AMOR EM CAMPO
11 Capítulo 10: Macarrão
Notas iniciais

O cheiro característico de álcool isopropílico, misturado ao bipe sutil e ritmado das centrífugas ao fundo, ditava o compasso do Laboratório de Pesquisa Avançada da UC. Ali, entre bancadas de granito impermeável e bicos de Bunsen apagados, Rafaela estava em seu elemento. Não havia espaço para suposições, fofocas ou olhares enviesados de corredor, ali imperava o método empírico.
Duas palmas sonoras cortaram o zumbido dos aparelhos. O professor Brandão, coordenador-chefe do departamento e uma das poucas mentes acadêmicas que Rafaela respeitava profundamente na instituição, caminhou até o centro do laboratório com um sorriso largo que contrastava com sua habitual rigidez.
— Atenção, pessoal, por favor — Brandão pediu, ajeitando o jaleco impecavelmente branco. Quando todos os alunos se aproximaram, ele ergueu um envelope timbrado. — Acabo de receber a confirmação da reitoria. A UC foi oficialmente selecionada para sediar a Feira Anual de Microbiologia e Projetos Científicos, a FMPC, daqui a três semanas. E o nosso projeto de bioprospecção fúngica ganhou a vaga de destaque para a apresentação de abertura.
Um burburinho animado tomou conta do lugar. Rafaela sentiu uma onda de expectativa pura atingi-la.
— E para quem precisa de um incentivo extra — Brandão continuou, fixando os olhos orgulhosos diretamente em Rafaela —, o comitê avaliador confirmou que o projeto vencedor receberá uma credencial com custeio integral para o Simpósio Internacional de Biotecnologia na Alemanha, além da extensão da bolsa de iniciação científica para o próximo ano. Então, mãos à obra.
Os olhos de Rafaela brilharam instantaneamente. Toda a postura defensiva e cansada que ela vinha carregando evaporou. Sua energia mudou no ato. Ela girou nos calcanhares e marchou em direção à mesa redonda nos fundos do laboratório, onde Théo e Mariana, seus dois colegas de projeto mais focados, já a esperavam com os notebooks abertos.
— Esqueçam o cronograma antigo — Rafaela disparou, gesticulando com rapidez, as palavras saindo repletas de um entusiasmo real que ela raramente mostrava fora daquelas paredes. — Se a gente quiser aquela vaga na Alemanha, precisamos isolar os metabólitos desse fungo e montar a cultura até sexta-feira. Théo, você consegue rodar os testes de inibição antimicrobiana na estufa ainda hoje?
— Consigo, mas o meio de cultura Sabouraud está no fim — Théo alertou, digitando rápido.
— Eu preparo mais duas placas agora mesmo — Mariana interveio, contagiada pelo ritmo.
— Perfeito. Enquanto vocês cuidam do plaqueamento, eu fico responsável por plotar os gráficos de dispersão dos metabólitos e estruturar o layout do banner científico — Rafaela comandou, assumindo a liderança do grupo.
Eles estavam discutindo táticas. Uma estratégia de ataque tão meticulosa quanto a de qualquer time de futebol em um vestiário pré-jogo, mas ali, as armas eram pipetas automáticas e análise de dados.
— Se demonstrarmos a capacidade desse fungo de inibir as bactérias de forma visualmente limpa, a banca não vai ter como contestar nosso resultado.
No meio de um debate acalorado sobre o design do experimento e o tempo de incubação nas estufas, um som abafado cortou a empolgação de Rafaela. O celular, guardado no bolso lateral do seu jaleco, vibrou de forma insistente.
Ela o puxou, esperando encontrar alguma notificação do grupo da faculdade, mas era apenas o visor do alarme. 11:50h.
O lembrete digital era um banho de água fria: em exatamente uma hora, o seu expediente na Páginas & Prosa começaria.
A transição no humor de Rafaela foi imediata. Seus ombros relaxaram da postura imponente, e ela soltou o ar devagar, os olhos castanhos fixando-se no gráfico inacabado na tela do computador. A fisgada familiar de dualidade apertou seu peito com força. A sua vida acadêmica brilhante, em que ela ditava as regras e liderava projetos rumo ao exterior, estava prestes a colidir mais uma vez com o seu cronograma rígido de classe trabalhadora. Ela tinha que tirar o jaleco, guardar as lâminas, pegar um ônibus lotado e passar a tarde organizando prateleiras de romance contemporâneo por um salário mínimo.
