AMOR EM CAMPO
44 Capítulo 47: Feriadão
Notas iniciais

No intervalo entre as aulas, Gabriel enviou uma mensagem para Rafaela, convidando-a para um café na cafeteria do campus.
Quando Rafaela entrou no ambiente acolhedor, seus olhos encontraram os dele quase de imediato. Gabriel estava sentado com os amigos, rindo alto, completamente envolvido em uma conversa animada. Ainda assim, bastou vê-la para o sorriso dele mudar de tom.
Rafaela caminhou até a mesa e, antes mesmo de dizer qualquer coisa, Gabriel levantou e a puxou para perto, beijando-a como se o mundo ao redor tivesse sumido e só restado eles. Ela retribuiu sem pensar, esquecendo por um instante os olhares curiosos ao redor.
Diego pigarreou alto, com um sorrisinho debochado.
— Estamos atrapalhando a pegação? Querem que a gente dê licença?
— É… — Daniel completou, rindo. — Se quiserem, podem ir dar umazinha no banheiro que a gente segura a mesa aqui.
Gabriel se afastou devagar, ainda com um sorriso no rosto. Rafaela mordeu o lábio, tentando disfarçar o constrangimento.
— Pega leve, Rafaela — Diego continuou, balançando a cabeça. — O cara quase desmaiou no treino esses dias. Se continuar nesse ritmo, vai precisar de suplemento vitamínico e fisioterapia.
— Cala a boca, idiota — Gabriel retrucou, jogando-se de volta na cadeira, divertido. — Tô em plena forma, valeu?
Rafaela arqueou uma sobrancelha e puxou uma cadeira para se sentar com eles.
— Engraçado… eu achava que futebol e festa eram a prioridade de vocês. Mas, pelo visto, passam mais tempo analisando a minha vida amorosa do que marcando gols.
— Tá vendo, Gabs? — Daniel fingiu indignação. — Além de te deixar à beira da exaustão, ela ainda vem aqui humilhar a gente publicamente.
— Somos multitarefas, nerd — Diego a olhou com um sorriso cínico. — Treinamos, zoamos o Gabriel e ainda analisamos a relação de vocês com precisão cirúrgica.
— Vão se foder, vocês dois — disse Gabriel, rindo alto. — Tô vivendo a melhor fase da minha vida. Enquanto vocês ficam aí, solteiros, amargos e dando pitaco na vida alheia.
Os dois deram gargalhadas. Rafaela pegou o café que ele já havia pedido para ela e tomou um gole lento. Estava visivelmente cansada, os ombros levemente tensos, os olhos um pouco embaçados pelo excesso de leitura e noites mal dormidas.
— Tá puxado? — ele perguntou, observando-a melhor agora.
— Um pouco — ela admitiu. — Prova, trabalho, leitura acumulada… minha cabeça tá pedindo férias.
— Justo — ele respondeu. — Eu também tô contando os dias para o feriado como se fosse final de campeonato.
Gabriel esperou que Daniel e Diego se despedissem e sumissem entre as mesas da cafeteria antes de se inclinar em direção a ela. O tom de voz baixou, tornando o espaço entre eles subitamente menor.
— Por falar no feriado… já tem planos?
— Apesar de a ideia de dormir por quatro dias seguidos estar me seduzindo bastante…
Rafaela esfregou a lateral da xícara entre os dedos, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.
— Estava pensando em viajar no feriado — disse, casual, olhando para o café. — Ir para minha cidade. Quero ver meus pais e minha irmã.
Gabriel assentiu, interessado.
— Legal. Faz tempo que você tá falando que está com saudades deles.
— Sim — ela respondeu. — E eu acho que estou precisando disso. De casa...
Rafaela então levantou o olhar, encontrando o dele.
— Eu… — titubeou, só um pouco. — Pensei em te convidar… pra ir comigo.
A surpresa apareceu no rosto de Gabriel. Aquilo não era um convite qualquer e ele sabia disso.
— Você… quer que eu vá conhecer seus pais? — perguntou, devagar, os olhos presos aos dela.
— E a minha irmã… — completou Rafaela, com um meio sorriso. — A Micaela não para de perguntar quando vai conhecer o “cunhado craque do futebol”.
