AMOR EM CAMPO

63 Capítulo 65: Amor Em Campo


Notas iniciais
Chegamos ao último capítulo. 😭 Confesso que estou escrevendo estas linhas com o coração apertado. Parece que foi ontem que Rafaela e Gabriel deram os primeiros passos nessa história, e agora estamos aqui, prestes a acompanhar as últimas páginas da jornada deles. Obrigada por terem chegado até aqui comigo. Aproveitem os momentos finais dessa história. Boa leitura! 💙

O corredor do prédio de Biológicas parecia mais longo do que o normal, e o cheiro de formol atacava os nervos de Rafaela. Ela apertava o pendrive na mão como se fosse um amuleto de sorte. Seus dedos estavam gelados, e toda vez que seu coração batia mais forte, o trauma do hospital voltava: E se eu apagar de novo? E se minhas pernas cederem na frente dos professores?

— Ei, respira. — A voz de Gabriel surgiu ao lado dela, calma e sólida.

Ele estava encostado na parede, usando um moletom dos Falcões que parecia deslocado naquele ambiente de óculos de grau e jalecos. Ele percebeu o tremor nas mãos dela e as envolveu com as suas, transmitindo um calor que nenhuma cafeína conseguiria dar.

— Eu sinto que vou desmoronar, Gabe. Minha cabeça está girando.

— Não vai. Sabe por quê? Porque você treinou na retranca a semana toda. — Ele inclinou o rosto, forçando-a a olhá-lo nos olhos. — Você é a planta do deserto, lembra? Você economizou energia, se hidratou e agora é a hora de abrir os estômatos e mostrar para esses professores quem é que manda no ecossistema.

Rafaela soltou um riso frouxo, a tensão diminuindo um milímetro.

— Você e suas analogias de futebol...

— Funcionam, não funcionam? — Ele deu um beijo rápido e estalado na testa dela. — Agora entra lá e marca esse gol. Eu vou estar bem aqui.

A sala estava cheia. O professor Silveira, conhecido por reprovar alunos apenas pelo prazer da retórica, ajustou os óculos e fez sinal para que ela começasse.

Rafaela subiu ao tablado. Suas pernas fraquejaram por um segundo, mas ela respirou fundo e conectou o pendrive. Quando o primeiro slide brilhou na tela branca — "Estratégias de Sobrevivência: Fotossíntese em Ambientes de Estresse Hídrico" — a voz do Gabriel ecoou em sua mente: "É um time jogando fechado para não perder o jogo pro sol."

Ela começou a falar. A princípio, a voz saiu trêmula, mas, conforme explicava como as plantas suculentas "seguravam o jogo" durante o dia para sobreviver ao calor extremo, ela se sentiu no comando. Ela usou a lógica da defesa e o contra-ataque que discutiu com Gabriel na mesa da cozinha transformaram termos técnicos em uma narrativa viva.

A banca estava hipnotizada. Até o professor Silveira parou de rabiscar para prestar atenção.

— ...e é assim que a vida se mantém, onde tudo parece conspirar contra ela — Rafaela finalizou, a voz agora firme e vitoriosa. — Por meio da resiliência e da estratégia certa. Obrigada.

O silêncio que se seguiu foi quebrado não por palmas educadas, mas por um assobio alto vindo do fundo da sala.

— ISSO AÍ, PORRA! É A MINHA NERD! BOA, RAFAELA!

Gabriel estava de pé lá atrás, as mãos em concha ao redor da boca, gritando como se estivesse na arquibancada do Maracanã após um gol nos acréscimos. Ele agitava um braço no ar, com um sorriso de orelha a orelha, ignorando completamente as regras de etiqueta acadêmica.

A sala inteira se virou. O rosto de Rafaela parecia estar pegando fogo. Os cochichos começaram instantaneamente: "Aquele é o Gabriel Duarte?", "Eles voltaram mesmo?", "Meu Deus, ele é muito mais alto de perto..."

Rafaela sentiu um misto de gratidão e uma vontade imensa de se enfiar em um buraco. Ela olhou para ele, cerrando os dentes e gesticulando freneticamente para baixo com as mãos.

— Senta e cala a boca, Gabriel!— ela articulou silenciosamente, movendo apenas os lábios com uma expressão de "eu vou te matar".

Gabriel soltou uma gargalhada, mas obedeceu, sentando-se com o peito estufado de orgulho, enquanto o professor Silveira limpava a garganta, tentando disfarçar um sorriso raro.

