AMOR EM CAMPO

10 Capítulo 9: Passe de Transição


Notas iniciais
🤍⚽ Oi, time! O capítulo de hoje tem tudo que a gente gosta: briga, fofoca, orgulho ferido, gente surtando por causa de dorama, o Santana finalmente sem palavras... e duas pessoas que definitivamente ainda não aprenderam a conversar como adultos. 🤡 Eu amo escrever personagens inteligentes, mas, às vezes, eles usam toda essa inteligência justamente para complicar o que poderia ser tão simples. 😅 (Ainda bem, né? Senão a gente ficava sem história. 😂) Dito isso, boa leitura!

O apito estridente do técnico Moura cortou o ar do campo principal da UC na manhã daquela segunda-feira. Era o primeiro treino tático antes do jogo contra a UniSão Silvestre, o tipo de ensaio em que cada passe precisava ser simétrico. Mas Gabriel acabou de dar um passo em falso, quebrando a linha de impedimento e deixando o corredor esquerdo inteiramente livre para o contra-ataque do time reserva.

— Puta que pariu, Duarte! — Moura berrou, jogando a prancheta de acrílico contra o banco de reservas e caminhando até a linha lateral com o rosto vermelho de fúria. O time inteiro parou no ato, um silêncio pesado e constrangido se instalando no gramado. — Que porra de posicionamento foi esse? Onde você está com a cabeça, rapaz? No meio das pernas de alguma caloura? O jogo contra a São Silvestre é nesse final de semana. Você quer ir para o banco?

Gabriel fez que não com a cabeça.

— Então, concentra, caralho, antes que você entregue a porra do meio-campo para os caras.

Gabriel engoliu o xingamento obsceno que subiu quente por sua garganta. Ele limpou o suor da testa com as costas da mão, sentindo o peito arfar pesado sob o colete verde de treino. Seus músculos sabiam o que fazer; o problema era que seu cérebro parecia ter sido hackeado por uma bruxaria nerdística que ele não conseguia reverter.

— Foi mal, professor. Não vai se repetir — respondeu, a voz ríspida, os dentes cravados no lábio inferior até sentir o gosto metálico do sangue.

No vestiário, enquanto a água fria do chuveiro batia contra suas costas largas, ele tentava, em vão, alinhar os próprios pensamentos. A bronca do Moura ainda zunia em seus ouvidos, mas o que realmente o deixava apavorado era o fato de ter passado o final de semana inteiro repassando os flashes da noite de sexta no apartamento de Rafaela. A pressão exata dos seus próprios dedos na pele macia do joelho arroxeado dela, o cheiro de lavanda que parecia ter grudado nos seus sentidos após o banho e o jeito que ela o encarava, uma mistura de defensiva e vulnerabilidade.

Aquilo o perseguia porque ele não conseguia categorizar a Rafaela nas gavetas mentais de garotas com as quais ele estava acostumado a lidar. Ela não se encaixava em lugar nenhum.

Fechou o registro do chuveiro com força, bufando sozinho no boxe vazio. Minutos depois, já de calça jeans e com o corpo minimamente seco, ele se escorou contra o armário de metal do vestiário, encarando a tela do celular. Lutava contra a vontade absurda de mandar outra mensagem para ela. Não pela porra da aposta. Não pelo cronograma de fisiologia.

Ele queria saber se a pele dela ainda estava roxa e se o joelho ainda doía.

A ideia parecia quase uma heresia para o seu código de conduta.

Quando ele se sentou no banco de madeira, passando a toalha pelos fios úmidos, Diego se aproximou, analisando o amigo com os olhos estreitados.

— Cara, o que está acontecendo com você? — Diego perguntou, direto, sem rodeios. — Passou o final de semana todo esquisito e aquele passe... você não erra um passe daquele desde o primeiro período.