Gabriel piscou algumas vezes, reorganizando os pensamentos.
— Cunhado e craque do futebol… — repetiu Gabriel, soltando uma risada baixa. — Títulos de responsa.
Rafaela soltou uma risada curta, mas a descontração não chegou aos seus olhos, que permaneciam fixos nos dele, mapeando cada microexpressão.
— Se você já tiver outros planos, tudo bem — ela disparou as palavras, a voz subindo de velocidade como se tentasse construir uma saída de emergência para ele antes mesmo da resposta. — Estou falando meio em cima da hora e não quero que se sinta pressionado, de verdade. É só um convite, Gabriel. Se achar que não é o momento, eu vou entender. Juro.
Ela apertou a xícara de café com as duas mãos, buscando o calor da porcelana para acalmar o frio súbito que subia pelo peito. O medo da rejeição ali não era sobre o feriado, mas sobre o que aquele "não" poderia significar para o peso que ela dava ao que tinham.
Ele apoiou o cotovelo na mesa e se inclinou um pouco mais para perto dela, a expressão tranquila.
— Não é pressão — fez uma pausa curta. — Sua família significa muito para você. E, se você quer que eu esteja lá, isso significa muito para mim também.
Ela soltou o ar, sentindo o peito aquecer.
— Eu quero.
— Então, eu vou — ele continuou, coçando a nuca, com um sorriso meio nervoso, meio empolgado.
Os olhos de Rafaela se iluminaram na hora, surpresa e alívio misturados.
— Sério?
— Sério — ele confirmou. — Quero conhecer o lugar onde você cresceu. Ouvir as histórias da Micaela… — sorriu de canto. — E tá, talvez eu fique um pouco nervoso com seu pai. Mas pode deixar que vou conquistar o sogrão.
Ela riu, balançando a cabeça.
— Já aviso que ele não vai facilitar.
— Só promete ficar do meu lado.
— Sempre.
Enquanto dava mais um gole no café, pelo canto do olho, Rafaela percebeu quando a porta da cafeteria se abriu e Letícia entrou. Ela parecia distraída, com os olhos grudados no celular e fones de ouvido brancos que Rafaela não reconheceu, deviam ser novos.
Aquele detalhe sutil foi como um soco: a constatação de que o tempo estava passando e as duas já não compartilhavam nem as pequenas compras do dia a dia. Desde o episódio na cozinha, as semanas haviam se acumulado em um silêncio cortante, e Letícia vinha se esquivando com uma precisão quase profissional. O que antes eram dias de mensagens constantes e risadas no sofá, agora eramvinte e um dias de notificações vazias e uma rotina de sombras.
Quando dividiam o mesmo teto, Letícia se tornava uma mestre em sumiços estratégicos. Bastava o som da chave de Rafaela para que a porta do quarto se fechasse ou Letícia saísse sem aviso, transformando o lar em um campo de silêncios evitados. Aquela ausência presente doía mais do que Rafaela admitia.
Ela acompanhou cada passo da amiga pelo reflexo do vidro da vitrine. Letícia caminhava até o balcão, aparentemente tranquila demais, como se não houvesse silêncio acumulado entre elas por todo aquele tempo.
Como se sentisse o peso do olhar de Rafaela, ela diminuiu o passo, levantou os olhos do celular por um instante. As duas se encararam.
Não foi um olhar longo. Nem hostil. Foi rápido, quase involuntário. O suficiente para Rafaela perceber o desconforto nos ombros da amiga, a rigidez no maxilar, o jeito como ela apertou o telefone com força.
Letícia desviou o olhar primeiro.
Virou-se para o balcão, pediu alguma coisa em voz baixa e apoiou os cotovelos ali, de costas para a mesa onde Rafaela estava.
Rafaela suspirou, sentindo aquele velho nó se formar no peito.
Gabriel percebeu na mesma hora.
— Ei… — murmurou, inclinando-se um pouco mais para ela. — Aquela ali não é a Letícia?
Rafaela assentiu, sem tirar os olhos da amiga.
— É.
Gabriel acompanhou o olhar dela, sentindo a mudança súbita no olhar de Rafaela.
