso te olhar?
– O quanto você quiser.
Félix ainda o admirou por mais alguns segundos, brincando com alguns cachos do cabelo encaracolado, até que declarou:
– Niko. – Engoliu em seco emocionando-se. – Eu amo você. Amo muito, mas muito mais do que eu, um dia, pensava ser capaz de amar alguém.
Félix fez uma pequena pausa para respirar fundo antes de continuar:
– Eu quero que você nunca se esqueça disso. Mesmo que eu faça algo errado, talvez porque eu ainda não aprendi o suficiente, ou porque talvez eu ainda tenha aqui dentro de mim algo daquele antigo presidente de hospital, nunca se esqueça que você... – fez outra pausa porque estava visivelmente abalado pela emoção. — ... você é o amor da minha vida e eu quero ficar com você para sempre.
– Eu também te amo muito, Félix, muito mesmo. E é claro que nós vamos ficar juntos pra sempre. Mas que bobagem é essa que você está falando? – Niko segurou o rosto dele com ambas as mãos para continuar: — Você não tem mais nada do antigo presidente do hospital, a não ser essa roupa que você colocou hoje. – Niko sorriu.
Por fora era o Carneirinho doce e compreensivo de sempre, mas por dentro um certo desassossego lhe revirava a alma. Havia entre eles uma sintonia e Niko podia jurar que algo de sério acontecia com Félix. Este continuou:
– Hoje é um dia muito importante. Eu quis caprichar, por isso me arrumei assim.
– Posso saber porque?
Félix o abraçou pela cintura, deu mais um beijo nele e o apertou forte. Niko podia sentir que o coração do companheiro batia acelerado e que ele estava nervoso com alguma coisa. Félix respirou fundo algumas vezes, enquanto permanecia agarrado em seu carneirinho até se acalmar.
Ainda abraçados, ele contou que vinha planejando uma surpresa já há algum tempo. Algo que seria bom para eles financeiramente e ia permitir que Niko trabalhasse menos, assim ficariam mais tempo juntos os dois e com os filhos. E que ele só ia contar quando tudo estivesse certo mas algo inesperado surgiu.
– Tudo que eu fiz, Niko, foi porque eu queria que você tivesse orgulho de mim. Mas, infelizmente, apareceu um problema no caminho. Uma pedra, dessas que fazem a gente tropeçar quando não prestamos atenção. E eu devo ter sambado no Santo Sepulcro, porque eu tropecei, tropecei feio. – Félix calou-se pensativo por alguns segundos, respirou fundo e continuou: — Mas, já levantei. Já levantei!
– Eu tenho muito orgulho de você, meu amor. Eu sei que vai dar tudo certo, embora eu não saiba do que se trata.
– Você vai saber, Carneirinho. Eu vou lá agora dar minha última cartada. É tudo ou nada. Mas você vai saber. Vou só ao toalete, tá? Vou deixar meu paletó aqui.
Félix tirou o paletó, colocou nas costas da cadeira e saiu do escritório. Niko também ia sair em direção ao salão quando ouviu um barulho de alguma coisa vibrando, seguido de um beep, e voltou para dentro da pequena sala. Ouviu de novo que algo vibrava e fazia barulho e vinha de dentro do paletó de Félix, era o celular de Félix.
Niko nunca, em momento algum nem em hipótese nenhuma cogitou em pegar o celular do parceiro para ver quem o chamava ou mandava mensagens. Muito menos ler qualquer mensagem. Nunca. Até aquele dia.
Ele vinha guardando consigo o que viu na festa dias atrás e, sem coragem de conversar com Félix à respeito, considerou em sua cabeça algumas hipóteses do que podia estar acontecendo, já aconteceu ou iria acontecer ainda. Dessa vez foi, então, diferente. Niko rapidamente pegou aquele celular, que é do modelo que, embora seja necessário digitar uma senha para usar, a última mensagem recebida fica piscando acesa na tela. Niko então leu:
Lobo - Já estou pronto pra você, gato. Cabana 12. Te espero. Beijo.
–-- contnua ---
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