— Bom... — disse o professor. — Parece que a senhora Andrade tem uma torcida organizada. E, baseado na qualidade da apresentação, eu diria que a torcida tem toda razão de comemorar. Nota máxima, Rafaela.

Ela desceu do tablado com o coração flutuando. A "estratégia de sobrevivência" tinha funcionado. E o prêmio estava lá no fundo, esperando por ela com um brilho nos olhos que valia mais do que qualquer nota dez.

📚📚📚


A manhã de sábado na cozinha de Rafaela tinha um cheiro diferente. Era o cheiro do café forte e da expectativa silenciosa que precede uma grande batalha. Gabriel tinha cumprido o combinado e voltado para casa na sexta-feira, mas o som da porta batendo às sete da manhã avisou que ele não conseguiria ir para o estádio sem vê-la primeiro. Ele apareceu com uma sacola da padaria e a sua camisa número 10 reserva na mão.

Ele parecia maior, mais imponente, pronto para recuperar o território que quase perdeu.

Olhou para o relógio e depois para Rafaela, que ainda vestia seu pijama de flanela, sentada à mesa com uma caneca entre as mãos, encarando a camisa dos Falcões dobrada ao seu lado.

— Ei... — ele chamou, a voz suave, mas carregada de uma esperança contida. — Você não vai se trocar? O ônibus do time sai em quarenta minutos.

Rafaela suspirou, o vapor do café subindo como uma névoa entre eles.

— Gabe... eu não sei se consigo. — Ela finalmente o encarou, e o conflito em seus olhos era doloroso. — Depois da minha apresentação, o meu nome não saiu da boca de ninguém no campus. "A Nerd e o Gabriel", "A volta triunfal". Eu sinto que, se eu aparecer naquela arquibancada hoje, usando a sua camisa e gritando seu nome, eu vou estar assinando um atestado de que não tenho um pingo de amor-próprio depois de tudo o que aconteceu.

Gabriel sentiu o baque. O brilho nos olhos dele oscilou, uma sombra de culpa cruzando seu rosto. Ele sabia que o "tudo o que aconteceu" ainda era uma ferida aberta, não importava quantos sucos ele fizesse ou quantas citações ele revisasse.

— Eu entendo — ele disse, por fim, forçando um sorriso que não alcançou os olhos. Ele caminhou até ela e beijou o topo de sua cabeça, um toque demorado. — Você tem razão. Eu prometi respeitar o seu tempo e o seu espaço, e o julgamento do campus é uma merda. Não quero que você se sinta exposta ou que sinta que cedeu por pressão. Fica aqui, descansa. Se eu entrar em campo hoje, vou tentar marcar um para você, mesmo que você só veja pelo celular.

Ele pegou a mochila, jogou-a sobre o ombro e saiu. O som da porta fechando ecoou, deixando um silêncio opressor para trás.

OEstádio Municipal estava em chamas. O rugido da torcida era constante, uma massa de som que vibrava nos ossos. No banco de reservas, Gabriel mantinha o olhar fixo no gramado, com as mãos inquietas sobre os joelhos. Ele estava de volta, mas sentia que faltava uma peça no motor.

Enquanto isso, no silêncio do quarto, Rafaela não conseguia se concentrar em uma única linha do livro de Genética à sua frente. As palavras dançavam, transformando-se na imagem de Gabriel parado no corredor da faculdade, enfrentando os olhares de deboche dos acadêmicos só para segurar a mão dela.

Ela lembrou do cheiro de canja que ele fazia todas as noites depois que ela saiu do hospital. Lembrou dele lendo sobre estômatos e poros vegetais como se fosse o regulamento da FIFA, só para que ela não se sentisse despreparada para a apresentação. Lembrou do grito dele na sala — "ISSO AÍ, PORRA!" — desafiando toda a etiqueta acadêmica por ela.

— Que se foda o que eles pensam — ela sussurrou para as paredes vazias.

Ela se levantou em um salto, a adrenalina finalmente vencendo a hesitação. Correu até o armário e puxou a camisa com o número 10 e o nome dele bordado nas costas. O tecido ainda tinha o perfume dele.

Ela não pegou o ônibus. Pegou um Uber, pedindo para o motorista correr como se a vida dele dependesse daquilo. Na transmissão ao vivo que Rafaela havia colocado no celular, o locutor esportivo gritava: "Substituição nos Falcões! Sai, Mateus; entra o Gabriel. Que pisa no gramado após dois meses de suspensão!"

Rafaela sentiu o estômago contrair.

— Rápido, por favor! — ela implorou, enquanto o carro costurava o trânsito em direção ao estádio.

