AMOR EM CAMPO
64 Epílogo
Notas iniciais

O cheiro da lasanha recém-saída do forno preenchia a cozinha com uma sensação acolhedora, quase familiar. Era um contraste absurdo com o caos que tinha ditado o ritmo dos últimos meses.
— A lasanha da sua mãe — disse Gabriel, um toque nítido de orgulho na voz enquanto preenchia os pratos. — A mesma que ela serviu naquele feriado. Liguei para ela ontem e pedi a receita passo a passo.
Rafaela sorriu, sentindo um calor gostoso se espalhar pelo peito. Sua família não tinha ficado nem um pouco feliz quando descobriu o verdadeiro motivo do término do namoro, e a recepção foi ainda mais fria quando souberam da reconciliação. Saber que Gabriel tinha engolido o orgulho para ligar para a sogra significava o mundo.
— Ah, ela deve ter ficado no céu com essa ligação. E, honestamente? Está com uma cara ótima.
Um leve rubor subiu pelas bochechas de Gabriel. Ele desviou o olhar estrategicamente para disfarçar o embaraço.
— No céu não é exatamente a palavra que eu usaria, mas pelo menos ela não desligou o telefone na minha cara igual ao seu pai, e nem me deu o tratamento de silêncio implacável da Micaela.
Rafaela soltou uma risada baixa. Antes mesmo de darem a primeira garfada, ela esticou o braço por cima da mesa e roubou um pedaço de legume direto do prato dele, levando-o à boca com total informalidade.
— Considere isso uma vitória histórica, Gabe. Você quebrou o coração da filha mais velha deles, afinal. Vai ter que aguentar muito sinal de ocupado e muita cara feia se quiser continuar com o passe livre para o churrasco do meu pai nos feriados.
Enquanto jantavam, um silêncio confortável se instalou entre os dois. Gabriel a observava de soslaio, gravando cada gesto sutil de Rafaela, como se ainda precisasse se certificar de que ela realmente estava ali, ao seu alcance. Entre garfadas lentas e risadas contidas, algo precioso estava sendo reconstruído ali, tijolo por tijolo.
O momento doméstico, no entanto, foi interrompido pelo som da porta da frente se abrindo com uma violência barulhenta.
— Olha só quem está de volta! — Diego surgiu na cozinha, ostentando um sorriso que ocupava o rosto inteiro.
Daniel apareceu logo atrás, com uma postura bem mais contida, avaliando a cena com um meio sorriso cúmplice. Gabriel arqueou uma sobrancelha, fingindo irritação, mas não reclamou da invasão.
— Rafaela! — Diego se aproximou e sua expressão suavizou, perdendo um pouco da marra. — Que bom ver você aqui. E, uh... eu sei que já pedi desculpas antes, mas faço questão de repetir: foi mal por aquela aposta idiota, de verdade. Prometo que aprendi a minha lição.
Rafaela suspirou, sustentando o olhar do amigo de Gabriel por um instante antes de ceder.
— Que bom, Diego. E obrigada por dizer isso de novo. Significa muito.
— Sério agora... é bom ter você de volta, Rafa — Daniel acrescentou, aproximando-se da mesa e dando um soco amigável no ombro de Gabriel. — Até porque a gente não aguentava mais a maratona diária de autocomiseração desse cara. Era todo santo dia a mesma ladainha: “Eu estraguei tudo! Será que ela vai me perdoar? Cara, eu sou um idiota!”
— Ei! Eu definitivamente não falava assim! — protestou Gabriel, o rosto esquentando sob a risada imediata de Rafaela.
— Falava sim — Diego rebateu, rindo da cara do capitão. — E, para piorar, andava pela casa com uma expressão de cachorro que caiu do caminhão de mudança. Dava pena.
— Bom saber que fui lembrada com tanto drama e carinho — disse Rafaela, divertindo-se com o contra-ataque dos meninos.
O clima de descontração seguiu leve por alguns segundos, até que o cheiro forte de queijo tostado fisgou o nariz de Diego. Ele farejou o ar, os olhos brilhando ao focar no refratário em cima da mesa.
— Espera aí… isso é lasanha? Gabriel, você fez lasanha para o jantar? Tem mais?
Gabriel abriu a boca para responder, mas Daniel se adiantou com uma expressão perfeitamente impassível, segurando Diego pelo colarinho da camisa:
— Não, não tem. E, aliás, a gente está sem fome.
— Como assim sem fome? — Diego protestou, tentando se desvencilhar. — Eu estou morrendo de fome!
— Não, você não está — retrucou Daniel, mudando a tática e já o empurrando discretamente em direção à escada que dava para os quartos. — A gente está super satisfeito. Inclusive, já estávamos subindo para sumir rapidinho.
— Cara! Eu só quero um prato de lasanha! — Diego tentou se agarrar ao corrimão de madeira, olhando para trás indignado. — Você está agindo muito estranho! Por que está me escorraçando da cozinha?!