Gabriel parou o movimento das mãos na toalha. A imagem de Rafaela piscou em sua mente. A aposta que ele havia firmado com Diego semanas atrás agora parecia uma piada de mau gosto, um erro estúpido de moleque imaturo que ele queria apagar da existência. Mas ele não podia abrir o jogo. Não para o cara que estava segurando o dinheiro.

— Estou com a cabeça cheia, muita matéria acumulada, a prova do Santana — Gabriel mentiu, jogando a toalha no armário, vestindo a camisa e levantando-se abruptamente. — Só preciso descansar. Vou nessa, a fé se fala mais tarde.

Ele saiu dali a passos longos. No fundo, ele sabia que a urgência que acelerava seus passos não tinha nada a ver com descanso.

Vinte minutos depois, o verdadeiro teste de estresse começou. A sala de aula estava superlotada e abafada para a aula teórica de fisiologia. O professor Santana, cuja reputação de sadismo acadêmico e desprezo público por atletas era quase lendária na universidade, andava de um lado para o outro diante do quadro negro, batendo o pincel atômico contra a palma da mão.

Santana parou abruptamente. Ajustou os óculos de aro fino no nariz e varreu as cadeiras, procurando a presa do dia. Ele fixou as pupilas exatamente em Gabriel, que estava sentado nas fileiras centrais, com o caderno aberto e a postura tensa. Era a oportunidade perfeita para decapitar o ego do capitão do time logo no início da semana.

— Senhor Duarte — a voz inflexível de Santana ressoou, silenciando os murmúrios da sala instantaneamente. Um nó na garganta coletivo pareceu se formar. — Já que o senhor parece sempre tão confortável e confiante comandando onze homens dentro de campo, vamos ver se o seu sistema nervoso central opera na mesma velocidade das suas pernas. Explique para a turma, sem gaguejar, o trajeto anatômico das vias somatossensoriais ascendentes e onde, exatamente, ocorre o processamento primário desse estímulo no córtex.

A sala inteira prendeu a respiração. Lucas e Vinícius, sentados duas fileiras atrás, abaixaram a cabeça de imediato, quase cobrindo os olhos para não ver o massacre. Santana exibia um meio sorriso vitorioso, o canto dos lábios erguido, esperando a piadinha evasiva ou o silêncio constrangedor que os atletas costumavam entregar.

Gabriel sentiu a espinha enrijecer como uma barra de ferro. Suas mãos suaram. Por um breve segundo, ele fechou os olhos.

Mas, em vez do slide projetado em sala ou das linhas frias e incompreensíveis do tratado de medicina, o que se projetou na sua mente foi a voz ligeiramente cansada de Rafaela. Ele visualizou perfeitamente o esquema que ela havia desenhado com caneta preta hidrográfica no bloco de papel em cima da mesa de fórmica, a unha dela apontando para os rabiscos enquanto dizia: “O estímulo sobe, Gabriel... ele faz sinapse no tálamo antes de chegar no topo.”

Gabriel abriu os olhos. O olhar que ele direcionou a Santana não tinha arrogância; tinha foco.

— O estímulo somatossensorial ascendente é captado pelos receptores periféricos e viaja através do sistema coluna dorsal-lemnisco medial ou pela via anterolateral, dependendo do tipo de fibra — Gabriel disparou. A voz firme, grave, ecoando com uma autoridade técnica que chocou o recinto. — Ele cruza o eixo de simetria, faz sua terceira sinapse nos núcleos ventroposteriores do tálamo e projeta-se diretamente para o córtex somatossensorial primário. Este fica localizado no giro pós-central do lobo parietal, mais especificamente nas áreas de Brodmann um, dois e três. É exatamente ali que a intensidade e a localização exata do estímulo de dor ou toque são discriminadas.

Santana piscou três vezes seguidas, a boca levemente aberta, o pincel atômico congelado no ar. O sorriso sádico morreu de forma instantânea. O professor engoliu em seco, visivelmente desestabilizado pela precisão e pelas nomenclaturas impecáveis utilizadas pelo aluno, que ele considerava um caso perdido.