E o pior: ela sabia que, quando o relógio marcasse nove da noite, a engrenagem CLT daria lugar a outra colisão. O Corolla prata de Gabriel estaria parado na calçada, esperando por ela.
⚽📖⚽
21h em ponto, o carro estacionou na calçada oposta à livraria. Gabriel desligou o motor, mas manteve as mãos firmes no volante, o peito contraído por uma ansiedade incômoda. Ele passou a tarde inteira ensaiando mentalmente como quebraria o gelo se ela entrasse no carro com aquela mesma expressão gélida da noite de segunda. No console central, o copo térmico com o blend de avelã exalava um aroma doce.
A sineta da porta da livraria badalou, e Rafaela cruzou o limite da calçada, ajeitando a mochila nos ombros. Gabriel desceu do carro imediatamente, pegando o café. Ele se encostou na lataria, esperando o habitual semblante exausto ou a defensiva armada.
Porém, para o seu choque absoluto, nada disso veio.
Assim que Rafaela localizou o carro e viu o copo na mão dele, os olhos castanhos se iluminaram. Um sorriso aberto e sem filtros curvou a linha dos lábios dela. Ela atravessou a rua quase sem hesitação e aceitou o copo que ele estendeu.
— Eu estava ansiosa por esse café hoje — ela falou, os olhos presos ao copo antes de subirem para o rosto dele. — Duarte, você acabou de salvar a nossa noite de estudos.
Ela deu a volta e entrou no carro com uma leveza inédita. Gabriel piscou duas vezes, paralisado na calçada, antes de assumir o banco do motorista. Aquilo era bizarro. Para ele, Rafaela só operava em dois estados de espírito: ou estava terrivelmente cansada, ou profundamente irritada com a existência dele. Vê-la empolgada, sorridente, vibrando uma energia que ele ainda não conhecia, o deixou completamente surpreso.
Ele deu a partida, observando-a pelo canto do olho enquanto tirava o carro da vaga. Rafaela deu o primeiro gole no café, soltando um murmúrio de aprovação que fez o estômago de Gabriel dar uma volta estranha.
— O que aconteceu? — ele perguntou, a voz grossa quebrando o silêncio. — Achei que você ia entrar aqui querendo me morder por causa dos boatos do campus.
— A ciência aconteceu — ela respondeu de imediato, virando o corpo na direção dele. — Fomos selecionados para a FMPC. O Brandão confirmou hoje. Nosso projeto de bioprospecção fúngica vai abrir a feira e o prêmio principal é um custeio integral para um simpósio na Alemanha, Gabriel. Na Alemanha!
Gabriel não fazia a menor ideia do que era "bioprospecção fúngica", mas a forma como a voz dela subiu um tom e o brilho febril nos olhos dela eram magnéticos. Ele se pegou sorrindo junto, uma reação automática ao ver o entusiasmo puro da garota.
— Alemanha? Nossa, Rafa. Isso é... incrível — ele disse, usando o apelido com naturalidade. — Então a nerdzinha vai virar internacional?
— Se o Théo não estragar o meio de cultura Sabouraud e a gente conseguir isolar os metabólitos a tempo, sim — ela riu, uma risada curta e leve que fez o coração de Gabriel errar a sincronia por um segundo. — Então, hoje eu estou de excelente humor.
Ela deu mais um gole no café, recostando-se no banco e olhando de lado para ele com um brilho desafiador nos olhos.
— Isso significa que você deu sorte, Duarte. Hoje eu estou tão inspirada que sou capaz de fazer até a parede entender o planejamento motor e as vias descendentes. Prepare-se, porque se você se comportar e entender como o seu córtex manda sinal para as suas pernas correrem em campo, eu posso até te deixar usar as minhas canetas coloridas caras de ponta fina para fazer os esquemas no caderno.
Gabriel soltou uma risada autêntica, a primeira em dias, sentindo o peito leve de um jeito que nem a melhor partida de futebol da sua vida conseguiria proporcionar.