— Vocês ainda estão brigadas? — perguntou ele, com aquela intuição de quem já aprendeu a ler os silêncios dela.
Rafaela mordeu o lábio, o gosto do café subitamente amargo. O nome de Letícia estava na ponta da sua língua, junto com o desejo desesperado de contar sobre o hematoma, sobre o medo que sentia pela amiga e o nó que se apertava em seu peito toda vez que as chaves giravam na fechadura da casa. Ela queria desabar, dividir o fardo com o homem que agora segurava sua mão.
Mas, ao olhar para a rigidez nas costas de Letícia, a lealdade falou mais alto. Expor a verdade para Gabriel parecia uma traição, como se ela estivesse entregando a vulnerabilidade da amiga para alguém que, apesar de tudo, ainda era um "estranho" no mundo delas duas.
— Sim... — respondeu por fim, mas a voz saiu em um tom mais opaco do que ela pretendia.
Gabriel apertou de leve a mão dela por baixo da mesa, o calor da pele dele contrastando com o frio que subia pela espinha de Rafaela. Ele a estudou por um segundo, os olhos escuros buscando a verdade que Rafaela escondia, mas que ele sabia que estava ali, porém escolhia respeitar o limite dela.
— Quer ir falar com ela? — ele ofereceu, a voz carregada de um apoio silencioso que quase a fez ceder.
Rafaela olhou para Letícia. Ela estava exausta de ser a única a tentar construir pontes, enquanto a outra pessoa se ocupava em cavar abismos.
— Não agora — disse, forçando-se a desviar o olhar e focar no café à sua frente. — Se ela quiser, ela vem.
Do outro lado da cafeteria, Letícia pegou o pedido e se afastou, escolhendo uma mesa distante, perto da janela. Sentou-se de costas para Rafaela, mas não totalmente relaxada. O pé batia nervosamente sob a mesa distante. Rafaela continuou observando aquilo tudo em silêncio.
A felicidade leve de antes agora dividia espaço com uma inquietação incômoda. Como se duas realidades estivessem acontecendo ao mesmo tempo, a dela, avançando, cheia de descobertas… e a de Letícia, presa em algo que insistia em não ser dito.
E Rafaela teve a certeza incômoda de que aquele afastamento não era só sobre palavras duras ditas no calor do momento.
Era medo.
E fuga.
📚📚📚
Rafaela respirou fundo antes de apertar enviar.
No The Andrade’s — o grupo da família com aquele nome ridículo que a Micaela inventou durante um hiperfoco nas Kardashians, e que normalmente servia apenas para fotos de pratos de comida, memes de "bom dia" da mãe e avisos de que o Wi-Fi da sala caiu — ela digitou com os dedos trêmulos:
Rafaela:
Oi, gente. Passando para avisar que, no feriado, vou para casa.
E… o Gabriel vai comigo.
O silêncio no chat durou exatos três segundos antes do status "digitando..." aparecer em três frentes simultâneas, transformando a tela do celular em um campo de batalha de notificações.
Micaela:
O QUÊ? 😱😱😱😱😱😱
NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FINALMENTE CRIOU CORAGEM DE CONVIDAR ELE.
UHULLL!!! O CUNHADO ESTÁ A CAMINHO. 🚗⚽✨
Rafaela riu sozinha, apoiando o celular na mesa.
Mãe:
Que bom, minha filha. Mamãe está morrendo de saudades!
E ansiosa para conhecer o seu namorado… se bem que já sinto que o conheço, de tanto que a Micaela fala dele.
Antes que Rafaela pudesse responder, o nome do pai apareceu na tela.
Pai:
"Namorado?"
Para mim, ele só vai ser considerado seu namorado depois que pedir minha bênção.
Rafaela sorriu. Clássico.
Rafaela:
Pai… não sei se o senhor notou, mas já estamos no século vinte e um.
Alguns segundos de silêncio.
Então:
Pai:
Não me importa.
E avisa para ele que vai dormir no sofá.
Micaela:
KKKKKKKKKKKKKKK
PAPAI JÁ TÁ PLANEJANDO O INTERROGATÓ…
quer dizer,
A RECEPÇÃO. 😇
Pai:
Micaela!