— Correto, senhor Duarte — Santana murmurou, ajeitando as folhas de papel na mesa com pressa para disfarçar o desconcerto completo. — Parece que... alguém finalmente resolveu abrir os livros.

Quando a dispensa chegou e os alunos começaram a se dispersar em um falatório alto, Gabriel guardou o material na mochila com uma sensação inédita, expandindo sua caixa torácica. Não era a adrenalina vulgar de ter vencido uma discussão; era uma necessidade avassaladora de procurar Rafaela. Ele queria contar para ela. Queria ver a linha dos lábios daquela nerdzinha se curvar naquele meio sorriso de aprovação que ela dava quando ele finalmente assimilava um conceito complexo. E foi essa exata constatação que o atingiu como um raio enquanto cruzava a porta do bloco: desde quando a validação de uma universitária de jaleco e rabo de cavalo tinha se tornado a coisa mais importante do seu maldito dia?

Enquanto isso, pelos corredores da UC, o clima matinal era hostil. Brunna não havia engolido a humilhação de ter sido cortada por Gabriel e, decidida a revidar e marcar seu território na base do veneno, passou a manhã espalhando uma fofoca sórdida pelos blocos.

Rafaela estava organizando as lâminas de microscopia no laboratório de Microbiologia, imersa no cheiro de álcool 70%, quando a porta foi empurrada com força.

— Rafa, nós temos um problema enorme. — Letícia sibilou, entrando como um furacão e batendo a porta atrás de si para garantir a privacidade.

— Sim, nós temos. Você entrou em uma área de biossegurança de nível dois sem os equipamentos de proteção — Rafaela olhou para a amiga, mas ficou paralisada ao ver a fúria nos olhos de Letícia, algo que ela raramente presenciava na amiga.

— Rafaela, esquece a porra do jaleco por um segundo! Eu estou falando sério. Aquela Brunna perdeu completamente os escrúpulos. Ela está dizendo para quem quiser ouvir que você está se oferecendo para o Gabriel para tentar subir de status. Que você usou o tombo de sexta como performance.

O mundo de Rafaela pareceu girar em câmera lenta. Suas mãos travaram no ar, os dedos segurando a lâmina de vidro com tanta força que o material quase trincou. Um nó de náusea violenta apertou seu estômago. O plano original de ferir o ego do capitão agora colidia de frente com o que ela tinha de mais sagrado: sua dignidade.

— Eu avisei... — Rafaela murmurou, a voz trêmula, enquanto guardava a lâmina com os dedos repentinamente frios. — Eu falei para ele que aquilo iria acabar em fofoca pela faculdade, mas ele é teimoso!

No final das aulas da manhã, o pátio principal da UC estava congestionado pelo fluxo de estudantes indo em direção à saída. Rafaela caminhava — forçando-se a não demonstrar a leve rigidez que ainda restava — com a mochila pesada nas costas. Ela conseguia sentir o peso dos olhares e os sussurros colando na sua nuca. A fofoca do tombo e da intervenção pública de Gabriel havia se espalhado como pólvora pelos blocos.

Ao passar perto dos bancos de madeira do corredor externo, ela percebeu um grupo de garotas a encarando de cima a baixo. Brunna desceu os olhos pelo corpo de Rafaela com um nojo indisfarçável, cochichando algo no ouvido de uma amiga que soltou uma risadinha ácida. Rafaela ergueu o queixo, endurecendo as feições, mas o desconforto pesou nos seus ombros.

Foi quando ela o viu perto do portão de ferro da saída.

Sob a sombra das árvores, Gabriel conversava com dois rapazes da atlética. Ele ria de alguma piada, mantendo a pose. Rafaela não diminuiu o passo. Apertou a alça da mochila contra o peito e fixou os olhos na linha do horizonte, lembrando-se do aviso de Letícia: não se envolva de verdade.