Ela não ia apenas torcer. Ela ia mostrar que a "nerdzinha" sabia exatamente o valor do homem que estava naquele campo, e que nenhum comentário maldoso no corredor da faculdade era mais forte do que o que eles tinham construído entre uma briga, um desmaio e um prato de canja.

⚽⚽⚽

O amistoso contra a equipe da Politécnica não tinha o glamour da semifinal, mas, para Gabriel, era como se fosse a final da Copa do Mundo. Ele começou no banco. Passou o primeiro tempo inteiro observando o técnico Moura, que mantinha os braços cruzados e o semblante de pedra.

No segundo tempo, aos trinta minutos, com o jogo empatado em 0 a 0 e o time da Central batendo cabeça, Moura finalmente se virou.

— Duarte. Aquece.

O estádio pequeno tinha apenas alguns alunos e curiosos, mas, quando Gabriel entrou em campo, o canto da torcida foi substituído por alguns burburinhos. Ele não entrou correndo como se fosse o salvador da pátria. Ele entrou como um operário.

Aos quarenta e dois minutos, o lance aconteceu. Gabriel recebeu a bola no meio de campo. Três marcadores fecharam o cerco. O "antigo Gabriel" teria tentado um drible de efeito para sair na capa do jornal. O "novo Gabriel" levantou a cabeça. Ele viu a brecha. Ele viu o Diego partindo em velocidade, exatamente como eles faziam nos treinos de madrugada.

Com um toque de primeira, um passe milimétrico que cortou a zaga como um bisturi, ele serviu o amigo. Diego dominou, girou e estufou a rede.

Gol.

O estádio explodiu em um grito aliviado. Diego não correu para a torcida. Ele correu em direção ao campo de defesa, apontando para Gabriel. Daniel e os outros se juntaram a eles em um abraço coletivo que cheirava a suor e redenção.

— O capitão voltou! — Daniel gritou no ouvido dele.

— Não — Gabriel respondeu, enquanto recebia o tapa no ombro do Diego. — O jogador voltou. O capitão ainda tem muito o que caminhar. Agora bora jogar, que ainda não acabou.

Na lateral do campo, ele viu Moura dar um aceno quase imperceptível com a cabeça. Gabriel sorriu, mas, quando olhou para a pequena arquibancada, seu coração murchou. A Rafaela não estava lá.

Ele sabia que não estaria.

O apito final cortou o ar, selando a vitória dos Falcões: 1 a 0. O estádio era uma massa de som e cor, e Gabriel sentiu o impacto dos corpos dos companheiros de equipe se chocando contra o seu em abraços e tapas de comemoração. Diego, o autor do gol, gritava algo em seu ouvido sobre a assistência perfeita que Gabriel dera, mas ele parecia estar em outra sintonia.

As palavras dela naquela manhã — "assinando um atestado de que não tenho um pingo de amor-próprio" — ainda latejavam em sua mente, mais doloridas que qualquer entrada dura que sofrera durante a partida. Ele entendia. Ele a tinha quebrado primeiro, e agora o conserto levava tempo e coragem que ele não tinha o direito de exigir.

Enquanto caminhava para o túnel, ensopado de suor e com a adrenalina baixando para dar lugar a um vazio estranho, um repórter do UC Notícias, o jornal oficial da universidade, bloqueou seu caminho com um celular estendido.

— Oi, Gabriel! Podemos dar uma palavrinha com você? — O rapaz parecia ansioso, os olhos brilhando com a chance de uma exclusiva com o homem do dia.

Gabriel parou, respirando fundo. Ele queria apenas o chuveiro e o silêncio, mas sabia que aquele microfone falava diretamente para o campus. Falava para quem a julgava.

— Claro. Manda ver.

— Uma assistência decisiva logo no retorno. Como é a sensação de estar de volta e como você lida com os comentários sobre o seu... comportamento extracampo ultimamente? — O repórter tentou ser diplomático, mas a pergunta tinha um alvo claro: a confusão que o levou à suspensão.

Gabriel olhou fixamente para a lente da câmera por um segundo. Ele não recuou.

— A sensação de voltar é boa, mas a de aprender é melhor. — Ele fez uma pausa, a voz ganhando um tom mais grave e honesto. — Muita gente foca no meu desempenho em campo, mas o jogo de verdade acontece lá fora. Eu cometi erros, decepcionei o meu time, o meu treinador e a mulher que me deu os cartões vermelhos que eu merecia. Se eu estou pisando nesse gramado hoje, é porque existe uma mente brilhante por trás da minha volta. Alguém que me ensinou, na marra, que estratégia e resiliência valem muito mais do que força bruta.