Micaela:
Pai! 😌
Mãe:
Preciso pensar no que vou cozinhar.
O que atletas comem, filha?
Rafaela bloqueou a tela do celular, mas o brilho do grupo da família parecia ainda oscilar diante de seus olhos, uma pulsação quente de euforia. No entanto, ao baixar o olhar para a mesa, a realidade a atingiu com o peso frio do papel: pilhas de xerox e livros sobre Fisiologia Animal e Bioquímica Metabólica.
Ela soltou um suspiro longo, arrastando as palmas das mãos pelo rosto até que a pele ardesse. O livro exibia diagramas complexos sobre cadeias de transporte de elétrons e produção de ATP, mas a energia que movia o corpo de Rafaela agora era outra. Sua mente era um campo de batalha entre a imagem do sorriso vulnerável de Gabriel na cafeteria e o caos de notificações que Micaela acabara de desatar no grupo.
Tentou se concentrar. Leu a mesma linha três vezes, as palavras deslizando pela superfície da sua consciência sem penetrar.
Nada.
O estalo metálico da chave girando na fechadura cortou o ar, interrompendo o fluxo dos seus pensamentos. Rafaela ficou imóvel, a caneta suspensa no ar. O som da porta se abrindo não trouxe a leveza habitual de um lar compartilhado; trouxe um vazio.
Ouviu o baque surdo da bolsa de Letícia sendo largada em algum lugar, um som sem cuidado, quase exausto. O atrito dos saltos sendo retirados e jogados de qualquer jeito no piso. E então, o que veio a seguir foi o mais ensurdecedor de todos os ruídos. Um silêncio denso que parecia sugar a luz do corredor.
Letícia passou pela porta do quarto de Rafaela como uma sombra apressada. Nenhum "oi", nenhuma provocação, nenhum rastro da amiga que costumava invadir seu espaço com risadas. Quando a porta do quarto vizinho se fechou, o estalo da madeira pareceu ecoar dentro do peito de Rafaela, apertando seus pulmões.
O contraste era cruel, quase físico. Horas antes, o mundo era expansivo, cheio de planos e do calor de Gabriel. Agora, as paredes pareciam se fechar, transformando o lugar em um aquário de vidro fosco.
Rafaela fechou o livro de bioquímica com um movimento pausado, quase solene. No manto de quietude que se instalou, um som novo começou a vazar pelas paredes finas. Não era a batida de uma música ou o ruído de uma televisão.
Era uma voz.
Um sussurro baixo, esticado como uma corda prestes a romper. Rafaela prendeu a respiração, o coração batendo contra a garganta. Ela não queria ser a pessoa que escuta atrás das portas, mas o tom de Letícia — aquela mistura de urgência e medo — a puxou para fora da cadeira como um ímã invisível. Seus pés, descalços, não fizeram barulho no piso frio enquanto ela se aproximava da fronteira entre a sua felicidade e a infelicidade da outra.
— Eu já falei que o meu celular descarregou — a voz de Letícia saiu contida, como quem fala entre os dentes. — Não, eu não estou mentindo.
A voz masculina não era audível, mas o tom de Letícia dizia tudo.
— Eu não estou te escondendo nada… — ela insistiu, agora mais baixo. — Eu saí do trabalho e vim direto para casa, Guilherme. Eu juro.
Rafaela sentiu o ar escassear, as pontas dos dedos formigando. O tom de Letícia — submisso, quase implorante — era mais aterrador do que qualquer grito. Era o som de alguém que já havia perdido a voz dentro da própria vida.
— Eu não tenho que te mandar foto de onde eu estou o tempo todo — Letícia disse, a voz oscilando entre irritação e algo mais frágil. — Para com isso.
O murmúrio que se seguiu não foi de paz, mas de tensão. Rafaela ficou imóvel, o coração martelando contra as costelas e então:
— Eu já disse que fiquei sem bateria — Letícia sussurrou, e dessa vez havia algo quebrado na voz. — Não, eu não estava com ninguém.
O ar ficou denso.