— Porque a gente não quer atrapalhar, seu imbecil! — Daniel respondeu, perdendo a paciência, descendo o tom em um sussurro irritado, sem olhar para trás enquanto arrastava o amigo degrau acima.
Lá embaixo, Rafaela balançou a cabeça, achando graça da cena.
— Eles nunca mudam, né?
— Não mesmo — Gabriel riu baixo, o som vibrando em seu peito enquanto estendia a mão por cima da mesa para cobrir a dela.
Depois de comerem, Rafaela se adiantou até a pia e ligou a torneira, ignorando completamente os protestos de Gabriel.
— A regra é clara, Duarte: quem cozinha não lava a louça. É uma lei universal, aceita, que dói menos.
Gabriel soltou uma risada anasalada, mas não recuou. Em vez disso, deu um passo à frente e a envolveu por trás. Seus braços fortes circularam a cintura dela, colando o peito largo contra as costas de Rafaela, enquanto os ombros dela eram tomados pelo calor dele. Ele usou uma das mãos para afastar os cabelos dela para o lado, deixando a nuca e o pescoço completamente expostos.
— Eu tinha um plano bem diferente para depois do jantar, Rafa — ele murmurou, a voz descendo uma oitava.
Rafaela sorriu, sentindo o rastro do hálito quente dele arrepiar sua pele, misturando-se à umidade morna da pia. Ela desligou a torneira devagar, deixando as mãos ensaboadas descansarem na cuba de inox.
— Sobremesa? — ela perguntou, tombando a cabeça de leve para trás, o tom carregado daquela ironia provocante que ele conhecia tão bem.
Gabriel soltou um riso rouco, puramente malicioso, contra a pele dela.
— Tipo isso...
O sussurro foi o único aviso antes de ele segurar sua cintura com firmeza, virá-la de frente e tomar seus lábios. Foi um beijo faminto, profundo, daqueles que cobravam com juros cada dia de distância. Rafaela soltou um suspiro abafado contra a boca dele e envolveu o pescoço do jogador com os braços, puxando-o para si. A força com que ele a segurava fez seu coração disparar num ritmo que nenhuma adrenalina de jogo jamais conseguiria alcançar.
Eles se perderam ali por longos minutos, explorando o gosto da saudade e a reciprocidade que, até dias atrás, parecia um sonho distante. Gabriel a ergueu do chão sem esforço, sentando-a sobre a bancada de mármore da cozinha. A mão dele subiu com urgência por baixo da camisa dela, os dedos quentes espalhando eletricidade ao tocarem a curva dos seus seios. A respiração de Rafaela falhou, o corpo inteiro cedendo ao toque dele.
— Porra! — Gabriel xingou baixinho quando, segundos depois, ouviu passos pesados acompanhados de um assobio ritmado ecoarem pelas escadas e Diego surgiu na cozinha sem cerimônia nenhuma.
Rafaela se afastou, descendo do balcão num salto, o rosto queimando e os lábios nitidamente inchados enquanto tentava ajeitar o cabelo. Gabriel, num reflexo rápido de proteção, a puxou para a frente do seu próprio corpo, travando o maxilar para disfarçar o estado evidente em que se encontrava. Suas mãos ainda mantinham um leve tremor pela interrupção abrupta.
— E aí, casalzinho! — Diego passou por eles direto em direção à geladeira, alheio — ou fingindo muito bem — à eletricidade que quase estalava no ar. — Espero que tenha sobrado lasanha!
— Sério, Diego? — Gabriel jogou a cabeça para trás, a voz carregada de uma frustração profunda. — Você tem um radar para momentos inoportunos.
— Tenho um radar para comida boa e faço questão de estragar romances! — Diego piscou para Rafaela, pegou o prato e começou a subir os degraus, não sem antes berrar que eles "explorassem outros cômodos".
Gabriel soltou o ar devagar, tentando acalmar os batimentos, enquanto observava Rafaela rir baixinho. Ela ainda estava encostada à frente dele, e, quando os olhos dela encontraram os dele por cima do ombro, a atmosfera mudou de novo. Ela sentiu a rigidez nítida dele roçar a base das suas costas, denunciando que o estrago já estava feito.
Longe de recuar, Rafaela moveu o quadril sutilmente para trás, um encaixe deliberado que fez Gabriel soltar um som sibilado entre os dentes e cravar os dedos na cintura dela, puxando-a ainda mais contra si.
Ela virou o rosto um milímetro, um sorriso ousado e totalmente seguro de si brincando nos lábios.
— Não acredito que vou dar razão para o Diego, mas... que tal a gente ir para o seu quarto? Onde tem uma porta que a gente pode trancar e explorar aquela sua cama enorme.
Gabriel não deu chances para uma terceira interrupção. O olhar dele escureceu e ele a puxou pela cintura, guiando-a escada acima, quase sem deixar que os pés dela tocassem os degraus, até o santuário do seu quarto.