O repórter inclinou a cabeça, captando o gancho emocional.

— Está falando daquela cena no prédio de Biologia ontem? A torcida está comentando...

— Estou falando de alguém que é foda demais para ser reduzida a um boato — Gabriel interrompeu, com um sorriso de lado que era metade orgulho, metade proteção. — Se eu dei essa assistência hoje, foi porque ela me ensinou que, às vezes, a melhor jogada é saber esperar o momento certo de agir. Ela é a nerd; eu sou só o cara tentando acompanhar o ritmo dela. Se alguém tiver que julgar algo, que julgue a minha sorte de tê-la por perto.

Ele deu um tapinha no ombro do repórter e seguiu para o vestiário, deixando o rapaz com a melhor manchete do semestre nas mãos.

Enquanto isso, do lado de fora do estádio, Rafaela descia do Uber com o coração na boca. O som da torcida saindo indicava que ela tinha chegado tarde demais. Ela caminhou contra o fluxo, a camisa 10 pesando nos ombros, sentindo-se pequena e derrotada.

Ela pegou o celular para mandar uma mensagem de desculpas, mas a notificação do portal UC Notícias brilhou na tela: "Ao vivo: Gabriel Duarte dedica vitória à 'mente por trás do Capitão' em declaração emocionante".

Rafaela parou no meio da calçada, os olhos se enchendo de lágrimas enquanto dava o "play" no vídeo. Ela assistiu aos segundos finais da entrevista com a mão sobre a boca, o peito subindo e descendo com uma força que quase a sufocava. Ele tinha feito aquilo. Tinha colocado o próprio orgulho no chão diante de toda a universidade só para protegê-la dos boatos.

— Rafa? — Uma voz feminina conhecida surgiu atrás dela.

Rafaela virou-se num susto, limpando o rastro de uma lágrima com as costas da mão.

— Sabrina? — Ela deu um passo na direção da amiga, o desespero e a urgência transbordando no olhar. — Onde ele está? O jogo acabou e... eu cheguei tarde, o portão da arquibancada já fechou...

Sabrina sorriu, cruzando os braços e avaliando a amiga da cabeça aos pés, demorando-se na camisa número 10 larga que Rafaela usava. O brilho de cumplicidade nos olhos dela entregava que ela sabia exatamente a quem Rafaela estava se referindo.

— O ônibus do time está no estacionamento privativo dos fundos; os caras já estão subindo com as malas. Se você correr, ainda o pega antes de darem a partida. Vem comigo, eu conheço o atalho pelo corredor dos vestiários! — Sabrina descruzou os braços e segurou o pulso de Rafaela com firmeza, puxando-a.

Rafaela não pensou duas vezes. Deixou-se guiar pela amiga, as duas correndo contra o fluxo de torcedores que deixava o estádio. Cada passo fazia o coração de Rafaela martelar contra o peito, não por cansaço físico, mas pela adrenalina pura de saber exatamente o que precisava dizer.

Elas cruzaram o portão de ferro que dava acesso à área interna. Sabrina parou, soltando o pulso dela com um empurrãozinho encorajador.

— Vai lá — Sabrina disse, piscando para ela. — Vai buscar o teu Capitão.

O estacionamento privativo do estádio ainda fervilhava. O ônibus dos Falcões estava com o motor ligado, roncando baixo, enquanto jogadores, comissão técnica e alguns repórteres remanescentes se aglomeravam entre os carros. Gabriel saiu do vestiário com a bolsa esportiva pendurada no ombro, o cabelo úmido e o olhar perdido no asfalto. Ele tinha acabado de dar a entrevista da sua vida, mas o silêncio do celular em seu bolso pesava mais que qualquer troféu.

Até que um som agudo cortou o burburinho das conversas.

Um assobio alto, firme e perfeitamente executado ecoou pela lateral do ônibus, seguido por palmas ritmadas que fizeram várias cabeças se virarem simultaneamente.

Gabriel parou, o coração disparando contra o peito. Parada perto da grade, iluminada pelos refletores alaranjados, estava Rafaela. Ela parecia minúscula e, ao mesmo tempo, gigante dentro da camisa do time que Gabriel dera para ela.

Ela levou as mãos em concha ao redor da boca, imitando exatamente o gesto que ele fizera no seminário, e gritou com toda a força dos seus pulmões:

— ISSO AÍ, PORRA! O CAPITÃO ESTÁ DE VOLTA. ESSE É MEU CAMISA 10!