— Canetas coloridas? Caramba, que privilégio — ele ironizou, mas o meio sorriso grudado em seus lábios entregava que ele aceitaria de bom grado qualquer punição ou recompensa que viesse dela naquela noite. — Então é melhor eu me concentrar. Não quero ser banido do clube das canetas de ponta fina antes mesmo de entrar.
O trajeto até Santa Rosa voou. O silêncio dentro do carro era preenchido pelos detalhes que ela contava sobre o laboratório e pelas perguntas desajeitadas que ele fazia sobre o tal fungo.
Gabriel estacionou e subiu os degraus de concreto, acompanhando o ritmo de Rafaela. Ela girou a chave na maçaneta e empurrou a porta, acendendo as luzes da sala e jogando as chaves e a mochila no canto do balcão. Sem perder tempo, ela ativou o que Letícia chamaria de "skin monitora". O entusiasmo com a feira parecia ter injetado uma dose extra de cafeína em seu sistema.
Eles se sentaram à mesa, e Rafaela realmente cumpriu a promessa. Espalhou suas canetas e abriu o tratado de Fisiologia, gesticulando com o canetão azul na mão.
— Pensa comigo, Duarte. O seu técnico grita na lateral do campo, mandando você chutar. Onde esse comando nasce? No córtex pré-motor, que faz o planejamento do movimento. Mas o sinal não brota na sua perna por mágica. Ele precisa descer pelo trato corticoespinal lateral. Se a sinapse falhar no meio do caminho, você chuta o vento. Entendeu a lógica?
Gabriel, surpreendentemente, estava acompanhando cada linha. Seus olhos escuros não saíam do papel. Ele pegou uma das canetas coloridas — sob o olhar atento de Rafaela, que vigiava a integridade da ponta — e rabiscou uma seta no caderno.
— Então, se eu quebro o tornozelo ou levo uma pancada feia que afete o nervo periférico, o comando do meu cérebro continua intacto, mas o efetor não responde. É por isso que o cara tenta levantar depois de uma lesão e a perna simplesmente cede? — ele perguntou, certeiro.
Rafaela piscou, impressionada com a velocidade da dedução. Um olhar orgulhoso, aquele que Gabriel estava secretamente torcendo para ver, iluminou as feições dela.
— Exatamente! Você acabou de descrever uma lesão de neurônio motor inferior. Viu só? Não é nenhum bicho de sete cabeças.
Eles continuaram nesse ritmo por mais meia hora, uma dança de conceitos científicos misturados com táticas de campo, até que o estômago de Rafaela começou a protestar contra as horas seguidas de laboratório e o turno direto na livraria.
Antes que a fome ficasse audível, ela tampou a caneta azul e se levantou.
— Nossa, eu estou morrendo de fome — ela disse, caminhando até o armário de metal da cozinha. — Você se importa se eu preparar alguma coisa rápida para comer? A gente faz uma pausa de dez minutos.
Gabriel assentiu com um aceno leve, recostando-se na cadeira com uma postura relaxada, observando o movimento dela com um meio sorriso complacente.
— Por mim, tranquilo. Acho que meu trato corticospinal também precisa de uma trégua.
— Você está com fome? Posso fazer um para você também. Qual você prefere? Galinha caipira ou tomate? — ela perguntou, virando-se com duas embalagens de macarrão instantâneo nas mãos.
Gabriel a encarou incrédulo, deixando a caneta sobre a mesa, mirando os dois pacotes como se fossem duas ogivas nucleares.
— Essa vai ser a sua janta?
— É o que tem para hoje, Duarte. E não desdenha, o de tomate é elite — ela rebateu, defendendo o pacote com um orgulho que fez o meio sorriso dele se alargar. — Vai querer ou vai ficar aí julgando meus hábitos alimentares?
— Se o meu preparador físico sonhar que eu engoli o equivalente a três dias de sódio em três minutos, ele me corta do treino de amanhã. — Gabriel empurrou a cadeira para trás e se levantou, aproximando-se do balcão. Ele avaliou o armário e depois voltou os olhos para ela. — Você tem macarrão de verdade aí? E os ingredientes para fazer um molho rápido?
Rafaela o fitou, arqueando uma sobrancelha, tomada por um ceticismo instantâneo.