Gabriel não quebrou a conversa e não fez nenhuma menção de caminhar até ela. Eles tinham um acordo. Mas, por trás dos olhos semicerrados e da risada falsa que dava para os amigos, as pupilas escuras giraram de forma disfarçada, rastreando o trajeto dela. A atenção dele desceu imediatamente para o joelho esquerdo de Rafaela. Para o seu alívio silencioso, o apoio do pé dela no asfalto estava quase firme. Ela já não mancava tanto. O gel tinha funcionado.

Ele subiu o olhar para o rosto de Rafaela, esperando que ela retribuísse o gesto como fizera na semana anterior, mas Rafaela apenas ergueu o queixo e seguiu caminho.

Uma confusão surda e violenta chacoalhou a mente dele assim que ela passou pelo portão. “Que porra está acontecendo comigo?”, ele se perguntou, o maxilar apertado com tanta força que os músculos da mandíbula chegaram a doer. Por que ele a estava encarando e por que tinha passado os últimos dez minutos calculando a mecânica da patela de uma garota que ele mal conhecia? Ele nunca tinha gastado um segundo se preocupando com ninguém ali.

— ... então a gente faz o esquenta no sábado, depois do jogo, e emenda a comemoração oficial na segunda, que é o dia do aniversário do Vinícius mesmo. O camarote já está reservado. Você vai colar, né, Duarte? — um dos rapazes perguntou, tocando no seu ombro.

— É. Isso aí. Vou colar — Gabriel respondeu de forma totalmente automática, ansioso para ir para o estacionamento e arrancar aqueles olhos castanhos da sua cabeça.

⚽️📖⚽️

Às 21h pontualmente, o carro de Gabriel encostou em frente à Páginas & Prosa. Ele estava com os dedos batucando no volante, exalando uma ansiedade nítida que tentava disfarçar ajeitando o colarinho da camisa.

Rafaela entrou no carro sem pronunciar uma única sílaba. Gabriel ergueu o copo de café que havia comprado para ela, mas ela apenas negou com um aceno de cabeça, os olhos fixos na janela lateral.

O trajeto até o apartamento dela ocorreu sob um silêncio sepulcral, espesso e sufocante. Assim que cruzaram a porta de entrada, Rafaela jogou as chaves sobre o aparador e apontou para o material acadêmico em cima da mesa da cozinha.

— Vou só lavar o rosto e tirar essa roupa de rua. Vai pegando o caderno — avisou, caminhando em direção ao corredor.

Ao passar pela porta do quarto da amiga, ela notou o som abafado da televisão vindo lá de dentro. Rafaela bateu de leve na madeira e colocou a cabeça para dentro do vão.

— Oi, cheguei — murmurou. — O Duarte tá aí, então, se eu fosse você, pensaria duas vezes antes de aparecer na sala só de calcinha.

Letícia, que estava largada na cama assistindo a um de seus doramas, virou o rosto na direção da porta no mesmo instante.

— Eu não pretendo sair desse quarto tão cedo — Letícia avisou, em um tom dramaticamente sério. — O capitão Ri está prestes a se declarar.

Rafaela revirou os olhos, deixando escapar um meio sorriso.

— Eu não faço menor ideia de quem seja esse, mas que bom para ele.

Ela puxou a porta, fechando-a antes que Letícia ganhasse fôlego para explicar todo o enredo da história, e seguiu em direção ao banheiro para se trocar.

Quando ela retornou para a cozinha, eles se sentaram à mesa; a atmosfera desabou, saturada pelo acúmulo de tudo o que havia acontecido. Gabriel, tentando recuperar sua armadura habitual de arrogância para mascarar o quanto havia ficado afetado por ser ignorado, jogou o caderno na mesa com um desdém fingido.

— Vai ser sempre assim agora? — ele começou, cruzando os braços largos sobre o peito e fixando os olhos escuros nela. — Pensei que o nosso acordo era só fingir que não me conhecia na faculdade, não ignorar minhas mensagens e me dar o tratamento de gelo dentro de casa também.