Rafaela deu um passo para trás, como se tivesse sido pega invadindo algo que não deveria ouvir. Mas o que mais a atingiu não foi o conteúdo da conversa.
Foi o tom.
Não era discussão comum de casal.
Era medo tentando parecer normal.
Segundos depois, a porta do quarto abriu de repente.
Rafaela mal teve tempo de voltar para a cadeira antes de Letícia surgir no corredor, o celular na mão, os olhos vermelhos demais para alguém que “estava bem”.
— Você ouviu? — Letícia perguntou de imediato.
Rafaela congelou.
— Não… — mentiu mal.
Letícia sustentou o olhar por um segundo, depois sumiu pelo corredor em direção à cozinha.
Quando passou de volta, um vulto apressado que evitava qualquer contato visual, o nome dela escapou dos lábios de Rafaela como um apelo:
— Letícia…
A amiga estancou. O movimento de meia-volta foi mecânico, quase relutante. Ela apenas inclinou o rosto para dentro do quarto, mantendo o resto do corpo no corredor, como se estivesse pronta para fugir ao menor sinal de confronto.
— Oi… — A voz dela estava oca, desprovida da vibração habitual.
Rafaela mediu as palavras, tateando o terreno como se caminhasse sobre vidro quebrado. Escolheu o caminho que parecia mais seguro, o menos invasivo.
— Você vai trabalhar no feriado?
Houve um hiato. Meio segundo a mais do que o compasso natural de uma conversa sincera.
— Sim — Letícia respondeu. Curto. Automático. Uma resposta decorada.
— Achei que você tivesse pedido folga.
— É… mas não consegui — ela desviou o olhar para o rodapé, o corpo já inclinado para trás, a mão apertando o batente da porta com uma força desnecessária.
Rafaela sentiu o peso daquela barreira invisível, mas respirou fundo, tentando injetar uma normalidade que já não existia entre elas.
— Eu vou para casa no feriado. O Gabriel vai comigo. Não sei quem está surtando mais, se é a Micaela ou meu pai.
Um sorriso amarelo surgiu no rosto de Letícia, uma expressão pálida que não iluminava nada.
— Ah… legal.
— Você quer que eu passe na casa da sua mãe? Posso ver como ela está.
— Não precisa — Letícia cortou, a secura da voz transformando a oferta generosa em um incômodo.
— A gente podia viajar juntas qualquer dia desses… — Rafaela insistiu, a voz mais suave, tentando resgatar a amiga que se perdia na escuridão do corredor. — Faz tempo que não fazemos nada só nós duas.
Letícia esboçou um sorriso, mas foi uma máscara de porcelana que não alcançou os olhos, trincando antes de chegar ao destino.
— Você já vai viajar, Rafa — ela disse, e havia uma amargura contida naquelas palavras.
— Não é a mesma coisa — Rafaela insistiu, a voz embargada pela vontade de atravessar a distância que a amiga impunha.
— Para mim, é.
A firmeza inesperada fez Rafaela engolir o resto da frase.
Letícia desviou o olhar, a mão subindo instintivamente para o braço oposto, esfregando o tecido da blusa de manga comprida como se buscasse calor em uma noite abafada. Rafaela viu o gesto. Não era frio. Era um abraço em si mesma. Uma proteção.
— Ele não ia deixar que eu fosse de qualquer jeito — Letícia soltou de repente, as palavras escapando como se tivessem pressão demais para serem contidas.
O coração de Rafaela deu um solavanco, batendo contra as costelas.
— Ele… quem? — O sussurro de Rafaela foi carregado de um medo que ela não queria nomear.
Letícia travou no mesmo instante, o rosto empalidecendo ainda mais sob a luz fraca do quarto.
— Ninguém. Esquece — disse, a voz subindo uma oitava, o pânico começando a vazar pelas bordas.
— Letícia…
— Não começa! — O tom defensivo foi instantâneo, uma barreira de espinhos erguida para manter Rafaela longe da verdade que acabara de vazar.
— Eu só perguntei.
— E eu respondi — Letícia sentenciou, os olhos faiscando com uma mistura de raiva e súplica silenciosa.
Algo ali estava na superfície, prestes a romper. Mas qualquer movimento brusco poderia fazê-la recuar ainda mais.