— Você sabe cozinhar? Porque eu não estou a fim de acionar o seguro do apartamento se você botar fogo na minha cozinha.
Ele encostou o quadril na bancada e sustentou o olhar da garota, achando graça da falta de fé dela.
— Tem ou não tem, Rafaela?
— Tem — ela cedeu, revirando os olhos, mas com um sorriso se desenhando nos lábios.
Ela abriu a despensa e a geladeira, pegando um pacote de espaguete, uma caixa de extrato de tomate, alho, cebola e um pedaço de queijo. Gabriel pegou os ingredientes, lavou as mãos e apontou com o queixo na direção da mesa, assumindo o controle do fogão com uma naturalidade surpreendente.
— Agora senta lá e continua a explicação enquanto eu cuido disso.
A contragosto, Rafaela obedeceu. Ela voltou para a cadeira e abriu o livro, mas a sua concentração estava dividida. Era hipnótico observar aquele homem massivo, que costumava ocupar os espaços com tanta imponência, picando o alho com precisão e controlando o fogo com paciência. Enquanto as vias motoras e o cerebelo ganhavam voz na leitura dela, o som do molho borbulhando ditava o ritmo.
Vinte minutos depois, um cheiro maravilhoso de temperos preencheu cada canto do pequeno apartamento. Gabriel desligou o fogo e, com um toque quase profissional, montou os pratos. Ele colocou uma porção generosa de macarrão com bastante molho de tomate na frente dela e depois se serviu, sentando-se na cadeira oposta.
Rafaela olhou para o prato de forma desconfiada, analisando a consistência. Mas o aroma era simplesmente irresistível, e seu estômago protestou mais uma vez. Ela resolveu arriscar. Enrolou os primeiros fios no garfo, levou à boca e, no mesmo instante, arregalou os olhos castanhos, totalmente surpresa. O sabor que preencheu sua boca era incrível. Tudo bem que era apenas macarrão com molho industrializado, mas o toque de alho dourado no ponto certo e o equilíbrio do tempero transformaram aquilo em um banquete.
— Nossa... — ela deixou escapar assim que engoliu, sem conseguir disfarçar o choque, e já avançou para a segunda garfada.
— Ficou tão elite quanto o macarrão instantâneo de tomate? — Gabriel provocou, exibindo uma expressão convencida e vitoriosa enquanto enrolava a massa no próprio garfo.
— Ficou muito bom — ela admitiu, rendendo-se às habilidades culinárias do capitão.
Nesse exato momento, a fechadura da sala deu um estalo. Letícia entrou no apartamento falando alto, chutando os sapatos na entrada com a exaustão típica do fim do dia, até que travou os passos ao ver os dois sentados à mesa, jantando juntos.
— Que cheiro maravilhoso é esse? — Letícia semicerrou os olhos, os resquícios de cansaço sumindo diante da visão do prato. — Você fez o jantar, Rafa? Ah, eu te amo!
— Não fui eu — Rafaela respondeu, com a boca meio cheia e apontando o garfo na direção do rapaz. — Ao que parece, o Duarte é algum tipo de gênio incompreendido da culinária. Você precisa provar esse macarrão.
Rafaela estendeu o garfo com um punhado de massa para a amiga, que abriu a boca e aceitou a garfada de imediato. Letícia mastigou devagar, fechando os olhos enquanto processava o sabor, e soltou um pequeno som de pura satisfação.
— Por favor, me diz que tem mais? — Letícia implorou, juntando as mãos em um gesto dramático. — Duarte, se você quiser largar a Educação Física e virar nosso chef particular, o cargo é seu. Eu pago a minha parte em elogios.
Gabriel soltou uma risada grave, divertindo-se com o teatro das duas, e apontou com o polegar na direção do fogão.
— Pode raspar a panela, Letícia. Tem o suficiente para mais um prato cheio lá.
— Um brinde ao Trato Corticospinal! — Letícia comemorou, soltando uma piada interna que só Rafaela entendeu, e correu para pegar um prato no armário antes que o molho esfriasse.
Rafaela balançou a cabeça, rindo da empolgação da amiga, e voltou a focar em Gabriel. A atmosfera na cozinha tinha mudado completamente; a rigidez acadêmica e a tensão defensiva tinham dado lugar a uma cumplicidade confortável, embalada pelo som de Letícia atacando o espaguete no balcão e pelo aroma de alho que ainda pairava no ar.