No refúgio entre as quatro paredes, a porta foi trancada com um baque seco que pareceu isolar todo o resto do universo do lado de fora. Gabriel a prensou contra a madeira escura da porta, o peso do seu corpo reivindicando cada centímetro de espaço, e voltou a tomar a boca dela com uma urgência avassaladora, descontando as semanas de noites em claro e o medo constante de tê-la perdido para sempre.
Rafaela respondeu na mesma voltagem. Suas mãos subiram pelo peito dele, agarrando o tecido da blusa com força. O beijo mudou de ritmo, tornando-se mais intenso, ritmado pelo som das respirações entrecortadas e pelo atrito das roupas que rapidamente começaram a se tornar um obstáculo incômodo.
Gabriel deslizou as mãos pelas coxas dela, erguendo-a com uma facilidade possessiva. Rafaelala entrelaçou as pernas ao redor da cintura dele, soltando um gemido baixo contra os lábios dele quando sentiu o calor da pele do jogador entrar em contato direto com a sua à medida que as peças iam sendo deixadas pelo caminho. Sem quebrar o beijo, ele a carregou em direção à cama de casal, deixando-se cair sobre o colchão macio sem desmanchar o encaixe perfeito dos seus corpos.
A paixão explodiu em uma entrega que não precisava de palavras, apenas de toques famintos que buscavam apagar cada dia de distância. Gabriel a tocava como se precisasse recordar cada curva, cada linha do corpo dela, enquanto Rafaela se arqueava sob as mãos dele, completamente dona de si e do controle que exercia sobre aquele homem que o campus inteiro idolatrava, mas que ali, entre os lençóis, era inteiramente seu.
Horas depois, o quarto estava mergulhado em uma penumbra densa e pacífica. O calor frenético da entrega havia dado lugar a uma calmaria exausta e confortável. Sob o edredom pesado, Gabriel abraçava Rafaela por trás, os braços dele envolvendo-a como um porto seguro intransponível. A pele de ambos ainda guardava o rastro do suor e do calor compartilhado. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pela respiração cadenciada de Gabriel contra a nuca dela, até que um som estranho e insistente vibrou contra a madeira do criado-mudo.
— Rafa... é o seu celular? — Gabriel resmungou contra o travesseiro, a voz absurdamente rouca e abafada pelo sono, apertando-a um pouco mais contra o peito, recusando-se a soltá-la.
Rafaela esticou o braço em um movimento lento e sonolento, mantendo os olhos fechados contra a penumbra. Tateou a madeira do criado-mudo até encontrar o aparelho e recusou a chamada com um toque rápido, querendo apenas se afundar de volta no calor do abraço de Gabriel.
O silêncio, no entanto, durou apenas alguns segundos. O motor de vibração voltou a atacar a mesa, ecoando no quarto com uma insistência muito mais urgente desta vez.
— Hmm... atende isso logo — Gabriel reclamou ao lado dela, a voz abafada pelo travesseiro, com a irritação típica de quem foi arrancado de um sonho bom. Ele apertou a cintura dela de leve, num protesto sonolento.
Desta vez, Rafaela não desligou. Esticou o braço novamente e, sem sequer conferir o visor, levou o aparelho ao ouvido, a voz embolada pelo sono e pelo cansaço físico:
— Alô... — sussurrou, a garganta seca.
A resposta não veio em palavras imediatas. Do outro lado da linha, o que preencheu o ouvido de Rafaela foi um sussurro sufocado, um som entrecortado por um choro que tentava desesperadamente ser silencioso, mas que exalava um pavor primitivo.
— Rafa... por favor... vem me buscar. Ele... o Guilherme... Ele…
O sangue de Rafaela gelou instantaneamente. Cada grama de sono foi drenada de seu corpo no mesmo segundo, como se tivessem jogado um balde de água gelada sobre a cama. Ela se sentou abruptamente, os olhos arregalados na escuridão, despertando Gabriel com o movimento brusco e tenso.
— Letícia? — O nome da amiga saiu como um sopro de agonia pura.
— Por favor... Vem rápido... — A voz de Letícia era tão baixa, tão frágil, que Rafaela mal conseguia distinguir se aquilo era um pedido de socorro real ou o fragmento de um pesadelo recorrente.
Antes que Rafaela pudesse formular a pergunta mais importante e descobrir o que havia acontecido, o som seco da chamada encerrada ecoou pelo alto-falante do celular. O silêncio voltou a reinar no quarto, mas agora estava carregado de uma eletricidade estática e aterrorizante.
— Gabe. — Ela virou o rosto na direção dele. Não precisou dizer mais nada.
Gabriel já estava de pé, a agilidade e os reflexos de atleta substituindo o torpor do sono em fração de segundos. Ele não fez perguntas, não pediu explicações. Enquanto Rafaela ainda tentava processar o tremor violento que tomava conta de seu corpo, ele já puxava a calça jeans do chão e buscava a chave do carro em cima da cômoda.
— Anda — ele disse. A voz, antes rouca de sono, agora era firme, cortante e focada no único objetivo que importava. — Vamos tirá-la de lá. Agora.
Continua no Volume 2: Ataque, Defesa e Amor.
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