Um coro de "Uhul!" E assobios subiram dos jogadores dos Falcões, que já estavam no ônibus. Diego e Daniel apareceram na janela, gritando e batendo na lateral do ônibus, celebrando a audácia da "nerdzinha".

Rafaela não se importou com os olhares curiosos ou com os flashes de celulares que começaram a brilhar. Ela atravessou a distância entre eles em uma corrida desajeitada e se jogou nos braços de Gabriel antes que ele pudesse sequer processar o choque.

Ele a suspendeu do chão no mesmo instante, enterrando o rosto na curva do pescoço dela. O calor da pele de Rafaela e aquele perfume suave, que ele agora identificava como o cheiro de sua "casa", o desarmaram completamente.

— Desculpa por não ter chegado a tempo, Gabe. Eu estava com tanto medo — ela sussurrou contra o ombro dele, as mãos apertando o tecido do seu casaco como se temesse que ele fosse um holograma. — Medo de ser a garota que perdoa o cara errado. Medo de ser motivo de piada no campus de novo.

Gabriel a desceu devagar, mas manteve as mãos firmes em sua cintura, recusando-se a criar qualquer centímetro de distância.

— Eu não sou mais aquele cara, Rafaela — ele murmurou, a voz rouca de uma emoção que ele não tentava mais esconder. — Aquele cara não sabia o que era ter medo real de perder alguém. Eu sei agora. Eu sinto esse medo todo dia desde que te conheci. Eu prometo que nunca mais vou te fazer passar por algo parecido novamente.

Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, os polegares traçando o caminho das lágrimas que insistiam em cair, limpando o rastro de sal com uma delicadeza que contrastava com sua estatura bruta.

— Eu te amo, Rafaela — ele falou, e um sorriso de lado, genuíno e absurdamente orgulhoso, surgiu em seus lábios. — E eu estou pronto para passar o resto dos meus dias provando isso para você.

— Eu também te amo, Gabriel. Mas se você me aprontar de novo, eu parto a sua cara — ela brincou, soltando um riso entrecortado por soluços de alívio.

— Combinado! — ele rebateu, antes de selar os lábios nos dela em um beijo que não tinha nada de contido. Era um beijo de posse, de perdão absoluto e de uma promessa silenciosa de que, a partir daquele momento, o jogo seria jogado por dois.

Daniel e Diego assistiam à cena de dentro do ônibus, pouco se importando com a privacidade do casal.

— É, meu amigo... o amor está no ar — comentou Daniel, observando a cena.

— Não. Está em campo — Diego corrigiu, antes de pôr a cabeça para fora da janela e berrar: — Ei, casal de pombinhos! Se não for pedir demais, será que tem como vocês se desgrudarem e entrarem no ônibus? A gente tá morto e quer ir para casa!

Eles sorriram um para o outro, abraçados sob a luz pálida do estacionamento, ignorando solenemente os pedidos de Diego. No meio do caos do estádio, eles tinham finalmente encontrado o seu próprio silêncio.


Fim.


Notas finais
E assim chegamos ao fim. Eu poderia dizer que esta é apenas mais uma história concluída, mas a verdade é que nunca é "apenas" uma história. Comecei a escrever essa história em um momento muito difícil da minha vida. Eu tinha acabado de perder alguém muito especial, e a escrita acabou se tornando um refúgio. De certa forma, Gabriel e Rafaela me ajudaram a atravessar um dos períodos mais sombrios que já vivi. Durante meses, eles fizeram parte da minha rotina. Estiveram comigo nos dias bons, nos dias difíceis, nos momentos em que as palavras fluíam com facilidade e também naqueles em que parecia impossível escrever uma única linha. E, aos poucos, eles também passaram a fazer parte da rotina de vocês. Por isso, meu mais sincero obrigada. Obrigada por cada leitura, cada visualização, cada comentário, cada mensagem e cada momento compartilhado ao longo dessa jornada. Vocês transformaram essa história em algo muito maior do que eu poderia imaginar quando escrevi as primeiras linhas. Fechar este ciclo traz uma mistura estranha de felicidade, gratidão e saudade. Porque, quando passamos tanto tempo acompanhando personagens, eles deixam de ser apenas personagens. Eles se tornam companhia. Agora é hora de dizer adeus a Gabriel e Rafaela, mas espero que algumas partes dessa história continuem morando com vocês por muito tempo, assim como eles continuarão morando em mim. Com todo o carinho do mundo, Até a próxima história. ❤️