Rafaela desviou os olhos do livro. O olhar castanho estava gélido, desprovido de qualquer traço da vulnerabilidade da outra noite.

— Eu fiz muito bem em ter te ignorado, Duarte. Na verdade, eu nunca deveria ter aceitado te dar essas aulas — ela respondeu, a voz saindo carregada de uma mágoa profunda que o acertou como um tapa na cara.

Seus olhos ganharam um brilho de pura indignação. Sentindo-se encurralado pelo desprezo dela, ele usou a primeira defesa estúpida que encontrou para tentar retomar o controle. Descruzou os braços e curvou o corpo para frente.

— Que porra está acontecendo com você, hein? Tá de TPM?

Rafaela soltou uma risada soprada, sem um pingo de humor, enquanto fechava o grosso livro com um baque surdo que ecoou pelas paredes da cozinha.

— TPM? É sério que a única maneira de você processar o fato de uma mulher estar puta com você é reduzir isso ao ciclo menstrual dela? — ela rebateu, a voz subindo de tom, cada palavra saindo lapidada em gelo. — Meu Deus, você realmente vive em uma bolha muito confortável e alienada, né?

Gabriel enrijeceu os ombros. Ele odiava quando ela usava aquela lógica fria e analítica para reduzi-lo a um "atleta alienado". Ele abriu a boca para retrucar, mas Rafaela levantou-se da cadeira de uma vez, apoiando as duas mãos espalmadas na mesa.

— A sua "gentileza" no pátio já está me saindo caro demais! — ela disparou. — A sua namoradinha aspirante a nutricionista passou o dia me difamando no campus. Ela espalhou para a faculdade inteira que eu estou me oferecendo para você em troca de popularidade! Eu te avisei, Gabriel. Avisei que ser vista com você arruinaria a minha vida.

O sangue pareceu sumir do rosto dele de uma vez só, deixando-o momentaneamente sem ar.

A raiva dele mudou de direção instantaneamente, tornando-se algo escuro e feroz. Os nós de seus dedos ficaram brancos contra a mesa.

— Ela não é minha namorada, Rafaela! — ele vociferou, a voz subindo para um registro trêmulo de fúria. Ele levantou-se também, sua estatura tensionando o espaço curto entre os dois. — E eu surtei com ela no sábado justamente porque ela abriu a boca para falar de você.

— Se vocês vão se matar, será que dá para fazer isso em silêncio? — A voz exasperada de Letícia ressoou pelo corredor, acompanhada pelo clique da porta do quarto sendo aberta de leve. — O Capitão Ri acabou de se declarar e eu não consegui ouvir uma única palavra por causa da gritaria de vocês!

O silêncio voltou a reinar na cozinha. Os dois continuaram parados, com os peitos arfando, encarando-se além do limite da mesa, subitamente conscientes de que estavam berrando.

— Obrigada!

O som agudo da porta do quarto de Letícia batendo e voltando a se fechar quebrou o transe do ambiente.

Gabriel engoliu em seco, forçando a respiração a desacelerar. Ele contornou a quina da mesa com passos lentos, reduzindo o espaço curto entre os dois até que a distância mínima fizesse o pulso de Rafaela saltar na base do pescoço.

— Eu vou desmentir esse boato assim que eu puser os pés no campus amanhã, eu prometo — Gabriel disse. A voz agora era um sussurro rouco, quase uma confidência, mantendo os olhos fixos nos dela.

— Desmentir? — Rafaela soltou o ar pelo nariz, o tom acompanhando a queda do dele, embora ainda repleto de ceticismo. Ela cruzou os braços sobre o peito, uma tentativa instintiva de se blindar da presença maciça dele ali. — Gabriel, você não entende como as engrenagens daquela faculdade funcionam para quem está na base, não é? Se o capitão dos Falcões vai a público defender a monitora bolsista, o boato não morre. Ele ganha um capítulo novo. Vira a confirmação de que tem algo rolando entre a gente.