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O percurso de volta para o condomínio dos atletas pareceu durar apenas cinco minutos. Gabriel estacionou e pegou o elevador, segurando a chave entre os dedos, com o corpo relaxado e um meio sorriso persistente que ele sequer percebia que carregava no rosto.
Assim que empurrou a porta da sala, deu de cara com Diego jogado no sofá de couro. Ele gesticulava com as mãos, falando alto ao telefone em um espanhol rápido e arrastado com alguma amiga. No segundo em que viu Gabriel cruzar o batente, Diego mudou de postura. Ele soltou uma risada abafada no aparelho, despediu-se rapidamente e desligou a ligação, jogando o celular no estofado.
Gabriel ignorou a movimentação e caminhou direto para a cozinha em busca de um copo d'água. Diego veio logo atrás.
— . Eu e o Daniel tentamos fazer o jantar. Já aviso que ficou uma porcaria, mas tá valendo. Vai querer? — Diego perguntou, indicando os recipientes em cima do fogão.
— Valeu, cara, mas não — Gabriel respondeu, virando o copo de água de uma vez e limpando os lábios com as costas da mão. — Eu já jantei com a Rafa.
Ele travou com o vidro ainda nos dedos, percebendo o deslize na fração de segundo em que o apelido dela escapou de sua boca.
Diego ergueu as sobrancelhas, os olhos brilhando com uma malícia puramente competitiva. Ele se aproximou, analisando a expressão do capitão com um sorriso de canto que fez os ombros de Gabriel ficarem tensos.
— Ah, que romântico. Você jantou com a Rafa! E que sorrisinho é esse, Duarte? — Diego disparou, soltando uma risada rasteira.
Gabriel colocou o copo pesado sobre a pia com um baque seco. A palavra "romântico" bateu com um peso desconfortável, mas ele rapidamente empurrou o incômodo para escanteio, vestindo sua habitual fachada de líder.
— Não viaja, Diego — cortou, a voz subitamente fria, endurecendo o semblante. Ele passou pelo amigo de ombro largo, avançando em direção às escadas. — Não tem porra de sorriso nenhum. A gente só estava estudando e eu fiz um macarrão porque a garota estava trabalhando até tarde e não tinha nada decente para comer. Só isso.
— Ah, claro. O nosso chef oficial agora faz trabalho comunitário fora de casa? — Diego foi atrás dele, rindo alto da irritação óbvia do capitão. — Cara, eu e o Daniel quase implodimos a cozinha tentando fritar um bife e você lá fazendo jantinha para a monitora ranzinza? Tu não engana ninguém, Duarte. Assume logo. Já tá caidinho.
Gabriel girou o corpo, os olhos escuros faiscando com uma seriedade repentina. O orgulho falava alto, e ele não ia dar o braço a torcer sobre a aposta, muito menos admitir que as noites na cozinha de Rafaela vinham mexendo com ele de um jeito esquisito.
— Eu não estou caidinho por ninguém, Diego. É só estratégia — Gabriel mentiu, olhando firme para o amigo para encerrar o assunto. — O Santana tá no meu pé e a garota é difícil de dobrar. Se eu não fingir que sou um cara legal, ela me chuta da monitoria antes da prova e eu perco a vaga de titular. Só estou garantindo o meu lado.
Diego ergueu as mãos em sinal de rendição, rindo, mas recuando um passo diante do tom cortante do capitão.
— Calma lá, bicho. Foi mal. Negócios são negócios. Só não demora muito para liquidar essa fatura, porque seu tempo está acabando.
— Deixa que do meu cronograma cuido eu — Gabriel sibilou.
Ele entrou no próprio quarto e bateu a porta com força, jogando a chave do carro em cima da cômoda. O silêncio do cômodo escuro não ajudou a acalmar sua mente. Ele sentou na beirada da cama e enterrou o rosto nas mãos, sentindo uma irritação confusa crescer dentro dele. Ele repetia para si mesmo que era tudo pela matéria, pela vaga e pela porcaria da aposta, mas o gosto daquela vitória parecia estranhamente amargo na sua boca.
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