Letícia apoiou a mão na porta.
— Eu tô cansada, Rafa. Não quero discutir.
— Eu não estou discutindo.
— Tá sim. — A voz subiu meio tom, depois caiu. — Você sempre acha que sabe mais do que eu. Que enxerga coisas que eu não enxergo.
Aquilo doeu.
— Eu só estou preocupada.
Letícia riu. Sem humor.
— Preocupada com o quê? Eu e meu namorado discutimos às vezes. Ele fica chateado. Normal.
A palavra "normal" ficou suspensa no ar, deformada, como um objeto quebrado que Letícia tentava desesperadamente colar. Doía ver a amiga se esforçando tanto para normalizar o absurdo.
— Ele fica chateado ou ele te machuca? — A pergunta saiu sutil, mas cortou o ar como uma lâmina.
A pergunta de Rafaela flutuou no ar, desafiadora e inevitável. O maxilar de Letícia travou com tanta força que os tendões do seu pescoço saltaram, uma reação instintiva de quem foi atingida em uma ferida aberta.
— Você não sabe nada sobre o meu relacionamento — Letícia sibilou, a voz agora destituída de qualquer emoção, o que era ainda mais assustador.
— Eu sei que você não era assim, Lelê — Rafaela deu um passo à frente, a voz embargada, tentando desesperadamente alcançar a amiga que parecia estar se afogando em águas rasas. — Cadê aquela garota que não levava desaforo de ninguém?
O silêncio agora não era apenas a ausência de som; era um vácuo que sugou todo o oxigênio do corredor. Letícia desviou o olhar para um ponto vazio na parede e, por um segundo, seus ombros caíram, revelando a exaustão que ela tentava camuflar com agressividade.
— E você não era assim — devolveu Letícia, num sussurro que carregava um veneno triste. — Agora você transborda Gabriel. Só fala dele, só respira por ele... como se a vida tivesse acabado de começar porque um cara resolveu te olhar.
Aquilo atingiu Rafaela como um choque térmico. A alegria que sentia com Gabriel, que até minutos atrás era um tesouro, foi usada contra ela como se fosse uma futilidade.
— Não é verdade, eu só estou feliz... — tentou Rafaela, sentindo o peito arder.
— É, sim. — Letícia respirou fundo, fechando os olhos como se lutasse contra uma náusea interna. — Só que tem um detalhe, Rafa. Diferente de mim... você deu sorte.
A palavra "sorte" caiu entre elas com o peso de uma sentença. Letícia puxou o punho da blusa com um movimento brusco, cobrindo as mãos até as juntas, transformando o tecido em uma armadura de algodão para esconder o que a sorte não lhe deu: o direito de ser amada sem ser marcada.
Rafaela sentiu um calafrio subir pela espinha, a percepção clara de que Letícia não estava apenas brava; ela estava entregue a uma realidade que acreditava não ter volta.
— Letícia, não é sorte, é...
— Cuida da sua vida — a amiga interrompeu, a frieza voltando ao rosto como uma máscara. — Aproveita seu namoro perfeito, suas borboletas no estômago e para de inventar monstros onde não tem.
Letícia recuou para dentro do quarto e fechou a porta. O som do clique da fechadura foi seco, final, como o término de um capítulo que Rafaela não estava pronta para encerrar.
Ela permaneceu ali, sozinha no corredor escuro. Os livros sobre metabolismo e ATP lá na mesa pareciam piada agora. A ciência não explicava como alguém podia se quebrar tanto por dentro e ainda assim lutar para manter a fachada intacta.
Não era só uma briga de amigas. Era um pedido de socorro mudo que terminava em rejeição. E Rafaela teve a certeza aterrorizante de que, às vezes, a sorte de um é o espelho que reflete o inferno do outro.
⚽⚽⚽
Em casa, Gabriel encarava a televisão sem realmente assistir a nada. A imagem mudava, o som estava ligado, mas a cabeça dele estava longe dali. Ele já estava na estrada, cruzando o portão da casa de Rafaela, tentando ensaiar um aperto de mão que não parecesse ensaiado demais.