— Então eu faço o que você quiser que eu faça! — ele rebateu de imediato, em um sussurro urgente, sem qualquer filtro cerebral. — Quer que eu fique na minha? Eu fico. Quer que eu resolva a parada com a Brunna de um jeito que ninguém nunca mais associe seu nome a nenhuma merda? Eu resolvo! Só não fica me olhando como se eu fosse o culpado por essa palhaçada toda.

Ele sustentou o olhar dela por um segundo antes de soltar a verdade, a voz tornando-se quase dolorosamente honesta:

— Eu passei a porcaria do treino inteiro errando passe de transição porque a minha cabeça estava travada aqui... pensando se o seu joelho ainda estava doendo.

No segundo em que as palavras saíram de sua boca, Gabriel congelou. Suas pupilas dilataram e ele sentiu o choque de realidade. Eu acabei mesmo de admitir essa merda em voz alta?

Rafaela sentiu um sobressalto no peito. A menção ao joelho — ao cuidado silencioso que ele vinha arrastando desde a noite de sexta, enquanto ela passava o dia alimentando uma raiva defensiva — aplacou o resto do seu contra-ataque.

— Você... errou passes de transição por causa disso? — ela perguntou. A armadura de gelo finalmente mostrando as primeiras rachaduras reais. — Eu nem sei o que são passes de transição, mas parecem importantes.

O contraste entre a postura acadêmica dela e a completa ignorância sobre o futebol trouxe uma lufada de ar puro para o ambiente, quebrando a gravidade sufocante dos últimos minutos.

Ela recuou o corpo e voltou a se sentar lentamente na cadeira, o peso do cansaço físico e emocional finalmente cobrando o preço.

Gabriel puxou a própria cadeira de volta e sentou-se, apoiando os antebraços robustos na mesa, reduzindo a distância entre eles mais uma vez, mas agora sem a agressividade de antes.

— Sério que você não sabe? E ainda se considera a pessoa mais inteligente da UC? — Ele deu um meio sorriso sem humor, balançando a cabeça. — Bom, passes de transição são basicamente passes que tiram o time da defesa e armam o ataque. Se eu erro aquilo, o meio-campo vira um caos e o técnico infarta na lateral. E o Moura quase infartou hoje. Ele gritou na frente de todo mundo que eu parecia estar com a cabeça em qualquer lugar, menos no treino. E ele estava certo.

Rafaela manteve os olhos nele, observando a forma como as luzes da cozinha desenhavam os contornos do rosto de Gabriel. Era estranho vê-lo assim, admitindo uma falha técnica — algo que ela acreditava que o capitão orgulhoso dos Falcões jamais faria em público — apenas para fazê-la entender a extensão da distração dele.

— Você não deveria se distrair por causa disso, Duarte — ela murmurou, a voz mansa, embora o coração ainda estivesse batendo em um ritmo acelerado contra as costelas. — O jogo contra a UniSão Silvestre é nesse sábado, não é?

— Eu sei — Gabriel respondeu. — Mas tente explicar isso para o meu cérebro idiota. Passei o final de semana inteiro esperando você responder minha mensagem. Só queria saber se a massagem e o gel tinham funcionado, se você estava conseguindo pisar no chão sem mancar.

Ela olhou para o livro fechado e depois para as anotações dele.

— Funcionou — ela disse baixinho, indicando o joelho sob a mesa. — Meu joelho quase não dói mais. Obrigada, Biel.

O uso do apelido dele, despido do sobrenome formal que ela usava como escudo, fez o peito de Gabriel expandir de uma forma que ele nunca havia experimentado antes. Ele assentiu com a cabeça, um alívio genuíno cruzando suas feições, e apontou para o livro fechado entre eles.



Notas finais
Agora eu quero saber de vocês... 👉 O que acharam do surto do Gabriel? Querem ver mais desse lado dele? Porque eu, particularmente, estou adorando escrever esses momentos. 🤍👀 Nos vemos no próximo capítulo. 😘💋