A palavra "feriado" havia ganhado um peso gravitacional. Pela primeira vez, ele não estava pensando em qual festa iria ou em como se recuperaria da ressaca para o treino de segunda-feira. Ele estava pensando em vivência.
Gabriel passou a mão pelo rosto, sentindo a ansiedade palpitar pela pele. O problema não era o encontro em si, mas o medo do que eles veriam. Para o campus, ele era o astro, o herói dos gramados, o cara que estampava os cartazes dos jogos. Mas ali, na sala de estar da "nerdzinha", ele temia ser apenas um clichê de ombros largos e pouco repertório.
Temia que, ao abrir a boca, o pai dela enxergasse apenas o rótulo: o 'jogador'. O estereótipo de festas e testosterona, encobrindo o homem que, em silêncio, tentava decorar o mapa do mundo complexo que Rafaela carregava nos olhos. Para Gabriel, ser "bom o suficiente" para a Rafaela na intimidade de um quarto era uma coisa; ser bom o suficiente para o mundo que a moldou era um jogo completamente diferente. E ele não tinha certeza se o seu currículo servia para ganhar aquele troféu.
Foi Diego quem o arrancou dos próprios devaneios.
— Ô, Terra chamando Gabriel — disse, jogando uma almofada na direção dele. — Tô falando contigo há dez minutos e você tá com essa cara de idiota.
Gabriel pegou a almofada no ar, jogou de volta sem força.
— Tô pensando.
— Perigoso — Diego respondeu, sentando-se no braço do sofá. — Sempre que você pensa demais, dá merda.
Gabriel soltou um riso curto.
— O que você quer?
— O que eu quero? — Diego repetiu, fingindo pensar. — Quero entender por que você tá com essa cara de quem acabou de assinar um contrato vitalício sem ler as cláusulas.
Gabriel encostou a cabeça no encosto do sofá, encarando o teto antes de falar:
— A Rafa me convidou para passar o feriado na casa dela. Com a família.
Diego arregalou os olhos, devagar, como se estivesse processando uma tragédia anunciada.
— …Com a família.
— Com a família — Gabriel confirmou.
— Tipo, pai, mãe, irmãos, almoço demorado, perguntas constrangedoras? Pacote completo?
— O pacote completo.
Diego soltou uma desacreditada.
— Caralho, irmão… e você aceitou?
— Sim — Gabriel respondeu, sério agora.
— Mas você não quer ir.
— Não. Não é isso.
Gabriel respondeu de imediato, passando a mão pela barba que começava a se formar abaixo do queixo.
— Então, o que tá pegando? — Diego inclinou o corpo, curioso de verdade.
— É que… eu quero ir. De verdade. — Ele encarou a TV. — Quero que ela saiba que eu levo isso a sério. Mas…
Diego ficou em silêncio por alguns segundos, e aquilo era raro.
— Você tá nervoso — constatou.
— Um pouco — Gabriel admitiu. — Não por medo deles. Mas, por medo de não ser o suficiente, sei lá.
Diego soltou um meio sorriso, balançando a cabeça.
— Olha pra você, cara… o grande galanteador agora preocupado em agradar o sogro.
— Vai se foder — Gabriel respondeu, mas riu junto.
— Mas é isso aí mesmo — Diego continuou. — Quando a gente gosta de verdade, dá esse frio na barriga. E se ela te chamou… — deu de ombros — é porque já te escolheu, independentemente de você ser um boçal.
Nesse momento, Daniel apareceu na porta da sala, com um copo na mão.
— Escolheu para quê?
— Para conhecer a família — Diego respondeu, rápido demais.
Daniel parou.
— Ah, não... — abriu um sorriso lento. — É isso mesmo que escutei? O Gabriel vai conhecer a família da Rafaela?
Gabriel fechou os olhos por um segundo.
— Vou.
Daniel apontou para ele.
— Aposto que o pai dela vai odiar você de cara.
— Impossível. Eu sou adorável — Gabriel rebateu.
— Até abrir a boca — Daniel completou.
Os três riram.
Ainda havia ansiedade ali. Havia um nó leve no estômago. Mas, por baixo disso, tinha outra coisa mais forte.
Expectativa.
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